terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Talvez


As presidenciais por cá também ajudem ao pessimismo. Este, todavia, minimizado, se a coca-cola se mantiver no  mercado…

Devia falar de presidenciais, mas não me apetece

Há momentos em que História parece acelerar-se e podemos estar a viver um momento desses. No Irão, na América Latina, porventura até na Europa e nem sempre na boa direcção. A campanha fica para depois.

JOSÉ MANUEL FERNANDES Publisher e colunista do Observador

OBSERVADOR, 12 jan. 2026, 00:2259

Esta é a última coluna que publico antes da primeira volta das eleições presidenciais e o normal seria que estivesse a reflectir sobre a bizarra escolha de candidaturas que temos pela frente, mas admito que me falta entusiasmo, no limite paciência, porventura discernimento para acrescentar algo que não seja mais do mesmo.

Para além disso, ou me engano muito ou podemos estar num daqueles momentos da história em que a História acelera, em que em poucas semanas ou meses acontece o que não esperaríamos que pudesse acontecer. Não falo naturalmente do remanso deste nosso cantinho.

“Como é que foste à falência? De duas maneiras. Gradualmente, depois de repente.”
Ernest Hemingway, em Fiesta – O Sol Nasce Sempre

Como é que um regime cai? Gradualmente, e depois de repente. Muitas vezes quando menos esperamos.

Pode ser que estejamos a assistir a um momento destes no Irão. A revolta que tem enchido as ruas mesmo das cidades mais remotas não é como as anteriores – tem uma base social muito mais ampla e até começou entre os que, historicamente, foram suportes do regime, os homens dos bazares.

Sabemos que um regime, quando decide recorrer à repressão mais brutal para conter revoltas, por regra sai vitorioso. Mas também sabemos que a maioria das revoluções acontece quando nos corredores dos palácios deixa de haver quem queira defender os ditadores.

Não posso antecipar o que sucederá no Irão, sobretudo agora que sabemos que os Estados Unidos podem mesmo cumprir a ameaça de Trump de intervir se continuar o massacre de manifestantes (no momento em que escrevo, estima-se que o balanço suba já a 500 mortos), pelo que não devemos descartar a hipótese de ataques destinados a atingir a cúpula do regime. Nem antever as suas consequências.

Mas há duas coisas que faço notar.

A primeira é a falibilidade dos analistas especialistas em relações internacionais, aqueles que aconselham sempre prudência e parecem ter medo de tudo. Ainda agora, por exemplo, recuperei um artigo de um desses especialistas, publicado numa das bíblias do establishment, a Foreign Affairs, onde há cerca de ano e meio, uns meses depois do 7 de Outubro de 2023, se tratava de explicar o sucesso da estratégia iraniana de refazer o Médio Oriente. Como ontem tuitava um historiador especialista em Médio Oriente, Ali Ansari, “Deus nos proteja dos modelos de cientistas políticos e das teorias de especialistas em Relações Internacionais. Que sempre compreendamos o contingente e o irracional na ação política.” Sem dúvida.

A segunda, porventura mais importante, é que se a revolução iraniana de 1979, a que derrubou o e entronizou Khomeini, pode ser considerada um dos pontos de viragem do século XX há um fundamentalismo islâmico antes e outro depoisa eventual queda do regime pode ter um significado semelhante, mesmo podendo surpreender muitos. Não esqueçamos contudo que a queda do Muro de Berlim ainda foi mais surpreendente.

Todas as famílias felizes são iguais. Cada família infeliz é infeliz à sua maneira”.
Primeira frase de Anna Karenina, de Lev Tolstói

Há uma outra forma de escrever esta frase, e que pode ler-se assim: “todas as ditaduras estáveis são semelhantes, cada ditadura frágil é frágil à sua maneira” (estou a citar agora o historiador Simon Sebag Montefiore). E são mesmo, basta pensarmos no que se está a passar na Venezuela, em Cuba, porventura no Irão, tudo países onde a brutalidade das ditaduras era idêntica e onde agora todos tremem, mesmo que tremam de modos diferentes.

