terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Um texto indutor

 

De atenção humanitária, a propósito, ainda, de um holocausto que se impôs no mundo, para espanto perpétuo da humanidade. Como será, amanhã? Saberá o Homem travar instintos, em meio de tanta hipótese científica admirável, conquanto perigosamente despoletadora de tendências experienciais terríficas, caso se imponha a insensatez humana, por via de um qualquer outro Hitler macabro, ou por outra circunstância surgida da mente humana sempre pródiga … Mas espero que mais na virtude do que no pecado - este, felizmente, ainda passível de penitência, ou de prevenção, hoje … Porque amanhã…“Domani è troppo tardi”…

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O coração ainda pode triunfar?

A poesia irrompe no lugar onde tudo parecia proibido. Não é a poesia que trai Auschwitz; é o silêncio absoluto que consumaria a vitória dos carrascos. O canto prova que a alma não pode ser encarcerada

PE. RICARDO FIGUEIREDO Director do Departamento da Comunicação do Patriarcado de Lisboa. Doutorado em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa

OBSERVADOR, 26 jan. 2026, 00:156

Em 2025 estreou Triumph of the Heart (Triunfo do Coração), do realizador Anthony D’Ambrosio – um filme que não se limita a narrar um episódio histórico, mas ousa enfrentar uma das perguntas mais difíceis do século XX (e do nosso tempo)o que resta do homem quando tudo lhe é retirado? É esta questão que ressurge, sobretudo, quando se assinala o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

A resposta é dada num espaço mínimo e extremo: um bunker de Auschwitz, onde dez homens são condenados a morrer à fome e à sede como represália pela fuga de um prisioneiro. O fio condutor é um gesto histórico e teologicamente explosivo: o de São Maximiliano Maria Kolbe (1894-1941), frade franciscano que se oferece para morrer no lugar de um pai de família. Mas o filme não se detém apenas no heroísmo do mártir. O seu verdadeiro risco artístico é outro: imaginar, com rigor e humanidade, o que acontece entre aquelas quatro paredes enquanto a morte se aproxima.

O que ali se expõe é a condição humana no seu grau zero. O espectador reconhece, quase palavra por palavra, aquilo que Primo Levi descreveu em Se Questo è un Uomo (Se isto é um homem): a experiência do fundo absoluto, onde já não há posse, identidade ou linguagem capaz de exprimir a desumanização sofrida – «Chegámos ao fundo. Mais para baixo do que isto, não se pode ir: já não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão e, se nos escutassem, não nos perceberiam» (Dom Quixote, 2013, p. 26). Auschwitz revelou ao mundo uma verdade terrível: o homem pode ser destruído. Não de forma súbita, mas metodicamente, até restar apenas um corpo esvaziado de sentido: «Destruir o homem é difícil, quase tanto quanto criá-lo; não foi fácil, não foi rápido, mas os alemães conseguiram-no» (p. 160).

É precisamente aí que Triumph of the Heart se torna desconcertante. No interior daquele inferno, o filme recusa a tese – tantas vezes repetida – de que o sofrimento absoluto anula definitivamente a possibilidade de sentido. Pelo contrário: mostra que, mesmo quando tudo parece perdido, permanece uma última liberdade – a de não consentir em morrer como animal.

O diálogo entre os prisioneiros confronta-nos com o drama moderno da morte de Deus. Um deles afirma-o sem rodeios: «Deus está morto. Eles mataram-n’O no primeiro bombardeamento». A conclusão parece lógica: se a vida perdeu o sentido, resta apenas antecipar o fim. É aqui que a figura do Padre Kolbe irrompe como escândalo. Não como moralista, mas como homem livre. «Somos homens ou somos gado?», pergunta ele. E acrescenta algo decisivo: «Temos as nossas vozes. Elas são as únicas armas de que precisamos para que façamos os nossos últimos dias valerem a pena».

Esta frase é o coração do filme.

