As presidenciais por cá também ajudem ao
pessimismo. Este, todavia, minimizado, se a coca-cola se mantiver no mercado…
Devia falar de presidenciais, mas não me apetece
Há momentos em que História parece acelerar-se e podemos estar a
viver um momento desses. No Irão, na América Latina, porventura até na Europa e
nem sempre na boa direcção. A campanha fica para depois.
JOSÉ MANUEL FERNANDES Publisher e colunista do
Observador
OBSERVADOR, 12 jan. 2026, 00:2259
Esta é a última coluna que publico antes da primeira volta das eleições
presidenciais e o normal seria que estivesse a reflectir sobre a bizarra
escolha de candidaturas que temos pela frente, mas admito que me falta
entusiasmo, no limite paciência, porventura discernimento para acrescentar algo
que não seja mais do mesmo.
Para além disso, ou me engano
muito ou podemos estar num daqueles momentos da história em que a História
acelera, em que em poucas semanas ou meses acontece o que não esperaríamos que
pudesse acontecer. Não
falo naturalmente do remanso deste nosso cantinho.
“Como é que foste à falência? De
duas maneiras. Gradualmente, depois de repente.”
Ernest Hemingway, em Fiesta – O Sol Nasce Sempre
Como é que um regime cai?
Gradualmente, e depois de repente. Muitas vezes quando menos esperamos.
Pode ser que estejamos a assistir a um momento destes no Irão. A revolta que tem enchido as ruas mesmo das cidades mais remotas não
é como as anteriores – tem uma base social muito mais ampla e até começou entre
os que, historicamente, foram suportes do regime, os homens
dos bazares.
Sabemos que um regime, quando decide recorrer à repressão mais brutal
para conter revoltas, por regra sai vitorioso. Mas também sabemos que a maioria
das revoluções acontece quando nos corredores dos palácios deixa de haver quem
queira defender os ditadores.
Não posso antecipar o que sucederá no
Irão, sobretudo
agora que sabemos que os Estados Unidos podem mesmo cumprir a ameaça de Trump
de intervir se continuar o massacre de manifestantes (no momento em que
escrevo, estima-se que o balanço suba já a 500 mortos), pelo que não
devemos descartar a hipótese de ataques destinados a atingir a cúpula do
regime. Nem antever as suas consequências.
Mas há duas coisas que faço notar.
A primeira é a falibilidade dos analistas especialistas em relações
internacionais, aqueles que aconselham sempre prudência e
parecem ter medo de tudo. Ainda agora, por exemplo, recuperei um artigo de
um desses especialistas, publicado numa das bíblias do establishment, a Foreign Affairs, onde há cerca de ano e meio, uns meses depois do 7 de Outubro de 2023,
se tratava de explicar o sucesso da estratégia iraniana de refazer o Médio
Oriente. Como ontem tuitava um historiador especialista em Médio Oriente, Ali
Ansari, “Deus
nos proteja dos modelos de cientistas políticos e das teorias de especialistas
em Relações Internacionais. Que sempre compreendamos o contingente e o
irracional na ação política.” Sem dúvida.
A segunda, porventura mais importante, é que se a
revolução iraniana de 1979, a que derrubou o Xá e entronizou Khomeini, pode
ser considerada um dos pontos de viragem
do século XX – há um fundamentalismo islâmico antes
e outro depois – a
eventual queda do regime pode ter um significado semelhante, mesmo podendo
surpreender muitos. Não esqueçamos contudo que a queda do Muro de Berlim ainda foi mais
surpreendente.
“Todas as famílias felizes são iguais. Cada família infeliz é
infeliz à sua maneira”.
Primeira frase de Anna
Karenina, de Lev Tolstói
Há uma outra forma de escrever
esta frase, e que pode ler-se assim: “todas
as ditaduras estáveis são semelhantes, cada ditadura frágil é frágil à sua
maneira” (estou a citar agora o
historiador Simon Sebag Montefiore). E são mesmo, basta pensarmos no
que se está a passar na Venezuela, em Cuba,
porventura no Irão, tudo países onde a brutalidade das ditaduras era idêntica e
onde agora todos tremem, mesmo que tremam de modos diferentes.
