Com admiração – e gratidão
– por quem a narra e interpreta.
As ordens do mundo
na História
A partir de Vestefália a guerra justa não era já a guerra por uma causa legítima, mas a guerra declarada por um sujeito
legítimo - um estado
soberano. A nova ordem mundial tem muito que ver com isto.
JAIME NOGUEIRA
PINTO, COLUNISTA DO OBSERVADOR
OBSERVADOR17
jan. 2026, 00:1833
Os humanistas críticos do
século XVI – Maquiavel, More, Erasmo – estavam
muito centrados na questão do bom governo. Embora
não tivessem democracia, nem televisão, nem redes sociais, nem inteligência
artificial, eram naturalmente inteligentes, lúcidos e bem informados. Tinham, por isso, percebido que o Papado e o Império se
tinham esgotado na luta pela
supremacia e que o Estado
soberano se prefigurava como nova forma de comunidade política e
de poder legítimo, em nome
da paz e do bem comum.
E como é que esse Estado devia ser
governado? Os humanistas, que tinham lido
criticamente os clássicos, Platão e Aristóteles, que conheciam a história de Roma por
Tácito, Lívio e Suetónio e a teologia e filosofia cristã por Santo Agostinho e São Tomás, desconfiavam
da democracia. Para
eles, a democracia tendia a degenerar em oclocracia, “o governo da multidão”. Assim, da clássica classificação
tripartida ou seja, a escolha seria entre o governo de um só e o governo de poucos, ficavam como opção a
monarquia e a aristocracia. E para pensar ou discorrer sobre estas formas de governo, ora recorriam a alegorias e utopias, como More, ora aos mais convencionais “espelhos” para educação dos príncipes,
como o
Institutio
principis christianus, de Erasmo, um manual de bons princípios para o “príncipe
cristão”, que devia ser um imitador de Cristo, educando os súbditos pelo
exemplo e mostrando-se disposto a carregar a sua cruz.
Já o florentino Maquiavel, um
pessimista antropológico radical, admirador da República Romana e dos seus ideais de patria et
libertas, escreveria para a instrução do Príncipe
um receituário hiper-realista, pronto a servir para todo o governante – bom, assim-assim ou francamente mau.
Pensadores livres
Num tempo em que o comentário político se fazia entre pensadores e a
discussão era de facto substancial, estes três grandes pensadores políticos – o
católico utópico, o cristão humanista e o patriota realista – olhavam com curiosidade, inteligência e
abertura de espírito a nova ordem da Modernidade. E More e
Maquiavel faziam-no também a partir de uma longa
experiência de gestão dos negócios públicos: o florentino como Secretário da Sereníssima República
de Florença, o inglês
como alto funcionário da Coroa e depois Chanceler de
Inglaterra, nomeado por Henrique VIII.
Quando lemos os seus textos, ficamos
agradavelmente surpreendidos com a ausência daquilo que hoje se tornou uma
praga redutora do comentário político: a ânsia de parecer bem, exibindo bons sentimentos,
sinalizando o lado certo, professando o credo corrente e esconjurando os
relapsos. Dizer mal de Trump, por
exemplo – esse
mal-educado, esse desvairado, esse sem escrúpulos, esse populista, esse
inveterado pecador contra direito internacional, sempre de olho no negócio – passou a
ser simultaneamente uma obrigação, uma catarse e uma suspensão da razão crítica
e analítica, sem outras consequências que não a de sinalizar virtude.
Estes antigos, não. Os actores principais e secundários da
primeira Modernidade europeia, entre a Reforma e o fim da Guerra dos Trinta
Anos, mostravam-se relativamente livres da “opinião pública”, do que é hoje o
coro que repete a já de si repetitiva “opinião de referência”. Embora
pudessem ser julgados, torturados, executados até; embora pudessem vir a perder
literalmente a cabeça, como More ou Algernon Sidney a perderiam, até lá, a censura e a pressão das ignaras
massas não lhes embargavam o pensamento nem os deixavam de cabeça perdida.
