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Seguro70,2%

Ventura29,8%
Equívoco?
Sendo certo que o primeiro embaraçado político com este afã e este
afinco na corrida para o andor não pode deixar de ser Seguro ele próprio: que
fazer com tanto voluntariado?
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista,
colunista do Observador
OBSERVADOR, 28 jan. 2026, 00:22
1Não sei se os dois candidatos
presidenciais têm visto o ciclo Hitchcock *, não havia tempo mas é
pena: Seguro não pode distrair-se e
fechar o leque de
generalidades
com que – sempre com
“serenidade” e “moderação” – tem afagado o país votante sem
nunca o convocar para o que pensa sobre o que quer que seja. Mais vale prevenir que
remediar: Seguro tem que continuar seguro que
se mantém Seguro, isto é, ele próprio: defendendo-se
mais do que comprometendo-se.
Também é verdade que lhe deve
ser difícil dar vazão em tempo útil à leitura de tanto abaixo-assinado de salvadores da democracia (?) em luta
contra “atrasados mentais”, versão
socialista irada dos “deplorables” de Hilary Clinton (e que
interessa que sejam quase um milhão e meio de portugueses?).
E Ventura? Ventura também não pode distrair-se e ir
ao cinema. Tem duas frentes de combate abertas em simultâneo – Belém e
S. Bento: para tentar vencer a primeira
– empreitada ainda mais inverosímil que
impossível; e para tornar mais possível que verosímil a segunda. Além disto, que não é pouco, deve dar
trabalho estar a fazer uma campanha praticamente sem interlocutor ou quase:
até hoje – escrevo antes do debate –
não retive nenhuma de troca de interpretações entre ambos sobre o mais alto
cargo do país. Tomei apenas nota de intenções que
invadiam o território dos governos e sei muito vagamente o que pensam do mundo
fora daqui ou o que lhes levariam de Portugal caso o viessem a representar:
que prioridades, que intenções, que
compromissos. Enfim, é uma
pena que não tenham tempo para Hitchcock pois tomariam boa nota da admirável
sabedoria com que se entreteve – não apenas com o “fabrico” do “suspense” que
será logo o que ocorre, mas a dissecar a natureza humana atrás de uma câmara de
filmar.
Alguma coisa havia de
escorrer do écran para os candidatos por mais improvável que soe a
“recomendação”.
2Escorreria por exemplo a
importância do bom uso da observação ou o perigo do mau uso da ambiguidade. A armadilha dos equívocos. O jogo de xadrez do
realizador entre a verdade e a aparência; a culpa e a inocência; o poder e a
manipulação; o real e a ilusão do real. Uma preciosa colecção de
personagens, circunstâncias e comportamentos que me têm vindo por estes dias à
cabeça e não por acaso.
3Não sei com que mais me espante, se com a urgência posta na procissão – e profusão – de
abaixo-assinados, comunicados, declarações de apoio, fotos, imagens,
visitas-surpresa a António José Seguro. Tantos voluntários, um só andor. Sucede porém que esta espécie de rendição
a que assistimos, só na aparência (Hitchcock, mais uma vez mais) configura uma situação de emergência.
Ela não existe e ninguém normalmente constituído dirá que existe. O que
pode sim existir ou vir a concretizar-se são as consequências de um equívoco.
Qualquer dia não é a esquerda que
principalmente vota em Seguro: a “área não socialista”
vota pelas duas, não vale a pena a esquerda incomodar-se (alguma já não se incomodaria,
esgueirando-se entre a farsa e o fingimento, como glosaria Hitchcock). Sendo certo
que o primeiro embaraçado político com este afã e este afinco não pode deixar
de ser Seguro ele próprio: que fazer com tanto voluntariado?
4Do outro lado, é o contrário: não há
sombra de embaraço, deve haver regozijo. Ventura também é o primeiro a saber que quanto mais notáveis e soldados
da “democracia” voarem do centro direita e da direita para o seu rival a que
ele chama erradamente “sistema”, mais votos entrarão na urna do líder do Chega.
Do mesmo modo que quanto mais atestados de antifascismo lançados pelos
donos da democracia sobre os “idiotas” e “fascistas” do Chega, mais a sua base
de apoio adubará esse solo e nele vicejará. Admito estar enganada, mas
recusei alistar-me como voluntária no equívoco (e não voto Ventura, que seria
se votasse). Sucede é que já esqueci algumas coisas e aprendi outras.
5Segundo, qual critério político, qual manual de ciência política, qual
análise, qual fundamentação é que se evoca a eleição de 1986 entre Soares e
Freitas para a comparar com a de hoje? Muito sinceramente não percebo.
Pelo contrário, não há comparação possível. Nem nos actores, nem nas circunstâncias, nem nos
“tempos” políticos, o de ontem e o de hoje, nem no mundo de então e este nosso.
São dois planetas. Onde radica a comparação ou sequer a evocação?
* Lisboa devia agradecer pessoalmente a Paulo Branco o grande maestro
do Nimas este ciclo de cinema. Não sei como, mas devia: dezenas de magníficos
filmes numa generosíssima revisão desta matéria genial, ou numa sublime
descoberta. Não conheço melhor companhia para estes dias. E não conheço
ninguém com este dom de levar as pessoas pela mão para lhes oferecer o melhor
cinema do mundo. Bravo Paulo. E muito obrigado.
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