A audaciosa operação militar de sequestro de Nicolás Maduro criou de repente a percepção de que mesmo os mais entrincheirados
ditadores podem ser apeados quando menos de espera. Há pouco mais de um ano houve um outro
ditador que também caiu sem que antes alguém duvidasse da eficácia da sua
brutalidade – falo de Bashar al-Assad, dessa vez sem evidente interferência externa.
Entretanto percebemos que o
presidente dos Estados Unidos passou a actuar como uma espécie de “grande
desestabilizador”, na minha perspectiva não por promover intervenções externas
inopinadas – muitos outros o fizeram antes dele –, mas por nunca se saber que
aquilo que diz é não para levar a sério ou se está mesmo disposto a usar
métodos pouco ortodoxos para alcançar os seus objectivos.
Talvez a grande diferença
relativamente aos seus antecessores e à generalidade dos actuais líderes
políticos das nossas democracias é que parece capaz de assumir riscos para
alcançar os seus objectivos, e quando o faz usa toda a força e todos os meios
que tem ao seu alcance, sem estados de alma. Há outro líder assim por estes dias – chama-se Benjamin Netanyahu. Os outros preferem discutir o “direito
internacional”.
“A
nossa época é essencialmente trágica, por isso nos recusamos a levá-la a sério”.
D. H. Lawrence, em O amante de Lady Chatterley
Vamos lá ser realistas: alguém leva a
sério as reacções europeias às (supostas) ameaças de Trump sobre a Gronelândia? Alguém
acredita que a pequena Dinamarca poderia defender um território imenso onde,
hoje por hoje, tem menos militares deslocados do que… os Estados Unidos? Alguém consegue imaginar uma força europeia
transplantada para o Árctico quando na Europa se discute se haverá algum dia
capacidade de ajudar a sério a Ucrânia?
Arrisco-me a dizer que
entretermo-nos com estes debates e com estes fantasmas é essencialmente
trágico. Arrisco-me a acrescentar que a União Europeia dá sinais de estar a
entrar numa fase crítica, porventura fatal, da sua existência. O
desfasamento cada vez maior entre o descontentamento dos eleitorados e os
sonhos irreais de “mais Europa” das eurocracias bruxelenses tem tudo para
acabar mal, e vamos ver o que nos trarão as próximas eleições.
Este ano pode ser que Victor
Orban perca
as eleições húngaras (está muito atrás nas sondagens), mas em 2026 a perspectiva de um
presidente Bardela em França é cada vez mais real. Mais, e
porventura mais importante: entre os grandes países europeus, só um tem
mostrado estabilidade e rumo coerente, e esse país é a Itália de Giorgia Meloni. Só isso é um poderoso sinal dos tempos.
Se a estes cenários
acrescentarmos o nó cego orçamental
– no próximo quadro comunitário vai ser preciso começar a
pagar os empréstimos Covid e
ninguém sabe como, assim
como ninguém sabe ainda como financiar o investimento que vai ter de ser feito
em Defesa e é tabu sequer referir que é preciso
reformar as imensas dependências que o chamado “estado social” foi criando e
que se foram acumulando, acumulando, acumulando.
Já perceberam porque é que eu
digo que não se está a levar a sério o que é realmente sério, no limite trágico?
Entretanto este domingo Gouveia e Melo sugeriu que era bom que
as eleições se resolvessem na primeira volta. António José Seguro
lembrou-se de afastar qualquer cenário de golpe militar. Cotrim de
Figueiredo foi almoçar com o embaixador da Dinamarca para falar da
Gronelândia. Marques Mendes elaborou sobre a possibilidade de chumbo do
próximo Orçamento. André Ventura foi discursar para ao pé de uma estátua
de Sá Carneiro.
De facto não me apetece mesmo
escrever sobre esta campanha e estas presidenciais.
