sábado, 10 de janeiro de 2026

Assim

 

A escola literária realista deu escândalo quando surgiu e se impôs, na sua tradução de uma verdade sem subterfúgios de uma moralidade anteriormente imprescindível, nas malhas de uma arte escrita essencialmente formativa. Qualquer outro poder artístico – e bem assim o político - deve encaminhar o seu objectivo dentro de princípios que se desejam formativos, e tal implica realismo de configuração, de Vitória e de Derrota, de Bem e de Mal, de que a própria Vida é sinónimo. Todavia, a cautela parece necessária, na advertência sobre os valores que cada um representa e numa orientação formativa que explique o que é a decomposição como factor negativo no capítulo da Moral. Para que a distinção entre os valores se não perca, é preciso preservá-los a todos sempre, cabendo ao ser humano -  racional – a opção, sujeito, assim, aos critérios de avaliação que o mesmo ser racional lhe destina, pese embora as diferenças conceptuais entre os povos, algumas – como essa tal da burka - parecerem indignadamente risíveis para outros humanos talvez mais livres - ou de uma moral mais sadia.

O realismo é uma mentira confortável

O “realismo” geopolítico não é o contrário da moralidade: é o produto da sua decomposição.

P. JOÃO BASTO Sacerdote, membro da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo

OBSERVADOR, 09 jan. 2026, 00:2017

É preciso ser claro sobre uma coisa. Desde sábado que se ouve que a política é o campo da força e não da moralidade; que a geopolítica tem a ver com poder económico, militar, tecnológico e material e não com virtude. Ninguém me contou. Ouvi mesmo em directo. Mas, trata-se de uma ideia feita. E é discutível que essa seja a postura realista e pragmática. É certo que, como todas as ideias feitas, esta tem a sua cota de veracidade, mas, pelo caminho, o rasto está cheio de incoerências e simplificações.

Como Nicolas Laos aponta em The Metaphysics of World Order é inegável que a geopolítica, e a política no seu sentido mais caseiro, implicam poder. E isso não significa, necessariamente, vampirismo ou maldade. Mas se essa fosse a única condição necessária, ainda estaríamos a celebrar os sucessos militares de Átila, o Huno, com regulares sacrifícios humanos. Acontece que Átila dominou do Reno e do Danúbio ao Báltico e de lá até ao Mar Negro, possuindo uma força militar gigantesca, e, todavia, isso não impediu que, após a sua morte e a Batalha de Nedão, o seu império se desintegrasse e desaparecesse do mapa. Uma coisa é criar impérios, outra é criar civilizações e para isso, como Laos, e também o Why Nations Fail mostram, é preciso uma combinação entre força, cultura e visão metafísica. O que decide a História não é o poder isolado, mas quem consegue reproduzir uma forma de vida ao longo do tempo. E essa é uma guilhotina que está permanentemente suspensa sobre os nossos pescoços.

Desde o Iluminismo, contudo, vivemos fascinados quer com a cultura, quer com a força. No fundo, prescindimos da visão metafísica, ou então, confundimo-la com superstição ou providencialismo. De lá para cá, acreditamos que, reguladas por regras neutras, interesses calculáveis e equilíbrios de poder, sem referência a qualquer concepção substantiva do bem humano, as sociedades seriam mais virtuosas. Acontece que sem uma concepção de bem, sem uma finalidade, estamos a construir uma ponte sobre um buraco negro.

O resultado é que o poder, privado de um telos – de um fim –  que o oriente, deixa de ser instrumento e passa a ser fim em si mesmo, reproduzindo-se através da técnica, da burocracia e da força. Estados que perdem essa visão podem vencer a próxima batalha, mas raramente vencem a História.

Falamos de justiça, direitos, valores e até de “ordem internacional”, mas já não partilhamos uma concepção do bem humano ou do fim da vida colectiva que permita dar a essas palavras conteúdo operativo. O resultado não é uma política livre de moral, mas uma política governada por fragmentos morais incoerentes. Chamar a isso “realismo” é apenas uma forma elegante de admitir que já não sabemos para que existe o poder.

O realismo geopolítico clássico — de Tucídides a Morgenthaununca afirmou que o poder era tudo; afirmou que o poder é o meio através do qual comunidades políticas procuram preservar e expandir aquilo que consideram valioso. O problema do nosso tempo é termos perdido qualquer acordo minimamente estável sobre o que vale a pena preservar.

O “realismo” geopolítico não é o contrário da moralidade: é o produto da sua decomposição. Como notou MacIntyre, trata-se de algo mais próximo de Nietzsche do que de Aristóteles. É o momento em que, depois da linguagem moral se ter tornado um conjunto de slogans— direitos humanos, soberania, segurança, democracia, civilizaçãoa única coisa que resta para decidir é quem impõe a sua versão pela força. O “realismo” não surge porque finalmente percebemos que a moralidade nunca existiu; surge porque já não sabemos o que seria contar com uma moralidade racionalmente vinculativa. O “realismo” é, por fim, o fim e a morte da razão.

