A escola literária realista deu escândalo quando surgiu e se impôs, na sua tradução de uma verdade sem subterfúgios de uma moralidade anteriormente imprescindível, nas malhas de uma arte escrita essencialmente formativa. Qualquer outro poder artístico – e bem assim o político - deve encaminhar o seu objectivo dentro de princípios que se desejam formativos, e tal implica realismo de configuração, de Vitória e de Derrota, de Bem e de Mal, de que a própria Vida é sinónimo. Todavia, a cautela parece necessária, na advertência sobre os valores que cada um representa e numa orientação formativa que explique o que é a decomposição como factor negativo no capítulo da Moral. Para que a distinção entre os valores se não perca, é preciso preservá-los a todos sempre, cabendo ao ser humano - racional – a opção, sujeito, assim, aos critérios de avaliação que o mesmo ser racional lhe destina, pese embora as diferenças conceptuais entre os povos, algumas – como essa tal da burka - parecerem indignadamente risíveis para outros humanos talvez mais livres - ou de uma moral mais sadia.
O realismo é uma mentira confortável
O “realismo” geopolítico não é o contrário da moralidade: é o
produto da sua decomposição.
P. JOÃO BASTO
Sacerdote, membro da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do
Castelo
OBSERVADOR, 09
jan. 2026, 00:2017
É preciso ser claro sobre uma
coisa. Desde sábado que se ouve que a política é o campo da força e não da
moralidade; que a geopolítica tem a ver com poder económico, militar,
tecnológico e material e não com virtude. Ninguém me contou. Ouvi mesmo em
directo. Mas, trata-se de uma ideia
feita. E é discutível que essa seja a postura realista e pragmática.
É certo que, como todas as ideias feitas, esta tem a sua cota de veracidade,
mas, pelo caminho, o rasto está cheio
de incoerências e simplificações.
Como Nicolas Laos
aponta em The
Metaphysics of World Order é inegável que a geopolítica, e a
política no seu sentido mais caseiro, implicam poder. E isso não significa, necessariamente, vampirismo ou maldade.
Mas se essa fosse a única condição
necessária, ainda estaríamos a celebrar os sucessos militares de Átila, o Huno,
com regulares sacrifícios humanos. Acontece que Átila dominou do
Reno e do Danúbio ao Báltico e de lá até ao Mar Negro, possuindo uma força
militar gigantesca, e, todavia, isso não impediu que, após a sua morte e a
Batalha de Nedão, o seu império se desintegrasse e desaparecesse do mapa.
Uma coisa é criar impérios, outra é criar civilizações e para isso, como Laos,
e também o Why Nations Fail mostram, é preciso
uma combinação entre força, cultura e visão metafísica. O que decide a História não é o poder
isolado, mas quem consegue reproduzir uma forma de vida ao longo do tempo. E
essa é uma guilhotina que está permanentemente suspensa sobre os nossos
pescoços.
Desde o Iluminismo, contudo, vivemos
fascinados quer com a cultura, quer com a força. No
fundo, prescindimos da visão
metafísica, ou então, confundimo-la com superstição ou providencialismo.
De lá para cá, acreditamos que, reguladas por regras neutras, interesses
calculáveis e equilíbrios de poder, sem
referência a qualquer concepção substantiva do bem humano, as sociedades seriam
mais virtuosas. Acontece que sem uma concepção de bem, sem uma
finalidade, estamos a construir uma ponte sobre um buraco negro.
O resultado é que o poder, privado de um telos – de um fim – que o oriente, deixa de ser instrumento e passa a ser fim em si
mesmo, reproduzindo-se através da técnica, da burocracia e da força. Estados
que perdem essa visão podem vencer a próxima batalha, mas raramente vencem a
História.
Falamos de justiça, direitos, valores
e até de “ordem internacional”, mas já não partilhamos uma concepção do bem
humano ou do fim da vida colectiva que permita dar a essas palavras conteúdo
operativo. O
resultado não é uma política livre de moral, mas uma política governada por
fragmentos morais incoerentes. Chamar a isso “realismo” é apenas uma forma elegante de admitir que
já não sabemos para que existe o poder.
O realismo geopolítico clássico — de Tucídides
a Morgenthau —
nunca afirmou que o poder era tudo; afirmou que o poder é o meio através do qual comunidades
políticas procuram preservar e expandir aquilo que consideram valioso. O
problema do nosso tempo é termos
perdido qualquer acordo minimamente estável sobre o que vale a pena preservar.
O “realismo” geopolítico não é o
contrário da moralidade: é o produto da sua decomposição. Como
notou MacIntyre, trata-se de algo mais próximo de Nietzsche do que de
Aristóteles. É o momento em que, depois da linguagem moral se ter tornado um
conjunto de slogans— direitos humanos,
soberania, segurança, democracia, civilização — a única
coisa que resta para decidir é quem impõe a sua versão pela força. O “realismo” não surge porque finalmente
percebemos que a moralidade nunca existiu; surge porque já não sabemos o que
seria contar com uma moralidade racionalmente vinculativa. O “realismo”
é, por fim, o fim e a morte da razão.
