Para contar talvez, nas histórias do porvir democrático.
Seis notas sobre uma primeira volta
A mudança que começou nos partidos e nas legislativas instalou-se
também nas presidenciais, provavelmente sem retorno. O PS e o PSD têm que
fazer mais pela vida.
Paulo Ferreira Comentador,
colunista do Observador
OBSERVADOR, 23 jan. 2026, 00:177
As
presidenciais não escapam à reconfiguração do sistema partidário —
Durante 40 anos, os presidentes eleitos foram figuras de referência dos dois
maiores partidos fundadores da democracia — aquilo a que chamamos senadores — e
chegaram a Belém como corolário de carreiras políticas longas e diversas. Essa
hegemonia do PS e do PSD acabou. Os
candidatos apoiados pelos dois partidos não conseguiram em conjunto mais do que
43% dos votos. O eleitorado da AD nas legislativas do ano
passado foi fatiado por quatro candidaturas. A intromissão de um candidato
outsider aos partidos foi relativamente fácil e teve alguma eficácia. E os novos partidos da direita mostraram que podem ser
mais competitivos do que o clássico PSD. A mudança que começou nos partidos e
nas legislativas instalou-se também nas presidenciais, provavelmente sem
retorno. O PS e o PSD têm que fazer mais pela vida.
O mito da importância das televisões é manifestamente exagerado —
Ficou famosa uma frase de Emídio Rangel sobre a capacidade das televisões
venderem presidentes como quem vende sabonetes. Depois, a facilidade com que Marcelo Rebelo de Sousa
transformou o seu lugar de comentador nas noites de domingo no de Presidente da
República deu a prova que faltava à teoria. Afinal não é bem assim. Marques
Mendes teve uma derrota pesada, apesar de mais de uma década num posto
televisivo semelhante ao de Marcelo. Não é a televisão. Ou melhor, não é apenas a televisão. É o carisma,
a campanha eleitoral, a mensagem política, a conjuntura política do momento, a
força da concorrência… O sucesso eleitoral vem de um conjunto de
variáveis, como sempre. A televisão dá notoriedade e pode dar popularidade. Mas
não garante competitividade eleitoral.
A vitória de Seguro é também
uma derrota da esquerda geringonceira — Poucas vitórias são tão pessoais como a que António José Seguro teve na
primeira volta, por valores mais expressivos do que muitos poderiam imaginar
poucas semanas antes. Foi rejeitado por uma parte importante do PS, que
durante meses suspirou por uma alternativa “da verdadeira esquerda” que não
apareceu. Foi dado como intragável pelos partidos da extrema-esquerda, que
não lhe perdoam a prioridade que deu à estabilização do país durante os tempos
de chumbo da troika. ironia que deve ter dado um sabor especial à
vitória do candidato.
O smartphone já substituiu o megafone nas campanhas —
Esqueçam as carrinhas com megafones roufenhos, os comícios em palcos improvisados
e o clássico circuito dos almoços e jantares de carne assada. Mesmo as
arruadas e visitas a mercados agendadas a pensar no telejornal do dia já não
chegam a uma parte importante do eleitorado que deixou de ver televisão.
Quem não tiver tracção nas redes sociais e não estiver disponível para
protagonizar conteúdos adequados para o digital tem seriamente comprometidas as
possibilidades de um bom resultado eleitoral. Marques Mendes terá tido aqui um dos
pontos fracos da sua campanha. Pelo contrário, os resultados de André Ventura e
Cotrim de Figueiredo e a popularidade que conseguiram no eleitorado mais jovem
mostram como o tempo das campanhas clássicas acabou. E acabem com os obsoletos “Tempos de
Antena” de emissão obrigatória Acabaram todos vencidos na primeira
volta, com a extrema esquerda reduzida aos registos mais baixos da democracia.
Na noite de domingo, muitos dos que o desprezaram e desvalorizaram tornaram-se
rapidamente adeptos de Seguro “desde pequeninos”. Uma em
televisões e rádios. É um desperdício de meios para as candidaturas, por isso
muitas já nem se dão ao trabalho de os produzir. A família já não se senta, passivamente, em frente à televisão.
As sondagens identificaram bem as
tendências — Diabolizar
as sondagens e outros estudos de opinião são um dos desportos favoritos do país
durante os processos eleitorais. Desta vez não foi diferente. Os candidatos que
aparecem em perda não resistem a desvalorizar os barómetros nem à insinuação de
forças ocultas que manipulam os dados. E, afinal, as principais tendências foram captadas pelas sondagens
nas últimas semanas: queda de Marques Mendes e de Gouveia e Melo, subida de António José Seguro e de Cotrim de
Figueiredo. Será
que estes dados diários levam eleitores a alterar o sentido de voto? É natural
que sim. Os eleitores processam a informação disponível que seja relevante para
formarem a sua decisão: debates, entrevistas, propostas, gaffes, traços de
personalidade, sondagens… A ideia de um
processo de decisão de voto controlado em laboratório — o ridículo dia de reflexão é um símbolo dessa ideia — é um disparate. Os
eleitores têm direito a ter mais informação, e não menos. Não são mentecaptos
nem precisam de atitudes paternalistas, como muitas das nossas instituições e
leis indicam.
E se a “tracking pool” da
TVI/CNN dominou a recta final da campanha é porque os candidatos foram
incapazes de agendar temas relevantes no dia a dia da campanha. E quando não há
assunto, fala-se do tempo ou das sondagens.
O
processo eleitoral precisa de uma reforma urgente — Muita conversa e nenhuma acção é o que tem
acontecido sobre as leis e práticas eleitorais. O voto continua a exigir a
muitos emigrantes um sacrifício de custos e tempo que não é aceitável quando é
presencial. Quando é feito por correspondência (não foi o caso, não esteve disponível nesta eleição),
exige uma logística de envelopes que leva uma elevada percentagem a ser anulada. Os prazos previstos na lei e a sequência de
actos praticados pelo Tribunal
Constitucional no meio das tolerâncias de ponto do Natal — há prioridades, caramba — produzem
o resultado anedótico de constarem no boletim de voto candidaturas que não
chegaram a ser formalmente aceites. E
a censura informativa imposta no dia de reflexão – não confundir com o fim da
campanha eleitoral na sexta-feira – é ridícula e anti-democrática na era da
internet. Só falta agora que o Parlamento faça o que deve ser feito: facilitar
a votação, agilizar o processo e colocar a tecnologia segura disponível ao
serviço do acto democrático mais nobre.
A partir da genealogia familiar,
investigámos as origens e ligações inesperadas dos candidatos
presidenciais 2026.
PRESIDENCIAIS
2026 ELEIÇÕES POLÍTICA
COMENTÁRIOS:
Carlos Chaves: Mais outro que ainda não percebeu, que provavelmente ainda não será
desta que nos vamos livrar do grande centrão, confirmado pelo apoio vigoroso e
apressado da AD e da IL aos socialistas e aos comunistas, dizendo aos seus
eleitorados que foram enganados quando andavam a votar neles, mas estará para
próximo, se não mesmo já desta vez!
António Rocha Pinto: O parlamento NUNCA vai facilitar o voto dos
imigrantes. Não preciso explicar porquê.
Nenhum comentário:
Postar um comentário