terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O mundo hoje


De  violência, intriga e prazer dos colaboradores no ajuste da  definição.

I- «Make America go away: chapéus anti-Trump da Gronelândia são comprados sobretudo por americanos»

FOTOILUSTRAÇÃO INÊS CORREIA / GETTY IMAGES

II- Maduro, as FARC, 'El Pollo' e o óleo de palma em África. A longa história da justiça norte-americana contra o narcotráfico da Venezuela.

JOÃO PAULO GODINHO: Texto

LUÍS ROSA: Texto

INÊS CORREIA: Grafismo

III- Cúpula do poder chavista está há mais de uma década na mira da justiça dos Estados Unidos. Captura de Nicolás Maduro pode não marcar o fim da luta contra o narcotráfico venezuelano.

OBSERVADOR, 20 jan. 2026, 14:12

ÍNDICE

As origens e os argumentos do processo contra Maduro

Como o óleo de palma terá servido para branquear receitas da venda de cocaína

O “Pollo” dos serviços de informação militar que já se declarou culpado nos EUA

O ministro que liderou a agência antidroga e que é acusado de ligações ao narcotráfico

O general e o capitão da Guarda Nacional do Cartel dos Sóis

Martin Olivares, o ajudante do “Pluma Blanca”

 

Mal o ano de 2026 tinha começado e o mundo assistia com espanto à captura do agora ex-Presidente da VenezuelaNicolás Maduro (e da sua mulherCilia Flores), por forças militares norte-americanas. A operaçãoResolução Absoluta”, ordenada pelo Presidente Donald Trump, visou também um objectivo há muito procurado pela justiça dos Estados Unidos da América: desmantelar o narcotráfico com origem na Venezuela e as ligações do regime de Caracas a organizações criminosas, como o famoso Cartel de los Soles.

Apesar de a detenção de Maduro só ter ocorrido no passado dia 3 de janeiro, o Departamento de Justiça já tinha acusado em 2020 o Presidente venezuelano deposto — e entretanto substituído por Delcy Rodriguez. Juntamente com outros nomes de peso da nomenclatura venezuelana — como Diosdado Cabello Rondón (actual ministro do Interior e poderoso elemento do regime), Hugo Carvajal Barrios (ex-chefe das secretas) ou Clíver Alcalá Cordones (ex-general) —, Maduro foi na altura acusado dos crimes de conspiração para narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de metralhadoras e equipamentos de destruição e conspiração para posse de metralhadoras e equipamentos de destruição.

O que é o Departamento de Justiça?

É um organismo federal do Governo dos Estados Unidos e é liderado pelo procurador-geral da República (Pam Bondi exerce o cargo neste momento). Comparando com o sistema político português, tem funções equivalentes (e cumulativas) ao Ministério da Justiça e ao Ministério Público.

Ou seja, o procurador-geral é também o ministro da Justiça, faz parte do Governo e responde directamente ao Presidente do Estados Unidos. Contudo, o procurador-geral e o Departamento de Justiça têm algum grau de autonomia face ao Chefe de Estado e líder do poder executivo.

O Departamento de Justiça tutela as procuradorias do Ministério Público Federal que existem nos 94 distritos judiciais federais dos Estados Unidos, assim como agências federais que têm funções policiais, como o Federal Bureau of Investigation (FBI) ou a Drug Enforcement Administration (DEA) — esta última polícia liderou as investigações ao narcotráfico venezuelano —, entre outras agências federais.

Vivia-se então nos EUA o primeiro mandato de Donald Trump como Presidente e já a justiça americana retratava Maduro como “líder” do Cartel de los Soles. Trump saiu e voltou, mas as autoridades nunca deixaram de lutar contra o narcotráfico ligado à Venezuela.

Aliás, esse combate da justiça norte-americana vinha já desde a administração de Barack Obama e promete continuar, com a ‘caça’ a outros nomes, como Pedro Luís Martin Olivares ou Diosdado Cabello.

As origens e os argumentos do processo contra Maduro

Após comparecer no tribunal do distrito sul de Nova Iorque no passado dia 5 e de ser conhecido o seu “superseding indictment — correspondente a uma acusação formal actualizada pelas autoridades federais dos EUA, que substitui uma acusação anterior —, Nicolás Maduro declarou-se inocenteEm causa estão os crimes de conspiração para cometer narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína para os EUA, posse de metralhadora e dispositivos destrutivos e conspiração para possuir metralhadoras e dispositivos destrutivos. Ou seja, os mesmos crimes pelos quais já era visado em 2020.

