Sempre, afinal, os
pratos da balança instáveis, por natureza. Também nós…
«"Pot-pourri"
contra Ventura»: a fita do ano
O dr. Seguro
é, ou aparenta ser, uma tela em branco onde cada um projecta as expectativas
que lhe apetecer. É inevitável que as expectativas saiam frustradas.
ALBERTO GONÇALVES, Colunista do
Observador
OBSERVADOR, 31 jan. 2026, 00:2010
Já
temos os “católicos por Seguro”, os “maçons por Seguro”, os “médicos por
Seguro”, os “não-socialistas por Seguro”, os “sociais-democratas por Seguro”,
os “socialistas por Seguro”, os “artistas por Seguro”, os “leninistas por
Seguro”, os “liberais por Seguro”, os “ex-presidentes da República por Seguro”
e os “ex-candidatos à presidência da República por Seguro”. Aguarda-se
a todo o momento o apoio ao candidato por parte dos astrólogos e da Federação
Ribatejana de Pelota Basca.
Tamanho consenso devia ser irritante.
No caso, o consenso é sobretudo esquisito, visto que se ergueu num ápice e em volta de alguém tão improvável. Há uns meses, ninguém se lembrava do dr.
Seguro. Há uns anos, o dr. Seguro não lembrava a ninguém. Durante três décadas
de carreira política, o dr. Seguro, outrora o vagamente popular “Tozé”, foi o
típico apparatchik que subiu sem estrondo na hierarquia
partidária. Após atingir o topo, viu-se enxotado sem maneiras e decidiu
hibernar. Não deixou uma marca, uma ideia, sequer um espaço vazio. A sua
ausência notou-se tanto quanto a presença: não se notou.
Se calhar é exactamente essa
insipidez que explica parte do apelo (?). O
dr. Seguro é, ou aparenta ser, uma tela em branco onde cada um projecta as
expectativas que lhe apetecer. É inevitável que as expectativas saiam frustradas (não se imagina
que a presidência do dr. Seguro satisfaça em simultâneo o prof. Cavaco e o dr.
Tavares), mas a fase do desapontamento virá a seguir. Por enquanto, o objectivo é unir, juntar, agregar,
enlatar. Se me permitem ultrapassar a quota de
analogias por crónica, a
extraordinária pluralidade dos apoiantes do dr. Seguro evoca menos o proverbial
albergue espanhol do que o metropolitano de Tóquio, em que cabem todos, e os
que arriscavam ficar de fora são empurrados à força para o interior da
carruagem.
A segunda explicação para o consenso
prende-se com a circunstância de o dr. Seguro ser um socialista, embora hoje a maioria dos seus repentinos apoiantes finja que não reparou e ele próprio disfarce. Seria inconcebível que a
esquerda pura e
dura como uma broca manifestasse
por um candidato da “direita” um milésimo do frenesim que a
“direita” dedica ao dr. Seguro. Não existe
um cenário plausível em que o dr. Tavares caminhasse, ainda que
metaforicamente, ao lado do prof. Cavaco para catequizar o povo acerca
das vantagens do voto no dr. Cotrim.
A esquerda não cede à “direita” nem
deseja cair nas graças da “direita”, que no fundo contempla com nojo. Em compensação, a “direita” encontra-se sempre
mortinha por mostrar à esquerda que o nojo é imerecido, que também dispõe de
“humanistas” iguais aos “humanistas” que berram pelo Hamas, por Maduro e pelos
aiatolas, que todos partilham um chão comum. E a “direita” não perde uma oportunidade de se sentar
no chão comum e tocar na guitarra cantigas fraternas que só terminam quando a
esquerda desfaz a guitarra em cacos. Porém,
a “direita” não desiste.
A
terceira e talvez mais decisiva explicação para a União Nacional em curso resume-se a um nome (ou a dois): André
Ventura. A
quase totalidade dos argumentos usados para defender a eleição do dr. Seguro
converge para a necessidade imperiosa de não se eleger o dr. Ventura. A
coisa formula-se invariavelmente com requintes dramáticos e invariavelmente
avisa para o que aconteceria se, por absurdo e loucura colectiva, o dr. Ventura
chegasse a Belém. São imagens fortes: a
Constituição em chamas, a “governabilidade” [sic] moribunda, o país
exilado nas franjas do submundo. E
isto sem contar com a deportação em massa de imigrantes, os campos de
reeducação para ciganos e, pior, a submissão dos cidadãos em peso a 37 audições
diárias de “A Portuguesa”.
Mesmo admitindo com periclitante certeza de que semelhante distopia é o
que o dr. Ventura (e um terço dos eleitores) quer, a União Nacional não informa
de que modo o dr.
Ventura procederia para chegar lá. Por um lado, vai por aí uma enorme
desconfiança na solidez das “instituições” e um entendimento desmesurado do
alcance dos poderes presidenciais. Por outro lado, os abundantes inimigos do dr. Ventura
estão por decidir se o homem é o taberneiro sem etiqueta de que se riem às
terças, quintas e sábados, ou o demiurgo malvado que os aterroriza no resto da
semana, capaz de proezas medonhas e desmesuradas.
Eu, que não rio do dr. Ventura e não
o receio (nem venero), julgo que se atribui à personagem propriedades
excessivas: são tais os esforços para não
o “normalizar” que o pintam com aptidões paranormais. Não alinho em crendices. O dr. Ventura
é apenas um político que, às vezes com razão e às vezes sem ela, ameaça a
famosa “estabilidade” a ponto de federar os beneficiários desta num
curioso pot-pourri. Quem
não aprecia excessivamente a “estabilidade” e os seus beneficiários, votará no
dr. Ventura. Quem acha que a “estabilidade” nos tem dado sucessivas alegrias,
votará no pot-pourri, perdão, no dr. Seguro. E nenhuma das escolhas
garante o resultado pretendido.
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COMENTÁRIOS (de 11)
Alexandra
Ferraz: É a histeria
colectiva! É um retorno desfocado aos tempos do PREC. Só que esquerda e direita
eram então como vinagre e azeite. Agora são um molho deslassado...É o fim de
uma época, dum sistema já fora do prazo de validade. É tempo de separar águas e
assim será já no próximo dia 9, qualquer que seja o resultado. Que venha a
mudança porque a nossa juventude merece! Vamos ter fé 🙏. Como sempre,
obrigada, Alberto pelo belíssimo texto. 🙌🙌
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