Incluo-me no
grupo.
Porque apoio João Cotrim
Figueiredo
É
bom lembrar que o liberalismo nasceu como resposta a uma questão central da
modernidade: como organizar a vida em sociedade protegendo a liberdade
individual num mundo de poder político concentrado?
JOSÉ LUÍS DA CRUZ VILAÇA Professor
universitário aposentado, advogado e antigo juiz do Tribunal de Justiça da
União Europeia
OBSERVADOR, 15 jan. 2026, 00:152
Após uma experiência política
activa, nos
tempos desafiantes em que se formou a Aliança Democrática, para mudar o rumo de
desnorte que o país seguia e abri-lo a uma nova modernidade na Comunidade
Europeia a que aspirávamos pertencer — mantive uma participação política
discreta.
A tanto me forçavam, para além das funções que exerci no Tribunal de
Justiça da União Europeia, a necessidade de cuidar de uma potencial carreira
académica que mal se iniciara e de estruturar uma vida profissional que
assegurasse sustento e independência familiar.
Mas mantive-me fiel à minha
estrutura de valores democratas-cristãos e socio-liberais que constituem o
essencial da minha formação política e norteiam o meu comportamento na vida.
O meu único
partido foi o CDS; o
espaço político em que intervim foi, essencialmente, a Aliança Democrática de 1980 a 1983, e por eles dei a cara quando foi preciso. Fiz parte dos
três governos da AD dessa altura. No
primeiro, tive o privilégio de trabalhar com Francisco Sá Carneiro, que me
honrou com a sua confiança quando, como primeiro-ministro, me confiou a tarefa
de começar a preparar, em 11 meses, aquilo a que, hoje em dia, se chamaria a reforma do Estado.
A admiração que tenho por Sá
Carneiro é, felizmente, partilhada por muita gente, de muito diversos
quadrantes políticos. Considero isso apenas mais uma prova da estatura
política, pessoal e moral desse grande Homem.
Posso dizer que, como Francisco Lucas Pires, João Morais Leitão, Manuel
Cavaleiro Brandão e outros, me inscrevia no que poderia considerar-se a ala liberal da
democracia-cristã.
Muitos se lembrarão ainda do Grupo de Ofir e do
contributo que deu para a formação, ou renovação, de um pensamento humanista,
personalista, liberal e reformista que desse apoio à prática política.
Nestas eleições presidenciais,
saio desse recato e apoio convictamente João Cotrim
de Figueiredo.
Esta foi uma decisão reflectida e
amadurecida, mas muito clara. Não
houvesse Cotrim de Figueiredo apresentado a sua candidatura, não me teria
sentido visceralmente incomodado por ter de limitar a escolha a três dos
restantes candidatos actuais. A dois deles, aliás, ligam-me laços
particulares de estima pessoal ou de afinidade institucional.
Mas Cotrim de
Figueiredo é candidato! E isso muda tudo.
Nesta eleição, está em causa a
escolha, singular, da pessoa que vai ocupar o cargo de topo da estrutura
constitucional portuguesa.
No excelente artigo que publicou
há poucos dias no Observador sobre “Virtudes presidenciais”, Gonçalo de Almeida Ribeiro, apoiando-se numa análise comparada de
vários sistemas constitucionais, similares ou diferentes do nosso, explicou as
razões por que entendia que João Cotrim de Figueiredo era o melhor candidato a
Presidente da República.
Para efeitos deste texto – e
sublinhando a importância da escolha a fazer –, basta-me recordar a síntese que, da função presidencial,
se faz no artigo 120.º da nossa Constituição: “O Presidente da República
representa a República Portuguesa, garante a independência nacional, a unidade
do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas e é, por
inerência, Comandante Supremo das Forças Armadas.”
Este simples enunciado chega para
perceber a dimensão da
responsabilidade que pesa sobre os ombros do Presidente da República. Por isso
é que, em vez de o fazermos eleger pelo Parlamento, ou por um qualquer
colégio eleitoral, entregámos a sua escolha a todos os portugueses,
cidadãos residentes ou não no território nacional, por sufrágio universal,
direto e secreto.
Não se elege um Presidente da República por sufrágio
directo e universal para cortar fitas em “exposições de crisântemos”! Mas é bom que o escolhido tenha a soma de qualidades
que a dimensão da tarefa impõe.
Antes de mais, Cotrim de Figueiredo tem um
pensamento político e social solidamente estruturado à volta de princípios,
ideais e valores que partilho.
Este é um ponto importante e o
primeiro que eu gostaria de sublinhar: a consistência da sua base de ideias e
princípios para a vida em sociedade.
Convém lembrar que o liberalismo nasceu como
resposta a uma questão fundamental da modernidade: como organizar a vida em
sociedade protegendo a liberdade individual num mundo de poder político
concentrado?