Não quero ofender ninguém. Mas é comum citar-se, nestas ocasiões, como corolário e confirmação argumentativa, a frase da História da Guerra do Peloponeso, onde se diz que “os fortes fazem o que querem, e os fracos sofrem o que podem”. Acontece que isso é o mesmo que ler os e imaginar que, se os Magos falam de Jesus como “rei dos judeus”, ele acabaria sentando num trono, expulsando os Romanos da Judeia. O problema é que nem o Evangelho de S. Lucas, nem a História da Guerra do Peloponeso terminam aí, e o final, quer num, quer noutro caso, é muito mais complexo e contundente.

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COMENTÁRIOS (17)

ana rita: Calma, Padre João. O realismo de Trump está carregado de justiça, direitos e valores. Os EUA usam a força apenas para libertar a humanidade dos ditadores socialistas e islamistas. É essa a sua concepção de bem.             José Paulo Castro: Portanto, o realismo de perceber que ditadores e cartéis de drogas se combatem apenas pela força é uma visão metafísica que defende o bem humano ou o mal humano? O realismo de perceber que o direito internacional e até os fluxos económicos internacionais se tornam em barreiras que impedem a punição de autocracias e regimes opressores ou corruptos de várias nações é uma visão metafísica que defende o bem humano ou o mal humano? Os que defendem a moralidade implícita no direito internacional e depois permitem, por inação, a proliferação de regimes e países corruptos e pobres, com exploração interna, têm uma visão metafísica que permite o bem humano ou permite o mal humano ? Entre as ideias e a realidade, o bem humano concreto tanto é fantasia como verdade.                 Francisco Almeida: O artigo ataca o realismo, com total falta de realismo. Tem o sr. Pe. João Basto toda a razão quando diagnostica a perda de espiritualidade ou, como diz de "telos" e outra coisa não seria de esperar de um sacerdote. Mas a realidade são três forças em confronto, China, Rússia e EUA e os primeiros dois não têm restrições. Se os EUA as tiverem, perdem. E perdemos todos                Manuel Lourenço: Não é realismo considerar que o regime da Venezuela além de ter dado cabo do país e da sua população desesperada é a mama que mantém esse paraíso tropical chamado Cuba, no qual vive também uma população que adoraria escapulir-se para a Florida? Ou será que é uma mentira confortável?                 Nuno Wahnon Martins: Muito bom artigo. A referência à moral conveniente é o que se passa nos dias de hoje.      Manuel Ferreira21: Excelente artigo. Devemos meditar nas suas palavras.               José Roque: Muito bem.             victor guerra: A História é feita de "esquinas" não de homilias.          Américo Silva: Sem metafísica não há nações, Salazar compreendeu isso muito bem ao revalorizar a história de Portugal e dar-lhe sentido, tal como os judeus, os nazis, e os americanos.                N C: Os realistas esquecem-se sempre do que aconteceu a seguir à Guerra do Peloponeso               S N: Artigo muito pertinente               Jorge Martins: Excelente artigo do P. João Basto. O remate final resume na perfeição o belo artigo do título. Feliz 2026 !                NUNO SILVA: É uma sorte e um privilégio ler este fabuloso artigo de P. João Basto ao lado de outro também aqui do Rui Ramos. Gostei de ambos. Mas um aquece-me mais o coração. Adivinhem qual.               Ricardo Ferreira: Boa sorte a aplicar a moralidade sem controlar os meios de exercer violência.           Nelson Goncalves > Ricardo Ferreira: E no entanto isso aconteceu inúmeras vezes ao longo dos séculos. Como acha que surgiram as instituições? Como acha que o Estado Português se manteve sem ser com base na ideia metafísica que de valia a pena existir?               Ricardo Ferreira > Nelson Goncalves: As instituições enquanto ideias não precisam de força. Mas ideias sem força para as impor são apenas isso. Em relação ao Estado Português, meu caro, o Estado português (ou qualquer outro) existe e mantém-se porque tem força para isso. Não terei de recordar que Portugal enquanto realidade é um produto da violência, certo? E não estou a dizer que é certo ou errado                 Nelson   Goncalves > Ricardo Ferreira: Obviamente que a violência (ou apenas a ameaça) é necessária, e continua a ser, para manter as instituições. Mas o ponto não é esse. O que o padre João escreveu foi que sem um objectivo transcendente, a violência serve apenas objectivos de curtíssimo prazo. Certo, o padre tem um.

 

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