A audaciosa operação militar de sequestro de Nicolás Maduro criou de repente a percepção de que mesmo os mais entrincheirados ditadores podem ser apeados quando menos de espera. Há pouco mais de um ano houve um outro ditador que também caiu sem que antes alguém duvidasse da eficácia da sua brutalidade – falo de Bashar al-Assad, dessa vez sem evidente interferência externa.

Entretanto percebemos que o presidente dos Estados Unidos passou a actuar como uma espécie de “grande desestabilizador”, na minha perspectiva não por promover intervenções externas inopinadas – muitos outros o fizeram antes dele –, mas por nunca se saber que aquilo que diz é não para levar a sério ou se está mesmo disposto a usar métodos pouco ortodoxos para alcançar os seus objectivos.

Talvez a grande diferença relativamente aos seus antecessores e à generalidade dos actuais líderes políticos das nossas democracias é que parece capaz de assumir riscos para alcançar os seus objectivos, e quando o faz usa toda a força e todos os meios que tem ao seu alcance, sem estados de alma. Há outro líder assim por estes dias – chama-se Benjamin Netanyahu. Os outros preferem discutir o “direito internacional”.

“A nossa época é essencialmente trágica, por isso nos recusamos a levá-la a sério”.
D. H. Lawrence, em O amante de Lady Chatterley

Vamos lá ser realistas: alguém leva a sério as reacções europeias às (supostas) ameaças de Trump sobre a Gronelândia? Alguém acredita que a pequena Dinamarca poderia defender um território imenso onde, hoje por hoje, tem menos militares deslocados do que… os Estados Unidos? Alguém consegue imaginar uma força europeia transplantada para o Árctico quando na Europa se discute se haverá algum dia capacidade de ajudar a sério a Ucrânia?

Arrisco-me a dizer que entretermo-nos com estes debates e com estes fantasmas é essencialmente trágico. Arrisco-me a acrescentar que a União Europeia dá sinais de estar a entrar numa fase crítica, porventura fatal, da sua existência. O desfasamento cada vez maior entre o descontentamento dos eleitorados e os sonhos irreais de “mais Europa” das eurocracias bruxelenses tem tudo para acabar mal, e vamos ver o que nos trarão as próximas eleições. Este ano pode ser que Victor Orban perca as eleições húngaras (está muito atrás nas sondagens), mas em 2026 a perspectiva de um presidente Bardela em França é cada vez mais real. Mais, e porventura mais importante: entre os grandes países europeus, só um tem mostrado estabilidade e rumo coerente, e esse país é a Itália de Giorgia Meloni. Só isso é um poderoso sinal dos tempos.

Se a estes cenários acrescentarmos o nó cego orçamental – no próximo quadro comunitário vai ser preciso começar a pagar os empréstimos Covid e ninguém sabe como, assim como ninguém sabe ainda como financiar o investimento que vai ter de ser feito em Defesa e é tabu sequer referir que é preciso reformar as imensas dependências que o chamado “estado social” foi criando e que se foram acumulando, acumulando, acumulando.

Já perceberam porque é que eu digo que não se está a levar a sério o que é realmente sério, no limite trágico?

Entretanto este domingo Gouveia e Melo sugeriu que era bom que as eleições se resolvessem na primeira volta. António José Seguro lembrou-se de afastar qualquer cenário de golpe militar. Cotrim de Figueiredo foi almoçar com o embaixador da Dinamarca para falar da Gronelândia. Marques Mendes elaborou sobre a possibilidade de chumbo do próximo Orçamento. André Ventura foi discursar para ao pé de uma estátua de Sá Carneiro.

De facto não me apetece mesmo escrever sobre esta campanha e estas presidenciais.

