Do texto anterior, de Manuel Peres Alonso «Por que razão Espanha investe em Portugal, mas Portugal
não investe em Espanha?»
(Em “É A LEI”)
Redes
Profissionais: Densidade versus Fragmentação
Este é talvez o aspecto mais
rigorosamente documentado por estudos académicos sobre migração e dinâmica
profissional internacional.
Quando
os espanhóis trabalham no estrangeiro ou em Portugal, mantêm laços estreitos
entre si. Existem câmaras de comércio espanholas nas principais
cidades portuguesas, bem como associações profissionais estruturadas e grupos
de negócios coesos. Quando surge uma oportunidade comercial, a rede fica a
saber. Quando alguém precisa de um
contacto ou de informação sobre um sector específico, a rede ajuda. Quando um
empresário quer saber como lidar com a burocracia portuguesa, tem pessoas com
quem pode falar.
Os portugueses que emigram tendem a
integrar-se muito rapidamente na sociedade local e a dissolver activamente as
ligações com outros compatriotas. Tal é positivo para a aceitação social. No entanto, é negativo para a criação de
uma rede de oportunidades económicas. Um estudo publicado em 2021,
intitulado “Diáspora Lusitana Contemporânea”,
documentou precisamente este padrão: os
portugueses no estrangeiro formam associações fragmentadas e, por conseguinte,
perdem poder de negociação colectivo.
A consequência prática é significativa: quando uma empresa espanhola pretende
expandir-se em Portugal, já tem uma rede de contactos estabelecida. Quando uma
empresa portuguesa pretende fazer o mesmo em Espanha, enfrenta o isolamento.
Os portugueses que poderiam ajudar já
se integraram completamente na sociedade espanhola, identificando-se muitas
vezes mais com Espanha do que com Portugal, e não procuram ajudar os
conterrâneos.
Ecossistema
Tecnológico e Talento
Portugal está, neste momento, a criar um ecossistema tecnológico
vibrante, mas Espanha continua significativamente à frente em termos de massa
crítica estabelecida.
Em
2024, Espanha tinha aproximadamente 8.000 a 10.000 startups registadas.
Existem clusters consolidados
em Madrid e Barcelona. Além disso, tem uma concentração significativa de
profissionais especializados em inteligência artificial, análise de dados e
engenharia de software.
Portugal
tem cerca de 4.700 startups em
2024. Com um crescimento impressionante de 25% ao ano, Portugal está a
aproximar-se. Tem clusters emergentes
em Lisboa e no Porto que estão a ganhar relevância internacional.
A diferença é real e mensurável, mas está a diminuir gradualmente. O
problema é temporal: Espanha teve uma vantagem de 10 a 15 anos. Portugal chega
agora, mas chega atrasado. Esta diferença
temporal cria um problema concreto: quando uma empresa espanhola procura
talento na área da inteligência artificial, por exemplo, encontra-o em Espanha.
Quando uma empresa portuguesa procura o mesmo talento, tem de o contratar no
estrangeiro. E essa pessoa, após ganhar experiência, frequentemente emigra.
A
Aceleração: 2024 como Ponto de Viragem
Um dado estatístico impressionante mostra que esta dinâmica de
desequilíbrio está a acelerar, e não a abrandar.
Em 2024, o investimento total
no sector do comércio a retalho na Península Ibérica ascendeu a 3.850 milhões
de euros. Tal representou um crescimento de 135% em comparação com 2023, ano em
que o investimento tinha sido de apenas cerca de 1.600 milhões de euros. Quero que
fique bem claro: o investimento aumentou mais que o dobro em apenas um ano.
Deste
investimento, cerca de 70% tem origem em empresas espanholas. Apenas a Mercadona
investe entre 400 e 500 milhões de euros. A Carrefour
investe entre 150 e 200 milhões de euros. Portugal
investe apenas 18% deste total. As
multinacionais não ibéricas
investem os restantes 12 a 14 por cento.
Por
que razão se verifica esta aceleração dramática?
A Mercadona registou
um lucro de 100 a 150 milhões de euros em Portugal em 2024. Este valor
confirmou definitivamente aos olhos dos investidores espanhóis que Portugal
não só é viável, como também altamente rentável. O resultado foi uma
corrida competitiva entre empresas espanholas para se expandirem rapidamente e
capturarem espaço comercial antes que as melhores localizações se esgotem.
A velocidade de investimento está a
aumentar. A presença espanhola em Portugal está a
intensificar-se a um ritmo crescente. Portugal não está, neste momento, a
construir defesas contra esta concentração de poder económico.
O
Paradoxo da Renda Imobiliária
Existe um número que explica, de forma
quase mágica, toda esta dinâmica.
A renda comercial média em Espanha,
nomeadamente em Madrid e Barcelona, é de 267,5 euros por metro quadrado por
mês. Em Portugal, a renda comercial média em Lisboa e no Porto é de 140 euros
por metro quadrado por mês. Isto representa uma diferença de 47,7% a favor de
Portugal.
Para uma loja de retalho típica com
1.000 metros quadrados, isto significa que a renda mensal em Espanha seria de
267.500 euros, ou 3,2 milhões de euros por ano. Em Portugal, a renda mensal
seria de 140.000 euros, ou 1,7 milhões de euros por ano. A poupança na renda
seria de 1,53 milhões de euros por ano. Uma operação que geraria
uma perda em Espanha pode gerar um lucro considerável em Portugal, apenas
devido à diferença nos preços das rendas imobiliárias. É isto que motiva o
investimento massivo em Portugal.