Para isso, o
pensamento liberal foi-se estruturando, desde o século XVII, à volta de três
intuições que podem considerar-se comuns: (i) o indivíduo é portador de
direitos anteriores ao Estado; (ii) o poder político deve ser
legítimo e limitado; (iii) a liberdade é um valor
central, mas plural e contrastado.
A partir
destas bases, o liberalismo evoluiu, diversificou-se e adaptou-se às transformações sociais, económicas e
institucionais, mantendo-se como o eixo
normativo das democracias constitucionais contemporâneas.
O liberalismo
político começou com John Locke
(séculos XVII-XVIII), assente nas ideias de que os indivíduos possuem direitos naturais (vida,
liberdade, propriedade), de que o Estado decorre de um contrato social para
proteger esses direitos e de que o poder político é condicionado pelo consentimento dos governados.
A aprovação de
uma constituição, a separação
de poderes, o direito de
resistir à tirania são componentes essenciais desse contrato social.
John Stuart Mill
(séc. XIX) estabeleceu uma relação determinante entre a liberdade individual, por um
lado, e a felicidade e o desenvolvimento moral e intelectual do ser humano, por
outro. Acrescentou que a liberdade de cada um só poder ser limitada pela
liberdade dos outros (e
para evitar prejuízo a terceiros), que a liberdade
de expressão deve ser preservada, mesmo para ideias falsas ou ofensivas, e que a diversidade de estilos de
vida deve ser valorizada como motor do progresso social. Qualquer tirania da maioria deve ser evitada como
condição para proteger os direitos individuais, o pluralismo da sociedade e os
direitos das minorias.
Por sua vez, Isaiah Berlin (séc. XX)
introduziu a distinção fundamental
entre liberdades negativas (ausência de
coerção) e liberdades
positivas (capacidade de autodeterminação), acentuando, além disso, o pluralismo de valores, funcionando a democracia liberal como um
sistema de escolhas livres (não de soluções perfeitas) destinado a gerir e
harmonizar, na medida do possível, objectivos e valores conflituantes.
No séc. XX, também, Karl Popper acentuou a noção de “sociedade aberta”, como espaço de crítica e escolhas livres, com instituições susceptíveis
de aperfeiçoamento e alternância pacífica do poder, recusando o determinismo
marxista de leis históricas inelutáveis e de projetos políticos que,
prometendo a redenção final, conduzem à opressão. John Rawls procurou conciliar liberdade com justiça social,
igualdade de oportunidades e protecção dos mais desfavorecidos, no quadro de um
Estado social e democrático. Friedrich Hayek defendeu o mercado contra a
ameaça à liberdade representada pelos sistemas de planeamento central: o conhecimento é atomístico e imperfeito
e o mercado é,
basicamente, um mecanismo de coordenação espontânea das escolhas livres dos
indivíduos. As modernas teorias e políticas da
concorrência têm-se encarregado de procurar mecanismos que evitem distorções e
abusos e defendam o mercado dos seus inimigos (cartéis, abusos de posição
dominante). Ronald Dworkin aprofundou a dimensão jurídica do
liberalismo, reforçando a importância de democracias constitucionais fortes, de
tribunais independentes e de uma justiça constitucional capaz de assegurar uma
protecção eficaz e coordenada dos direitos fundamentais de todos.
Enfim, Ralph Dahrendorf, numa leitura sociológica do liberalismo, sublinhou a
importância de instituições que canalizem os conflitos na sociedade,
sendo a democracia
um processo aberto, nunca concluído: liberalismo
não é, necessariamente, consenso, mas a institucionalização do dissenso.
Em suma: a
democracia liberal não promete sociedades perfeitas, mas oferece algo mais
realista e precioso: instituições que nos permitam viver juntos em liberdade, dignidade e
respeito pelos outros.
A obra destes verdadeiros “maîtres à penser” (e de muitos outros, basta lembrar Adam Smith, David Ricardo e,
muito mais tarde, os teóricos da escola da “public choice”) marcou a evolução e o desenvolvimento das democracias
ocidentais e, sem ela, não é possível compreender a sociedade contemporânea e
os seus problemas. A sua
importância exprime-se, desde logo, nisto: nenhum país ou sistema político
autocrático, corrupto ou ditatorial foi inspirado em qualquer deles! Convém ter isso presente
quando se escolhe um Chefe de Estado num Estado de Direito e numa democracia
constitucional da era moderna.
Cotrim de
Figueiredo leu-os, estudou-os e pensou-os.
Demonstram-no as páginas de
entrada do seu livro autobiográfico “Porque sou Liberal – Percursos de um político acidental”, Zigurate, Lisboa 2025, onde Cotrim de Figueiredo se explica ao
eleitorado e se apresenta, nas suas origens, no seu quadro familiar e
profissional, no seu processo de formação e de crescimento pessoal. Cita,
aliás, uma frase atribuída a Benjamin Constant, filósofo liberal francês dos séculos
XVIII/XIX que é reveladora do seu carácter: “O primeiro dever de qualquer liberal é melhorar-se a si próprio”.