Não quero ofender ninguém. Mas é
comum citar-se, nestas ocasiões, como corolário e confirmação argumentativa, a frase da História da Guerra do Peloponeso,
onde se diz que “os fortes fazem o que querem, e os fracos sofrem o que
podem”. Acontece
que isso é o mesmo que ler os e imaginar que, se os Magos falam de Jesus como
“rei dos judeus”, ele acabaria sentando num trono, expulsando os
Romanos da Judeia. O problema é
que nem o Evangelho de S. Lucas, nem a História
da Guerra do Peloponeso terminam aí, e o final, quer num, quer noutro
caso, é muito mais complexo e contundente.
COMENTÁRIOS (17)
ana rita: Calma, Padre João. O realismo de Trump está
carregado de justiça, direitos e valores. Os EUA usam a força apenas para
libertar a humanidade dos ditadores socialistas e islamistas. É essa a sua
concepção de bem. José
Paulo Castro: Portanto,
o realismo de perceber que ditadores e cartéis de drogas se combatem apenas
pela força é uma visão metafísica que defende o bem humano ou o mal humano? O realismo de perceber que o direito
internacional e até os fluxos económicos internacionais se tornam em barreiras
que impedem a punição de autocracias e regimes opressores ou corruptos de
várias nações é uma visão metafísica que defende o bem humano ou o mal humano? Os que defendem a moralidade implícita no
direito internacional e depois permitem, por inação, a proliferação de regimes
e países corruptos e pobres, com exploração interna, têm uma visão metafísica
que permite o bem humano ou permite o mal humano ? Entre as ideias e a
realidade, o bem humano concreto tanto é fantasia como verdade. Francisco Almeida: O artigo ataca o realismo, com total falta de
realismo. Tem o sr. Pe. João Basto toda a razão quando diagnostica a perda de
espiritualidade ou, como diz de "telos" e outra coisa não seria de
esperar de um sacerdote. Mas
a realidade são três forças em confronto, China, Rússia e EUA e
os primeiros dois não têm restrições. Se
os EUA as tiverem, perdem. E perdemos todos. Manuel
Lourenço: Não é
realismo considerar que o regime da Venezuela além de ter dado cabo do país e
da sua população desesperada é a mama que mantém esse paraíso
tropical chamado Cuba, no qual vive também uma população que adoraria
escapulir-se para a Florida? Ou será que
é uma mentira confortável?
Nuno Wahnon Martins: Muito bom artigo. A referência à moral conveniente é o que se
passa nos dias de hoje. Manuel
Ferreira21: Excelente
artigo. Devemos meditar nas suas palavras. José Roque: Muito bem. victor guerra: A História é feita de "esquinas" não
de homilias. Américo
Silva: Sem
metafísica não há nações, Salazar compreendeu isso muito bem ao revalorizar a
história de Portugal e dar-lhe sentido, tal como os judeus, os nazis, e os
americanos. N C: Os realistas esquecem-se sempre do que
aconteceu a seguir à Guerra do Peloponeso S N: Artigo muito pertinente Jorge Martins: Excelente artigo do P. João Basto. O remate
final resume na perfeição o belo artigo do título. Feliz 2026 ! NUNO SILVA: É uma sorte e um privilégio ler este
fabuloso artigo de P. João Basto ao lado de outro também aqui do Rui Ramos.
Gostei de ambos. Mas um aquece-me mais o coração. Adivinhem qual. Ricardo Ferreira: Boa sorte a aplicar a moralidade sem controlar
os meios de exercer violência. Nelson Goncalves > Ricardo
Ferreira: E no
entanto isso aconteceu inúmeras vezes ao longo dos séculos. Como acha que
surgiram as instituições? Como acha que o Estado Português se manteve sem ser
com base na ideia metafísica que de valia a pena existir? Ricardo Ferreira > Nelson
Goncalves: As
instituições enquanto ideias não precisam de força. Mas ideias sem força
para as impor são apenas isso. Em relação ao Estado Português, meu caro, o
Estado português (ou qualquer outro) existe e mantém-se porque tem força para
isso. Não terei de recordar que Portugal enquanto realidade é um produto da
violência, certo? E não estou a dizer que é certo ou errado Nelson Goncalves > Ricardo
Ferreira: Obviamente
que a violência (ou apenas a ameaça) é necessária, e continua a ser, para
manter as instituições. Mas o ponto não é esse. O que o padre João escreveu foi
que sem um objectivo transcendente, a violência serve apenas objectivos de
curtíssimo prazo. Certo, o padre tem um.
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