Reflexivo: Ora pro nobis.
Reflectir
é o melhor remédio
Há alguma diferença vital entre
arriscar ser influenciado nas 44 horas anteriores ao fecho das urnas e sofrer
uma “overdose” de propaganda nos 44 dias precedentes?
ALBERTO GONÇALVES, Colunista do Observador
OBSERVADOR, 17
jan. 2026, 00:2094Descobrir
Ora então
vamos lá discorrer sobre as “presidenciais”. Para mim, o candidato que se distingue pelo intelecto, a visão, a
seriedade e a resplandecência é sem margem para equívocos o… Estou a
brincar. Todos sabemos que é proibido tocar publicamente no assunto hoje e
amanhã. Claro que falo, sem poder dizer muito, do famoso e oficioso “dia
de reflexão”, que na verdade são quase dois dias em que a lei
impede “toda a actividade passível de
influenciar, ainda que indirectamente, os eleitores quanto ao sentido de voto,
bem como a exibição, junto das mesas de voto, de símbolos, siglas, sinais,
distintivos ou autocolantes de quaisquer listas”. Acrescente-se: “Não podem
ser transmitidas notícias, reportagens ou entrevistas que de qualquer modo
possam ser entendidas como favorecendo ou prejudicando um concorrente às
eleições em detrimento ou vantagem de outro”. A pena para abusos chega a seis meses de prisão, o que não me convém devido
a uma consulta no dentista para a semana. É uma tese estafada nos
artigos condicionados pela “reflexão”, mas a manutenção do condicionamento justifica a insistência: o Estado gosta tanto dos cidadãos que, não apenas
nesta matéria, os trata como crianças. Ou como adultos retardados, vá. Para os senhores que engendraram semelhante legislação, o eleitor comum, por exemplo o sr. Lopes, sai de casa no Domingo todo decidido a votar
no candidato X e, porque vislumbra no telemóvel uma crónica fresquinha (uma
crónica requentada não infringe as Escrituras) a elogiar o candidato Y, começa
a hesitar se a decisão inicial será a melhor. Minutos
depois, a meio do caminho, o sr. Lopes depara-se com um autocolante do
candidato Z na lapela de um transeunte e, dado que as cores do autocolante são
bem bonitas, o sr. Lopes sente-se inclinado a dar uma oportunidade ao candidato
em questão. Já nas imediações do
local de voto, a inclinação atenua-se quando uma arruada de três elementos
entoa um cativante slogan de
apoio ao candidato W, que de súbito se torna uma possibilidade real para o sr.
Lopes. De influência em
influência, o sr. Lopes abeira-se da cabine aturdido e, após notar que a caneta
disponível pertence ao “merchandising” do
candidato K, acaba a votar em alguém cujo nome não sabemos pois o voto é
secreto.
Mesmo que tal situação tivesse um
pingo de plausibilidade, e então? Qual é o mal? Onde está o problema
intrínseco e atentatório dos “valores democráticos” de uma escolha que, em
última instância, foi a do sr. Lopes? Há alguma diferença vital entre arriscar ser influenciado nas 44 horas
anteriores ao fecho das urnas e sofrer uma “overdose” de
propaganda e “debate” eleitoral e patetices sortidas nos 44 dias precedentes? Ser informado de um factóide político no sábado e não
na sexta-feira vai sabotar o continuum espaço-tempo? Para
a CNE, as respostas às perguntas acima são: Ai meu Deus que ele (eu) é louco!; Seria o fim da civilização como a
conhecemos!; Não é óbvio, seu irresponsável?; Evidentemente!; Claro que sim!
É curioso constatar a relação
directa do período de “reflexão” com a juventude dos regimes em que a regra se
aplica. Quase
sem excepções, a regra não existe nas democracias “velhas”. Nestas,
o Estado comete a imprudência de deixar os eleitores e as campanhas à vontade,
partindo do duvidoso princípio de que as pessoas crescidas são perfeitamente
capazes de tomar conta delas e das suas opções. Nas democracias imberbes, em geral saídas de ditaduras relativamente
recentes, passa-se o contrário: o legislador assume que as pessoas, ainda que maiores de idade, são
tão infantis quanto a própria democracia. É também provável que o legislador seja um bocado infantil.
