domingo, 18 de janeiro de 2026

HISTÓRIA UNIVERSAL

 

Com admiração – e gratidão – por quem a narra e interpreta.

As ordens do mundo na História

A partir de Vestefália a guerra justa não era já a guerra por uma causa legítima, mas a guerra declarada por um sujeito legítimo - um estado soberano. A nova ordem mundial tem muito que ver com isto.

JAIME NOGUEIRA PINTO, COLUNISTA DO OBSERVADOR

OBSERVADOR17 jan. 2026, 00:1833

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Os humanistas críticos do século XVI – Maquiavel, More, Erasmo – estavam muito centrados na questão do bom governo. Embora não tivessem democracia, nem televisão, nem redes sociais, nem inteligência artificial, eram naturalmente inteligentes, lúcidos e bem informados. Tinham, por isso, percebido que o Papado e o Império se tinham esgotado na luta pela supremacia e que o Estado soberano se prefigurava como nova forma de comunidade política e de poder legítimo, em nome da paz e do bem comum.

E como é que esse Estado devia ser governado? Os humanistas, que tinham lido criticamente os clássicos, Platão e Aristóteles, que conheciam a história de Roma por Tácito, Lívio e Suetónio e a teologia e filosofia cristã por Santo Agostinho e São Tomás, desconfiavam da democracia. Para eles, a democracia tendia a degenerar em oclocracia, “o governo da multidão”. Assim, da clássica classificação tripartida ou seja, a escolha seria entre o governo de um só e o governo de poucos, ficavam como opção a monarquia e a aristocracia. E para pensar ou discorrer sobre estas formas de governo, ora recorriam a alegorias e utopias, como More, ora aos mais convencionais “espelhos” para educação dos príncipes, como o

 Institutio principis christianus, de Erasmo, um manual de bons princípios para o “príncipe cristão”, que devia ser um imitador de Cristo, educando os súbditos pelo exemplo e mostrando-se disposto a carregar a sua cruz.

Já o florentino Maquiavel, um pessimista antropológico radical, admirador da República Romana e dos seus ideais de patria et libertas, escreveria para a instrução do Príncipe um receituário hiper-realista, pronto a servir para todo o governante – bom, assim-assim ou francamente mau.

Pensadores livres

Num tempo em que o comentário político se fazia entre pensadores e a discussão era de facto substancial, estes três grandes pensadores políticos – o católico utópico, o cristão humanista e o patriota realista – olhavam com curiosidade, inteligência e abertura de espírito a nova ordem da Modernidade. E More e Maquiavel faziam-no também a partir de uma longa experiência de gestão dos negócios públicos: o florentino como Secretário da Sereníssima República de Florença, o inglês como alto funcionário da Coroa e depois Chanceler de Inglaterra, nomeado por Henrique VIII.

Quando lemos os seus textos, ficamos agradavelmente surpreendidos com a ausência daquilo que hoje se tornou uma praga redutora do comentário político: a ânsia de parecer bem, exibindo bons sentimentos, sinalizando o lado certo, professando o credo corrente e esconjurando os relapsos. Dizer mal de Trump, por exemplo – esse mal-educado, esse desvairado, esse sem escrúpulos, esse populista, esse inveterado pecador contra direito internacional, sempre de olho no negócio – passou a ser simultaneamente uma obrigação, uma catarse e uma suspensão da razão crítica e analítica, sem outras consequências que não a de sinalizar virtude.

Estes antigos, não. Os actores principais e secundários da primeira Modernidade europeia, entre a Reforma e o fim da Guerra dos Trinta Anos, mostravam-se relativamente livres da “opinião pública”, do que é hoje o coro que repete a já de si repetitiva “opinião de referência”. Embora pudessem ser julgados, torturados, executados até; embora pudessem vir a perder literalmente a cabeça, como More ou Algernon Sidney a perderiam, até lá, a censura e a pressão das ignaras massas não lhes embargavam o pensamento nem os deixavam de cabeça perdida.