Essa primeira Modernidade era uma época
de progressiva secularização do poder,
em que se abria a polémica política
entre formas de idealismo e até de utopismo. Havia os que defendiam soluções voluntaristas, caminhos para modelos progressistas
de perfeição colectiva e individual, escorados no pioneirismo
antropológico; e os que
defendiam a inalterabilidade da natureza humana, escorados na narrativa
adâmica do pecado
ou na casuística e na experiência histórica, quer de modo mais
conservador, mais agostiniano, quer de modo mais laico e radical, mais maquiavélico.
Esta confrontação foi, por
algum tempo, bipolar: territorialmente, estava muito ligada a fenómenos transnacionais ou trans-estatais
de solidariedade religiosa, como a Guerra dos Trinta Anos e a paz de
Vestefália. Depois, foi-se criando na Europa uma nova
ordem multipolar de potências que, no século XVIII,
resultou na Pentarquia europeia – França,
Inglaterra, Áustria, Prússia e Rússia. Foi Pedro, o
Grande, que trouxe a Rússia para o clube dos
grandes poderes, depois de
ganhar a batalha de Poltava, contra os suecos, na Grande Guerra do Norte.
Foi o tempo europeu da formação dos
Estados nacionais. A seguir ao cesarismo
efémero de Cromwell, a Revolução Inglesa terminava na Glorious Revolution de 1688,
isto é, na oligarquia
liberal; em França, consolidava-se o despotismo
iluminado do Luís XIV; na Áustria, era o
tempo da monarquia católica dos Habsburgo; a Prússia preparava-se,
através da formação militarista, para ser o Estado que iria unificar a Alemanha; e na Rússia, Pedro, o
Grande, com o modo brutal de outros
dirigentes da grande estepe europeia que se lhe seguiriam, modernizava
o Estado.
A Revolução Francesa viria quebrar esta ordem e trazer um período
agitado de guerras ideológicas que acabaria em Waterloo.
Qual é a importância deste processo,
hoje, para nós?
Ao tempo, os dirigentes destes Estados tinham congelado
as guerras religiosas, ou unificando
a identidade das crenças ou tolerando a dissidência. E não
pretendiam exportar além-fronteiras as suas ideias sobre o poder. Tinham interesses nacionais e dinásticos,
projectos de expansão para novos espaços imperiais – e daí viria
a competição –, mas a extrema violência da guerra
dos Trinta Anos, na Alemanha, ditada pelo fervor ideológico ou
religioso, funcionara como vacina para a “guerra justa”. A partir
de Vestefália, a legitimidade passava da causa do conflito para o sujeito do conflito. Assim, a
guerra justa, não era já a guerra desencadeada por uma causa legítima, mas a
guerra declarada por um sujeito legítimo – um Estado soberano. Uma grande
conquista do Jus
Publicum Europaeum.
A nova ordem mundial, a que está agora a ser negociada entre as altas
potências – Estados Unidos, China, Índia – e
as potências médias-altas – Rússia, Turquia, Arábia Saudita, Israel, Brasil, Japão –, tem muito
que ver com isto.
E com mais ou menos lamentos dos aflitos e dos apopléticos e mais ou
menos rebates nostálgicos pela agonizante ordem liberal internacional que
alguns ainda creem dominante, é nesta nova ordenação do mundo que vamos viver. Vamos ver se para o bem se para o mal.
A SEXTA
COLUNA HISTÓRIA CULTURA RELAÇÕES
INTERNACIONAIS POLÍTICA
COMENTÁRIOS:
Rui Lima: Ao sábado temos JNP, por isso é um dia excelente, quem escreve assim
é realmente brilhante. O que aqui lemos é um óptimo exemplo de escrita
cultivada, clara e muito bem informada, revela um domínio histórico e
filosófico notório e intenso, algo que se torna ainda mais evidente quando
contrastamos com a mediocridade e o analfabetismo intelectual de tantos
comentadores que, diariamente, nos agridem nos media. Maria Nunes da Silva: Muito bom. É mesmo bom hoje em dia
ler um artigo lúcido culto que ensina baseado no conhecimento. Nunca pare.
