Para todas as idades, revistas em síntese do nosso prazer, sempre, sem
o romanceado exaustivo das grandes obras literárias, mas servindo-lhes, tantas
vezes, de suporte criativo, já expressos nas epopeias… Gratos, por isso, a
PATRÍCIA FERNANDES, pela revisão, de encantamento sempre, e pelo conceituoso
dos considerandos.
A lição de Héracles
Os antigos sabiam que a desigualdade é natural pelo que eliminando a
disciplina, o rigor e a virtude fica um mundo em que os mais fortes prevalecem.
Mas disciplina parece ser uma palavra hoje proibida
PATRÍCIA FERNANDES Professora
na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho
OBSERVADOR, 05
jan. 2026, 00:186
1O maior dos heróis
Haverá melhor maneira de iniciar um
novo ano do que regressar aos antigos? Comecemos com Alcides,
mais conhecido por Héracles ou Hércules,
conforme considerarmos as histórias gregas ou romanas. A ele se referiram todos
os grandes autores da Antiguidade: Homero
e Hesíodo,
naturalmente, bem como Sófocles e Eurípedes;
Virgílio e Ovídio,
claro, mas também Tito Lívio e
Séneca.
Héracles ocupa um lugar fundamental na mitologia grega: o seu nascimento permitirá a Zeus manter o
poder com a derrota dos gigantes, filhos de Gaia, no conflito conhecido como
Gigantomaquia. Mas a nossa memória de Héracles está sobretudo ligada
às doze tarefas ou trabalhos a que se dedicou, revelando força, coragem e
violência na captura e morte de muitos monstros que se mantinham no mundo dos
homens como resíduos históricos dos tempos antigos. Foram estas tarefas que a Disney
imortalizou numa animação de 1997 (nos bons tempos da Disney) e que trouxeram
Héracles à Península Ibérica, como é recordado pela Torre de Hércules na Corunha e as suas colunas em Gibraltar.
É assim que mata o leão de Nemeia e a Hidra de Lerna, captura o javali de Erimanto e a corça de Cerineia, mata as aves do lago Estínfalo e limpa
os estábulos de Augias, captura
o touro de Creta (regressaremos a
ele em breve) e as éguas de Diomedes,
consegue o cinto da amazona Hipólita,
captura Cérbero e o gado de Gérion
e consegue as maçãs de ouro do
Jardim das Hespérides, enquanto liberta Prometeu. O
problema é que, entre tantas aventuras, acabamos por nos esquecer qual é o
motivo que obriga Héracles a realizar tarefas tão difíceis.
2Ciúme e violência
Como muitos mitos gregos, a
história de Héracles começa com mais uma
investida sexual de Zeus entre os humanos e a resposta ciumenta de Hera. A versão
que explica o nascimento do herói varia de fonte para fonte, mas há
algum consenso sobre a convicção de o poder de Zeus estar dependente do
nascimento de um sucessor de Perseu, pelo que o
pai dos deuses decide engravidar a neta daquele, Alcmena, que era
casada com Anfitrião (história que José Pedro Serra
explica aqui).
Stephen
Fry, num dos seus divertidos livros sobre os mitos e heróis gregos,
explica o método escolhido por Zeus:
“[Alcmena] era uma mulher apaixonada e fiel, pelo que, em vez de se
manifestar como águia, cabra, chuva de ouro, urso, touro ou qualquer dos outros
animais ou fenómenos que habitualmente personificava no decorrer das suas
aventuras lascivas, Zeus optou por lhe aparecer sob a forma do seu adorado esposo
Anfitrião.”
O assalto de Zeus dará mesmo
origem a uma superfecundação heteropaternal, mas não havia muitas dúvidas sobre
qual dos gémeos era filho de Zeus: Alcides era mais forte do que o irmão e foi capaz de travar as
tentativas de Hera para acabar com a sua vida (para tentar acalmar a deusa,
Alcides acaba por mudar de nome para Héracles, a Glória
de Hera).
Com o objectivo de garantir a
imortalidade do filho, Zeus pede a Hermes que coloque Héracles junto ao seio de Hera, para que este se alimente do
seu leite. Mas quando
Hera afasta o bebé com aspereza, solta um rasto de leite que se espalha pelos
céus… dando origem à Via Láctea. (Como
não adorar os mitos gregos?)
(Tintoretto, A origem da Via Láctea (1575))
Em Tebas, Héracles recebeu a educação
própria dos heróis e, como descreve Fry, “Quando
chegou aos dez anos, já tinha adquirido fama de terrível corredor, saltador,
cavaleiro, condutor, lançador e arqueiro. No entanto, era também evidente que,
apesar da sua natureza amável e amistosa, o rapaz possuía um temperamento
impetuoso e furioso. Quando a cólera tomava conta dele, somente o pai conseguia
controlá-lo.”
O seu professor de música, Lino,
foi uma das vítimas desse temperamento, mas como Héracles ia mantendo o mundo
livre de ameaças acaba por ser recompensado por Creonte com a mão de Mégara,
com quem teve dois filhos – até ao dia em que, num ataque de loucura
supostamente induzido por Hera, confunde a sua mulher e as crianças com
monstros e mata-as.
