domingo, 18 de janeiro de 2026

Santo ripanço

 

Reflexivo: Ora pro nobis.

Reflectir é o melhor remédio

Há alguma diferença vital entre arriscar ser influenciado nas 44 horas anteriores ao fecho das urnas e sofrer uma “overdose” de propaganda nos 44 dias precedentes?

ALBERTO GONÇALVES, Colunista do Observador

OBSERVADOR,  17 jan. 2026, 00:2094Descobrir

Ora então vamos lá discorrer sobre as “presidenciais”. Para mim, o candidato que se distingue pelo intelecto, a visão, a seriedade e a resplandecência é sem margem para equívocos o… Estou a brincar. Todos sabemos que é proibido tocar publicamente no assunto hoje e amanhã. Claro que falo, sem poder dizer muito, do famoso e oficioso “dia de reflexão”, que na verdade são quase dois dias em que a lei impede toda a actividade passível de influenciar, ainda que indirectamente, os eleitores quanto ao sentido de voto, bem como a exibição, junto das mesas de voto, de símbolos, siglas, sinais, distintivos ou autocolantes de quaisquer listas”. Acrescente-se“Não podem ser transmitidas notícias, reportagens ou entrevistas que de qualquer modo possam ser entendidas como favorecendo ou prejudicando um concorrente às eleições em detrimento ou vantagem de outro”. A pena para abusos chega a seis meses de prisão, o que não me convém devido a uma consulta no dentista para a semana. É uma tese estafada nos artigos condicionados pela “reflexão”, mas a manutenção do condicionamento justifica a insistência: o Estado gosta tanto dos cidadãos que, não apenas nesta matéria, os trata como crianças. Ou como adultos retardados, vá. Para os senhores que engendraram semelhante legislação, o eleitor comum, por exemplo o sr. Lopes, sai de casa no Domingo todo decidido a votar no candidato X e, porque vislumbra no telemóvel uma crónica fresquinha (uma crónica requentada não infringe as Escrituras) a elogiar o candidato Y, começa a hesitar se a decisão inicial será a melhor. Minutos depois, a meio do caminho, o sr. Lopes depara-se com um autocolante do candidato Z na lapela de um transeunte e, dado que as cores do autocolante são bem bonitas, o sr. Lopes sente-se inclinado a dar uma oportunidade ao candidato em questão. Já nas imediações do local de voto, a inclinação atenua-se quando uma arruada de três elementos entoa um cativante slogan de apoio ao candidato W, que de súbito se torna uma possibilidade real para o sr. Lopes. De influência em influência, o sr. Lopes abeira-se da cabine aturdido e, após notar que a caneta disponível pertence ao “merchandising” do candidato K, acaba a votar em alguém cujo nome não sabemos pois o voto é secreto.

Mesmo que tal situação tivesse um pingo de plausibilidade, e então? Qual é o mal? Onde está o problema intrínseco e atentatório dos “valores democráticos” de uma escolha que, em última instância, foi a do sr. Lopes? Há alguma diferença vital entre arriscar ser influenciado nas 44 horas anteriores ao fecho das urnas e sofrer uma “overdose” de propaganda e “debate” eleitoral e patetices sortidas nos 44 dias precedentes? Ser informado de um factóide político no sábado e não na sexta-feira vai sabotar o continuum espaço-tempo? Para a CNE, as respostas às perguntas acima são: Ai meu Deus que ele (eu) é louco!; Seria o fim da civilização como a conhecemos!; Não é óbvio, seu irresponsável?; Evidentemente!; Claro que sim!

É curioso constatar a relação directa do período de “reflexão” com a juventude dos regimes em que a regra se aplica. Quase sem excepções, a regra não existe nas democracias “velhas”. Nestas, o Estado comete a imprudência de deixar os eleitores e as campanhas à vontade, partindo do duvidoso princípio de que as pessoas crescidas são perfeitamente capazes de tomar conta delas e das suas opções. Nas democracias imberbes, em geral saídas de ditaduras relativamente recentes, passa-se o contrário: o legislador assume que as pessoas, ainda que maiores de idade, são tão infantis quanto a própria democracia. É também provável que o legislador seja um bocado infantil.

