Dos virtuosos da modernidade, que JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO desmascara sabiamente nos seus snobismos intelectuais, prontos a desferir, afinal, não contra os perpetradores da violência real no mundo, mas contra uma direita defensora de valores cívicos que uma razão clássica há muito estabelecera.
Esquerda, Irão e Venezuela
JOSÉ ANTÓNIO
RODRIGUES DO CARMO
Reina o silêncio. Nenhum voto. Nenhuma vigília. A Dra. Leitão não
parece preocupada. A morte, quando não envolve os Estados Unidos ou Israel,
deixa de ser politicamente excitante
OBSERVADOR, 15 jan. 2026, 00:20107
Há muito que a esquerda portuguesa
desistiu de compreender o mundo. Mas raramente o fez com a alegria performativa
destes últimos dias.
Na última semana voltou a cumprir a sua função essencial de se
manifestar com solenidade moral, linguagem indignada e completo alheamento da
realidade. Em
Lisboa e noutras capitais europeias, desfilou indignada “contra a
agressão à Venezuela e ao Direito Internacional”, empunhando faixas, berrando slogans e exibindo a mesma convicção com que, há poucos meses, marchava
mascarada de tartaruga ninja do Hamas, melancias à lapela, keffiyehs ao pescoço, como se o ridículo resolvesse
os problemas do mundo.
O embaraço começou quando a encenação
deu de caras com venezuelanos reais e não os indivíduos abstractos da bolha
ideológica. Gente
que fugiu. Gente que atravessou fronteiras a pé. Gente que deixou filhos, pais,
casas e mortos para trás. E que, em vez de se juntar ao protesto contra a
“agressão”, festejava. Festejava a captura de Nicolás Maduro, criatura que, no léxico
progressista,
é simultaneamente uma vítima do imperialismo e uma
“figura complexa”. Como todos os ditadores e torcionários, desde que
façam as suas malvadezas em nome de uma causa que agrade à esquerda zangada.
Mas convém começar pela realidade,
lugar que esta gente raramente frequenta. Nicolás
Maduro (des)governou a Venezuela durante mais
de uma década, dando continuidade ao “milagre” socialista de Hugo Chávez, e
conseguiu transformar um dos países mais ricos da América Latina numa
experiência de miséria estrutural. Hiperinflação, fome, colapso dos serviços
públicos, eleições de faz-de-conta, opositores presos, exilados ou mortos. Sete
a oito milhões de venezuelanos fugiram. Um detalhe!
O
importante é denunciar “a agressão”. Sempre a agressão. Do agressor certo. O
padrão repete-se, com notável coerência, no rectângulo à beira-mar plantado. Em Lisboa, a Dra. Leitão, do Partido
Socialista, decidiu patrocinar um voto de protesto pela morte de uma cidadã
americana numa operação policial nos Estados Unidos. A cidadã, numa decisão
trágica, investiu com o carro contra um agente armado que bloqueava a viatura.
O agente disparou.
As opiniões divergem: legítima defesa ou uso excessivo da força? O
que não diverge é a existência, nos Estados Unidos, de um sistema judicial
funcional, capaz de investigar, julgar e condenar, se for caso disso. Um
sistema que dispensa as lições de Direito dadas pela Dra. Leitão e pela ala
vigilante da esquerda lisboeta.
Mas enquanto em Lisboa se sinaliza
virtude, no
Irão morre-se sem cerimónia. Centenas, talvez milhares, de iranianos e iranianas
foram mortos deliberadamente pelo regime teocrático. Não por erro. Não por
acidente. Mas porque ousaram sair à rua e pedir liberdade. Execuções
sumárias, tortura, prisões arbitrárias. Aqui não há ambiguidades. Aqui há
repressão nua e crua. E,
no entanto, reina o silêncio. Nenhum voto. Nenhuma vigília. Nenhum acampamento
universitário. A Dra. Leitão não parece preocupada. A morte, quando
não envolve os Estados Unidos ou Israel, deixa de ser politicamente excitante.
A
estridência vem sempre do mesmo lado. Da esquerda
profissional da indignação, instalada nas universidades, nas ONG subsidiadas,
nos partidos que vivem do protesto. Uma
esquerda que só reconhece vítimas quando estas encaixam na narrativa e só
reconhece crimes quando o alegado criminoso fala inglês ou hebraico.
Uma esquerda cujo cérebro ético tem um hemisfério inteiro paralisado, enquanto
o outro se agita em fúria selectiva.
E, no entanto, a realidade insiste em
existir. Enquanto
o PS aprova votos simbólicos, no Irão sucede algo de verdadeiramente sério. Os
iranianos perderam o medo. Mulheres queimam o véu em público. Estudantes enfrentam a polícia. Trabalhadores
fazem greves. Pessoas saem à rua sabendo que podem não regressar. Quando um
povo deixa de temer a morte, nenhuma tirania sobrevive indefinidamente. O regime dos aiatolas pode ainda impor, à bala,
parênteses de silêncio, mas não pode voltar atrás. Cada morto é uma fissura
irreparável.
O regime iraniano não assenta em
“diferenças culturais”, como gostam de explicar os antropólogos de serviço.
Assenta na negação sistemática das liberdades humanas mais básicas.
O ícone desta revolta, mulheres sem véu a acender um cigarro com a
fotografia em chamas do aiatola, resume tudo o que a esquerda se recusa a
encarar. A liberdade começa na simples decisão
de uma mulher não ter de se esconder. E perante isto, o feminismo institucional cala-se.
