Por vezes alarvidades também… Nos comportamentos dos concorrentes à
Presidência desta República que jamais se pensaria que fossem assim tantos… HELENA
GARRIDO os descreve, nessas suas duplicidades - “Mas um dos aspectos mais interessantes destas
eleições é o paradoxo (aparente?) de ver cada um dos dois lados do espectro
político a funcionar como se quisesse que o seu adversário ganhe”.
E assim surgem designações de “campanha suja, assédio, cabala”… E o
exibicionismo pessoal a impor-se por vezes… Até mesmo nessa pretensa simpatia, para
com o adversário… Será que é a sério? Será que somos um povo sério? Sim,
perplexos é como nos sentimos, ao ver e ouvir os candidatos – e são tantos! -
que ora se escovam em afirmações de auto-elogio, ora ironizam sobre os
parceiros, ou mesmo os elogiam, e agora já dançam nas ruas, quem sabe se com a subentendida
ironia ridicularizante televisiva… Não, não tem seriedade nem beleza, tanta
indiscrição, que nos leva a anuir ao sentimento negativista extravasado na “TABACARIA”
de Álvaro de Campos:
…Talvez
tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto
remexidamente….
As presidenciais das perplexidades
Até onde podem ir os ataques aos adversários numa campanha
presidencial? E que presidenciais são estas em que o que parece não parece ser?
HELENA GARRIDO Colunista
OBSERVADOR, 13
jan. 2026, 00:203
Está dito e redito. Estamos a
viver as presidenciais mais disputadas de que há memória, só comparáveis às de
1986. Vamos ter seguramente uma segunda volta, pela primeira vez em quatro
décadas, ainda que as sondagens, num sinal da sua influência, comecem a
indiciar movimentos de voto útil especialmente à esquerda.
Mas um dos aspectos mais interessantes destas eleições é o paradoxo
(aparente?) de ver cada um dos dois lados do espectro político a funcionar como
se quisesse que o seu adversário ganhe. A esquerda a actuar como se quisesse
dar a vitória à direita, o mesmo se passando com o lado direito. Não será estranho, nesta diferença entre
o parecer e o ser, o facto de termos um candidato sem o apoio explicito de
nenhum partido. E, claro, uma vez lançadas as candidaturas é preciso lutar pelo
eleitorado do seu espaço político.
Embora a esquerda reúna o maior
número de candidatos – António José Seguro, Catarina Martins,
António Filipe e Jorge Pinto -, tal
não corresponde a uma elevada dispersão dos votos, a crer nas sondagens.
Levando em conta o radar de sondagens do Observador, António José Seguro está a conseguir
passar a mensagem do voto útil, numa subida lenta parecendo ser Catarina
Martins a mais prejudicada. Se considerarmos os resultados das
legislativas e comparando com o último valor do radar de sondagens, Seguro está a concentrar 88% dos votos no PS.
Deixando de parte para já o
candidato Henrique Gouveia e Melo,
por não ser explicitamente apoiado por nenhum partido, a direita
tem menos candidatos – Marques Mendes, Cotrim de Figueiredo
e André Ventura -, mas
está a registar uma muito maior dispersão de votos, sem que nenhum consiga,
pelo menos por enquanto, fazer valer o raciocínio do voto útil. Fazendo
o mesmo exercício, Marques Mendes só está a conseguir cerca de metade dos votos obtidos pela AD nas
legislativas de 2025. Cotrim de Figueiredo ultrapassa
largamente a IL e André Ventura está a fazer praticamente o pleno do seu
eleitorado.
Com este quadro, e embora seja
bastante arriscada esta leitura, Henrique Gouveia e Melo parece ter perdido, ao longo da campanha,
votos para Seguro e ganho eleitores de Marques Mendes. A ser assim e se isto se confirmar, a sua campanha contra Marques
Mendes terá surtido efeito.
É daqui que partimos para a questão
se vale tudo para vencer o adversário. Só os
resultados eleitorais nos vão permitir avaliar que tipo de efeito teve o modelo
de ataques, realizados primeiro Cotrim de Figueiredo e depois
Gouveia e Melo a Marques Mendes. Vários
podem ser os efeitos: neutros, o que não parece provável; podem retirar votos a Marques Mendes que tanto podem ser ganhos ou divididos entre os “atacantes” e
quem se manteve à margem, como António
José Seguro,
ou mesmo André
Ventura.
