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Equívoco?

Sendo certo que o primeiro embaraçado político com este afã e este afinco na corrida para o andor não pode deixar de ser Seguro ele próprio: que fazer com tanto voluntariado?

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 28 jan. 2026, 00:22

1Não sei se os dois candidatos presidenciais têm visto o ciclo Hitchcock *, não havia tempo mas é pena: Seguro não pode distrair-se e fechar o leque de generalidades com que – sempre com “serenidade” e “moderação” – tem afagado o país votante sem nunca o convocar para o que pensa sobre o que quer que seja. Mais vale prevenir que remediar: Seguro tem que continuar seguro que se mantém Seguro, isto é, ele próprio: defendendo-se mais do que comprometendo-se.

Também é verdade que lhe deve ser difícil dar vazão em tempo útil à leitura de tanto abaixo-assinado de salvadores da democracia (?) em luta contra “atrasados mentais”, versão socialista irada dos “deplorables” de Hilary Clinton (e que interessa que sejam quase um milhão e meio de portugueses?).

E Ventura? Ventura também não pode distrair-se e ir ao cinema. Tem duas frentes de combate abertas em simultâneo – Belém e S. Bento: para tentar vencer a primeiraempreitada ainda mais inverosímil que impossível; e para tornar mais possível que verosímil a segunda. Além disto, que não é pouco, deve dar trabalho estar a fazer uma campanha praticamente sem interlocutor ou quase: até hoje – escrevo antes do debate – não retive nenhuma de troca de interpretações entre ambos sobre o mais alto cargo do país. Tomei apenas nota de intenções que invadiam o território dos governos e sei muito vagamente o que pensam do mundo fora daqui ou o que lhes levariam de Portugal caso o viessem a representar: que prioridades, que intenções, que compromissos. Enfim, é uma pena que não tenham tempo para Hitchcock pois tomariam boa nota da admirável sabedoria com que se entreteve – não apenas com o “fabrico” do “suspense” que será logo o que ocorre, mas a dissecar a natureza humana atrás de uma câmara de filmar.

Alguma coisa havia de escorrer do écran para os candidatos por mais improvável que soe a “recomendação”.

2Escorreria por exemplo a importância do bom uso da observação ou o perigo do mau uso da ambiguidade. A armadilha dos equívocos. O jogo de xadrez do realizador entre a verdade e a aparência; a culpa e a inocência; o poder e a manipulação; o real e a ilusão do real. Uma preciosa colecção de personagens, circunstâncias e comportamentos que me têm vindo por estes dias à cabeça e não por acaso.

3Não sei com que mais me espante, se com a urgência posta na procissão – e profusão – de abaixo-assinados, comunicados, declarações de apoio, fotos, imagens, visitas-surpresa a António José Seguro. Tantos voluntários, um só andor. Sucede porém que esta espécie de rendição a que assistimos, só na aparência (Hitchcock, mais uma vez mais) configura uma situação de emergência. Ela não existe e ninguém normalmente constituído dirá que existe. O que pode sim existir ou vir a concretizar-se são as consequências de um equívoco.

Qualquer dia não é a esquerda que principalmente vota em Seguro: a “área não socialista” vota pelas duas, não vale a pena a esquerda incomodar-se (alguma já não se incomodaria, esgueirando-se entre a farsa e o fingimento, como glosaria Hitchcock). Sendo certo que o primeiro embaraçado político com este afã e este afinco não pode deixar de ser Seguro ele próprio: que fazer com tanto voluntariado?

4Do outro lado, é o contrário: não há sombra de embaraço, deve haver regozijo. Ventura também é o primeiro a saber que quanto mais notáveis e soldados da “democracia” voarem do centro direita e da direita para o seu rival a que ele chama erradamente “sistema”, mais votos entrarão na urna do líder do Chega. Do mesmo modo que quanto mais atestados de antifascismo lançados pelos donos da democracia sobre os “idiotas” e “fascistas” do Chega, mais a sua base de apoio adubará esse solo e nele vicejará. Admito estar enganada, mas recusei alistar-me como voluntária no equívoco (e não voto Ventura, que seria se votasse). Sucede é que já esqueci algumas coisas e aprendi outras.

5Segundo, qual critério político, qual manual de ciência política, qual análise, qual fundamentação é que se evoca a eleição de 1986 entre Soares e Freitas para a comparar com a de hoje? Muito sinceramente não percebo. Pelo contrário, não há comparação possível. Nem nos actores, nem nas circunstâncias, nem nos “tempos” políticos, o de ontem e o de hoje, nem no mundo de então e este nosso. São dois planetas. Onde radica a comparação ou sequer a evocação?

* Lisboa devia agradecer pessoalmente a Paulo Branco o grande maestro do Nimas este ciclo de cinema. Não sei como, mas devia: dezenas de magníficos filmes numa generosíssima revisão desta matéria genial, ou numa sublime descoberta. Não conheço melhor companhia para estes dias. E não conheço ninguém com este dom de levar as pessoas pela mão para lhes oferecer o melhor cinema do mundo. Bravo Paulo. E muito obrigado.

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