Essa primeira Modernidade era uma época de progressiva secularização do poder, em que se abria a polémica política entre formas de idealismo e até de utopismo. Havia os que defendiam soluções voluntaristas, caminhos para modelos progressistas de perfeição colectiva e individual, escorados no pioneirismo antropológico; e os que defendiam a inalterabilidade da natureza humana, escorados na narrativa adâmica do pecado ou na casuística e na experiência histórica, quer de modo mais conservador, mais agostiniano, quer de modo mais laico e radical, mais maquiavélico.

Esta confrontação foi, por algum tempo, bipolar: territorialmente, estava muito ligada a fenómenos transnacionais ou trans-estatais de solidariedade religiosa, como a Guerra dos Trinta Anos e a paz de Vestefália. Depois, foi-se criando na Europa uma nova ordem multipolar de potências que, no século XVIII, resultou na Pentarquia europeia – França, Inglaterra, Áustria, Prússia e Rússia. Foi Pedro, o Grande, que trouxe a Rússia para o clube dos grandes poderes, depois de ganhar a batalha de Poltava, contra os suecos, na Grande Guerra do Norte.

Foi o tempo europeu da formação dos Estados nacionais. A seguir ao cesarismo efémero de Cromwell, a Revolução Inglesa terminava na Glorious Revolution de 1688, isto é, na oligarquia liberal; em França, consolidava-se o despotismo iluminado do Luís XIV; na Áustria, era o tempo da monarquia católica dos Habsburgo; a Prússia preparava-se, através da formação militarista, para ser o Estado que iria unificar a Alemanha; e na Rússia, Pedro, o Grande, com o modo brutal de outros dirigentes da grande estepe europeia que se lhe seguiriam, modernizava o Estado.

A Revolução Francesa viria quebrar esta ordem e trazer um período agitado de guerras ideológicas que acabaria em Waterloo.

Qual é a importância deste processo, hoje, para nós?

Ao tempo, os dirigentes destes Estados tinham congelado as guerras religiosas, ou unificando a identidade das crenças ou tolerando a dissidência. E não pretendiam exportar além-fronteiras as suas ideias sobre o poder. Tinham interesses nacionais e dinásticos, projectos de expansão para novos espaços imperiais – e daí viria a competição –, mas a extrema violência da guerra dos Trinta Anos, na Alemanha, ditada pelo fervor ideológico ou religioso, funcionara como vacina para a “guerra justa”. A partir de Vestefália, a legitimidade passava da causa do conflito para o sujeito do conflito. Assim, a guerra justa, não era já a guerra desencadeada por uma causa legítima, mas a guerra declarada por um sujeito legítimo – um Estado soberano. Uma grande conquista do Jus Publicum Europaeum.

A nova ordem mundial, a que está agora a ser negociada entre as altas potências – Estados Unidos, China, Índia – e as potências médias-altas – Rússia, Turquia, Arábia Saudita, Israel, Brasil, Japão –, tem muito que ver com isto.

E com mais ou menos lamentos dos aflitos e dos apopléticos e mais ou menos rebates nostálgicos pela agonizante ordem liberal internacional que alguns ainda creem dominante, é nesta nova ordenação do mundo que vamos viver. Vamos ver se para o bem se para o mal.

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COMENTÁRIOS:

Rui Lima: Ao sábado temos JNP, por isso é um dia excelente, quem  escreve assim é realmente brilhante.  O que aqui lemos é um óptimo exemplo de escrita cultivada, clara e muito bem informada, revela  um domínio histórico e filosófico notório e intenso, algo que se torna ainda mais evidente quando contrastamos com a mediocridade e o analfabetismo intelectual de tantos comentadores que, diariamente, nos agridem  nos media.        Maria Nunes da Silva: Muito bom. É mesmo bom hoje em dia ler um artigo lúcido culto que ensina baseado no conhecimento. Nunca pare. Fazem falta nesta mundo de gente inculta e básica.         Rui Lima > Tristão: Mas por que carga de água o JNP teria obrigação de tomar partido? Um pequeno ensaio histórico-filosófico não tem de fazer prognósticos nem assumir posições. Dizer que o texto “não vale a pena” porque não prevê se ficaremos melhor ou pior é reduzir o ensaísta a um mero comentador de circunstância ou adivinho.         Komorebi Hi: De propósito e bem, a UE com o UK incluído não fazem parte da nova ordem mundial, perderam o comboio ou melhor descarrilaram-no e são:  "aflitos, apopléticos e mais ou menos nostálgicos pela agonizante ordem liberal internacional que alguns ainda crêem dominante", a França, UK ou como lhe queiram chamar com mais ou menos Inglaterra, Alemanha, Espanha e os do tipo Portugal dos pequeninos, todos agarrados ao Centrão socialista/comunista/verde, centro-não-sei-para-que-lado-cair caso da CDU/CSU ou do PP de Espanha. Bastará ver a nova votação da moção a von der Leyen e a mudança para mais do mesmo no BCE, tudo será branqueado e a UE será a continuidade da desgraça, até o Euro quebrar de vez,  a neo República de Weimar aí está. Por aqui, desconfio que lêem a caixa antes de publicação e que há encomendas também.                     Carlos Chaves. Duas notas: Obrigado caro Jaime Nogueira Pinto, por partilhar connosco o seu enorme conhecimento! Não precisamos recuar ao século XVI para verificarmos a pobreza franciscana dos actuais comentadores políticos, exceptuando o senhor, o Vasco Rato e poucos mais. Nos idos anos 80/90 do século passado, ainda se encontravam excelentes comentadores políticos quer à direita quer à esquerda, lembro-me de Vasco Pulido Valente e de Ruben de Carvalho respectivamente! Hoje o comentariado político está ao serviço de interesses obscuros, portanto muito pouco recomendável! Lia o Semanário (de direita) e o Jornal (de esquerda) e foi assim que me ajudaram a ser um homem de direita conservadora! Hoje nem jornais de direita existem.... O Diabo é o último resquício!                 Ana Luís da Silva: Excelente artigo de Jaime Nogueira Pinto. Esperemos que a Europa, arredada do jogo por um dos reis do tabuleiro da nova ordem mundial, não continue na senda da euroburocracia anti-democrática, cada vez com mais tiques de manipulação e autoritarismo, que mergulhe o velho continente numa crise muito séria de ausência dos valores ocidentais… estes que foram difíceis de alcançar, enraizar e a alto preço… da qual resultem guerras civis  e recuo civilizacional, até à sua insignificância total.                     Maria Carvalho > klaus muller: Essas, coitadas, se lessem este artigo magistral nem saberiam de quem o autor estava a falar, quando falam só revelam ignorância sobre o mundo actual, quanto mais da sua história e dos seus protagonistas…                 klaus muller: É isso precisamente! As Davims, Castellos Branco, Carmos Afonsos, e companhia, essencialmente pretendem mostrar que são mais virtuosas e virtuosos do que a ralé que eles julgam que os ouvem. A sorte deles é que daqui a uns anos, quando se analisar imparcialmente a CS desta época, ninguém lhes vai ligar, exactamente como a mim, nadinha.                  miguel benis: Do melhor, o que é dizer muito, do que se tem escrito em poucas palavras, sobre a nossa história recente! Parabéns, !!!                    Ana Luís da Silva > Maria Nunes da Silva: Cara Maria, os artigos de Jaime Nogueira Pinto fazem muita falta para toda a gente! :)             Manuel Ferreira21: Excelente texto. Face à mudança  a que estamos a assistir, o poder instituído  vai responder com censura  e numa fase posterior com guerra, foi assim após a queda do antigo regime.        Antonio Rodrigues: Muito bom artigo. Comparar os  comentadores dos séc XVI e XVII, com o actual 'comentariado nacional' leva-me a concluir definitivamente que quantidade não é qualidade, é exactamente o contrário.

 

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