Embora Gouveia e
Melo esteja agora focado em António
José Seguro, não parece que vá ter a mesma eficácia que
aparentemente teve com Marques Mendes. Não só porque António José Seguro se manteve sem responder, mas igualmente porque o
tipo de criticas que lhe são dirigidas são mais fáceis de ignorar do que as que
foram feitas a Marques Mendes.
Os ataques de Gouveia e Melo a Marques
Mendes são
muito difíceis de combater especialmente num país que valoriza pouco a
iniciativa privada. Não
o podendo acusar de tráfico de influências, que é um crime, o almirante
fixou-se pelas suspeições implícitas na expressão maldosa de “facilitador de negócios”.
Talvez a facilidade com que se lançou
para esses ataques, que nem André Ventura alguma vez ensaiou, seja explicada pela falta de
mundo de Gouveia e Melo,
já que não só teve uma única actividade profissional, como também tal exigiu de
si pouca amplitude de qualificações.
Um advogado que trabalhe para
empresas, como é suposto saber-se, tem nas suas tarefas a tradução da complexa
legislação que o país lamentavelmente tem, para lhes abrir o caminho nos
investimentos ou projectos que querem concretizar. Apenas e só se entrarem pela
via do tráfico de influências podem estes advogados ser acusados de estarem a
cometer um crime. Infelizmente
é muito difícil, se não impossível, explicar isso em campanha eleitoral marcada
por pinos, luvas de boxe e danças. E ainda a
mais difícil num país onde só a expressão “negócio” é
suficiente para começar a manchar qualquer um.
É a exploração desta fragilidade do país das mil e uma leis e regras
intrincadas, que torna necessária esta actividade dos advogados – e também
economistas –, e uma cultura ainda avessa aos negócios que podem explicar a
táctica desenhada por Gouveia e Melo para fragilizar o seu adversário Marques
Mendes.
Vamos ver se será eficaz.
Outro aspecto interessante
desta campanha é ver como André Ventura é racional e disciplinado na “persona”
que quer ter em cada momento. Mais moderado nos ataques do que é
habitual – quer
Gouveia e Melo
como Cotrim de Figueiredo foram bastante mais agressivos – , Ventura
tem poupado em primeiro lugar o almirante e a seguir António
José Seguro. E parece estar a garantir a entrada na segunda volta com boa parte
dos analistas a considerar que não terá hipótese, depois, de ganhar. Serão,
pensa-se, todos contra Ventura. A posição dúbia de Cotrim de Figueiredo já
esta semana, a não excluir votar Ventura na segunda volta, pode não dar assim tanta
certeza.
Vivemos de facto umas eleições
presidenciais muito interessantes, com a direita a parecer estar a jogar a
favor da esquerda e a esquerda a favor da direita. Em
1986 Mário Soares financiou Maria de Lurdes Pintasilgo para dividir o voto de
Salgado Zenha, como o próprio confessa no livro de Joaquim Vieira aqui citado. Os resultados e o passar do tempo vão permitir também
resolver algumas das perplexidades destas eleições presidenciais.
PRESIDENCIAIS ELEIÇÕES POLÍTICA
COMENTÁRIOS
José B Dias: ... falta de mundo de Gouveia e Melo, já que
não só teve uma única actividade profissional, como também tal exigiu de si
pouca amplitude de qualificações. Não sou ou fui apoiante do Almirante em quem
não irei garantidamente votar, mas a frase que reproduzo supra deixou-me a
remoer no que pensará a cronista sobre a amplitude de qualificações e mundo
de Ramalho Eanes, ou de de Gaulle, ou de Eisenhower ... Mas as explicações sobre o esforçado trabalho jurídico
de Marques Mendes na descomplicação das leis que ajudou a colocar em vigor
clarificou-me a mente. António
Lamas: Muito
bem analisado. A maior perplexidade de todas é como é que um país com
10.000.000 de habitantes só consegue arranjar este leque pífio de candidatos ao
mais alto cargo da Nação. Antonio Madureira: Excelente análise Américo
Silva: Em
dias assim, nublados, é arriscado montar éguas passarinheiras por caminhos
apertados, deitam o cavaleiro ao chão, por isso os clérigos preferiam as mulas.
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