Uma crónica como esta. De JAIME NOGUEIRA
PINTO, que poderá impor igual registo imorredoiro de mérito próprio:
Inesquecível. Brigitte Bardot: Uma figura amada. Inesquecível por
tanta graciosidade livre de preconceito.
B.B.: a transgressora
Ainda no auge do seu tempo de ícone de um novo feminismo, já
estragara tudo, entregando-se ao vício da dissidência: “Le féminisme ce n’est
pas mon truc, moi, j’aime bien les mecs…”.
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do
Observador
OBSERVADOR, 03 jan. 2026, 00:1821
Quando Brigitte Bardot
irrompeu nos écrans com Et
Dieu créa la femme nada ficou como dantes. “Um corpo selvagem, animal e livre irrompe
no écran. Subverte e revoluciona os costumes sociais em França e em todo o
mundo.” – escrevia o realizador e crítico Jean Douchet,
um dos fundadores dos Cahiers du Cinéma –,
enquanto um jornal inglês dizia que BB
era “o maior choque europeu desde 1789”. Exagero,
talvez. Mas o impacto da sensualidade e da reversão de papéis que Brigitte
Bardot trazia atirava-a para a ribalta das grandes estrelas.
A estreia do filme de Roger Vadim na América de Eisenhower, do cardeal
Spellman, de John Foster Dulles e do Código Hays também não prometia ser
pacífica. O Código Hayes era
o regulamento censório, prévio ou
póstumo, que entre 1930 e 1968 vigorava em Hollywood, ditando inclusões,
exclusões e cancelamentos. Em
matéria de moral e bons costumes, pesava-se a nudez feminina, cronometrava-se a
duração dos beijos e cancelavam-se indícios de “sexual perversity”. No resto,
monitorizava-se a correcta definição e distribuição de bons e maus.
Ora, em Et Dieu créa la femme, Bardot oscilava entre a perversa invenção
do Diabo para tentar os americanos de bem e a assombrosa criação do Bom Deus.
Talvez por isso em Dallas, no Texas, a
polícia local – precocemente preocupada com a especial sensibilidade de certas
minorias ou num outro assomo racista mais compatível com a época – tenha
proibido os afro-americanos de ver a fita, considerada demasiadamente excitante
para a natureza (intrinsecamente “vitalista”?) do homem negro.
Não se pode dizer que os brancos (supostamente mais fortes, ou mais
fracos) lhe tivessem ficado indiferentes. De resto, veja-se a história: Juliette tem
18 anos, é órfã, e vive em Saint Tropez; os homens que a seguem e perseguem são
Eric (Curd Jürgens), Antoine (Christian Marquand) e o seu irmão mais novo,
Michel, (Jean-Louis Trintignant). Juliette ama Antoine, assedia Eric, e acaba
por casar com Michel, que a ama, mas que não é correspondido. Isto entre cenas,
ao tempo, escandalosas e com um final ambíguo.
Marlene
Dietrich, a Lola de Der Blaue Engel (1930), de Joseph von Sternberg,
ou Ava Gardner, a Southern belle de The Killers (1946), um
filme de Robert Siodmak a partir de um conto de Hemingway, eram mulheres fatais; BB,
algures entre a femme fatale e a pin-up, era outra coisa,
encarnava todo um outro tempo e toda uma outra liberdade.
A má menina de boas famílias
Bardot vinha de uma família católica, abastada, conservadora. Era uma
“menina bem”, cujo nascimento, em 28 de Setembro de 1934, saíra na muito pouco
inclusiva secção “Vida Social” de Le Figaro. Os avós estavam ligados à
Indústria e aos Seguros.
“Fui educada de um modo muito burguês, muito severo. Frequentei um
colégio católico. Era vigiada por uma governanta. Nunca saía sozinha. Fui muito
bem-comportada até aos 15 anos”.
Brigitte faz estas confidências,
mais tarde, a Jean Cau, acrescentando que tinha sido
então, precisamente aos 15 anos, que começara a sair da linha: “Bruscamente, tive vontade de me libertar”.