Sempre pronto a protestar quando a vítima é agredida pelo agressor “certo”,
sempre ausente quando as mulheres são esmagadas pelos homens errados.
A explicação é simples, embora
moralmente repugnante. A
esquerda europeia, e a portuguesa em particular, vivem da fantasia de que tudo
o que se opõe à democracia liberal merece indulgência. Caiu o
comunismo, caiu o Muro, e a
esquerda órfã apaixonou-se pelo islamismo político como novo símbolo de
resistência ao Ocidente. O
antiamericanismo tornou-se critério de virtude. A democracia liberal, pecado
original. E Israel, encarnação do mal absoluto.
Por
isso, Gaza enche avenidas e o Irão cabe à vontade na Rua da Betesga. Por isso, Israel e os Estados Unidos são
julgados com lupa, enquanto os aiatolas executam manifestantes sem acordar
ninguém no Largo do Rato, no ISCTE ou na Assembleia Municipal de Lisboa.
A esquerda não escolhe causas pela justiça. Escolhe-as
pelo proveito ideológico.
Isto não é apenas hipocrisia ocasional.
É método. E
enquanto persistir, continuará a distinguir vítimas de primeira e de segunda,
ditaduras toleráveis e intoleráveis, mortes que merecem cartazes e mortes que
merecem silêncio ou até aplauso, como as israelitas.
A esquerda portuguesa, entre votos
simbólicos, manifestações carnavalescas e seminários bem financiados, continua
a escolher a ignomínia. E,
incrivelmente, continua a reivindicar superioridade moral.
MANIFESTAÇÕES PROTESTOS SOCIEDADE ISRAEL MÉDIO
ORIENTE MUNDO IRÃO VENEZUELA PS POLÍTICA EXTREMA
ESQUERDA
COMENTÁRIOS (de 107)
joão Dos
Santos: Não poderia estar mais
de acordo com mais um dos seus excelentes artigos, um grande bem- haja. Jorge Barbosa: Excelente
artigo. Quanto à esquerda desde a dra Leitão que oportunisticamente se afirma
de social-democrata até aos comunistas mais ortodoxos, genocídio é a
"matança" de alguém mas só se levada a cabo por forças policiais ou
militares de estados democráticos, durante operações regulares de acordo com o
Estado de Direito vigente, especialmente quando é a direita que lidera. Para as
gentes em causa, nada há a reclamar quando são muitos milhares de mortos, mesmo
por motivos estritamente políticos, as vítimas, desde que quem executa seja as
forças dos regimes, comunistas ou não, mas incondicionalmente antidemocráticos
e anti-ocidentais graça
Dias: Senhor Coronel José António do Carmo: Magnífica
análise: atenta, realista e factual, com o seu pensamento livre e independente
de dogmas ideológicos. A América e Israel sempre foram olhados com
um misto de inveja e de desprezo pelas esquerdas progressistas,
radicais e bastante selectivas, tanto na Europa como aqui em Portugal,
pelos socialistas, comunistas, leninistas,
trotskistas e outros istas. Mrs Leitão (não ignorar
que os seus salários enquanto deputada e agora como vereadora ou seja lá o
que for na CML, são os
contribuintes portugueses que lhe pagam). A hipocrisia desta senhora, bem como
dos fãs das flotilhas e admiradores e apoiantes dos terroristas do Hamas!
- deveriam ser obrigados a renunciar aos lugares que ocupam na Função
Pública, porque o seu trabalho traduz-se unicamente em activismo político como modus de
sobrevivência, sublinhado de ressentimentos selectivos irracionais, geradores de
informações enviesadas e esdrúxulas, de fobias que decorrem dos seus
próprios fracassos. Esta gentinha
pequena, onde se incluem os ISCTE e órgãos da CS, difunde conceitos
imorais, estórias imaginárias, informação enviesada, muitas omissões de factos,
e... quanto ao Irão: # " O regime do
Irão encaixa em um padrão exposto aos olhos do mundo desde o dia 7 de Outubro
de 2023, com uma gestão de narrativa, assimetria moral e de deferência ao poder
islâmico." # O meu obrigada ao
Senhor Coronel pelo excelente artigo. Ana Luís da Silva: A Esquerda, o
Socialismo instaladíssimo neste nosso maltratado Portugal, terá a sua
esplendorosa “bomba atómica”, o seu pleno, a sua catarse, se for António Seguro
a passar com André Ventura na1ª volta das eleições presidenciais, no momento
preciso em que o PSD, para a 2ª volta, apelar ao voto no socialista de serviço,
sob a desculpa da “moderação “, para cumprir a devoção sacrílega às linhas
vermelhas que as mesmas Esquerdas, infiltradas no PSD de centro-esquerda e no
CDS ressabiado, conseguiram fazer vingar e a que Montenegro presta vassalagem e
uma devoção interesseira. Talvez
tenham uma surpresa desagradável, se o eleitorado tiver mais grandeza e alma
que vistas curtas e filiação partidária, mais esperança e coragem que medo e
cálculo, mais amor ao futuro dos filhos que a certezas woke, numa palavra, se
for mais Português que Socialista. Ou se simplesmente estiver farto e começar a
pensar com os neurónios todos. A ver iremos.
SDC Cruz: Caro João António Rodrigues do Carmo, é dos livros que a hipocrisia
veste a esquerda e a esquerda veste a estupidez, travestindo-a, para os
iluminados desse lado, de lucidez. Mas querem fazer-nos de
parvos? Santa ignorância para tanta dezlucidez! Obrigado, por mais
um excelente artigo.
CONTINUA
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