segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Leis eternas


Que jamais foram, afinal, postas em causa, nem convém que sejam, mitos à parte: a do/a mais forte e a do/a mais fraco/a – salvo em caso de desrespeito, proveniente de ingratidão, ou até só de esquecimento – muito comum, de resto, essencialmente egocêntricos que somos, o que nem sempre é negativo – e Teseu que o diga, livre das peias sentimentais em que o queria envolver a prestável e enleadora Ariane, coitada, concluindo-se, assim, que o Homem é, de facto, o mais forte, o que lhe traz vantagens pessoais estimulantes, como essa da liberdade, tantas vezes traduzida por libertação. Daí que a liberdade da Ariane nem chegue a existir de facto, no seu sacrifício vão, que não mereceu a empatia do sacudido e ingrato Teseu.

A lição de Ariadne

Se devemos exigir dos homens maior contenção e responsabilidade porque são mais fortes, também devemos exigir das mulheres que reconheçam a sua fragilidade e se responsabilizem pelo seu comportamento.

PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

OBSERVADOR, 12 jan. 2026, 00:18

 

1A idade dos heróis

A propósito de Héracles, recordámos como os heróis gregos cumpriam o papel primordial de eliminar os seres da velha ordem. Em A grande história dos heróis gregos, Stephen Fry diz-nos:

 “Os heróis limparam o nosso mundo de terrores ctónicos, monstros nascidos da terra que punham em perigo a humanidade e ameaçavam estrangular o crescimento da civilização. Enquanto o ar, a terra e os mares estivessem infestados de dragões, gigantes, centauros e monstros mutantes, nunca poderíamos espalhar-nos com confiança e transformar o mundo selvagem num lugar de segurança para a humanidade.”

Estamos num período da história em que o Mythos vai, aos poucos, cedendo lugar ao Logos, pelo que os mitos revelam como os Gregos se começam a entender e a conceptualizar o mundo:

“[são] representações da maneira como os gregos se caracterizavam como campeões da ordem e da civilização contra as hordas caóticas de barbarismo e monstruosidade. O que também faz deles representações narrativas da luta pelo domínio dos instintos selvagens, dos elementos obscuros e perigosos da natureza humana.”

É nesta idade dos heróis, para apelar à clássica divisão de Hesíodo, que Héracles surge; mas é também o tempo de um outro herói, seu primo e figura mítica de Atenas: Teseu. Na sua viagem para anunciar a Egeu que é seu filho, o jovem procura imitar as aventuras de Héracles, derrotando Perifetes, Sínis, a Porca de Crómion, Círon, Cércion e Procrustes. Chegado a Atenas, teve ainda de capturar o Touro de Maratona (o mesmo que Héracles tomou na sua sétima tarefa), e fá-lo de uma forma que tem sido entendida como a origem das modernas touradasnesse exercício de respeito pelo animal que representa a força vital da terra e que os homens procuram dominar.

Tal como Héracles, afastou ameaças de gigantes e bandidos. Mas a verdadeira provação encontrou-a no labirinto do Minotauro.

2Amor e engano

Algum tempo depois de chegar a Atenas, Teseu descobriu que a cidade estava obrigada a pagar um tributo violentíssimo ao rei de Creta: de acordo com a maioria das versões, Atenas teria de enviar, todos os anos, sete donzelas e sete mancebos para que alimentassem o Minotauro que residia no labirinto criado por Dédalo (o grande inventor) em Cnossos. Trata-se de um dos mais famosos mitos, e que José Pedro Serra recorda aqui.

A história do Minotauro envolve os tradicionais elementos da mitologia grega: o rei Minos pede aos deuses que lhe enviem uma prova de que ele é o rei legítimo de Creta e Poseidon faz sair do mar um touro lindíssimo (o mesmo touro que já referi), que Minos deveria sacrificar ao deus dos mares. Contudo, maravilhado com a sua beleza, Minos troca esse belo touro por outro menos belo, o que desperta a fúria de Poseidon fazendo com que a mulher de Minos, Parsifae, se apaixone pelo belo animal e peça a Dédalo para criar um artefacto que lhe permita acasalar com ele. Desse acto nasce um ser misto, meio homem meio touro, Astério, mais conhecido como Minotauro, que, dada a sua violência, vive no labirinto criado por Dédalo para o efeito.