POLÍTICA      PRESIDENCIAIS      ELEIÇÕES      IRÃO      MÉDIO ORIENTE      MUNDO      GRONELÂNDIA      DONALD TRUMP      ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA      AMÉRICA      DITADURA      SOCIEDADE

COMENTÁRIOS (de 59)

Rui Lima: Nunca se deve esquecer que a esquerda europeia foi uma das parteiras do regime iraniano, viam o clero xiita como uma força revolucionária “emancipadora”, ignorando o seu carácter intrinsecamente clerical, autoritário e antidemocrático. A obsessão antiamericana ,  substituiu qualquer análise séria do islamismo político, uma falha que perdura até hoje. O silêncio posterior sobre a repressão, as execuções, a perseguição das mulheres e o terrorismo explica-se pela recusa da esquerda  em assumir erros históricos graves, nem as suas consequências.  Todas estas experiências ideológicas custaram a vida a milhões.     Vitor Batista > Américo Silva: Não têm tido sucesso, porque todas as redacções estão minadas de esquerdalhos fascistas, tenho pena de usar este tipo de linguagem, mas também não merecem outra.           Alfaiate Tuga: O que me parece estar a acontecer, é que os americanos percebendo o atoleiro onde a Rússia se meteu com a invasão da Ucrânia, e estão a aproveitar para deitar a mão, ou pelo menos controlar, aquilo que até há poucos anos estava sob influência russa. A Europa do estado social está mais preocupada com a integração dos invasores multiculturais, do que com a incapacidade actual para se defender militarmente, os americanos também perceberam isso e usam-no a seu favor Entre estados não há solidariedade, há interesses, os americanos estão  aparentemente a tentar defender os deles, se a metodologia for contraproducente, temos de esperar para ver, até agora parece que ninguém deixou de comprar coca-cola.      SDC Cruz: Caro José Manuel Fernandes, a lucidez e assertividade da sua crónica deram um abanão no nosso marasmo político. Anda tudo preocupado com as presidenciais e, de facto, já não há pachorra para aturar tanta estupidez. É cada vez maior a nossa pequenez. Obrigado.         António Lamas: Acrescente à sua excelente opinião, sobre o fim próximo da UE, o criminoso acordo com o Mercosul. Este quarto de século fica bem marcado com o selo do pior dos portugueses. Guterres na ONU e Costa na UE.  Todas estas experiências ideológicas custaram a vida a milhões.            Vitor Batista: Boa crónica como sempre, caro JMF. Os EUA vão tomar conta da Gronelândia, ou seja, vão tomar conta do nosso quintal, porque os Europeus já demonstraram que não o conseguem fazer, e pessoalmente prefiro que sejam eles a fazê-lo, do que os orcs ruzzos ou chineses. Direito International? Os esquerdalhos fascistas que o metam onde o sol nunca brilha, que perguntem aos Venezuelanos e aos iranianos e israelitas para começar.            Ana Luís da Silva: Em contraponto ao jogo das presidenciais e ao novo entretém, o enjoativo show diário das sondagens, os grandes cronistas políticos do Observador deste fim-de-semana debruçaram-se maioritariamente sobre os grandes “movimentos tectónicos”, sociais e políticos, que estão a abalar as estruturas mundiais e a reformular o mapa da força bruta e ditatorial versus força da verdade e da liberdade, ao mesmo tempo que revelaram um sentimento de enfado em relação a uma Europa (incluindo Portugal) que caminha para a insignificância internacional e que em simultâneo arrasta um lastro de endividamento e a inconsequência entre a vontade dos europeus e as orientações de Bruxelas, entre o voto popular e as decisões políticas dos seus governos. A Europa está a estagnar e provavelmente a regredir, enredada numa inversão de prioridades, enquanto o mundo à volta estremece com movimentos de fundo e se renova De Rui Ramos, a Helena Matos, passando por Miguel Morgado e mais alguns da mesma categoria, finalizando agora em José Manuel Fernandes que aqui observa  (e se calhar profetiza) que “podemos estar num daqueles momentos da história em que a História acelera”. Estamos de facto.          Me Maria Tubucci: Muito bem observado Sr. Jornalista JMF. Também já não dou para o peditório das presidenciais. Então a palhaçada do voto antecipado versus o voto no dia 18, mas com o dia de reflexão a 17, líquida qualquer razoabilidade. Estou saturada...               