O mais engraçado é que a fundamentação desta pessegada não remete para democracia nenhuma. As deliberações da CNE garantem que o silêncio forçado visa “preservar a liberdade de escolha dos cidadãos”. Não faço ideia se há aqui ironia deliberada, mas é sempre admirável quando a liberdade se alcança através da mordaça. Um indivíduo distraído poderia acreditar – salvo seja – que a argumentação é típica de autocracias. Um indivíduo atento tem opinião idêntica: a argumentação é típica de autocracias e a obrigatoriedade da mordaça é um resquício da época em que o prof. Salazar lembrava com apreciável cinismo que uma vez garantida a autoridade, a liberdade pode desenvolver-se em toda a sua amplitude”. O “dia de reflexão” é um ocasional intervalo de censura plena no meio da liberdade possível, um “souvenir” que sozinho importa pouco, a não ser enquanto sintoma de uma doença mais vasta, a de um regime inseguro, aparentemente desconfiado da sua legitimidade e certamente descrente do discernimento dos seus cidadãos.

Admito que posso estar a exagerar. Admito que hoje me deu para reagir com impaciência a uma lei que manda fechar a boca acerca de um tema que em princípio nem me levaria a abri-la. E admito que sou daqueles que só têm vontade de pisar na relva se houver um cartaz a desaconselhá-lo. Em qualquer dos casos, acatar com letargia as pequenas humilhações é meio caminho andado para apanhar com as grandes em cima. Antes de apanharmos com a próxima, aproveitem o fim-de-semana e reflictam sobre isto.

Eleições       Política

COMENTÁRIOS (de 94)