No entanto, esta vantagem é temporária. À
medida que Portugal se desenvolver e Espanha continuar a dominar o sector
comercial português, as rendas vão inevitavelmente subir. As previsões
indicam que, entre 2028 e 2030, as
rendas em Lisboa poderão atingir os 200 euros por metro quadrado ou valores
superiores. Se isso acontecer, a margem de lucro que atrai investimento
desaparecerá. O investimento vai abrandar drasticamente. Portugal ficará com a
infraestrutura comercial controlada por empresas espanholas, mas sem a atractividade
que a financiou.
Conclusão:
O que Portugal pode Fazer?
Portugal não é inferior a Espanha
em termos de capacidade empresarial, competência de gestão, inteligência
estratégica ou criatividade. O problema é estrutural. São as estruturas de decisão,
as mentalidades coletivas e os ecossistemas económicos, e não a qualidade dos
portugueses, que estão em causa.
Para inverter esta dinâmica,
Portugal necessita de reformas deliberadas, embora politicamente difíceis, mas
economicamente necessárias.
O país precisaria de profissionalizar
as suas estruturas organizacionais e reduzir o peso do relacionalismo informal. Isto
significa promover mais decisivamente por mérito, mesmo que isso crie conflito
social. Tal é
impopular numa sociedade que valoriza a harmonia, mas é absolutamente eficaz.
Portugal teria de construir redes estruturadas de profissionais
internacionais. O Estado
português poderia investir no fortalecimento das câmaras de comércio
portuguesas e das associações de emigrantes portugueses, com foco no ‘networking’ empresarial. As oportunidades colectivas emergem
de redes densas, não de talentos individuais isolados.
Portugal deveria investir
massivamente em tecnologia e no desenvolvimento de talento. Isto significa apoiar as startups portuguesas e criar um ecossistema de inovação
robusto. Se tal for
conseguido, será possível retirar os talentos do ciclo que leva os mais
qualificados a emigrar.
Portugal
também precisa de legislação de protecção para sectores críticos. Isto
significa impor limites à quota de mercado das empresas estrangeiras em sectores
vitais, como o retalho, a banca e a energia. Embora esta medida seja proteccionista, é
precisamente o que a Espanha faz implicitamente.
Trata-se de soluções político-económicas
e não apenas empresariais. A dinâmica actual não mudará sem uma intervenção
deliberada a este nível estrutural.
Epílogo
Após
50 anos a viver em Portugal e a observar de perto as estruturas de poder social
e económico em Portugal e Espanha, afirmo com certeza que a diferença não
reside na capacidade intelectual ou nas competências fundamentais. A diferença
está na mentalidade colectiva e na estrutura organizacional.
Espanha age porque não teme. Portugal
hesita, pois o medo está enraizado em séculos de história. Espanha promove
gestores que apresentam resultados. Portugal integra conformistas. Os espanhóis
constroem redes internacionais. Os portugueses desaparecem dessas redes.
Os números do investimento directo
estrangeiro, do investimento total no sector do retalho e das quotas de mercado
em sectores como a banca e a energia são, simplesmente, a consequência
estatística destas diferenças estruturais mais profundas.
A questão que Portugal deve colocar
não é “Por que razão é que Espanha vence?”, pois a resposta é simples:
Espanha agiu, enquanto Portugal hesitou. A
questão verdadeira é: “Porque não participámos?” E a resposta está em olhar
para dentro e não para fora.
Esta
é uma questão mais difícil de responder e muito mais difícil de alterar. No
entanto, é o único caminho para Portugal deixar de ser um satélite económico de
Espanha e tornar-se um interveniente de peso no mercado ibérico.
A mudança é possível. Mas exige que Portugal
mude, não que Espanha mude em benefício de Portugal. Essa responsabilidade cabe
a quem vive em Portugal.
Notas e Fontes
As estatísticas apresentadas neste artigo provêm de fontes rigorosas. Os dados sobre o investimento directo estrangeiro foram obtidos a partir de relatórios do Banco de Portugal referentes a 2024. Os dados sobre a presença de empresas espanholas em Portugal foram obtidos a partir de relatórios da Câmara de Comércio e Indústria de Madrid, publicados em 2025. Os dados sobre o comércio bilateral foram obtidos a partir de relatórios da Comissão Europeia e de dados do Eurostat referentes a 2024. A análise das diferenças culturais e organizacionais baseia-se no trabalho de Hofstede sobre as dimensões culturais, publicado em 2019, que documentou diferenças significativas entre Portugal e Espanha em termos de individualismo e orientação para os resultados. Os dados sobre o investimento no sector do retalho e sobre a Mercadona em Portugal provêm de relatórios da consultora imobiliária JLL, especializada na dinâmica do sector do retalho ibérico, publicados em 2025. Os dados sobre a fragmentação das redes de profissionais portugueses provêm de um estudo académico intitulado “Diáspora Lusitana Contemporânea: Associações Fragmentadas”, publicado em 2021 por centros de investigação sobre migrações.
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