segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

PRESIDENCIAIS


E resultados transmitidos televisivamente. Reprodução de rigor crítico, já observada na tarde televisiva de ontem, 18/1/26.

Os muitos vencedores e vencidos das presidenciais

Na noite eleitoral, houve candidatos eufóricos, candidatos iludidos, candidatos humilhados e candidatos desorientados. Houve líderes que ressuscitaram. E houve um primeiro-ministro que levou uma lição

MIGUEL SANTOS CARRAPATOSO: Texto

MIGUEL PINHEIRO: Texto

OBSERVADOR, 19 jan. 2026, 00:34

Vencedores

ANTÓNIO JOSÉ SEGURO

JOSÉ COELHO/LUSA: Quando a hipótese de ser candidato foi aventada por Pedro Nuno Santos, uma parte substantiva do PS perdeu a cabeça. Abriu-se uma espécie de casting para ver se se arranjava outro candidato qualquer. Vitorino, Centeno, Santos Silva, Sampaio da Nóvoa — todos eram supostamente melhores do que ele. ANTÓNIO JOSÉ SEGURO não olhou para o lado e manteve-se firme. A meses das presidenciais, as hipóteses de passar à segunda volta eram risíveis. Agora, está na antecâmara de ganhar as eleições. Aconteça o que acontecer, conseguiu, para já, um feito: ficou em primeiro lugar contra as expectativas iniciais que existiam sobre ele e ficou em primeiro lugar, sobretudo, contra o próprio partido, que foi mantendo a uma distância de segurança assinalável durante toda a campanha. Há dez anos, o PS despachou Seguro; agora, corre para ficar ao lado de Seguro na fotografia. O patinho feio virou o cisne numa das maiores ironias da história da política portuguesa.

FOTO: André Ventura

DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR: Ficou à frente do terceiro classificado com grande folga — teve quase mais 420 mil votos do que COTRIM. Mas ficou atrás do resultado do CHEGA nas legislativas — teve menos 116 mil votos do que em maio de 2025. Mas o que realmente interessa é que, com mais ou menos votos, ANDRÉ VENTURA passa à segunda volta como o único representante da direita. Deixou para trás o PSD, a IL e o CDS e infligiu uma derrota histórica a Luís Montenegro. Agora, nem precisa de ficar em primeiro lugar — se bem que, com três semanas de campanha, tudo seja possível. Mas, se conseguir convencer eleitores de direita que nunca votaram nele a darem-lhe o voto já terá dado mais um passo no seu caminho para a liderança da direita.

FOTO: João Cotrim Figueiredo

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA observa

Cotrim é um dos vencedores da noite porque conseguiu, até ao fim, manter a ideia de que estava perto de chegar à segunda volta. Mas convém não exagerar. Ouvindo o seu discurso de ontem à noite, ficou-se com a ideia de que ele tinha mesmo vencido as eleições: segundo o próprio, a campanha dele “venceu o medo e a resignação”, mostrou que “não há nada mais poderoso do que um movimento com esperança”, “fez História” e “mostrou que há espaço em Portugal para uma política diferente”. Para Cotrim, o facto de António José Seguro e André Ventura terem ficado à frente dele nos votos contados é apenas um pequeno detalhe sem importância. E é um detalhe, pelos vistos, da responsabilidade exclusiva de Luís Montenegro, que, incompreensivelmente para Cotrim, se recusou a abandonar Marques Mendes e a apoiá-lo a ele. Julgando-se um predestinado, não concebe que possa ter tido alguma responsabilidade no facto de ter ficado em terceiro lugar. Achou mesmo que alguém que “não sabe o que lhe passa pela cabeça” podia ser Presidente da República. Apesar disso, conseguiu mais votos do que alguma vez poderia ter imaginado.

José Luís Carneiro

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Durante meses, PEDRO NUNO SANTOS andou embrulhado com a escolha do candidato presidencial do PS. Foi ele, aliás, o primeiro a falar publicamente no nome de ANTÓNIO JOSÉ SEGURO, para choque de muitos dos seus apoiantes e detractores. Pedro Nuno caiu, depois de umas legislativas catastróficas, José Luís Carneiro chegou à liderança do PS sem dificuldades e recebeu o dossiê presidencial praticamente desarmadilhado. Sem mexer um músculo, arrisca-se a entrar na História como o líder que devolveu o PS a Belém 20 anos depois. Há quem tenha uma estrelinha. José Luís Carneiro tem uma constelação inteira só para ele.

Manuel João Vieira

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Primeiro, conseguiu ser candidato — o que, apesar de tudo, exige método, disciplina e apoios. Depois, conseguiu ficar em oitavo lugar, à frente do candidato do Livreo que exige apenas que do outro lado esteja Jorge Pinto. Manuel João Vieira sai desta campanha com a mesma reputação com que entrou. Não se pode dizer o mesmo de todos os outros candidatos.

Vencidos

Luís Marques Mendes

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Era, de longe, o homem com maior experiência política nesta corrida eleitoral. Foi, ainda assim, capaz de cometer quase todos os erros possíveis. Primeiro, não foi capaz de antecipar o potencial extremamente negativo do seu passado profissional. Quando foi torpedeado por Henrique Gouveia e Melo, viu-se forçado a dar explicações, sempre a conta-gotas, sempre em esforço, sempre passando a sensação de que escondia alguma coisa. Foi fatal. Depois, a corrida eleitoral propriamente dita: nunca se viu um candidato que lutava pelo voto útil assumir, cabisbaixo e logo no primeiro dia de campanha, que a hipótese de ficar em quinto lugar era real. Mendes quis ser tudo nesta campanha: o construtor de pontes, o porta-voz oficioso do Governo, a voz da consciência de Montenegro. Tentou todas as estratégias: atacou Gouveia e Melo, atacou Cotrim, atacou Seguro, e, pelo meio, ainda quis estar acima de todos os ataques. No final, assumiu que a derrota era dele e só dele, demonstrando uma enormíssima dignidade. Não foi. Ainda assim, é impossível não deixar de pensar no que diria “Mendes, o Comentador” sobre “Mendes, o Candidato”.