Trata-se de um crime de sangue – considerado o mais terrível para os gregos e
que gera uma reação violenta das furiosas Erínias –, pelo que Héracles estava obrigado a um
processo de purificação e expiação: colocou-se, assim, ao serviço do primo
Euristeu durante dez anos para que as dez (ou doze) tarefas lhe permitissem
expiar o crime.
3A lição de Héracles
O mito de Héracles confronta-nos com
uma particularidade da mitologia antiga: não só os deuses eram demasiado humanos – eram violentos, ciumentos, orgulhosos,
invejosos e comportavam-se como tal –, como intervinham constantemente na vida
dos mortais. Podiam visitá-los adquirindo formas humanas e intrometendo-se nas
suas vidas, e é precisamente isso que encontramos na Ilíada: os deuses
eram partes interessadas na guerra de Troia e participaram, directamente e
indirectamente, desviando flechas e inspirando guerreiros.
Esta convicção permitia usar os
deuses para explicar momentos de sorte ou acontecimentos inesperados, mas
também comportamentos humanos mais difíceis de compreender, como acessos de
loucura e violência. Os
mortais seriam meros instrumentos da vontade e desejo dos deuses e, por essa
razão, se um herói, dotado de uma força tremenda e com regulares acessos de
raiva, assassinava a sua família, o motivo estaria numa intervenção dos deuses,
capaz de alterar a realidade e suspender o juízo do herói.
Mas a lição que podemos
retirar do mito de Héracles é outra e encontra-se na ideia de que o facto de
termos nascido como símbolo da força corajosa vem com uma pesada contrapartida: a de que
devemos ser especialmente cuidadosos com aqueles que são mais fracos e frágeis
do que nós, com aqueles que devemos proteger e não atacar.
Tratava-se de uma lição particularmente importante num tempo em que a
força física determinava em larga medida o nosso lugar na sociedade e, por essa
razão, era uma lição especialmente importante para os homens, no masculino,
que, detendo mais força do que as mulheres e as crianças, deveriam estar
especialmente obrigados a um maior dever de cuidado e moderação.
Não é, assim, por acaso que a ideia de virtude esteja ligada à
disposição masculina, como se nota na formação da palavra em latim: ser
viril é aprender a ser
um homem virtuoso,
pois precisamos de força e coragem para não cedermos às nossas paixões mais
violentas. Em Emílio, Jean-Jacques
Rousseau é
especialmente perspicaz a notar este aspecto quando afirma: “embora
digamos que Deus é bom, não dizemos que ele é virtuoso, porque ele
não precisa de fazer esforços para bem agir”.
Ser virtuoso é um combate
constante com os nossos afectos e as nossas paixões. Afinal, diz-nos Rousseau, “não
depende de nós o ter, ou o não ter, paixões; mas depende de nós dirigi-las”. E o que Héracles nos ensina é que ceder a
acessos de loucura e violência nos condena a anos de esforços, escravidão e expiação.
Mas, se formos virtuosos, teremos uma vida melhor.
O problema das sociedades actuais –
que pensam poder dispensar os mitos antigos e a formação religiosa e, com
isso, se consideram livres – é o facto de nos abandonarem aos
instintos e às paixões mais violentas. Fazem-nos acreditar que tudo o que sentimos é legítimo e que tudo o
que desejamos deve ser possível. Mas os antigos sabiam que a
desigualdade é natural, pelo que, se eliminarmos a disciplina, o rigor e a
virtude, ficamos lançados num mundo em que os mais fortes prevalecem.
E isso é particularmente importante
para os rapazes. Não, as mulheres não são iguais aos homens e essa
ficção, que parece dar poder às mulheres, tem-nas, na verdade, enfraquecido (a
lição de Ariadne é para elas). Quase todas as mulheres são fisicamente mais fracas
do que quase todos os homens e, por isso, é particularmente importante
relembrar as diferenças e exigir cortesia, responsabilidade e contenção aos que
são mais fortes. Mas disciplina parece ser uma palavra proibida nos
nossos tempos.
COMENTÁRIOS (6)
Rosário Santos: "Li a mitologia
grega antes da segunda dentição; e quando ouço agora que a mitologia é
pornográfica, acho que a lêem tarde demais." (Agustina Bessa-Luís Diário
de Notícias 15-08-1992). Graças a Deus criámos filhos nos anos 90, nos bons
tempos da Disney e nós próprios lemos centenas de gibis durante as
décadas de 70 e 80 e que vinham do Brasil, ainda a Disney era boa! augusto
sousa: Magnífico texto e uma cultura clássica muito bem
adaptada aos tempos de hoje! De antologia ! Paulo
Sousa: É sempre um privilégio poder lê-la. Obrigado.
João Basílio: Já sentia a falta dos
seus textos. Muito Bom. Bom ano de 2026.
Meio Vazio: Excelente lição. Mais uma. Filipe Afonso: Muito instrutivo e
interessante. Maria Assunção Pereira Carreira: Muito bom.
Nenhum comentário:
Postar um comentário