segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Os mitos de sempre

 

Para todas as idades, revistas em síntese do nosso prazer, sempre, sem o romanceado exaustivo das grandes obras literárias, mas servindo-lhes, tantas vezes, de suporte criativo, já expressos nas epopeias… Gratos, por isso, a PATRÍCIA FERNANDES, pela revisão, de encantamento sempre, e pelo conceituoso dos considerandos.

 

A lição de Héracles

Os antigos sabiam que a desigualdade é natural pelo que eliminando a disciplina, o rigor e a virtude fica um mundo em que os mais fortes prevalecem. Mas disciplina parece ser uma palavra hoje proibida

PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

OBSERVADOR, 05 jan. 2026, 00:186

1O maior dos heróis

Haverá melhor maneira de iniciar um novo ano do que regressar aos antigos? Comecemos com Alcides, mais conhecido por Héracles ou Hércules, conforme considerarmos as histórias gregas ou romanas. A ele se referiram todos os grandes autores da Antiguidade: Homero e Hesíodo, naturalmente, bem como Sófocles e Eurípedes; Virgílio e Ovídio, claro, mas também Tito Lívio e Séneca.

Héracles ocupa um lugar fundamental na mitologia grega: o seu nascimento permitirá a Zeus manter o poder com a derrota dos gigantes, filhos de Gaia, no conflito conhecido como Gigantomaquia. Mas a nossa memória de Héracles está sobretudo ligada às doze tarefas ou trabalhos a que se dedicou, revelando força, coragem e violência na captura e morte de muitos monstros que se mantinham no mundo dos homens como resíduos históricos dos tempos antigos. Foram estas tarefas que a Disney imortalizou numa animação de 1997 (nos bons tempos da Disney) e que trouxeram Héracles à Península Ibérica, como é recordado pela Torre de Hércules na Corunha e as suas colunas em Gibraltar.

É assim que mata o leão de Nemeia e a Hidra de Lerna, captura o javali de Erimanto e a corça de Cerineia, mata as aves do lago Estínfalo e limpa os estábulos de Augias, captura o touro de Creta (regressaremos a ele em breve) e as éguas de Diomedes, consegue o cinto da amazona Hipólita, captura Cérbero e o gado de Gérion e consegue as maçãs de ouro do Jardim das Hespérides, enquanto liberta Prometeu. O problema é que, entre tantas aventuras, acabamos por nos esquecer qual é o motivo que obriga Héracles a realizar tarefas tão difíceis.

2Ciúme e violência

Como muitos mitos gregos, a história de Héracles começa com mais uma investida sexual de Zeus entre os humanos e a resposta ciumenta de Hera. A versão que explica o nascimento do herói varia de fonte para fonte, mas há algum consenso sobre a convicção de o poder de Zeus estar dependente do nascimento de um sucessor de Perseu, pelo que o pai dos deuses decide engravidar a neta daquele, Alcmena, que era casada com Anfitrião (história que José Pedro Serra explica aqui).

Stephen Fry, num dos seus divertidos livros sobre os mitos e heróis gregos, explica o método escolhido por Zeus:

“[Alcmena] era uma mulher apaixonada e fiel, pelo que, em vez de se manifestar como águia, cabra, chuva de ouro, urso, touro ou qualquer dos outros animais ou fenómenos que habitualmente personificava no decorrer das suas aventuras lascivas, Zeus optou por lhe aparecer sob a forma do seu adorado esposo Anfitrião.”

O assalto de Zeus dará mesmo origem a uma superfecundação heteropaternal, mas não havia muitas dúvidas sobre qual dos gémeos era filho de Zeus: Alcides era mais forte do que o irmão e foi capaz de travar as tentativas de Hera para acabar com a sua vida (para tentar acalmar a deusa, Alcides acaba por mudar de nome para Héracles, a Glória de Hera).

Com o objectivo de garantir a imortalidade do filho, Zeus pede a Hermes que coloque Héracles junto ao seio de Hera, para que este se alimente do seu leite. Mas quando Hera afasta o bebé com aspereza, solta um rasto de leite que se espalha pelos céus… dando origem à Via Láctea. (Como não adorar os mitos gregos?)

(Tintoretto, A origem da Via Láctea (1575))

Em Tebas, Héracles recebeu a educação própria dos heróis e, como descreve Fry, “Quando chegou aos dez anos, já tinha adquirido fama de terrível corredor, saltador, cavaleiro, condutor, lançador e arqueiro. No entanto, era também evidente que, apesar da sua natureza amável e amistosa, o rapaz possuía um temperamento impetuoso e furioso. Quando a cólera tomava conta dele, somente o pai conseguia controlá-lo.”

O seu professor de música, Lino, foi uma das vítimas desse temperamento, mas como Héracles ia mantendo o mundo livre de ameaças acaba por ser recompensado por Creonte com a mão de Mégara, com quem teve dois filhos – até ao dia em que, num ataque de loucura supostamente induzido por Hera, confunde a sua mulher e as crianças com monstros e mata-as.