Maduro era descrito nessa acusação de 2020 como o líder do Cartel de los Soles, sendo que as autoridades norte-americanas dizem ter provas de que esta rede criminosa venezuelana tem ligações estreitas com outros cartéis de droga, nomeadamente colombianos e mexicanos, e até com as FARC — Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Quer o Cartel de los Soles, quer os guerrilheiros das FARC são tidas pelos Estados Unidos como organizações terroristas, sendo que a rede venezuelana obteve esse ‘selo’ em novembro.

Maduro já era descrito na acusação de 2020 como o líder do Cártel de los Soles, sendo que as autoridades norte-americanas dizem ter provas de que esta rede criminosa venezuelana tem ligações estreitas com outros cartéis de droga, nomeadamente colombianos e mexicanos, e até com as FARC - Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Quer o Cártel de los Soles, quer os guerrilheiros das FARC são tidos pelos Estados Unidos como organizações terroristas.

Índice

As origens e os argumentos do processo contra Maduro

Como o óleo de palma terá servido para branquear receitas da venda de cocaína

O “Pollo” dos serviços de informação militar que já se declarou culpado nos EUA

O ministro que liderou a agência antidroga e que é acusado de ligações ao narcotráfico

O general e o capitão da Guarda Nacional do Cartel dos Sóis

Martin Olivares, o ajudante do “Pluma Blanca”

Na acusação agora conhecida, que actualiza e substitui a de 2020 e que também visa a sua mulher Cilia Flores e o seu filho Nicolás Maduro Guerra, ‘Nicolasito’, Nicolás Maduro é também apontado como um rosto da corrupção no Estado venezuelano e de integrar uma alegada conspiração para transportar “milhares de toneladas de cocaína” para os EUA. As estimativas do Departamento de Estado situaram entre 200 e 250 toneladas de cocaína traficadas anualmente através da Venezuela.

 Nicolas Maduro Moros, tal como o ex-presidente Chávez antes dele, participa, perpetua e protege uma cultura de corrupção na qual as poderosas elites venezuelanas enriquecem através do tráfico de drogas e da protecção dos seus parceiros traficantes. Os lucros dessa actividade ilegal fluem para funcionários civis, militares e serviços de informação corruptos, que operam num sistema de clientelismo dirigido pelos que estão no topo — conhecido como Cartel de Los Soles”, lê-se no despacho judicial recentemente divulgado.

Além do Cartel dos Sóis (na versão portuguesa) e das FARC, a acusação liga ainda um alegado apoio de Maduro a outras organizações criminosas sul-americanas, como o Cartel de Sinaloa, os Zetas e o Tren de Aragua, cuja influência se verifica no controlo de rotas e meios de transporte de droga (nomeadamente, cocaína) através da América Central para solo norte-americano.

Segundo a acusação, a alegada conduta criminosa de Maduro — cuja captura prometia uma recompensa de 50 milhões de dólares — vem já desde a sua passagem pelo cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, ao vender passaportes diplomáticos a indivíduos que saberia serem narcotraficantes, com vista a facilitar a movimentação de drogas e lucros do crime. E entre 2004 e 2015 teria às suas ordens gangues armados de protecção à sua alegada actividade de tráfico, ordenando “sequestros, espancamentos e assassinatos.

Estes e outros factos imputados ao ex-presidente venezuelano são a expressão actualizada de uma primeira acusação de 5 de março de 2020, ou seja, há quase seis anos. De acordo com o documento então divulgado pela justiça norte-americana, desde pelo menos 1999 e até àquele ano, Maduro e outros arguidos integravam uma “conspiração corrupta e violenta de narcoterrorismo” sustentada entre o Cartel dos Sóis e as FARC, minando as instituições do país e impulsionando o envio de droga para os EUA.

“Nicolás Maduro Moros, o arguido, ajudou a gerir e, por fim, liderou o Cartel dos Sóis à medida que ganhava poder na Venezuela”, refere a acusação assinada pelo procurador Geoffrey S. Berman, acrescentando que aquela organização, “sob a liderança de Maduro e outros, priorizou o uso da cocaína como arma contra os Estados Unidos”.

"Nicolás Maduro Moros, o arguido, ajudou a gerir e, por fim, liderou o Cartel dos Sóis à medida que ganhava poder na Venezuela. [O Cartel dos Sóis], sob a liderança de Maduro e outros, priorizou o uso da cocaína como arma contra os Estados Unidos".  Acusação de 2020 dos EUA contra Maduro

(CONTINUA)

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