POLÍTICA PRESIDENCIAIS ELEIÇÕES IRÃO MÉDIO
ORIENTE MUNDO GRONELÂNDIA DONALD
TRUMP ESTADOS
UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA DITADURA SOCIEDADE
COMENTÁRIOS (de 59)
Rui Lima: Nunca se deve esquecer que a esquerda europeia foi
uma das parteiras do regime iraniano, viam o clero xiita como uma
força revolucionária “emancipadora”, ignorando o seu carácter intrinsecamente
clerical, autoritário e antidemocrático. A
obsessão antiamericana , substituiu qualquer análise séria do islamismo
político, uma falha que perdura até hoje. O
silêncio posterior sobre a repressão, as execuções, a perseguição das mulheres
e o terrorismo explica-se pela recusa da esquerda em assumir erros
históricos graves, nem as suas consequências. Todas estas
experiências ideológicas custaram a vida a milhões. Vitor Batista > Américo Silva: Não têm tido sucesso, porque todas as
redacções estão minadas de esquerdalhos fascistas, tenho pena de usar este tipo
de linguagem, mas também não merecem outra. Alfaiate Tuga: O que me parece estar a acontecer, é que
os americanos percebendo o atoleiro onde a Rússia se meteu com a invasão da
Ucrânia, e estão a aproveitar para deitar a mão, ou pelo menos controlar,
aquilo que até há poucos anos estava sob influência russa. A Europa do
estado social está mais preocupada com a integração dos invasores
multiculturais, do que com a incapacidade actual para se defender militarmente,
os americanos também perceberam isso e usam-no a seu favor. Entre estados não há solidariedade, há
interesses, os americanos estão aparentemente a tentar defender os deles,
se a metodologia for contraproducente, temos de esperar para ver, até agora
parece que ninguém deixou de comprar coca-cola. SDC Cruz: Caro José Manuel Fernandes, a lucidez e
assertividade da sua crónica deram um abanão no nosso marasmo político. Anda tudo preocupado com as presidenciais
e, de facto, já não há pachorra para aturar tanta estupidez. É cada vez maior a
nossa pequenez. Obrigado.
António Lamas: Acrescente
à sua excelente opinião, sobre o fim próximo da UE, o criminoso acordo com o
Mercosul. Este quarto de século fica bem marcado com o selo do pior dos
portugueses. Guterres na ONU e Costa na UE. Todas estas
experiências ideológicas custaram a vida a milhões. Vitor Batista: Boa crónica como sempre, caro JMF. Os EUA vão tomar conta da Gronelândia, ou
seja, vão tomar conta do nosso quintal, porque os Europeus já demonstraram que
não o conseguem fazer, e pessoalmente prefiro que sejam eles a fazê-lo, do que
os orcs ruzzos ou chineses. Direito
International? Os esquerdalhos fascistas que o metam onde o sol nunca brilha, que
perguntem aos Venezuelanos e aos iranianos e israelitas para começar. Ana Luís da Silva: Em contraponto ao jogo das presidenciais e ao novo entretém, o
enjoativo show diário das sondagens, os grandes cronistas políticos do
Observador deste fim-de-semana debruçaram-se maioritariamente sobre os grandes
“movimentos tectónicos”, sociais e políticos, que estão a abalar as estruturas
mundiais e a reformular o mapa da força bruta e ditatorial versus força da
verdade e da liberdade, ao mesmo tempo que revelaram um sentimento de enfado em
relação a uma Europa (incluindo Portugal) que caminha para a insignificância
internacional e que em simultâneo arrasta um lastro de endividamento e a
inconsequência entre a vontade dos europeus e as orientações de Bruxelas, entre
o voto popular e as decisões políticas dos seus governos. A Europa está a
estagnar e provavelmente a regredir, enredada numa inversão de prioridades,
enquanto o mundo à volta estremece com movimentos de fundo e se renova! De Rui Ramos, a Helena Matos,
passando por Miguel Morgado e mais alguns da mesma categoria, finalizando agora
em José Manuel Fernandes que aqui observa (e se calhar profetiza) que “podemos
estar num daqueles momentos da história em que a História acelera”. Estamos de facto. Me Maria Tubucci: Muito bem observado Sr. Jornalista JMF.