O mais engraçado é que a fundamentação desta pessegada não remete para democracia
nenhuma. As
deliberações da CNE garantem que o silêncio forçado visa “preservar a liberdade
de escolha dos cidadãos”. Não faço ideia se há aqui ironia deliberada,
mas é sempre admirável quando a liberdade se alcança através da mordaça.
Um indivíduo distraído poderia acreditar – salvo seja – que a
argumentação é típica de autocracias. Um indivíduo atento tem
opinião idêntica: a argumentação é típica de autocracias e a
obrigatoriedade da mordaça é um resquício da época em que o prof. Salazar lembrava com
apreciável cinismo que “uma vez garantida a autoridade, a liberdade pode desenvolver-se em toda
a sua amplitude”. O “dia de reflexão” é um ocasional intervalo de censura plena
no meio da liberdade possível, um “souvenir” que sozinho importa pouco, a não
ser enquanto sintoma de uma doença mais vasta, a de um regime inseguro,
aparentemente desconfiado da sua legitimidade e certamente descrente do
discernimento dos seus cidadãos.
Admito que posso estar a
exagerar. Admito
que hoje me deu para reagir com impaciência a uma lei que manda fechar a boca acerca de
um tema que em princípio nem me levaria a abri-la. E
admito que sou daqueles que só têm
vontade de pisar na relva se houver um cartaz a desaconselhá-lo. Em
qualquer dos casos, acatar com letargia as
pequenas humilhações é meio caminho andado para apanhar com as grandes em cima. Antes de apanharmos com a
próxima, aproveitem o fim-de-semana e reflictam sobre isto.
COMENTÁRIOS (de 94)
Joao Cadete: Deveria ser uma semana de reflexão para se
poder descansar da política e do jornalixo decentemente. José Paulo Castro: Este dia de reflexão podia servir para os
portugueses contemplarem o boletim de voto e tentarem perceber como 14 são 11.
…
Os três extra são os C, N e E. L do Campo: E o voto antecipado? Quem vota uma semana antes não é
influenciável. É uma categoria superior Luis Tovar: Meu caro, permita que discorde. Hoje é o dia
de sossego das eleições, um dia para descansar dos disparates dos comentadores,
dos candidatos. Por fim o sossego. Deixem-nos ter um dia de sossego!!! klaus muller: Não está a exagerar, não, A.G. Aliás, disseram-me que Cavaco Silva, quando
era 1º ministro, quis encostar os feriados aos fins-de-semana, mas que o
Soares, que era Presidente da República, ficou horrorizado porque se corria o
risco de comemorar o 25 de Abril no dia 24. Enfim, é o que sempre temos tido,
têm sido estas figurinhas (exceptuando um ou outro caso) que nos têm governado
. Carlos
Chaves: Caro
Alberto, obrigado pela gargalhada que me arrancou com a da consulta do
dentista, fez-me lembrar aquele cidadão com o fogo florestal à porta da casa e
a dizer ao repórter que tinha que se ir embora pois tinha uma consulta (suponho
no centro de saúde).... 😄😄😄😁 Pedro Vieira de Matos: Os
estados não existem para fazer o que as pessoas querem. Esta e outras
reincidentes discussões, escondem algo muito mais perverso. Em todas as
eleições temos esta conversa do dia da reflexão. A maioria das pessoas acha
ridículo, mas em todos estes anos de crítica, alguma coisa mudou? Em Outubro
e Março de todos os anos vem a discussão da mudança da hora. Muita gente
se queixa e a maioria acha que devia acabar. Alguma coisa mudou estes anos? Nada. A falta de interesse do Estado por aquilo
que as pessoas querem com a consequente inacção, é assustadora. Em Portugal
e na Europa há uma falta de pragmatismo dos governantes que é quase surreal e é
uma das causas que tem levado à decadência acelerada da Europa. É só power
points, reuniões, fracas intenções e muito empurrar com a barriga. Estes
são apenas 2 exemplos, pouco controversos, mas há muitos outros muito mais
controversos. Se não somos capazes de decidir e resolver temas tão básicos e
que até reúnem algum consenso, como é que vamos encarar e lidar com temas
fracturantes? Somos um país e um continente de velhos governados por velhos,
que têm pavor da mudança. Alexandra
Ferraz: E nos
espaços de comentários podemos fazer publicidade ao nosso candidato preferido?
