De atenção humanitária, a propósito, ainda, de um holocausto que se impôs no mundo, para espanto perpétuo da humanidade. Como será, amanhã? Saberá o Homem travar instintos, em meio de tanta hipótese científica admirável, conquanto perigosamente despoletadora de tendências experienciais terríficas, caso se imponha a insensatez humana, por via de um qualquer outro Hitler macabro, ou por outra circunstância surgida da mente humana sempre pródiga … Mas espero que mais na virtude do que no pecado - este, felizmente, ainda passível de penitência, ou de prevenção, hoje … Porque amanhã…“Domani è troppo tardi”…
O coração ainda pode triunfar?
A poesia irrompe no lugar onde tudo
parecia proibido. Não é a poesia que trai Auschwitz; é o silêncio absoluto que
consumaria a vitória dos carrascos. O canto prova que a alma não pode ser
encarcerada
PE. RICARDO FIGUEIREDO Director do
Departamento da Comunicação do Patriarcado de Lisboa. Doutorado em Teologia
pela Universidade Católica Portuguesa
OBSERVADOR, 26 jan. 2026, 00:156
Em 2025 estreou Triumph of
the Heart (Triunfo do Coração), do realizador Anthony D’Ambrosio – um filme que não se limita a
narrar um episódio histórico, mas ousa enfrentar uma das perguntas mais
difíceis do século XX (e do nosso tempo): o que
resta do homem quando tudo lhe é retirado? É esta questão que ressurge,
sobretudo, quando se assinala o Dia Internacional em Memória das Vítimas do
Holocausto.
A resposta é dada num espaço mínimo e extremo: um bunker de
Auschwitz, onde dez homens são condenados a morrer à fome e à sede como
represália pela fuga de um prisioneiro. O fio condutor é um gesto
histórico e teologicamente explosivo: o de São Maximiliano Maria Kolbe (1894-1941), frade
franciscano que se oferece para morrer no lugar de um pai de família. Mas o filme
não se detém apenas no heroísmo do mártir. O seu verdadeiro risco artístico é
outro: imaginar, com rigor e humanidade, o que acontece entre
aquelas quatro paredes enquanto a morte se aproxima.
O que ali se expõe é a condição humana
no seu grau zero. O
espectador reconhece, quase palavra por palavra, aquilo que Primo Levi
descreveu em Se Questo è un Uomo (Se isto é um homem): a
experiência do fundo absoluto, onde já não há posse, identidade ou linguagem
capaz de exprimir a desumanização sofrida – «Chegámos ao fundo. Mais para baixo do que isto, não se
pode ir: já não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada
nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não
nos escutarão e, se nos escutassem, não nos perceberiam»
(Dom Quixote, 2013, p. 26). Auschwitz revelou ao mundo uma verdade terrível: o
homem pode ser destruído. Não de forma súbita, mas metodicamente, até restar
apenas um corpo esvaziado de sentido: «Destruir o homem é difícil, quase tanto quanto
criá-lo; não foi fácil, não foi rápido, mas os alemães conseguiram-no» (p.
160).
É precisamente aí que Triumph
of the Heart se torna desconcertante. No
interior daquele inferno, o filme recusa a tese – tantas vezes repetida – de que o sofrimento absoluto anula
definitivamente a possibilidade de sentido. Pelo contrário: mostra que, mesmo quando tudo parece
perdido, permanece uma última liberdade – a de não consentir em morrer como
animal.
O diálogo entre os prisioneiros
confronta-nos com o drama moderno da morte de Deus. Um
deles afirma-o sem rodeios: «Deus está morto. Eles mataram-n’O no primeiro
bombardeamento». A conclusão parece lógica: se a vida perdeu o sentido, resta apenas
antecipar o fim. É aqui que a figura do Padre Kolbe
irrompe como escândalo. Não
como moralista, mas como homem livre. «Somos
homens ou somos gado?», pergunta ele. E acrescenta algo decisivo:
«Temos as nossas vozes. Elas são as únicas armas de que precisamos para
que façamos os nossos últimos dias valerem a pena».
Esta frase é o coração do filme.
A viragem narrativa não
acontece com um discurso teórico, mas com canto.
A Salvé Rainha, aprendida na infância, rompe o silêncio
do bunker. Outros acompanham.