Trata-se de um crime de sangue – considerado o mais terrível para os gregos e que gera uma reação violenta das furiosas Erínias –, pelo que Héracles estava obrigado a um processo de purificação e expiação: colocou-se, assim, ao serviço do primo Euristeu durante dez anos para que as dez (ou doze) tarefas lhe permitissem expiar o crime.

3A lição de Héracles

O mito de Héracles confronta-nos com uma particularidade da mitologia antiga: não só os deuses eram demasiado humanos – eram violentos, ciumentos, orgulhosos, invejosos e comportavam-se como tal –, como intervinham constantemente na vida dos mortais. Podiam visitá-los adquirindo formas humanas e intrometendo-se nas suas vidas, e é precisamente isso que encontramos na Ilíada: os deuses eram partes interessadas na guerra de Troia e participaram, directamente e indirectamente, desviando flechas e inspirando guerreiros.

Esta convicção permitia usar os deuses para explicar momentos de sorte ou acontecimentos inesperados, mas também comportamentos humanos mais difíceis de compreender, como acessos de loucura e violência. Os mortais seriam meros instrumentos da vontade e desejo dos deuses e, por essa razão, se um herói, dotado de uma força tremenda e com regulares acessos de raiva, assassinava a sua família, o motivo estaria numa intervenção dos deuses, capaz de alterar a realidade e suspender o juízo do herói.

 

Mas a lição que podemos retirar do mito de Héracles é outra e encontra-se na ideia de que o facto de termos nascido como símbolo da força corajosa vem com uma pesada contrapartida: a de que devemos ser especialmente cuidadosos com aqueles que são mais fracos e frágeis do que nós, com aqueles que devemos proteger e não atacar.

Tratava-se de uma lição particularmente importante num tempo em que a força física determinava em larga medida o nosso lugar na sociedade e, por essa razão, era uma lição especialmente importante para os homens, no masculino, que, detendo mais força do que as mulheres e as crianças, deveriam estar especialmente obrigados a um maior dever de cuidado e moderação.

Não é, assim, por acaso que a ideia de virtude esteja ligada à disposição masculina, como se nota na formação da palavra em latim: ser viril é aprender a ser um homem virtuoso, pois precisamos de força e coragem para não cedermos às nossas paixões mais violentas. Em Emílio, Jean-Jacques Rousseau é especialmente perspicaz a notar este aspecto quando afirma: “embora digamos que Deus é bom, não dizemos que ele é virtuoso, porque ele não precisa de fazer esforços para bem agir”.

Ser virtuoso é um combate constante com os nossos afectos e as nossas paixões. Afinal, diz-nos Rousseau, “não depende de nós o ter, ou o não ter, paixões; mas depende de nós dirigi-las”. E o que Héracles nos ensina é que ceder a acessos de loucura e violência nos condena a anos de esforços, escravidão e expiação. Mas, se formos virtuosos, teremos uma vida melhor.

O problema das sociedades actuais – que pensam poder dispensar os mitos antigos e a formação religiosa e, com isso, se consideram livres – é o facto de nos abandonarem aos instintos e às paixões mais violentas. Fazem-nos acreditar que tudo o que sentimos é legítimo e que tudo o que desejamos deve ser possível. Mas os antigos sabiam que a desigualdade é natural, pelo que, se eliminarmos a disciplina, o rigor e a virtude, ficamos lançados num mundo em que os mais fortes prevalecem.

E isso é particularmente importante para os rapazes. Não, as mulheres não são iguais aos homens e essa ficção, que parece dar poder às mulheres, tem-nas, na verdade, enfraquecido (a lição de Ariadne é para elas). Quase todas as mulheres são fisicamente mais fracas do que quase todos os homens e, por isso, é particularmente importante relembrar as diferenças e exigir cortesia, responsabilidade e contenção aos que são mais fortes. Mas disciplina parece ser uma palavra proibida nos nossos tempos.

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COMENTÁRIOS (6)

Rosário Santos: "Li a mitologia grega antes da segunda dentição; e quando ouço agora que a mitologia é pornográfica, acho que a lêem tarde demais." (Agustina Bessa-Luís Diário de Notícias 15-08-1992). Graças a Deus criámos filhos nos anos 90, nos bons tempos da Disney  e nós  próprios lemos centenas de gibis durante as décadas de 70 e 80 e que vinham do Brasil, ainda a Disney era boa!              augusto sousa: Magnífico texto e uma cultura clássica muito bem adaptada aos tempos de hoje! De antologia !                       Paulo Sousa: É sempre um privilégio poder  lê-la.  Obrigado.                João Basílio: Já sentia a falta dos seus textos. Muito Bom. Bom ano de 2026.        Meio Vazio: Excelente lição. Mais uma.          Filipe Afonso: Muito instrutivo e interessante.         Maria Assunção Pereira Carreira: Muito bom.

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