E na minha varanda, posso colocar cartazes do meu candidato? E a malta que
vota antecipadamente? Não é influenciada pela campanha que está a decorrer?
Enfim! É uma lei
para retardados mentais!!! Não
vi nem ouvi um único debate porque já não tenho pachorra há muito tempo... Sempre
soube muito bem em quem votar e nunca seria neste 'tempo de reflexão' que
tomaria qualquer decisão. Só mesmo o Alberto para me fazer rir da extra-campanha
eleitoral. Obrigada como sempre! 🙌🙌 Maria Tubucci: Demolidor, Sr. AG! O dia de reflexão é a
bonança antes da tempestade, pois todos sabem que água mole em pedra dura tanto
bate até que fura. Hoje descansa-se e desenjoa-se da estopada dos últimos 44
dias, este número faz-me lembrar qualquer coisa! Amanhã… It's the end of the world as we know it and I
feel fine … 😜 José B Dias: Estive aqui a reflectir nestas primeiras 8
horas e ocorreu-me que, sendo os candidatos, eles próprios, o maior símbolo das
suas candidaturas, não deveriam estes ser autorizados a aproximar-se sequer das
assembleias de voto! Vou
dedicar as próximas horas a reflectir sobre a legalidade da presença na
proximidade das assembleias de qualquer um dos apoiantes públicos de qualquer
dos candidatos e dos figurantes que constaram dos seus cartazes e filmes
promocionais ... Uma primeira abordagem
- nos últimos 15 minutos - leva-me a pensar que o facto de todas essas caras
levarem o espírito de um qualquer eleitor incauto a recordar o candidato com
quem estiveram/estão relacionados, induz uma muito perigosa distorção na
democracia. Afinal
o período de reflexão é bem importante... PS: partilho com o cronista o gatilho que espoleta a ânsia para pisar na
relva... e noutras coisas! 😉 MariaPaula Silva: pois, é um dia que não serve para nada, talvez
para ir às compras, como qualquer outro dia. Não serve para nada, tal como os 44 dias anteriores em que somos
bombardeados 24h/dia com discursos, debates etc cansativos, saturantes e
bocejantes. Tal como os encontros, reuniões, cimeiras e COP's para
"defesa" do Ambiente, tudo isto não serve para nada. É inútil
entretenimento e muito dinheiro mal gasto. A lei sobre as campanhas políticas devia ser mudada e autorizar que
cada concorrente e/ou partido pudessem apenas, em tempo
limitado (e estou a ser democrática), apresentar ideias/soluções concretas com
os respectivos tempos de concretização das mesmas. Se não as concretizassem, nunca mais poderiam concorrer. Era um ver se te avias, ficávamos livres de
tanto entretenimento medíocre e passávamos a ser um país pro-activo. Que bom que era. Falar menos e fazer
mais. 50 anos
de discursos bolorentos repetitivos medíocres já chega. E como sou do contra e adoro infringir regras,
aconselho todos a votarem no Vieira, os Ferraris estão a caminho. AndradeBG: O absurdo fica demonstrado ao não ser aplicado
nas votações antecipadas. O facto de quem pode não elimina medidas absurdas só é justificado por
ser essa a forma de exercer poder autocrático. Prova de que a democracia não é
assim tão importante nestas democracias cheias de dois pesos e duas medidas. SDC Cruz: Caro Alberto Gonçalves, a sua crónica é
hilariante e demonstra como a nossa menoridade democrática está caduca. E há um pormenor muito importante que é uma
autêntica comédia: o Mistério Geopolítico dos Açores. A divulgação das
sondagens à boca das urnas, só é apresentada, depois das urnas nos Açores
fecharem. Porquê? Porque os Açores têm uma tal importância para as eleições,
que a divulgação dessas sondagens às 19 horas (hora do fecho no Continente e
Madeira) poria em causa toda a votação no arquipélago açoriano. A nossa
soberania democrática, afinal, reside na diferença horária. Para mim, as 44 horas de “reflexão” são um
bálsamo para o cérebro. Depois de 44 dias de massacre diário, de manhã à noite,
posso, por fim, “reflectir” em paz e sossego sem receio que o Estado-protector
interfira na minha decisão de última hora. Tanta estupidez e ignorância! Escrevo
isto e corro o risco de ser chamado à CNE. Vou estar atento ao telemóvel. Manifesto Futurista: Eu percebo a crítica e o ímpeto de abrir a
boca só porque nos mandaram calar, mas a verdade é que adoro o dia de reflexão.
