sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Subtilezas reflexivas


A respeito do princípio e do fim, é como decorrem, afinal, as vidas, num durante temporal, que um calendário, de fabrico humano, de acordo com as suas características de HOMO SAPIENS - pensante, pois - determinou, possibilitando a reflexão filosófica, como a seguinte, do P. JOÃO BASTO sobre a questão do “ser ou não ser” desse mistério da Vida e sua extinção.

2026, entre o início e o fim

Importaria pensar quantos de nós, imaginando que os nossos anos são uma linha ininterrupta de paragens de autocarro, acredita que para o ano, neste dia, estará melhor.

P. JOÃO BASTO,  sacerdote, membro da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo

OBSERVADOR, 02 jan. 2026, 00:18

Há um instante, mesmo antes da meia-noite, em que o mundo parece suspenso. Ainda andamos por cá e a nossa lápide não terá gravado o ano 2025. Não é ainda o ano seguinte, mas já não é inteiramente o anterior. O tempo, por uma breve fracção de segundo, parece deixar de nos pertencer — ou talvez sejamos nós que, por uma vez, sentimos que não lhe pertencemos. Esse intervalo, essa espécie de ponte invisível entre o que foi e o que ainda não é, expõe uma verdade desconfortável: o tempo não flui como um rio tranquilo, mas como um abismo que atravessamos sem saber onde começa nem onde acaba. E eu que nunca gostei de ter hora marcada para a alegria, festejo alguma coisa que não é minha.

No entanto, nestes momentos, há algo verdadeiro. Percebemos com grande intensidade, que não é o fluxo contínuo que dá sentido à vida, mas as suas interrupções. É nelas que algo se torna real. Um amor, uma obra, uma amizade, uma decisão: tudo só adquire peso porque pode falhar, acabar, perder-se. O que não corre risco, não vive.

Por isso, iniciar e terminar não são gestos opostos. São dois movimentos de uma mesma força. O que começa só pode começar porque algo terminou. O que termina só pode terminar porque algo foi verdadeiramente iniciado. Só aquilo que pode terminar pode ser completo. Só aquilo que pode perder-se pode ser verdadeiramente nosso.

Eu, que, no 2.º Ciclo, escrevi numa cartolina que, se não fizéssemos nada É nesse espaço estreito entre abertura e encerramento que a vida acontece, em 2026 já não haveria água no planeta, ao mesmo tempo que me era prometido que faltava pouco para chegar a Marte, fico suspenso quando me dizem que o mundo está pior hoje do que naquele tempo, porque isso revela que este fim e este começo, não é necessariamente para melhor. Importaria pensar, por isso, quantos de nós, imaginando que os nossos anos são uma linha ininterrupta de paragens de autocarro, acredita que para o ano, neste dia, estará melhor.

Lá para o meio sabemos que, em algum momento, alguém diria que a culpa é do algoritmo e das redes sociais, que algum Robespierre moderno vai tentar purificar alguma coisa, separando bons e maus, que não sabemos dizer com certeza onde termina a devassa da vida privada e começa o escrutínio, que alguém será vítima de alguma denúncia anónima, e outro alguém só será apanhado precisamente porque houve uma denúncia anónima, que nos irritaremos sobre alguma gaffe e, com isso, deixaremos de falar de algum assunto mais importante. E não há mal nenhum com isso.                            

ANO NOVO       SOCIEDADE

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