Humor sombrio de um lúcido pensante corajoso e sempre alerta para desmascarar, através de um falso ego pecador, uma sociedade ampla em defeitos que a evolução do pensamento torna cada vez mais “desconsoladora”. Resta-nos pensar nas abstracções da positividade esperançosa – beleza, bondade e tantas outras perfeições do mundo admirável sempre, também … - para sacudirmos de nós tanto malquerer inteligente e sábio.
12 resoluções de Ano Novo
Onze firmes
propósitos antes de suspender temporária e intencionalmente toda a actividade
cerebral para acreditar no décimo segundo.
ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador
OBSERVADOR, 03 jan. 2026, 00:226
1. Votar à distância nas
eleições presidenciais. Manter a distância ao assunto após as eleições,
incluindo a distância ao candidato que só escolherei no momento de fazer o “X”
e, sobretudo, ao candidato que infelizmente ameaça ganhar. Confirmar a
impressão de que, numa singela década, o prof. Marcelo foi capaz de duas
proezas: a) reduziu a dignidade do cargo a escombros; b) devido
a a) tornou indiferente a competência do
sucessor, que com vantagem poderia ser um psiché ou pior (será pior).
2. Deixar de falar ou de sequer
reconhecer a existência de criaturas que usam a palavra “resiliência” fora
da conotação latina original (“ricochetear”) ou da mecânica dos materiais. A borracha é resiliente, as pessoas não.
Quando muito, as pessoas poderiam ser
“resistentes”, mas não resistem a torturar a língua.
3. Enfiar nesta cabeça dura que não
se pode confundir “anti-sionismo” com “anti-semitismo”. “Anti-sionismo” consiste apenas em abominar a
criação de Israel, criticar as políticas de qualquer governo de Israel,
reprovar a pretensão dos judeus em viver em Israel, condenar reacções violentas
de Israel a ataques de terroristas genocidas, apelar a boicotes de tudo o que é
israelita ou judeu, insultar e perseguir e agredir israelitas ou judeus,
tolerar israelitas ou judeus desde que se criem condições para nos vermos
livres deles, etc. Anti-semitismo é uma coisa diferente.
4. Desenvolver uma consciência
ambiental e dedicar-me ao escrutínio das alterações climáticas. Quero ver se as temperaturas estão de facto
a aumentar. Sobretudo, quero “torcer”, como os adeptos da bola, para que
aumentem, já que a cada ano se me encolhe a tolerância e a paciência para com o
frio. Também gostava de torcer, não
metaforicamente, o pescoço ao primeiro sujeito que garantiu vivermos num clima
temperado.
5. Ouvir com a maior atenção as
sucessivas declarações dos “líderes” europeus sobre a inabalável coesão da
UE. Inventariar a quantidade de
anúncios de “projectos”, “iniciativas”, “planos”, “programas”, “missões”, “roadmaps” (estrangeiro), “estratégias” e “agendas” destinados a afirmar o
continente enquanto potentado económico, militar, cultural e eclesiástico. De
seguida, pretendo abrir a boca de pasmo e repetir quatrocentas e trinta e sete
vezes a frase: “Felizmente a Europa acordou!” Depois da tampinha
agarrada à garrafa, não tarda espantaremos a Terra com a invenção de uma
garrafa agarrada à tampinha. O futuro é nosso.
6. Emoldurar o artigo da “The
Economist”, que elegeu Portugal como “a economia do ano”. Pendurá-lo ao
lado do comunicado de imprensa do Movimento Raeliano Português, em que se avisa para a chegada iminente de
extraterrestres e se exige com urgência “enquadramento internacional pacífico e
responsável, independente de qualquer especulação sensacionalista”.
7. Arranjar uma “causa” ou uma
teoria da conspiração. Aborrece-me ver tanta gente empenhada em coisas que
me escapam. Não gostaria que continuassem a escapar-me. Preciso de abraçar um propósito, a lutar em prol dos “direitos trans” ou contra os hebreus que manipulam o mundo,
a apoiar o feminismo que defende a burca ou a desmascarar a “ida” à Lua. O importante é que possa fingir-me
virtuoso ou imaginar-me inteligente. Quero encontrar um desígnio e abrir conta
naquelas redes sociais tão alternativas que ninguém as conhece. Quero sentir-me
acima dos demais. Quero integrar-me, em suma.
8. Passar mais tempo a ver
espécimes que vêem vídeos verticais sem parança, com o dedinho matreiro pronto
a deslizar no vidro do telemóvel. Analisar-lhes as reacções ou a falta delas.
Medir-lhes a frequência de piscadelas. Submetê-las a TAC e ressonância
magnética, se possível. Deixar-me fascinar.
9. Viajar, como costumo, até
aos Estados Unidos. Tentar não ser
detido no aeroporto de chegada, onde, segundo relatos de quem à cautela nunca
saiu de Carcavelos, as autoridades locais desataram a deter cidadãos inocentes
aos milhares, quiçá milhões, para interrogatório, devassa da privacidade
digital e desaparecimento sumário. Tentar não escutar os gritos
lancinantes das vítimas. Esforçar-me cobardemente por não criticar Trump em
público, ao contrário de 96,4% dos meus colegas de comentário, os quais não
receiam exprimir a sua opinião individual – por acaso igualzinha à de todos os
outros. Ponderar substituir a América
por um passeio a um país realmente livre e civilizado, como o Reino Unido ou a
Venezuela.
10. Estudar com minúcia as listas de livros, discos, filmes e receitas
de bacalhau à Zé do Pipo que peritos elaboraram no final de 2025, de modo a
evitá-los criteriosamente em 2026 e nos quarenta anos subsequentes.
11. Elogiar os imigrantes, sejam
quem forem e quantos forem. Quanto ao “quem”, são sempre maravilhosos,
excepto se vierem do Ocidente e trouxerem dinheiro. Quanto ao “quantos”,
quantos mais melhor, visto que (quase) todos chegam emprenhados de duas ideias
fixas: salvar a nossa segurança social e estimular a nossa economia. Chega a ser comovente – e incompreensível
– que um desgraçado se dê ao trabalho de sair do Paquistão, percorrer sete mil
quilómetros e se estabelecer numa cave esconsa da Amadora com o único objectivo
de nos ajudar. Mas acontece.
12. Suspender a actividade
cerebral de forma a acreditar piamente que a
descida voluntária das sociedades ocidentais rumo um lugar mais irracional,
mais opressivo, mais perigoso, mais ignorante, mais escuro, mais vigiado, mais
primitivo, mais feio, mais triste e menos ocidental é para o nosso bem.
COMENTÁRIOS (DE 6)
Jose MarquesNuno Abreu: Ó bró Abreu, tanta negritude vem de si, que
vive no mais indigente breu
MariaPaula Silva: Doze passas bem passadas! Muito bom, muito bom! Desejo-lhe um excelente 2026!
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