Depois, o hino da Polónia. A
poesia irrompe no lugar onde tudo parecia interdito. E, nesse instante,
percebe-se que Theodor W. Adorno estava, afinal, parcialmente errado. Não é a
poesia que trai Auschwitz; é o silêncio absoluto que consumaria a vitória dos
carrascos. O canto prova que a alma não
pode ser encarcerada.
Mais ainda: o filme desmonta, de forma implícita, mas poderosa, o imaginário
do existencialismo ateu. Em Huis Clos (À
porta fechada), de Jean-Paul
Sartre, o
espaço fechado sem saída torna-se metáfora de um mundo sem transcendência, onde
o outro é ameaça e o inferno são os outros.
Em Triumph of the Heart, o espaço fechado é real, mas o resultado é outro. Quando
Deus não é expulso da cela, o outro deixa de ser inimigo e pode tornar-se
salvação. O inferno não tem a última
palavra.
O filme afirma, sem slogans, algo profundamente contracultural: a fé não
é um acessório psicológico para tempos fáceis, mas uma dimensão estrutural do
humano. O
homem é, por natureza, um ser aberto ao infinito. Quando essa
abertura é negada, resta a violência,
o desespero ou o niilismo. Quando
é acolhida – mesmo no mais profundo dos abismos – abre-se
um espaço inesperado de comunhão.
O
gesto do Padre Kolbe funda uma «milícia» sem armas, sem pagamento, sem poder. Apenas
com vozes, oração e responsabilidade uns pelos outros. E é nessa pobreza
radical que se dá o verdadeiro triunfo do coração: não a vitória biológica
sobre a morte, mas a vitória espiritual
sobre a desumanização.
Triumph of the Heart não é um filme fácil, nem pretende sê-lo.
Mas
é um filme necessário. Num tempo em que novas ideologias prometem redenção
sacrificando o humano, esta obra recorda-nos
que o Céu pode abrir-se mesmo no inferno terreno – e que, no fim, triunfar não
é sobreviver, mas amar até ao extremo.
Como diz uma das últimas frases
do filme, com uma sobriedade devastadora: «Quero
que saibas que, de alguma maneira, neste final feio, triunfámos». É
uma lição para o nosso tempo. E um apelo que não pode ser ignorado.
O filme pode ser alugado online,
com áudio em inglês e com legendas em inglês, francês, espanhol e polaco.
Infelizmente, ainda não contamos com uma versão portuguesa. O acesso ao filme
faz-se através do seguinte endereço: www.triumphoftheheart.com
AUSCHWITZ NAZISMO MUNDO CINEMA CULTURA
COMENTÁRIOS
Lily Lu: Que belo! Jorge Barbosa: Caro Padre Ricardo,
agradecendo este seu contributo para se manterem bem vivas as escabrosas
atrocidades nazis, o que lamento é que outras atrocidades igualmente criminosas
contra os nossos idosos agora atirados para prisões chamadas de lares, estejam
à vista de todos os cidadãos, e nada aconteça para se salvarem estas vítimas.
Veja-se o que se tem passado no lar, em Sintra, com dezenas de idosos postos
amarrados a camas a serem comidos lentamente por larvas, e com as respectivas
famílias a nada fazerem e o Estado a pôr as suas responsabilidades debaixo de
tapetes...... aplicando apenas multas que nunca serão cobradas, sem mais. Tudo
isto só pode meter nojo.
Manuel Peres Alonso: Caro Padre Ricardo
Figueiredo: A reflexão sobre São Maximiliano Maria Kolbe e sobre a liberdade
que permanece mesmo quando tudo nos é retirado tocou-me profundamente nesta
fase da minha vida. A frase "Temos as nossas vozes. Elas são as únicas
armas de que precisamos" resume tudo o que preciso de compreender agora. Obrigado
por estas palavras. Novo
Assinante: Parabéns, senhor Padre Ricardo Figueredo. Um artigo de
opinião extremamente oportuno e sábio perante a reemergência da extrema-direita
nazi e fascista dos anos 30 do século, infelizmente também em Portugal, onde
alguém profundamente ligado a essa mesma extrema-direita fascista fala, não
num, mas sim em três Salazares. Maria
Nunes: Excelente. Obrigada Pe. Ricardo Figueiredo nuno alves: Boa estreia. Escreva
mais.
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