Que jamais foram, afinal, postas em causa, nem convém que sejam, mitos
à parte: a do/a mais forte e a do/a mais fraco/a – salvo em caso de desrespeito,
proveniente de ingratidão, ou até só de esquecimento – muito comum, de resto, essencialmente
egocêntricos que somos, o que nem sempre é negativo – e Teseu que o diga, livre
das peias sentimentais em que o queria envolver a prestável e enleadora Ariane,
coitada, concluindo-se, assim, que o Homem é, de facto, o mais forte, o que lhe
traz vantagens pessoais estimulantes, como essa da liberdade, tantas vezes
traduzida por libertação. Daí que a liberdade da Ariane nem chegue a existir de
facto, no seu sacrifício vão, que não mereceu a empatia do sacudido e ingrato Teseu.
A lição de Ariadne
Se devemos exigir dos homens maior contenção e responsabilidade
porque são mais fortes, também devemos exigir das mulheres que reconheçam a sua
fragilidade e se responsabilizem pelo seu comportamento.
PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola
de Economia e Gestão da Universidade do Minho
OBSERVADOR, 12 jan. 2026, 00:18
1A idade dos heróis
A propósito de Héracles,
recordámos como os heróis gregos
cumpriam o papel primordial de eliminar os seres da velha ordem.
Em A grande história dos heróis
gregos, Stephen Fry
diz-nos:
“Os heróis limparam o nosso mundo de terrores ctónicos, monstros
nascidos da terra que punham em perigo a humanidade e ameaçavam estrangular o
crescimento da civilização. Enquanto
o ar, a terra e os mares estivessem infestados de dragões, gigantes, centauros
e monstros mutantes, nunca poderíamos espalhar-nos com confiança e transformar
o mundo selvagem num lugar de segurança para a humanidade.”
Estamos num período da história em que o Mythos vai, aos
poucos, cedendo lugar ao Logos, pelo
que os mitos revelam como os Gregos se começam a entender e a conceptualizar
o mundo:
“[são] representações da
maneira como os gregos
se caracterizavam como campeões da ordem e da civilização contra as hordas
caóticas de barbarismo e monstruosidade. O que também faz deles representações narrativas da
luta pelo domínio dos instintos selvagens, dos elementos obscuros e perigosos
da natureza humana.”
É nesta idade dos heróis, para apelar
à clássica divisão de Hesíodo, que Héracles surge; mas é também o tempo de um outro
herói, seu primo e figura mítica de Atenas: Teseu.
Na sua viagem para anunciar a Egeu que
é seu filho, o jovem procura imitar as aventuras
de Héracles,
derrotando Perifetes,
Sínis, a Porca de Crómion, Círon, Cércion e Procrustes. Chegado
a Atenas, teve ainda de capturar o
Touro de Maratona (o mesmo
que Héracles tomou na sua sétima tarefa), e fá-lo de uma forma que tem
sido entendida como a origem das modernas touradas – nesse exercício de respeito pelo animal que
representa a força vital da terra e que os homens procuram dominar.
Tal como Héracles, afastou ameaças de gigantes e bandidos.
Mas a
verdadeira provação encontrou-a no labirinto
do Minotauro.
2Amor e engano
Algum tempo depois de chegar a
Atenas, Teseu descobriu que a cidade estava
obrigada a pagar um tributo violentíssimo ao rei de Creta: de
acordo com a maioria das versões, Atenas
teria de enviar,
todos os anos, sete donzelas e sete mancebos para que alimentassem o Minotauro que residia no labirinto
criado por Dédalo (o grande inventor) em Cnossos. Trata-se de um
dos mais famosos mitos, e que José Pedro Serra recorda aqui.
A história do Minotauro envolve
os tradicionais elementos da mitologia grega: o rei Minos pede aos deuses que lhe
enviem uma prova de que ele é o rei legítimo de Creta e Poseidon faz sair do
mar um touro lindíssimo (o mesmo
touro que já referi), que Minos deveria sacrificar ao deus dos mares. Contudo,
maravilhado com a sua beleza, Minos troca
esse belo touro por outro menos belo, o que
desperta a fúria de Poseidon fazendo
com que a mulher de
Minos, Parsifae, se apaixone pelo belo animal e peça a Dédalo para criar um
artefacto que lhe permita acasalar com ele. Desse acto nasce um ser misto, meio homem meio touro, Astério, mais conhecido como Minotauro, que, dada
a sua violência, vive no
labirinto criado por Dédalo para o efeito.