Andou no Conservatório em cursos de
dança e começou a aparecer como modelo de fotografia. Em 1950, com 16
anos, foi capa da revista Elle.
Foi aí que a viu Roger Vadim,
nascido Roger Vladimir Plemiannikov, filho de um aristocrata fugido da
Rússia dos bolcheviques. Dois anos depois, cumpridas as exigências do
pai Bardot – que o russo abraçasse o catolicismo e arranjasse emprego –
casava-se com ela.
A grande mudança
Quando saiu Et Dieu créa
la femme, no Outono de 1956, dois episódios marcaram
a França e a Europa: em Budapeste,
depois de manifestações estudantis contra o governo comunista de Mathias
Rakosi, reprimidas a tiro pela polícia secreta, estalava um levantamento
popular; no Egipto, na crise que sucedera à nacionalização por Nasser do Canal
do Suez, tropas anglo-francesas ocupavam a zona do Canal para marcharem sobre o
Cairo.
Na Hungria
revoltada, o comunista moderado Imre Nagy, um ex-primeiro-ministro patriota,
era chamado ao poder. Kruschev denunciara Estaline e os seus crimes no 20º Congresso do Partido Comunista e esperava-se
que Moscovo, em fase pós-estalinista, se abrisse a um acordo com os insurrectos.
Nada disso aconteceria: os húngaros
pagariam cara a revolta; afinal, a brutalidade e o desprezo pelas fronteiras e
pelos direitos humanos não eram um “desvio estalinista” ao “humanitarismo
marxista-leninista”, mas um atributo fundacional e funcional do modelo
comunista. Quanto
ao Suez, quando os paraquedistas franceses e ingleses pareciam prontos a tomar
o Cairo, Eisenhower condenou a operação: os Estados Unidos queriam o fim dos
impérios coloniais do Velho Mundo.
E se a revolta húngara e a sua
repressão levaram muitos intelectuais e militantes comunistas europeus à
dissidência e Suez marcou o princípio do fim dos impérios europeus, o
filme de Vadim e Bardot foi sinal de uma mudança na cultura e nos costumes, ao apresentar como protagonista uma mulher
que fazia com os homens o que tradicionalmente os homens faziam com as mulheres.
É verdade que, na
História – de Messalina a Catarina da Rússia – as
mulheres poderosas sempre tinham usado o seu poder (e, em suplemento, os seus
dotes físicos e agudeza mental) para dominarem o “mundo dos homens”; mas BB
fazia-o agora despreocupadamente, frivolamente, frente às câmaras.
Em 1959 protagonizava La femme et le Pantin,
com o nosso António Vilar, e em
1960 aterrava em Lisboa para promover o filme entre “um dilúvio de chuva e de
admiradores”. Vieram, entretanto, os filmes mais sérios da Nouvelle
Vague, como La Verité e Le Mépris, a
partir dum romance de Alberto
Moravia.
Mais tarde, em 1967, estoirava o
escândalo do sussurrado Je t’aime,
moi non plus, com Serge Gainsbourg.
Houve ainda comédias épicas,
como Viva Maria,
com Jeanne Moreau e George Hamilton, e, em 1973, Les Pétroleuses, também com a Moreau.
Antes de fazer 40 anos, BB retira-se
do cinema e volta-se para novos amores, lançando uma campanha contra os
maus-tratos e a matança das focas bebés, prelúdio do seu grande empenho na
defesa dos animais.
Paralelamente à vida artística, fica uma vida privada agitada, com
quatro casamentos e muitas aventuras, levando Raymond Cartier a escrever
no Paris Match com
uma severidade moral inusitada: “Brigitte Bardot é imoral da cabeça aos pés”
Divorciada de Vadim em 1957, casa com
Jacques Charrier, em Junho de 1959. Depois, em 1966, desposa o milionário
alemão Gunter Sachs, separando-se três anos depois. Só voltará a casar em 1992,
com Bernard d‘Ormale. Entretanto, foi tendo casos, muitos casos, com homens
mais ou menos conhecidos.