Não porque dê para reflectir mais do que os outros, mas porque dá para
desenjoar. Se quando foi criado talvez fosse apenas um sintoma da infantilidade
da democracia, agora ele protege-me da infantilidade da comunicação social. Num
tempo de "Última hora" e "Ao minuto" é um alívio abrir as
páginas da internet hoje e não
chafurdar nas últimas que me tentam convencer em votar neste ou naquele. Até
iria mais longe: chega a favorecer a reflexão, vejam lá! Se isso deve ser feito
a custo de um chicote de 6 meses de prisão é duvidoso, mas quero lá saber. Hoje
em dia há quem queira usar da prisão por dá cá aquela palha, portanto, seja.
Desejo boa reflexão a todos e em particular ao António Gonçalves. E aos que
estão na dúvida sobre quem escolher, recomendo que votem em [,...,]. António Lamas: A grande questão. O senhor de Belém votou
no passado domingo antecipadamente. Eu sei que o senhor é (dizem) uma inteligência rara acima do normal dos
cidadãos, Costa incluído, mas não deixo de pensar se ele terá cumprido
religiosamente (mesmo sem ser numa igreja) o sábado de reflexão e até se não
violou a lei ao comentar seja lá o que fosse, dado que o senhor é conhecido por
todas as declarações públicas terem sempre uma mensagem política. Quem souber
que me esclareça. Afonso
Soares: Isto
é tudo muito giro. Os que
votaram antecipadamente não precisaram do dia de reflexão nem quinze dias de baboseiras,
nem de suspensão da campanha nesse dia. Puderem ser influenciados à "vontadex ". Então esta lei é tão estúpida como
muitas outras. Tratam os eleitores como meninos de coro. Isto é Portugal no seu
melhor. Votem bem que já votei.
Luís Maricato: Por acaso tenho opinião contrária: deveríamos ter 1 ou 2 semanas de
reflexão, em vez de 1 dia... Diogo
Teixeira: O que
o AG não sabe é que o Sr Lopes votou no candidato ♧ que estava indevidamente no sem ruído, sem gráficos milagrosos… depois de uma overdose de sondagens,
isto quase devia merecer boletim de voto. António Soares Tristão: Então, se parece bom algures na estranja,
também temos que levar com isso por cá...
Fernanda Vilarinho: Confesso que este dia de reflexão me vai saber muito bem. Um dia inteiro
sem sondagens, vir com prescrição médica.
Alexandre Barreira: Pois. Caro AG, Acho bem....o dia de reflexão. Sempre dá para
"reflectir". Sobre a....."caldeirada-de-sapos". Que
muito boa gente. Vai......"degustar".......! Nuno Silva: Acho muito bem o dia de reflexão, menos um
dia para ter de aturar tanta imbecilidade.
Manuel Martins: Não
me repugna o dia de reflexão. Não o vejo como sinal de autoritarismo da
democracia, mas antes como sinal de saúde da democracia. Em muitos países
não seria respeitado. Também não acharia correcto ter os partidos, candidatos,
à porta dos locais de voto a fazer campanha: seria caótico e propenso a
conflitos. Sabe bem ter um dia sem o tema das eleições...
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