É neste labirinto que são colocados
os jovens atenienses que servem como tributo (por razões de morte, guerra e
vingança, que não cabe agora descrever). Diz-se que não é
possível sair do labirinto e que todos os que entram acabam por ser mortos e
comidos pelo Minotauro. Mas Teseu, cumprindo
o seu papel de herói, oferece-se para ser um dos jovens enviados.
À chegada à ilha, é visto por Ariadne, a
filha de Minos, que se
apaixona loucamente por ele e se dispõe a ajudá-lo: oferece-lhe
um novelo – o conhecido fio de Ariadne – que lhe permite sair do labirinto.
Teseu é naturalmente
responsável pelo sucesso na provação: ele mata o Minotauro. Mas não teria conseguido sair do labirinto sem a ajuda de Ariadne e quando foge de regresso a Atenas
leva-a consigo. Ariadne tinha, provavelmente, a expectativa
de que seria bem recebida em Atenas e que o príncipe a tomaria como sua mulher,
mas a meio do caminho param na ilha de Naxos, onde pernoitam, e quando acorda percebe que Teseu desapareceu e o barco que os transportava já se
encontra longe.
Em Ariadne,
Jennifer Saint coloca na boca da jovem:
“Que seria pior? Que Teseu
tivesse morrido ou que me tivesse abandonado? Os meus joelhos cederam. A areia
era áspera e saibrosa contra a minha pele nua, o tecido à minha volta rasgado e
manchado da minha descida pela encosta abaixo. Gritei o mais alto que pude ao
ponto negro desbotado, gritei até conseguir saborear sangue.”
3A lição de Ariadne
As versões mais favoráveis a Teseu (nomeadamente, as atenienses na defesa
do seu herói) justificam o abandono com a
vontade de Dioniso: Ariadne seria sua prometida ou
tornou-se sua desejada, pelo que o deus
teria obrigado Teseu a dispensá-la desta
forma. Mas já sabemos como os desejos e as vontades dos
deuses são usados para justificar os comportamentos humanos, e o que podemos
aprender com esta história não é certamente que Dioniso pode aparecer-nos em
sonhos e ordenar-nos o que fazer. A
lição é outra.
Lembrei-me de Ariadne quando ouvi, recentemente, um episódio
da História do
dia sobre se as aplicações de encontro podem “potenciar
as agressões contra mulheres”. A pergunta só pode ser retórica,
mas o mais interessante é o facto de, em nenhum momento do episódio, se
conseguir dizer o óbvio: é claro
que este tipo de ferramentas coloca quem é fisicamente mais fraco numa posição
de fragilidade, pelo que as mulheres deveriam ter especial cuidado no seu uso.
Sim, eu sei que este tipo de argumento se parece com “culpar a vítima”, mas a verdade deve
prevalecer sobre esse tipo de preocupações. Se temos um instrumento que nos
apresenta (a homens e a mulheres) como pedaços de carne ou mercadoria que
podemos descartar a qualquer momento sem sofrer responsabilização moral ou
social, estamos à espera de quê? E se temos uma ferramenta que
gera aquilo que se tem designado como o paradoxo da escolha (quanto
mais opções, menos satisfeitos nos sentimos com a escolha que fazemos), que tipo de comportamento é estimulado?
E
se homens e mulheres evoluíram psicologicamente para responder de forma
diferente às necessidades sexuais e de reprodução, quem é que é favorecido por
este tipo de aplicações? E para quem será mais perigosa esta coisa do “casual
sex”?
No seu magnífico livro The case against the sexual
revolution (como é possível ainda nenhuma
editora ter pegado nesta tradução?), Louise Perry nota os
perigos da solução tecnológica e recorda os modos tradicionais pelos
quais as pessoas se conheciam e iniciavam uma relação: família
e amigos serviram tradicionalmente para nos proteger de situações perigosas ou
inadequadas, funcionando como guardiães. Não garantem segurança absoluta, mas oferecem uma segurança certamente maior do
que “conhecer” alguém numa app de encontro.
A lição que Ariadne nos dá é a de que
homens e mulheres são diferentes, desejam coisas diferentes e priorizam coisas
diferentes. E se
devemos exigir dos homens maior
contenção e responsabilidade porque
são mais fortes, também
devemos exigir das mulheres
que reconheçam a sua fragilidade e se responsabilizem pelo
seu comportamento.
Exige disciplina num mundo em que nos
dizem todos os dias que devemos ser livres para fazer o que nos apetece e
estamos rodeados de tecnologia que o permite? Exige, mas não é impossível e Ulisses pode ajudar.
COMPORTAMENTO SOCIEDADE HOMEM MULHER SEXISMO DESIGUALDADE
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