Porém, as indulgências progressistas
que toda esta transgressão de linhas vermelhas da moral convencional, do papel
tradicional da mulher e do tratamento dado aos animais lhe deveria garantir
ficariam em quase nada perante a sua imperdoável transgressão de outras linhas
vermelhas. É que, aparentemente, a nova moralidade não se mostra
particularmente compassiva com a liberdade desregrada, ou com os prevaricadores
da sua intocável cartilha.
Entre “Le P.A.N.” e Le Pen
Assim, na Comédia da grande
comunicação, parece não haver nada, nem mesmo o voto de pesar do P.A.N.
pela morte de uma grande defensora dos animais, que possa redimir BB do inferno
a que a condenaram as suas simpatias pela direita radical. O Le Monde lembra
os seus “Trente ans de sympathie pour
l’extrême droite” e o The Guardian denuncia, como pecado capital,
o que Brigitte escreveu no seu livro Mon
BBcédaire, publicado pouco antes de morrer: que o Rassemblement National era o “único remédio para a agonia da França”,
um país que, por causa das políticas no poder e da
imigração descontrolada, estava a ficar “chato,
triste, submisso, doente, arruinado, devastado, ordinário e vulgar”.
Se a sua liberdade não tivesse
teimado em ensombrar um percurso libertário que tinha tudo para ser imaculado, Brigitte Bardot podia agora ascender
calmamente ao céu laico do progressismo de referência. Mas não. O
desviacionismo era nela uma coisa endémica. Tanto que, ainda antes de
incorrer no pecado capital de pensar abertamente à direita, ainda no auge do
seu tempo de ícone de um novo feminismo,
já estragara tudo, entregando-se ao vício da dissidência:
“Le
féminisme ce n’est pas mon truc, moi, j’aime bien les mecs…”.
Enfim, fica a fé na
consoladora distância entre a Justiça Divina e os nossos pensamentos e
julgamentos carnais.
Que o supremo Criador de toda a
beleza, de toda a alegria e de toda a liberdade a receba na sua infinita
Misericórdia.
A SEXTA COLUNA
HISTÓRIA CULTURA
CINEMA 21
COMENTÁRIOS (de 21)
Rui Lima: Sabemos que Brigitte
Bardot nunca escondeu o seu repúdio pela submersão migratória da França nem
pela islamização do país. A esquerda é capaz de absolver quase tudo,
terroristas, assassinos, violadores, ladrões e invasores, mas jamais perdoará
um homem ou uma mulher cujo único “crime” tenha sido votar conscientemente, um
dia, em Jean-Marie Le Pen ou na sua filha. É por isso que uma parte da esquerda não celebrará a sua morte, como fez
com outras figuras que odiava: não por respeito, mas por conveniência. Bardot
é demasiado popular, demasiado francesa e demasiado incómoda para ser tratada
como as restantes. Manuel Lorena: A BB estava claramente à
frente do seu tempo e o Sr. Professor Jaime Nogueira Pinto escreve um excelente
artigo que retrata bem esta situação! Antonio C Moreira: Brigitte Bardot, mulher, força
da Natureza conheci-a na tela, tinha eu 17 / 18 anos... recolhi-a em
poster gigante para melhorar o ambiente do meu bar
mignon Obrigado JNP por ter
recordado a época em que BB era uma mulher desconcertante, sensual, bela
e libertária, tudo em uma. Fernando ce: Lindo texto e uma bela
homenagem a B.B.. Seknevasse: Excelente artigo, uma vez mais. Memória prodigiosa e capacidade de escrita
invejável. Deus o conserve sempre assim, lúcido e entre nós por muitos anos. Para
além do passado de BB, faz muito bem a ponte com as (a)normais políticas da
esquerda actual. graça Dias: Uma belíssima homenagem, um
texto fiel e brilhantemente apresentado por JNP. Obrigada.
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