Também já não dou para o peditório das presidenciais. Então a palhaçada do voto
antecipado versus o voto no dia 18, mas com o dia de reflexão a 17, líquida
qualquer razoabilidade. Estou saturada... JM Azevedo: enfim. Começa a falar-se do Irão. Boa
análise. Carlos
Chaves: E fez
muito bem caro José Manuel Fernandes.... Excelente crónica! Esta campanha é
simplesmente deprimente! Pedro Figueiredo: Não
vejo telejornais há anos, transformaram-se em autênticas missas de doutrinação
ideológica da esquerda woke que tomou conta das redacções - recuso-me a ser
mais um carneiro e prefiro pensar pela minha cabeça. Mas até nas fontes onde
procuro buscar a informação a que reconheço alguma credibilidade não consigo
interessar-me minimamente por estas enfadonhas eleições presidenciais - e sim,
a sucessão de acontecimentos potencialmente definidores e realmente importantes
neste início de ano torna quase tudo o que é doméstico um total soporífero. Tristão: É verdade que a tendência dominante dos
últimos anos tem sido o recuo das democracias a nível global. Isso está bem
documentado e não desapareceu. Mas não é menos verdade que parece abrir-se
uma janela de oportunidade para o fim de algumas das mais icónicas ditaduras
planetárias: Cuba, Irão e porque não incluí-la,
Venezuela. Cuba
é o regime-mãe. Um colapso ou abertura real em Cuba teria um efeito histórico,
porque retiraria legitimidade ideológica às ditaduras revolucionárias e
cortaria um centro de formação, apoio e coordenação, como se viu na Venezuela,
os cubanos estavam/estão em todo o lado. Seria o fim de um ciclo iniciado
em 1959. Venezuela. O
simples colapso do poder pessoal de Maduro quebra um pilar simbólico do
autoritarismo latino-americano. A transição pode ser longa, mas pior
dificilmente fica. Se o regime cair em Teerão o impacto seria
sísmico. Não apenas para o Médio Oriente, mas para todo o sistema de alianças
autoritárias. O
Irão é hoje um nó central no apoio a milícias, regimes e redes antiocidentais.
Seria um grande dia para todos nós ocidentais. Estou com esperança mas
sempre cauteloso. Se o regime autocrático Húngaro cair, no
poder desde 2010, isso vai mostrar que regimes iliberais podem ser removidos
sem violência, enfraquecendo a narrativa da inevitabilidade autocrática na
Europa. Finalmente,
o eixo Rússia-China sairia enfraquecido quer economicamente quer na capacidade
de projectar poder. Podem ser de facto dias muito interessantes os que
estão pra vir… 🤔 Nota: Seja
em regimes democráticos ou autoritários, é quase sempre a deterioração das
condições económicas que põe tudo em movimento. A ideologia vem depois…
Manuel Magalhaes > Rui Lima: A esquerda e os seus irresponsáveis
acólitos da comunicação social são o verdadeiro cancro das nossas sociedades,
totalmente responsáveis pela nossa decadência …
L Faria: E o
idiota é o Trump, certo? Não me façam rir. Sr Leão: Muito bom em todas as suas vertentes. Jorge Espinha: Quando citou Hemingway , pensei que
estaria a falar de nós . Eu olho para o nosso panorama politico e não vejo
esperança. Estamos na fase do “gradualmente”. José Paulo Castro: Eu lembro-me sempre que, na altura da
queda do muro de Berlim, também tivemos Tiananmen. Dois desfechos diferentes. É a diferença entre o mundo russo, que
colapsa para um período de retorno à liberdade, e o mundo chinês-asiático, que
colapsa para reprimir e mudar os ditadores novos. Temo que o Irão já esteja na
esfera chinesa. Manuel Gonçalves: Outra perspectiva, hiper sintética: -
Trump é o disruptor que contribui para a queda desses regimes, mas pela sua
personalidade histriónica, hiper-ativa, desatenta e dispersa, vem a envolver-se
em conflitos muito para além da capacidade militar e diplomática norte-americana;
- Merz com máximo recato, está a aglutinar a Europa - Ucrânia, Gronelândia,
Mercosul, Índia, mercado de capitais europeu - ainda que possa ter de recorrer
à teoria das diversas velocidades/ dimensões, para ultrapassar divergências
nacionais. E as surpresas podem inverter-se. Um de nós vai ter razão; eu não
tenho medo da minha aposta.
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