A respeito do princípio e do fim, é como decorrem, afinal, as vidas,
num durante temporal, que um calendário, de fabrico humano, de acordo com as
suas características de HOMO SAPIENS - pensante, pois - determinou,
possibilitando a reflexão filosófica, como a seguinte, do P. JOÃO BASTO
sobre a questão do “ser ou não ser” desse mistério da Vida e sua extinção.
2026, entre o início e o fim
Importaria pensar quantos de nós, imaginando que os nossos anos são
uma linha ininterrupta de paragens de autocarro, acredita que para o ano, neste
dia, estará melhor.
P. JOÃO BASTO, sacerdote,
membro da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo
OBSERVADOR, 02
jan. 2026, 00:18
Há um instante, mesmo antes da meia-noite, em que o mundo parece
suspenso. Ainda andamos por cá e a nossa
lápide não terá gravado o ano 2025. Não é ainda o ano seguinte, mas já não é
inteiramente o anterior. O tempo, por uma breve fracção de segundo, parece
deixar de nos pertencer — ou talvez sejamos nós que, por uma vez,
sentimos que não lhe pertencemos. Esse
intervalo, essa espécie de ponte invisível entre o que foi e o que ainda não é,
expõe uma verdade desconfortável: o tempo não flui como um rio tranquilo, mas como um abismo
que atravessamos sem saber onde começa nem onde acaba. E eu que nunca gostei de ter hora marcada
para a alegria, festejo alguma coisa que não é minha.
No entanto, nestes momentos, há
algo verdadeiro. Percebemos
com grande intensidade, que não é o fluxo contínuo que dá sentido à vida, mas as
suas interrupções. É nelas que algo se torna real. Um amor, uma obra, uma amizade, uma decisão:
tudo só adquire peso porque pode falhar, acabar, perder-se. O que
não corre risco, não vive.
Por isso, iniciar e
terminar não são
gestos opostos. São dois movimentos de uma mesma força. O que começa
só pode começar porque algo terminou. O que
termina só pode terminar porque algo foi verdadeiramente iniciado. Só aquilo que pode terminar pode ser
completo. Só aquilo que pode perder-se pode ser verdadeiramente nosso.
Eu, que, no 2.º Ciclo, escrevi numa
cartolina que, se não fizéssemos nada É nesse espaço estreito entre abertura e encerramento
que a vida acontece, em 2026 já não haveria água no planeta, ao mesmo
tempo que me era prometido que faltava pouco para chegar a Marte, fico
suspenso quando me dizem que o mundo está pior hoje do que naquele tempo, porque
isso revela que este fim e este começo, não é necessariamente para melhor.
Importaria pensar, por isso, quantos de nós, imaginando que os nossos anos são
uma linha ininterrupta de paragens de autocarro, acredita que para o ano, neste
dia, estará melhor.
Lá
para o meio sabemos que, em algum momento, alguém diria que a culpa é do
algoritmo e das redes sociais, que algum Robespierre moderno vai tentar
purificar alguma coisa, separando bons
e maus, que não sabemos dizer com certeza onde termina a devassa da vida
privada e começa o escrutínio, que alguém será vítima de alguma denúncia
anónima, e outro
alguém só será apanhado precisamente porque houve uma denúncia anónima, que nos
irritaremos sobre alguma gaffe e, com isso, deixaremos de falar de
algum assunto mais importante. E não há
mal nenhum com isso.
Nenhum comentário:
Postar um comentário