Joao Cadete: Deveria ser uma semana de reflexão para se poder descansar da política e do jornalixo decentemente.            José Paulo Castro: Este dia de reflexão podia servir para os portugueses contemplarem o boletim de voto e tentarem perceber como 14 são 11. … Os três extra são os C, N e E.             L do Campo: E o voto antecipado? Quem vota uma semana antes não é influenciável. É uma categoria superior                  Luis Tovar: Meu caro, permita que discorde. Hoje é o dia de sossego das eleições, um dia para descansar dos disparates dos comentadores, dos candidatos. Por fim o sossego. Deixem-nos ter um dia de sossego!!!             klaus muller: Não está a exagerar, não, A.G. Aliás, disseram-me que Cavaco Silva, quando era 1º ministro, quis encostar os feriados aos fins-de-semana, mas que o Soares, que era Presidente da República, ficou horrorizado porque se corria o risco de comemorar o 25 de Abril no dia 24. Enfim, é o que sempre temos tido, têm sido estas figurinhas (exceptuando um ou outro caso) que nos têm governado .              Carlos Chaves: Caro Alberto, obrigado pela gargalhada que me arrancou com a da consulta do dentista, fez-me lembrar aquele cidadão com o fogo florestal à porta da casa e a dizer ao repórter que tinha que se ir embora pois tinha uma consulta (suponho no centro de saúde).... 😄😄😄😁            Pedro Vieira de Matos: Os estados não existem para fazer o que as pessoas querem. Esta e outras reincidentes discussões, escondem algo muito mais perverso. Em todas as eleições temos esta conversa do dia da reflexão. A maioria das pessoas acha ridículo, mas em todos estes anos de crítica, alguma coisa mudou? Em Outubro e Março de todos os anos vem a discussão da mudança da hora. Muita gente se queixa e a maioria acha que devia acabar. Alguma coisa mudou estes anos? Nada. A falta de interesse do Estado por aquilo que as pessoas querem com a consequente inacção, é assustadora. Em Portugal e na Europa há uma falta de pragmatismo dos governantes que é quase surreal e é uma das causas que tem levado à decadência acelerada da Europa. É só power points, reuniões, fracas intenções e muito empurrar com a barriga. Estes são apenas 2 exemplos, pouco controversos, mas há muitos outros muito mais controversos. Se não somos capazes de decidir e resolver temas tão básicos e que até reúnem algum consenso, como é que vamos encarar e lidar com temas fracturantes? Somos um país e um continente de velhos governados por velhos, que têm pavor da mudança.      Alexandra Ferraz: E nos espaços de comentários podemos fazer publicidade ao nosso candidato preferido? E na minha varanda, posso colocar cartazes do meu candidato? E a malta que vota antecipadamente? Não é influenciada pela campanha que está a decorrer? Enfim! É uma lei para retardados mentais!!! Não vi nem ouvi um único debate porque já não tenho pachorra há muito tempo... Sempre soube muito bem em quem votar e nunca seria neste 'tempo de reflexão' que tomaria qualquer decisão. Só mesmo o Alberto para me fazer rir da extra-campanha eleitoral. Obrigada como sempre! 🙌🙌              Maria Tubucci: Demolidor, Sr. AG! O dia de reflexão é a bonança antes da tempestade, pois todos sabem que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Hoje descansa-se e desenjoa-se da estopada dos últimos 44 dias, este número faz-me lembrar qualquer coisa! Amanhã… It's the end of the world as we know it and I feel fine😜                 José B Dias: Estive aqui a reflectir nestas primeiras 8 horas e ocorreu-me que, sendo os candidatos, eles próprios, o maior símbolo das suas candidaturas, não deveriam estes ser autorizados a aproximar-se sequer das assembleias de voto! Vou dedicar as próximas horas a reflectir sobre a legalidade da presença na proximidade das assembleias de qualquer um dos apoiantes públicos de qualquer dos candidatos e dos figurantes que constaram dos seus cartazes e filmes promocionais ...  Uma primeira abordagem - nos últimos 15 minutos - leva-me a pensar que o facto de todas essas caras levarem o espírito de um qualquer eleitor incauto a recordar o candidato com quem estiveram/estão relacionados, induz uma muito perigosa distorção na democracia. Afinal o período de reflexão é bem importante... PS: partilho com o cronista o gatilho que espoleta a ânsia para pisar na relva... e noutras coisas! 😉           MariaPaula Silva: pois, é um dia que não serve para nada, talvez para ir às compras, como qualquer outro dia. Não serve para nada, tal como os 44 dias anteriores em que somos bombardeados 24h/dia com discursos, debates etc cansativos, saturantes e bocejantes.  Tal como os encontros, reuniões, cimeiras e COP's  para "defesa" do Ambiente, tudo isto não serve para nada. É inútil entretenimento e muito dinheiro mal gasto. A lei sobre as campanhas políticas devia ser mudada e autorizar que cada concorrente e/ou partido pudessem apenas, em tempo limitado (e estou a ser democrática), apresentar ideias/soluções concretas com os respectivos tempos de concretização das mesmas. Se não as concretizassem, nunca mais poderiam concorrer. Era um ver se te avias, ficávamos livres de tanto entretenimento medíocre e passávamos a ser um país pro-activo. Que bom que era.  