A vida não tem que ser sempre trágica, pesem embora as notícias assustadoras que por aí circulam, e que nos fazem sentir medo pelo que possa acontecer – aos filhos, aos pais, que tornam aqueles órfãos… Sim, o mal existe, como existe o consequente medo de que esse recaia sobre os filhos. Mas com tantas coisas boas que a vida proporciona, (pese embora o negativismo - traduzido em tantas obras - (escritas, pintadas ou esculpidas...), nem compreendo bem a filosofia – ou a psicologia que o texto que segue pretende traduzir. O medo torna-nos inquietos, e não acho que a ansiedade dos pais os torne melhores pais ou faça os filhos mais felizes. A imagem dos meus pais, de harmonia - salvo em casos de maior rigor (especialmente com as minhas diabruras), perdura, e não recordo o medo deles, mas sim as suas palavras de ensinamento e afecto. Naturalmente lutaram com medos específicos, mas não me parece que foi por isso que foram os bons pais que tanto amei e me fazem mergulhar nesse passado e no seguinte, no meu presente de velhice, mas de curiosidade sempre. E gosto de viver. De preferência … “sem medos”, claro.
Qual é o mal do medo?
Pais a lutar com os seus medos são sempre bons pais. Pais a fugir
dos seus medos tornam-se mais inseguros, mais ansiosos e um bocadinho mais
zangados consigo próprios.
EDUARDO SÁ,
Psicólogo
OBSERVADOR, 18
jan. 2026, 20:551
Os pais ansiosos são os melhores amigos das crianças inseguras. É claro que os pais são pessoas enormemente
comprometidas com os seus filhos e duma bondade sem fim. Mas, sem darem por
isso, vivem os filhos com muito medo. Medo de ficarem presos nas suas dores
infantis, repetindo os erros dos seus pais, como se a vida fosse uma porta
giratória. Medo de não estarem à altura das exigências que colocam sobre
si como pais (por mais pais-helicóptero que tentem ser). Medo das suas dúvidas e das inseguranças de
todos os dias. Ou medo de não lhes
darem as condições indispensáveis para que tenham sucesso e que sejam felizes.
Pais
a lutar com os seus medos são sempre bons pais. Pais a fugir dos seus medos tornam-se mais inseguros, mais ansiosos e
um bocadinho mais zangados consigo próprios. E quanto mais inseguros,
mais exigentes acabam por ser. A
ponto de se agarrarem às mil sugestões de auto-ajuda que lhes chegam das redes
sociais, que lhes vendem formas fáceis positivas ou conscientes de
parentalidade que os levam a sentir-se perdidos entre o seu “sexto sentido” e
as inseguranças que, desse modo, tentam resolver.
É claro que dizer isto dos pais
parece ter-se tornado proibido. Porque há sempre quem suponha que estaremos a
culpar os pais por não serem… perfeitos. Ora, eu acho que é duma enorme batotice termos em relação aos pais um
discurso cauteloso e benevolente se a contrapartida disso tudo não passar por
sermos verdadeiros. Os pais erram como pais? Sem dúvida. Erram centenas de
vezes! Mas acertam milhares e milhares delas! O que me preocupa
não é tanto que errem, claro, porque é pelo modo como aprendem com os erros que
se tornam melhores pais: gritam
menos, castigam menos, negoceiam e ameaçam menos, perdem menos a paciência.
O que me preocupa é que tentem blindar os seus erros com “soluções técnicas”
com que fogem dos medos, imaginando que as dificuldades dos filhos não foram,
contra a vontade de todos, aprendidas com eles. Por trás de cada criança
“difícil” estão sempre pais em dificuldades. À frente das crianças mais fáceis
estão pais que fizeram de cada dificuldade um desafio com que transformaram
medos em soluções mais simples que fazem deles melhores pais.
CRÓNICA OBSERVADOR PAIS E FILHOS FAMÍLIA LIFESTYLE
COMENTÁRIOS
Lily Lu: Como podem os pais lutar com os medos?
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