No atropelo inesperado
das normas, quando um poderoso assim interfere no governo de um país, em jeito perversamente
ditatorial, contra todas as regras, e como se fosse o dono disto tudo. Cruzes! E
o seu país respeita-o na sua chefia, na ostentação inconcebível de uma
autoridade universal, sem prévia declaração de guerra, os governantes do país
atropelado, assim levados, em imagens televisivas chocantes, repetidas sem pejo,
televisivamente, de dois seres assim reduzidos, marido e mulher, no despudor
absoluto de um brincalhão mimado, fazendo boquinhas altivamente amuadas. E parece
que vai pegar, a acção invasiva! Que é assim que o amuado promete continuar a agir,
no seu reinado. E sempre fazendo boquinhas. De autocontemplativo, contente de
si.
VENEZUELA: O VAZIO DO DIREITO INTERNACIONAL?
Os que nunca levantaram a voz em defesa do povo venezuelano não têm
um pingo de autoridade para vir agora queixar-se da operação americana.
MANUEL PINHEIRO, Convidado da Oficina da Liberdade
OBSERVADOR, 06 jan. 2026, 00:16
Se, durante o tempo da nossa ditadura
colonial, algum país europeu montasse uma operação para vir cá remover o
Salazar e entregar o país a uma democracia, a nossa esquerda seria unanimemente
contra porque isso ia contra o direito internacional. A favor do tal direito
internacional, estivemos de 1961 a 75 a torrar milhares de jovens em guerras
que serviram para quê?
Tive a sorte de estudar numa escola europeia, tendo colegas colocados
em governos e instituições internacionais, um deles até recentemente no
gabinete de A. Guterres e, portanto, sem surpresa, a conversa no grupo whatsapp foi
sobre o tema Venezuela. A opinião geral é de que estamos perante uma grave violação do direito internacional que vai
resultar em facilitar a vida a tiranos que queiram fazer a política da
canhoneira. Que ao regressar à doutrina Monroe, os EUA abrem a porta às
aspirações expansionistas da Rússia e da China.
Porém, o que as televisões mostraram foi uma multidão de gente a
festejar em Caracas e na diáspora, um povo em festa nas ruas exatamente como
nós festejamos em 74 quando, em clara violação da lei, Salgueiro Maia mandou estacionar carros de combate na Praça do
Comércio. Recordo que, em 74
podia-se estacionar na placa central mas era proibido nas arcadas. E ninguém
lhe passou uma multa?
Precisamente porque somos um país pequeno, militar e economicamente insignificante
no palco mundial, Portugal tem todo o interesse em afirmar o relevo do direito
internacional, das instituições e do multilateralismo. Mas tem de perceber
quanto este está oco.
Há áreas em que o estabelecimento de
regras mundiais funciona de forma exemplar. Tome como exemplo standards
aplicados à indústria e serviços, as regras da aviação e da navegação marítima,
seguros, enfim, há inúmeros casos de sucesso.
Mas na política e defesa não é
assim. No tal grupo de whatsapp questionei
um colega, alto responsável de uma destas organizações internacionais sobre o
que é que eles tinham efectivamente feito pelo povo venezuelano. Respondeu-me
com uma imensa lista de grupos, comissões de trabalho, relatórios, livros
brancos, enfim uma gigante mão cheia de nada. Terminou, como quem
encolhe os ombros, admitindo que as organizações internacionais só podem
fazer o que os Estados deixarem
Talvez não seja claro para o leitor, mas o maior movimento
migratório do planeta vem precisamente da Venezuela de onde, nos últimos anos,
fugiram à miséria 8 milhões de pessoas. Um
país riquíssimo de petróleo, mas onde há fome, onde a energia eléctrica é
cortada diariamente, a saúde pública é uma miséria, onde a corrupção é
generalizada, onde há uma polícia política que prende, tortura e mata sem
processo. Um governo que se associou e financiou movimentos
terroristas da região como as FARC e distantes como o Hamas. Tudo com o dinheiro que extorquia do
povo. Já ninguém se lembra, mas há três décadas, as praias maravilhosas da Venezuela
eram destino de milhares de turistas e o PIB per capita era de nível
europeu. A Venezuela descobriu petróleo aproximadamente ao
mesmo tempo que os Noruegueses. Compare-se.
O experimentalismo de
extrema-esquerda populista começou com eleições e evoluiu, como sempre, para
uma ditadura que escravizou o povo.
Por cá (e um pouco por todo o lado), mantivemo-nos calados e coniventes
este tempo todo. A óbvia fraude
eleitoral de 2024 levou a que o nosso governo, bem, não reconhecesse o
resultado. E ficou por aí. Não nos faltam exemplos que nos deveriam fazer corar
de vergonha de políticos portugueses que, sabe-se lá com que ganhos pessoais,
andaram a promover negócios de Estado com Hugo Chavez e Nicolas Maduro.
Veja-se os famosos Magalhães vendidos
por José
Sócrates (curioso como as coisas vão sempre parar a algum lado) ou o
financiamento do Podemos, partido espanhol gémeo do
nosso Bloco.
Os que nunca levantaram a voz em defesa do povo venezuelano não têm
um pingo de autoridade para vir agora queixar-se da operação americana. É
de uma total falta de humanidade. António
Guterres, o coveiro da ONU, deveria ser o primeiro a remeter-se ao silêncio.
Reuniu
várias vezes com Maduro, sempre sorridentes nas fotos. Calculo que
tenha mandado fazer relatórios, reunido gabinetes e servido croquetes.
Seja Guterres, Van der Leyen e outros
que tanto clamam pelo direito internacional, têm agora uma óptima oportunidade de se manifestar quanto ao Irão, cujo povo está nas ruas contra os tiranos
e a ser morto à bala pela polícia política. Ou
de se manifestar quanto à miséria que se vive em Cuba,
uma ditadura onde os opositores são presos e a imprensa é censurada.
Ou sobre o Líbano, país que era conhecido como a Suíça do médio oriente
e que foi destruído pelas forças militarizadas financiadas pelo Irão.
E já nem menciono o Tibete, do qual nenhum governante fala para não
incomodar o país da Temu.
Num vídeo ontem publicado, uma venezuelana explicava muito bem: ninguém
quer ser bombardeado pelos Estados Unidos, os Venezuelanos não são tolos, dizia
ela, mas o estado de miséria a que chegamos é tal que este é um passo positivo,
os próximos veremos.
É verdade que a operação dos EUA
coloca problemas para combater políticas expansionistas em outras geografias.
E
não parece certo que os próprios EUA tenham ideias claras quanto aos próximos
passos. No caso do
Iraque, não tinham e foi o que se viu. Porém eles removeram do governo
um canalha que escravizou o seu povo e o condenou à fuga ou à fome. Hoje,
o povo venezuelano está melhor do que ontem. E o ditador vai ser presente a um
juiz de direito, com direitos de defesa e recurso, que é o que faz um país
decente.
Quanto à nova ordem internacional de que se fala, a Europa que se
deixe de baba e ranho e que se construa como um espaço competitivo, deixe de
alocar tempo a regulamentar tampas de garrafas e foque-se a libertar o espírito
empreendedor que temos. Tenho mais
confiança na capacidade dos europeus do que a comissão da senhora Van der Leyen.
Nota editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos
publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade
dos membros da Oficina da
Liberdade e não reflectem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre
os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que
querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e
os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá
chegar.
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