Fazem falta nesta mundo de gente inculta e básica. Rui Lima > Tristão: Mas por que carga de água o JNP teria obrigação de tomar partido? Um
pequeno ensaio histórico-filosófico não tem de fazer prognósticos nem assumir
posições. Dizer que o texto “não vale a pena” porque não prevê se ficaremos
melhor ou pior é reduzir o ensaísta a um mero comentador de circunstância ou adivinho. Komorebi Hi: De
propósito e bem, a UE com o UK incluído não fazem parte da nova ordem mundial,
perderam o comboio ou melhor descarrilaram-no e são: "aflitos,
apopléticos e mais ou menos nostálgicos pela agonizante ordem liberal internacional
que alguns ainda crêem dominante", a França, UK ou como lhe queiram chamar
com mais ou menos Inglaterra, Alemanha, Espanha e os do tipo Portugal dos
pequeninos, todos agarrados ao Centrão socialista/comunista/verde,
centro-não-sei-para-que-lado-cair caso da CDU/CSU ou do PP de Espanha. Bastará
ver a nova votação da moção a von der Leyen e a mudança para mais do mesmo no BCE, tudo
será branqueado e a UE será a continuidade da desgraça, até o Euro quebrar de
vez, a neo República de Weimar aí está. Por aqui, desconfio que lêem
a caixa antes de publicação e que há encomendas também. Carlos Chaves. Duas notas: Obrigado caro Jaime Nogueira Pinto,
por partilhar connosco o seu enorme conhecimento! Não precisamos recuar ao
século XVI para verificarmos a pobreza franciscana dos actuais comentadores
políticos, exceptuando o senhor, o Vasco Rato e poucos mais. Nos idos anos
80/90 do século passado, ainda se encontravam excelentes comentadores políticos
quer à direita quer à esquerda, lembro-me de Vasco Pulido
Valente e de Ruben de
Carvalho
respectivamente! Hoje o comentariado político está ao serviço de interesses
obscuros, portanto muito pouco recomendável! Lia o Semanário (de direita) e o
Jornal (de esquerda) e foi assim que me ajudaram a ser um homem de direita
conservadora! Hoje nem jornais de direita existem.... O Diabo é o último resquício! Ana Luís da Silva: Excelente artigo de Jaime Nogueira Pinto. Esperemos que a Europa,
arredada do jogo por um dos reis do tabuleiro da nova ordem mundial, não
continue na senda da euroburocracia anti-democrática, cada vez com mais tiques
de manipulação e autoritarismo, que mergulhe o velho continente numa crise muito
séria de ausência dos valores ocidentais… estes que foram difíceis de
alcançar, enraizar e a alto preço… da qual resultem guerras civis e
recuo civilizacional, até à sua insignificância total. Maria Carvalho > klaus muller: Essas, coitadas, se lessem este artigo
magistral nem saberiam de quem o autor estava a falar, quando falam só revelam
ignorância sobre o mundo actual, quanto mais da sua história e dos seus
protagonistas… klaus muller: É isso
precisamente! As Davims, Castellos Branco, Carmos Afonsos, e companhia,
essencialmente pretendem mostrar que são mais virtuosas e virtuosos do que a
ralé que eles julgam que os ouvem. A sorte deles é que daqui a uns anos, quando
se analisar imparcialmente a CS desta época, ninguém lhes vai ligar, exactamente
como a mim, nadinha. miguel benis: Do melhor, o que é dizer muito, do que se tem
escrito em poucas palavras, sobre a nossa história recente! Parabéns, !!! Ana Luís da Silva > Maria Nunes da Silva: Cara Maria, os artigos de Jaime Nogueira
Pinto fazem muita falta para toda a gente! :) Manuel Ferreira21: Excelente texto. Face à mudança a que estamos a
assistir, o poder instituído vai responder com censura e numa fase
posterior com guerra, foi assim após a queda do antigo regime. Antonio Rodrigues: Muito bom artigo. Comparar
os comentadores dos séc XVI e XVII, com o actual 'comentariado nacional'
leva-me a concluir definitivamente que quantidade não é qualidade, é
exactamente o contrário.
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