JM Azevedo: enfim. Começa a falar-se do Irão. Boa análise.            Carlos Chaves: E fez muito bem caro José Manuel Fernandes.... Excelente crónica! Esta campanha é simplesmente deprimente!               Pedro Figueiredo: Não vejo telejornais há anos, transformaram-se em autênticas missas de doutrinação ideológica da esquerda woke que tomou conta das redacções - recuso-me a ser mais um carneiro e prefiro pensar pela minha cabeça. Mas até nas fontes onde procuro buscar a informação a que reconheço alguma credibilidade não consigo interessar-me minimamente por estas enfadonhas eleições presidenciais - e sim, a sucessão de acontecimentos potencialmente definidores e realmente importantes neste início de ano torna quase tudo o que é doméstico um total soporífero.               Tristão: É verdade que a tendência dominante dos últimos anos tem sido o recuo das democracias a nível global. Isso está bem documentado e não desapareceu. Mas não é menos verdade que parece abrir-se uma janela de oportunidade para o fim de algumas das mais icónicas ditaduras planetárias: Cuba, Irão e porque não incluí-la, Venezuela. Cuba é o regime-mãe. Um colapso ou abertura real em Cuba teria um efeito histórico, porque retiraria legitimidade ideológica às ditaduras revolucionárias e cortaria um centro de formação, apoio e coordenação, como se viu na Venezuela, os cubanos estavam/estão em todo o lado. Seria o fim de um ciclo iniciado em 1959. Venezuela. O simples colapso do poder pessoal de Maduro quebra um pilar simbólico do autoritarismo latino-americano. A transição pode ser longa, mas pior dificilmente fica. Se o regime cair em Teerão o impacto seria sísmico. Não apenas para o Médio Oriente, mas para todo o sistema de alianças autoritárias. O Irão é hoje um nó central no apoio a milícias, regimes e redes antiocidentais. Seria um grande dia para todos nós ocidentais. Estou com esperança mas sempre cauteloso. Se o regime autocrático Húngaro cair, no poder desde 2010, isso vai mostrar que regimes iliberais podem ser removidos sem violência, enfraquecendo a narrativa da inevitabilidade autocrática na Europa. Finalmente, o eixo Rússia-China sairia enfraquecido quer economicamente quer na capacidade de projectar poder. Podem ser de facto dias muito interessantes os que estão pra vir… 🤔 Nota: Seja em regimes democráticos ou autoritários, é quase sempre a deterioração das condições económicas que põe tudo em movimento. A ideologia vem depois          Manuel Magalhaes > Rui Lima: A esquerda e os seus irresponsáveis acólitos da comunicação social são o verdadeiro cancro das nossas sociedades, totalmente responsáveis pela nossa decadência …                   L Faria: E o idiota é o Trump, certo? Não me façam rir.        Sr Leão: Muito bom em todas as suas vertentes.               Jorge Espinha: Quando citou Hemingway , pensei que estaria a falar de nós . Eu olho para o nosso panorama politico e não vejo esperança. Estamos na fase do “gradualmente”.              José Paulo Castro: Eu lembro-me sempre que, na altura da queda do muro de Berlim, também tivemos Tiananmen. Dois desfechos diferentes. É a diferença entre o mundo russo, que colapsa para um período de retorno à liberdade, e o mundo chinês-asiático, que colapsa para reprimir e mudar os ditadores novos. Temo que o Irão já esteja na esfera chinesa.               Manuel Gonçalves: Outra perspectiva, hiper sintética: - Trump é o disruptor que contribui para a queda desses regimes, mas pela sua personalidade histriónica, hiper-ativa, desatenta e dispersa, vem a envolver-se em conflitos muito para além da capacidade militar e diplomática norte-americana; - Merz com máximo recato, está a aglutinar a Europa - Ucrânia, Gronelândia, Mercosul, Índia, mercado de capitais europeu - ainda que possa ter de recorrer à teoria das diversas velocidades/ dimensões, para ultrapassar divergências nacionais. E as surpresas podem inverter-se. Um de nós vai ter razão; eu não tenho medo da minha aposta.

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