Da nossa vida real, que gostamos, de certo modo, de achincalhar, evidenciando fraquezas humanas, como vaidades, ansiedades… Afinal, comuns a todos nós.
OBSERVADOR, 16/1/26
Faltam cinco minutos. O grupo de apoiantes que o acompanhou durante a tarde, numa arruada pelas ruas da sua terra natal, aproxima-se de Luís Marques Mendes, que acaba de beber um café. Todos juntos, olham fixamente para o ecrã de televisão que daí a pouco mostrará os resultados da sondagem mais animadora de toda a campanha. Se Mendes estivesse num qualquer hotel lisboeta em vez de numa pastelaria em Fafe, o cenário pareceria em tudo o de uma noite eleitoral: quando os números aparecem na televisão, há uns momentos de silêncio e depois uma salva de palmas para o candidato. Mendes aproxima-se, sorridente, dos jornalistas para reagir.
A cena aconteceu esta
quarta-feira, a meio da tarde, embora na caravana se soubesse pelo menos desde
a manhã que uma sondagem traria, pela primeira vez, boas notícias,
indicando a possibilidade de Mendes
passar à segunda volta, atrás de André Ventura. Para Mendes, a “confirmação”
do apoio que tem recebido na rua. Para elementos da equipa, um boost muito
necessário para alimentar os ânimos da caravana nesta recta final, mesmo que as sondagens sejam
contraditórias e que a conclusão mais optimista a tirar nesta altura seja mesmo
que está “tudo em
aberto”.
Neste caso, a sondagem
atribui 15,3% das intenções de voto a Mendes, ainda
muito abaixo da base eleitoral da AD, mas uma luz ao fundo do túnel para uma
campanha que ia recebendo más notícias sucessivas.
Além disso, a equipa continua focada em olhar para os 50% do eleitorado de Cotrim que admitem ainda mudar de
voto para Mendes — e
esta sondagem, cujo trabalho de campo foi feito já depois do dia horribilis de Cotrim,
pode representar um bom indicador nesse sentido.
Ainda assim, o gelo é muito
fino. E nesta altura é preciso jogar todos os trunfos possíveis.
De resto, logo de manhã Mendes chegava ao primeiro momento de contacto de
população do dia, em Arcos de Valdevez, com um anúncio na manga (que já estava
preparado há dias) para responder ao apelo de Cotrim para que Montenegro lhe
desse o seu apoio: o primeiro-ministro estaria com Mendes ao fim da tarde. O
apoio da linha oficial da AD não esmoreceria, mesmo que o partido “real” esteja
dividido e parte tenha mesmo migrado para as fileiras liberais.
Ora em Famalicão Montenegro
lançou o argumentário, dirigido directamente ao eleitorado da AD, que já se
começava a estruturar
na cabeça da campanha no dia anterior. “Pensem comigo”, pediu: «se o Chega, que representa pouco mais de 20%
da sociedade portuguesa, e Seguro (ou o candidato “da extrema-esquerda e do socialismo”) representa um espaço
de 25 a 30%, que sentido fará deixar o espaço maior, da “moderação, social-democracia,
democracia-cristã e liberalismo menos radical”, com 35% a 40%, de fora da
segunda volta?
“Vamos
aceitar que no domingo esse espaço, o mais representativo do pensamento
político do povo português, pode ficar fora da segunda volta? Não acham isso
estranho, incongruente, um exercício quase de masoquismo político?”,
disparou, sentenciando: “A forma de
não arriscar que os dois
extremos sejam os protagonistas por
que o espaço central se divide em excesso só se resolve se houver
concentração de votos”.
Seguro era assim reduzido a
outro candidato, como Ventura, do “extremo”,
numa altura em que a campanha de Mendes acredita que é preciso alertar os seus
eleitores: com
dispersão de votos, corre-se o risco de ter na segunda volta Ventura e “um socialista”. E Mendes é o
único candidato de direita que pode corrigir esse cenário, unindo o centro.
O
outro principal argumento de Montenegro também serviria para apelar ao
eleitorado da AD: os
outros candidatos, argumentou, querem levar para Belém “fins
partidários” e “projectos de governação encapotados”; já
Mendes quer “cooperar” com o projecto
que o Governo da AD está a executar. E, admitindo que Mendes “viveu dificuldades, é
verdade” nesta campanha, lançou o derradeiro apelo ao
voto: a base eleitoral natural para o ex-líder do PSD tem mesmo de acordar.
O tudo por tudo e o entusiasmo na rua
O dia trouxe, de resto,
vários bons momentos à campanha de Mendes,
onde o efeito da sondagem mais positiva era
visível na atitude de toda a equipa — e nos jovens do grupo “geração 26” que
acompanham sempre Mendes, e que se foram divertindo a cantar e dançar êxitos de
música pimba na rua, numa animação até agora pouco vista, ou pelo menos mais
discreta.
Em Arcos de Valdevez, o primeiro
banho de uma pequena multidão: Mendes sabia que o terreno seria favorável e acabou levado em ombros
pelos apoiantes que gritavam “vitória”, numa demonstração de força pelas ruas
do concelho. “Deus queira que
tenha sorte”, dizia uma das apoiantes que quiseram abraçar Mendes,
enquanto o rancho que o recebeu cantava que o candidato “nasceu em Guimarães e tem a bênção divina”.
Num comício improvisado no meio
da rua, o seu mandatário nacional, Rui Moreira,
discursou na “terra que dá sempre sorte” e aproveitou para disparar mais um tiro contra Cotrim: “Há campanhas, como a da IL, que têm dois amores e em nada são iguais — um dia querem
Ventura, noutro querem o PSD. Nós aqui queremos Mendes”,
atirou. Já o candidato aproveitou para frisar a ideia de que “está tudo em
aberto”, pelo que o esforço final “não é importante, é mesmo decisivo“.
Mais uma vez, insistia: as sondagens indicam que só metade dos
cidadãos têm o seu voto fidelizado; o resto admite mudar de opinião; há pelo
menos 15% de indecisos e “há uma candidatura” (a de Cotrim) em que metade dos potenciais votantes
admite mudar de candidato. “Está tudo nas nossas mãos”. Nas últimas horas, e com percentagens variáveis ou distâncias curtas
nas sondagens, é preciso dar tudo.
À chegada a Fafe,
terra natal que o recebeu com uma enchente ainda maior, um
apoiante gritava: “É de longe o melhor
candidato! Foi a bolha mediática que o eliminou!”. Havia quem agarrasse
a mulher de Mendes, Sofia, para garantir incessantemente que “vai correr bem”. Muitos abraços, muitos beijos, e uma mulher
que o seguia gritando com vigor “Mendes, amigo, o povo está contigo” chegou a
magoar-se devido ao entusiasmo: “Até trinquei a língua, caraças!”.
Em cima de um banco de jardim,
agarrado a um megafone para falar a quem o esperava, Mendes reforçou a mensagem: “Há sondagens para todos os gostos, não
tenham dúvidas de que está tudo em aberto, há que concentrar votos e unir”.
No final do dia, mostrava-se satisfeito em Famalicão, ao lado de Montenegro,
porque “a sondagem da rua começa a aparecer nas sondagens das televisões”.
Pode ser uma visão optimista,
até porque esteve a jogar em casa e, na verdade, ainda só um estudo
reflecte essa viragem que Mendes espera que aconteça até domingo. Mas era o
candidato que dizia hoje a uns estudantes com quem se cruzou, em época de
exames: “Nada de muito stress. Sempre
pensamento positivo“. E o mesmo conselho terá de se
aplicar ao próprio.
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GateKeeper Maria magazine.
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