A viragem narrativa não acontece com um discurso teórico, mas com canto. A Salvé Rainha, aprendida na infância, rompe o silêncio do bunker. Outros acompanham. Depois, o hino da Polónia. A poesia irrompe no lugar onde tudo parecia interdito. E, nesse instante, percebe-se que Theodor W. Adorno estava, afinal, parcialmente errado. Não é a poesia que trai Auschwitz; é o silêncio absoluto que consumaria a vitória dos carrascos. O canto prova que a alma não pode ser encarcerada.

Mais ainda: o filme desmonta, de forma implícita, mas poderosa, o imaginário do existencialismo ateu. Em Huis Clos (À porta fechada), de Jean-Paul Sartre, o espaço fechado sem saída torna-se metáfora de um mundo sem transcendência, onde o outro é ameaça e o inferno são os outros. Em Triumph of the Heart, o espaço fechado é real, mas o resultado é outro. Quando Deus não é expulso da cela, o outro deixa de ser inimigo e pode tornar-se salvação. O inferno não tem a última palavra.

O filme afirma, sem slogans, algo profundamente contracultural: a fé não é um acessório psicológico para tempos fáceis, mas uma dimensão estrutural do humano. O homem é, por natureza, um ser aberto ao infinito. Quando essa abertura é negada, resta a violência, o desespero ou o niilismo. Quando é acolhida – mesmo no mais profundo dos abismosabre-se um espaço inesperado de comunhão.

O gesto do Padre Kolbe funda uma «milícia» sem armas, sem pagamento, sem poder. Apenas com vozes, oração e responsabilidade uns pelos outros. E é nessa pobreza radical que se dá o verdadeiro triunfo do coração: não a vitória biológica sobre a morte, mas a vitória espiritual sobre a desumanização.

Triumph of the Heart não é um filme fácil, nem pretende sê-lo. Mas é um filme necessário. Num tempo em que novas ideologias prometem redenção sacrificando o humano, esta obra recorda-nos que o Céu pode abrir-se mesmo no inferno terreno – e que, no fim, triunfar não é sobreviver, mas amar até ao extremo.

Como diz uma das últimas frases do filme, com uma sobriedade devastadora: «Quero que saibas que, de alguma maneira, neste final feio, triunfámos». É uma lição para o nosso tempo. E um apelo que não pode ser ignorado.

O filme pode ser alugado online, com áudio em inglês e com legendas em inglês, francês, espanhol e polaco. Infelizmente, ainda não contamos com uma versão portuguesa. O acesso ao filme faz-se através do seguinte endereço: www.triumphoftheheart.com

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COMENTÁRIOS

 Lily Lu: Que belo!                  Jorge Barbosa: Caro Padre Ricardo, agradecendo este seu contributo para se manterem bem vivas as escabrosas atrocidades nazis, o que lamento é que outras atrocidades igualmente criminosas contra os nossos idosos agora atirados para prisões chamadas de lares, estejam à vista de todos os cidadãos, e nada aconteça para se salvarem estas vítimas. Veja-se o que se tem passado no lar, em Sintra, com dezenas de idosos postos amarrados a camas a serem comidos lentamente por larvas, e com as respectivas famílias a nada fazerem e o Estado a pôr as suas responsabilidades debaixo de tapetes...... aplicando apenas multas que nunca serão cobradas, sem mais. Tudo isto só pode meter nojo.                       Manuel Peres Alonso: Caro Padre Ricardo Figueiredo: A reflexão sobre São Maximiliano Maria Kolbe e sobre a liberdade que permanece mesmo quando tudo nos é retirado tocou-me profundamente nesta fase da minha vida. A frase "Temos as nossas vozes. Elas são as únicas armas de que precisamos" resume tudo o que preciso de compreender agora. Obrigado por estas palavras.        Novo Assinante: Parabéns, senhor Padre Ricardo Figueredo. Um artigo de opinião extremamente oportuno e sábio perante a reemergência da extrema-direita nazi e fascista dos anos 30 do século, infelizmente também em Portugal, onde alguém profundamente ligado a essa mesma extrema-direita fascista fala, não num, mas sim em três Salazares.         Maria Nunes: Excelente. Obrigada Pe. Ricardo Figueiredo                     nuno alves: Boa estreia. Escreva mais.

 

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