Falar menos e fazer mais. 50 anos de discursos bolorentos repetitivos medíocres já chega. E como sou do contra e adoro infringir regras,  aconselho todos a votarem no Vieira, os Ferraris estão a caminho.            AndradeBG: O absurdo fica demonstrado ao não ser aplicado nas votações antecipadas. O facto de quem pode não elimina medidas absurdas só é justificado por ser essa a forma de exercer poder autocrático. Prova de que a democracia não é assim tão importante nestas democracias cheias de dois pesos e duas medidas           SDC Cruz: Caro Alberto Gonçalves, a sua crónica é hilariante e demonstra como a nossa menoridade democrática está caduca. E há um pormenor muito importante que é uma autêntica comédia: o Mistério Geopolítico dos Açores. A divulgação das sondagens à boca das urnas, só é apresentada, depois das urnas nos Açores fecharem. Porquê? Porque os Açores têm uma tal importância para as eleições, que a divulgação dessas sondagens às 19 horas (hora do fecho no Continente e Madeira) poria em causa toda a votação no arquipélago açoriano. A nossa soberania democrática, afinal, reside na diferença horária. Para mim, as 44 horas de “reflexão” são um bálsamo para o cérebro. Depois de 44 dias de massacre diário, de manhã à noite, posso, por fim, “reflectir” em paz e sossego sem receio que o Estado-protector interfira na minha decisão de última hora. Tanta estupidez e ignorância! Escrevo isto e corro o risco de ser chamado à CNE. Vou estar atento ao telemóvel.           Manifesto Futurista: Eu percebo a crítica e o ímpeto de abrir a boca só porque nos mandaram calar, mas a verdade é que adoro o dia de reflexão. Não porque dê para reflectir mais do que os outros, mas porque dá para desenjoar. Se quando foi criado talvez fosse apenas um sintoma da infantilidade da democracia, agora ele protege-me da infantilidade da comunicação social. Num tempo de "Última hora" e "Ao minuto" é um alívio abrir as páginas da internet hoje e não chafurdar nas últimas que me tentam convencer em votar neste ou naquele. Até iria mais longe: chega a favorecer a reflexão, vejam lá! Se isso deve ser feito a custo de um chicote de 6 meses de prisão é duvidoso, mas quero lá saber. Hoje em dia há quem queira usar da prisão por dá cá aquela palha, portanto, seja. Desejo boa reflexão a todos e em particular ao António Gonçalves. E aos que estão na dúvida sobre quem escolher, recomendo que votem em [,...,].             António Lamas: A grande questão. O senhor de Belém votou no passado domingo antecipadamente.  Eu sei que o senhor é (dizem) uma inteligência rara acima do normal dos cidadãos, Costa incluído, mas não deixo de pensar se ele terá cumprido religiosamente (mesmo sem ser numa igreja) o sábado de reflexão e até se não violou a lei ao comentar seja lá o que fosse, dado que o senhor é conhecido por todas as declarações públicas terem sempre uma mensagem política. Quem souber que me esclareça.         Afonso Soares: Isto é tudo muito giro. Os que votaram antecipadamente não precisaram do dia de reflexão nem quinze dias de baboseiras, nem de suspensão da campanha nesse dia. Puderem ser influenciados  à "vontadex ". Então esta lei é tão estúpida como muitas outras. Tratam os eleitores como meninos de coro. Isto é Portugal no seu melhor. Votem bem que já votei.          Luís Maricato: Por acaso tenho opinião contrária: deveríamos ter 1 ou 2 semanas de reflexão, em vez de 1 dia...                      Diogo Teixeira: O que o AG não sabe é que o Sr Lopes votou no candidato que estava indevidamente no sem ruído, sem gráficos milagrosos… depois de uma overdose de sondagens, isto quase devia merecer boletim de voto.         António Soares Tristão: Então, se parece bom algures na estranja, também temos que levar com isso por cá...          Fernanda Vilarinho: Confesso que este dia de reflexão me vai saber muito bem. Um dia inteiro sem sondagens, vir com prescrição médica.       Alexandre Barreira: Pois. Caro AG, Acho bem....o dia de reflexão. Sempre dá para "reflectir". Sobre a....."caldeirada-de-sapos". Que muito boa gente. Vai......"degustar".......!           Nuno Silva: Acho muito bem o dia de reflexão, menos um dia para ter de aturar tanta imbecilidade.       Manuel Martins: Não me repugna o dia de reflexão.  Não o vejo como sinal de autoritarismo da democracia,  mas antes como sinal de saúde da democracia. Em muitos países não seria respeitado. Também não acharia correcto ter os partidos,  candidatos,  à porta dos locais de voto a fazer campanha: seria caótico e propenso a conflitos. Sabe bem ter um dia sem o tema das eleições...

 

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