Henrique Gouveia e Melo

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O almirante foi o homem-bomba. Entrou no frente a frente com Marques Mendes armado com dinamite e acendeu o rastilho em directo: matou a campanha do adversário, mas, ao mesmo tempo, matou a sua própria campanha também. Até àquele momento, Gouveia e Melo era um candidato acima da política; a partir dali, passou a ser apenas mais um candidato a tentar desesperadamente destruir o adversário. Até àquele momento, queria ser Presidente; a partir dali, passou a querer apenas derrotar Marques Mendes. De facto, conseguiu derrotar Mendes — mas não conseguiu mais nada.

Luís Montenegro

JOÃO RELVAS/LUSA

Catástrofe. Desastre. Hecatombe. Humilhação. Qualquer palavra servirá para definir a noite eleitoral de Luís Montenegro, que quis transformar esta eleição também num referendo ao Governo. Contra o cepticismo de uma parte considerável do partido, Montenegro escolheu como candidato presidencial o seu padrinho político. Apesar dos sinais, o autoconvencimento era grande. Até que as primeiras sondagens a doer furaram o balão dos sociais-democratas e despertaram o partido para a triste realidade: tinham feito asneira na escolha do candidato. Durante duas semanas, os ministros desfilaram pela campanha de Mendes alertando os temerosos portugueses para o risco de uma crise política. Durante duas semanas, os eleitores da AD foram uma e outra vez avisados para os riscos de desafiar o líder. Os portugueses disseram a Montenegro que não consideram a estabilidade um fim em si mesmo — é mesmo preciso apresentar alguns resultados. Os eleitores da AD mostraram, por A+B, que Montenegro não os lidera — eles é que lhe deram duas oportunidades para mostrar o que vale. Para piorar tudo, se a sombra de Ventura voltou a crescer para lá do que seria imaginável, a de Pedro Passos Coelho, cujo silêncio foi um dos temas principais da campanha, agigantou-se.

ANTÓNIO COSTA

GUILLAUME HORCAJUELO/EPA

Na noite deste domingo, o PS de António Costa desapareceu da face da Terra. Tal como os dinossauros, foi exterminado por um meteorito inesperado, desta vez na forma de António José Seguro. Primeiro, os costistas perderam o líder — António Costa foi suavemente para o sonho de Bruxelas. Depois, perderam a estratégia — o país reduziu a extrema-esquerda a uma peça de museu e, dessa forma, rejeitou qualquer hipótese de uma segunda geringonça. Agora, perderam a legitimidade — ficou provado que há um outro socialista capaz de vencer eleições. Com as devidas desculpas a Jorge Palma, só se pode concluir que o PS de António Costa já não tem estrada para andar.

Catarina Martins

LUSA

Já tinha no currículo dois dos quatro piores resultados da história recente do Bloco de Esquerda. Esta noite somou mais um recorde negativo, com uma votação impensável de 2,1%, praticamente em linha com o resultado alcançado por Mariana Mortágua nas legislativas de maio de 2025. Haverá muitos responsáveis pela crise em que mergulhou o partido, mas o que mais impressiona em Catarina Martins é nunca ter reconhecido o seu papel muitíssimo relevante no definhamento do Bloco. Nestas presidenciais, aliás, a sua campanha fez saber que corria sozinha por acreditar que valia mais do que o próprio partido, como se fossem os outros, e não Catarina Martins, os activos tóxicos do Bloco. Louçã, Mortágua, até Pureza foram sendo escondidos da grande festa de Catarina. Os eleitores mostraram — pela terceira vez consecutiva — que Catarina Martins não tem razão: não é mesmo um activo eleitoral para o partido.

António Filipe

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Desta vez, não deu nem para a vitória moral. O resultado atingido pelo candidato apoiado pelo PCP está para lá da humilhação. António Filipe apostou na antecipação, sendo o primeiro candidato à esquerda a anunciar a sua candidatura. Nunca quis ouvir falar de convergências ou de pactos. A estratégia foi sempre provar que o PCP conseguia resistir e crescer apesar do ar dos tempos. Resultado: conseguiu cometer a proeza de ficar atrás de Catarina Martins (invertendo a tendência das últimas legislativas) e desbaratar a boa imagem deixada por João Ferreira nas últimas autárquicas. Pior era (quase) impossível.

Rui Tavares

MARCOS BORGA/LUSA

A derrota de Jorge Pinto é a derrota do Livre; e a derrota do Livre é a derrota de Rui Tavares. Mais uma vez, Tavares conseguiu capitanear uma hecatombe eleitoral, depois do que aconteceu nas europeias. Hesitou até à última sobre se avançava com uma candidatura do Livre ou não; depois, organizou uma consulta interna de faz-de-conta para conseguir que o partido escolhesse Jorge Pinto; a seguir, desapareceu para umas férias convenientes e só voltou a meio da campanha eleitoral; por fim, permitiu que Jorge Pinto oscilasse entre a desistência real, a desistência virtual e uma persistência fictícia. No final, o seu candidato ficou atrás de Manuel João Vieira. Foi uma humilhação auto-infligida.

Veja quem lidera e como evoluem as intenções de voto no Radar das Sondagens Presidenciais 2026.

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