Cotrim de Figueiredo preparou-se, nas melhores escolas, para uma
vida de combate e ascensão. Mas, como se torna evidente ao ouvi-lo, está longe
de ser um académico ou um literato envolvido nas suas abstracções.
Aliás, esta eleição – e, nela,
o voto em Cotrim de Figueiredo – não é apenas uma questão de ideias
(essenciais); é também de pessoas (mais essenciais ainda).
A pessoa de João Cotrim de Figueiredo, tanto como as suas ideias sobre a política
e a sociedade, inspira-me a maior
confiança como candidato a Presidente da República. As razões para isso
são, certamente, muito semelhantes às que têm
levado, a este ponto da campanha eleitoral, um número cada vez maior de
eleitores a descobrir quem é Cotrim de Figueiredo e a apontar o seu voto para
ele.
É um homem de
convicções, mas é um homem livre de amarras políticas, financeiras ou quaisquer
outras, confessáveis ou inconfessáveis, que o condicionassem.
Tem uma larga experiência parlamentar, antes de mais no Parlamento
português, onde, de deputado isolado, viu crescer, rápida e significativamente,
a representação do seu partido. Mas o partido de que foi líder tem a juventude que é a
cara de quem o rodeia, a transparência de um mercado competitivo e a leveza de
uma estrutura que não criou vícios nem se habituou a sinecuras.
Conhece o mundo e os seus imensos matizes e tem dele
uma visão cultural e apreendida no contacto, seja através do pragmatismo
analítico anglo-saxónico, da leveza elegante da cultura francesa ou da
profundeza lógica do espírito alemão.
Fala línguas – várias,
o que é fundamental para quem tenha a seu cargo a representação externa da
República Portuguesa – e não tem papas na língua, como bem ilustram os debates
e entrevistas ao longo da campanha e da pré-campanha eleitorais.
Chegou ao Parlamento Europeu, onde, integrado no grupo Renovar a Europa (Renew Europe), de que é vice-presidente, se familiarizou
com as subtilezas e complexidades do funcionamento das instituições europeias.
Mas tem também, atrás de si, uma vida profissional activa, diversificada e
bem-sucedida no mundo da economia e da gestão. É
isso que lhe permite perceber perfeitamente quais são os factores de que
dependem o progresso, o crescimento e o dinamismo de uma economia como a
portuguesa, indispensáveis ao bem-estar e à satisfação – à felicidade, em suma
– de toda uma população.
Não se limitou, porém, ao sector privado, tendo feito
uma bem-sucedida incursão pelo sector público, como presidente do Conselho Directivo
do Turismo de Portugal.
O seu inconformismo reformista e inovador cria, naturalmente, um óbvio apelo junto
das gerações de eleitores jovens e activos, mas a sua empatia e sentido social
levam os mais velhos a ver nele, cada vez mais, um protector vigoroso e eficaz
dos seus direitos e curador das suas queixas. É lógico que, pela sua
idade e espírito aglutinador, todos vejam nele uma sólida
ponte entre gerações, capaz de encarnar a solidariedade intergeracional de que
Portugal precisa.
Cotrim de
Figueiredo sabe que, como
Presidente da República não vem para governar ou substituir-se ao governo no
exercício de funções executivas. Mas a experiência política e profissional de quem se habituou a definir
objectivos, gerir conflitos e motivar grupos complexos de pessoas qualifica-o
particularmente para ser exigente e galvanizador nas suas relações com os outros
órgãos de Estado e com os portugueses em geral.
Conhecendo perfeitamente a
importância de instituições políticas e sociais sólidas e legitimadas pela
aceitação popular para arbitrar conflitos na sociedade, veria, com todo o gosto, João Cotrim de Figueiredo no topo do Estado
Português, motivando, inspirando e orientando os portugueses, pela palavra e
pelo exemplo, no mar tempestuoso de uma sociedade internacional em plena
transformação e em situação de perigosa instabilidade e imprevisibilidade. E
num país que precisa de crescimento e mudança.
Parafraseando um slogan político
que teve curso e sucesso em eleições francesas de há alguns anos, e que aqui me
parece muito mais justificado, do que
Portugal precisa é da “força tranquila” de João Cotrim de Figueiredo.
PRESIDENCIAIS
2026 ELEIÇÕES POLÍTICA JOÃO COTRIM
DE FIGUEIREDO INICIATIVA
LIBERAL
COMENTÁRIOS:
João Almeida Gomes: Cotrim é o candidato de que Portugal precisa para reformar as mentalidades,
a justiça, a saúde e o estado social sustentável. A alternativa é um socialista
do tempo de Sócrates.
Cisca Impllit: Um apoio muito bom. Fundamentado e explicado.
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