terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O vazio diabólico


 No atropelo inesperado das normas, quando um poderoso assim interfere no governo de um país, em jeito perversamente ditatorial, contra todas as regras, e como se fosse o dono disto tudo. Cruzes! E o seu país respeita-o na sua chefia, na ostentação inconcebível de uma autoridade universal, sem prévia declaração de guerra, os governantes do país atropelado, assim levados, em imagens televisivas chocantes, repetidas sem pejo, televisivamente, de dois seres assim reduzidos, marido e mulher, no despudor absoluto de um brincalhão mimado, fazendo boquinhas altivamente amuadas. E parece que vai pegar, a acção invasiva! Que é assim que o amuado promete continuar a agir, no seu reinado. E sempre fazendo boquinhas. De autocontemplativo, contente de si.

VENEZUELA: O VAZIO DO DIREITO INTERNACIONAL?

Os que nunca levantaram a voz em defesa do povo venezuelano não têm um pingo de autoridade para vir agora queixar-se da operação americana.

MANUEL PINHEIRO, Convidado da Oficina da Liberdade

OBSERVADOR, 06 jan. 2026, 00:16

Se, durante o tempo da nossa ditadura colonial, algum país europeu montasse uma operação para vir cá remover o Salazar e entregar o país a uma democracia, a nossa esquerda seria unanimemente contra porque isso ia contra o direito internacional. A favor do tal direito internacional, estivemos de 1961 a 75 a torrar milhares de jovens em guerras que serviram para quê?

Tive a sorte de estudar numa escola europeia, tendo colegas colocados em governos e  instituições internacionais, um deles até recentemente no gabinete de A. Guterres e, portanto, sem surpresa, a conversa no grupo whatsapp foi sobre o tema Venezuela. A opinião geral é de que estamos perante uma grave violação do direito internacional que vai resultar em facilitar a vida a tiranos que queiram fazer a política da canhoneira. Que ao regressar à doutrina Monroe, os EUA abrem a porta às aspirações expansionistas da Rússia e da China.

Porém, o que as televisões mostraram foi uma multidão de gente a festejar em Caracas e na diáspora, um povo em festa nas ruas exatamente como nós festejamos em 74 quando, em clara violação da lei, Salgueiro Maia mandou estacionar carros de combate na Praça do Comércio. Recordo que, em 74 podia-se estacionar na placa central mas era proibido nas arcadas. E ninguém lhe passou uma multa?

Precisamente porque somos um país pequeno, militar e economicamente insignificante no palco mundial, Portugal tem todo o interesse em afirmar o relevo do direito internacional, das instituições e do multilateralismo. Mas tem de perceber quanto este está oco.

Há áreas em que o estabelecimento de regras mundiais funciona de forma exemplar. Tome como exemplo standards aplicados à indústria e serviços, as regras da aviação e da navegação marítima, seguros, enfim, há inúmeros casos de sucesso.

Mas na política e defesa não é assimNo tal grupo de whatsapp questionei um colega, alto responsável de uma destas organizações internacionais sobre o que é que eles tinham efectivamente feito pelo povo venezuelano. Respondeu-me com uma imensa lista de grupos, comissões de trabalho, relatórios, livros brancos, enfim uma gigante mão cheia de nada. Terminou, como quem encolhe os ombros, admitindo que as organizações internacionais só podem fazer o que os Estados deixarem

Talvez não seja claro para o leitor, mas o maior movimento migratório do planeta vem precisamente da Venezuela de onde, nos últimos anos, fugiram à miséria 8 milhões de pessoas. Um país riquíssimo de petróleo, mas onde há fome, onde a energia eléctrica é cortada diariamente, a saúde pública é uma miséria, onde a corrupção é generalizada, onde há uma polícia política que prende, tortura e mata sem processo. Um governo que se associou e financiou movimentos terroristas da região como as FARC e distantes como o Hamas. Tudo com o dinheiro que extorquia do povo. Já ninguém se lembra, mas há três décadas, as praias maravilhosas da Venezuela eram destino de milhares de turistas e o PIB per capita era de nível europeu. A Venezuela descobriu petróleo aproximadamente ao mesmo tempo que os Noruegueses. Compare-se.

O experimentalismo de extrema-esquerda populista começou com eleições e evoluiu, como sempre, para uma ditadura que escravizou o povo.

Por cá (e um pouco por todo o lado), mantivemo-nos calados e coniventes este tempo todo. A óbvia fraude eleitoral de 2024 levou a que o nosso governo, bem, não reconhecesse o resultado. E ficou por aí. Não nos faltam exemplos que nos deveriam fazer corar de vergonha de políticos portugueses que, sabe-se lá com que ganhos pessoais, andaram a promover negócios de Estado com Hugo Chavez e Nicolas Maduro. Veja-se os famosos Magalhães vendidos por José Sócrates (curioso como as coisas vão sempre parar a algum lado) ou o financiamento do Podemos, partido espanhol gémeo do nosso Bloco.

Os que nunca levantaram a voz em defesa do povo venezuelano não têm um pingo de autoridade para vir agora queixar-se da operação americana. É de uma total falta de humanidade. António Guterres, o coveiro da ONU, deveria ser o primeiro a remeter-se ao silêncio. Reuniu várias vezes com Maduro, sempre sorridentes nas fotos. Calculo que tenha mandado fazer relatórios, reunido gabinetes e servido croquetes.

Seja Guterres, Van der Leyen e outros que tanto clamam pelo direito internacional, têm agora uma óptima oportunidade de se manifestar quanto ao Irão, cujo povo está nas ruas contra os tiranos e a ser morto à bala pela polícia política. Ou de se manifestar quanto à miséria que se vive em Cuba, uma ditadura onde os opositores são presos e a imprensa é censurada. Ou sobre o Líbano, país que era conhecido como a Suíça do médio oriente e que foi destruído pelas forças militarizadas financiadas pelo Irão. E já nem menciono o Tibete, do qual nenhum governante fala para não incomodar o país da Temu.

Num vídeo ontem publicado, uma venezuelana explicava muito bem: ninguém quer ser bombardeado pelos Estados Unidos, os Venezuelanos não são tolos, dizia ela, mas o estado de miséria a que chegamos é tal que este é um passo positivo, os próximos veremos.

É verdade que a operação dos EUA coloca problemas para combater políticas expansionistas em outras geografias. E não parece certo que os próprios EUA tenham ideias claras quanto aos próximos passos. No caso do Iraque, não tinham e foi o que se viu. Porém eles removeram do governo um canalha que escravizou o seu povo e o condenou à fuga ou à fome. Hoje, o povo venezuelano está melhor do que ontem. E o ditador vai ser presente a um juiz de direito, com direitos de defesa e recurso, que é o que faz um país decente.

Quanto à nova ordem internacional de que se fala, a Europa que se deixe de baba e ranho e que se construa como um espaço competitivo, deixe de alocar tempo a regulamentar tampas de garrafas e foque-se a libertar o espírito empreendedor que temos. Tenho mais confiança na capacidade dos europeus do que a comissão da senhora Van der Leyen.

Nota editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não reflectem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.

OFICINA DA LIBERDADE        OPINIÃO        OBSERVADOR

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