É neste labirinto que são colocados os jovens atenienses que servem como tributo (por razões de morte, guerra e vingança, que não cabe agora descrever). Diz-se que não é possível sair do labirinto e que todos os que entram acabam por ser mortos e comidos pelo Minotauro. Mas Teseu, cumprindo o seu papel de herói, oferece-se para ser um dos jovens enviados. À chegada à ilha, é visto por Ariadne, a filha de Minos, que se apaixona loucamente por ele e se dispõe a ajudá-lo: oferece-lhe um noveloo conhecido fio de Ariadne que lhe permite sair do labirinto.

Teseu é naturalmente responsável pelo sucesso na provação: ele mata o Minotauro. Mas não teria conseguido sair do labirinto sem a ajuda de Ariadne e quando foge de regresso a Atenas leva-a consigo. Ariadne tinha, provavelmente, a expectativa de que seria bem recebida em Atenas e que o príncipe a tomaria como sua mulher, mas a meio do caminho param na ilha de Naxos, onde pernoitam, e quando acorda percebe que Teseu desapareceu e o barco que os transportava já se encontra longe.

Em Ariadne, Jennifer Saint coloca na boca da jovem:

“Que seria pior? Que Teseu tivesse morrido ou que me tivesse abandonado? Os meus joelhos cederam. A areia era áspera e saibrosa contra a minha pele nua, o tecido à minha volta rasgado e manchado da minha descida pela encosta abaixo. Gritei o mais alto que pude ao ponto negro desbotado, gritei até conseguir saborear sangue.”

3A lição de Ariadne

As versões mais favoráveis a Teseu (nomeadamente, as atenienses na defesa do seu herói) justificam o abandono com a vontade de Dioniso: Ariadne seria sua prometida ou tornou-se sua desejada, pelo que o deus teria obrigado Teseu a dispensá-la desta forma. Mas já sabemos como os desejos e as vontades dos deuses são usados para justificar os comportamentos humanos, e o que podemos aprender com esta história não é certamente que Dioniso pode aparecer-nos em sonhos e ordenar-nos o que fazer. A lição é outra.

Lembrei-me de Ariadne quando ouvi, recentemente, um episódio da História do dia sobre se as aplicações de encontro podempotenciar as agressões contra mulheres”. A pergunta só pode ser retórica, mas o mais interessante é o facto de, em nenhum momento do episódio, se conseguir dizer o óbvio: é claro que este tipo de ferramentas coloca quem é fisicamente mais fraco numa posição de fragilidade, pelo que as mulheres deveriam ter especial cuidado no seu uso.

Sim, eu sei que este tipo de argumento se parece com “culpar a vítima”, mas a verdade deve prevalecer sobre esse tipo de preocupações. Se temos um instrumento que nos apresenta (a homens e a mulheres) como pedaços de carne ou mercadoria que podemos descartar a qualquer momento sem sofrer responsabilização moral ou social, estamos à espera de quê? E se temos uma ferramenta que gera aquilo que se tem designado como o paradoxo da escolha (quanto mais opções, menos satisfeitos nos sentimos com a escolha que fazemos), que tipo de comportamento é estimulado? E se homens e mulheres evoluíram psicologicamente para responder de forma diferente às necessidades sexuais e de reprodução, quem é que é favorecido por este tipo de aplicações? E para quem será mais perigosa esta coisa do “casual sex”?

No seu magnífico livro The case against the sexual revolution (como é possível ainda nenhuma editora ter pegado nesta tradução?), Louise Perry nota os perigos da solução tecnológica e recorda os modos tradicionais pelos quais as pessoas se conheciam e iniciavam uma relação: família e amigos serviram tradicionalmente para nos proteger de situações perigosas ou inadequadas, funcionando como guardiães. Não garantem segurança absoluta, mas oferecem uma segurança certamente maior do que “conhecer” alguém numa app de encontro.

A lição que Ariadne nos dá é a de que homens e mulheres são diferentes, desejam coisas diferentes e priorizam coisas diferentes. E se devemos exigir dos homens maior contenção e responsabilidade porque são mais fortes, também devemos exigir das mulheres que reconheçam a sua fragilidade e se responsabilizem pelo seu comportamento.

Exige disciplina num mundo em que nos dizem todos os dias que devemos ser livres para fazer o que nos apetece e estamos rodeados de tecnologia que o permite? Exige, mas não é impossível e Ulisses pode ajudar.

COMPORTAMENTO      SOCIEDADE      HOMEM      MULHER      SEXISMO      DESIGUALDADE

 

Nenhum comentário: