sábado, 18 de janeiro de 2025

Lynch ainda

 

Não, julgo que não aderiria, se conhecesse, pois nunca consegui aderir a um único livro que tentei ler da Nathalie Sarraute, quando quis penetrar nas formas e reformas do surrealismo, mas agrada muito reconhecer o alto gabarito dos que avançam no conhecimento do que para os mais simples parece abstruso. Felizmente que a desigualdade existe e a liberdade de escolha também. Mas fico grata, como sempre, a Alberto Gonçalves por ser desses outros e tentar explicar, aos ignorantes ou adversos do pensamento tortuoso, esses outros mundos de um absurdo, para esses, impenetrável, mau grado a arte que comprovam, para os que o penetram.

A lei de Lynch

Lynch inventou um mundo parecido com o real mas que não é exactamente o real. É esse ligeiro desfasamento que nos deixa sem pé e suscita os pequenos e os enormes abalos de que a arte é capaz.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 18 jan. 2025, 00:20

Quando “Blue Velvet” apareceu eu tinha 17 anos e vários amigos não calavam o entusiasmo. Naturalmente, não fui ver. Já então adoptava o princípio segundo o qual os filmes, os discos e os livros em voga devem ser evitados como uma infecção bacteriana. O princípio, a que raras vezes desobedeci, tem-me poupado ao contacto com imensa fancaria ou meros aborrecimentos, cuja falta não sinto e cuja ignorância agradeço. Com “Blue Velvet”, porém, o método sofreu uma perturbação.

Uma noite, aí por 1988 ou 1989, a fita passava na RTP e a minha namorada de então quis assistir. Resmunguei, protestei, ponderei organizar uma manifestação de repúdio e, vencido, lá me preparei para ficar duas horas a lançar à televisão graçolas e considerações alusivas à vacuidade dos fenómenos da moda. Nisto, arrancou a sessão, primeiro com o genérico em cima de um cortinado azul escuro e ao som de “Im Abendrot” (“No Crepúsculo”), a terceira das Quatro Últimas Canções de Richard Strauss. Não dei um pio. Depois “Blue Velvet” abriu com a canção homónima na versão de Bobby Vinton e o plano do céu da cor do cortinado, a cerca branca e as flores vermelhas ao sol. De seguida, cortou para o carro de bombeiros a percorrer, em câmara lenta, uma rua dos subúrbios americanos “clássicos”. Sobre o degrau da porta, a que agarrava a mão esquerda, vinha um bombeiro, que sorria e nos acenava com a mão livre. Em 25 segundos, eu estava conquistado. No momento em que, após o sujeito da mangueira desabar no jardim, a câmara desviou do cachorro que brincava com a água e desceu à terra e às entranhas da terra, percebi-me tocado num lugar da cabeça – ou do coração, ou da alma – de que até aí eu só suspeitava, se é que suspeitava, que existisse.Blue Velvet” provou-me que existia. E o seu autor, David Lynch, que jamais explicava o que quer que fosse, voltaria, em recorrentes ocasiões, a lembrar-me desse lugar e, sem o nomear ou situar no mapa, a explicar-me, pela voz do agente especial Dale Cooper, que é “estranho e maravilhoso”.

Em 1990, vieram Dale Cooper e “Twin Peaks”, que acolhi com fervor e sem me incomodar com o consenso das massas. Em 1991, vi “Wild at Heart” em sala por três dias consecutivos. E, não recordo as datas, voltei atrás a recuperar  “Eraserhead” e “The Elephant Man”. E continuei em frente com o escasso cinema que Lynch ainda haveria de fazer, e que acabou, para mim, com “Mulholland Drive”, labirinto assombrado por “Sunset Boulevard”, de Billy Wilder, sempre a roçar o pedantismo e sempre resgatado pela potência visual e a aptidão evocativa. Desprezei deliberadamente “Dune”, porque não suporto épicos “de época”, passada ou futura. Desisti de “Inland Empire”, porque usar vídeo digital tem um preço, baixo na carteira e altíssimo na estética. E limitei-me a dois episódios da nova série de “Twin Peaks”, por razões que nem me apetece compreender. Séries de TV à parte, a obra de Lynch são dez filmes. Conheço oito. Revejo com frequência cinco ou seis (prefiro repetir o garantido a experimentar desgraças). Quatro buliram-me na vida. E um quase a transcende.

A perfeição de “The Straight Story”, de 1999, começa no título, que obviamente refere Alvin Straight, o homem que em 1996 percorrera 400 km num cortador de relva John Deere para visitar o irmão doente e com quem cortara relações. Mas a palavra – que significa em simultâneo “a direito”, “recto”, “verdadeiro” ou “liso” – remete igualmente para a obstinação solitária da empreitada, a topografia das planícies do Midwest e o carácter do protagonista. E, claro, a linearidade da narrativa, que à superfície dispensa as perturbações “noir” dos “thrillers” de Lynch. Sucede que as perturbações estão lá, apenas de modo implícito ou espreitando com discrição: nas dificuldades verbais da filha de Alvin, no medonho segredo da guerra, na indigna passagem do tempo, no olhar triste e justo de Richard Farnsworth (com cancro terminal durante a rodagem). E na trágica harmonia da cena final, com dois velhos sentados num alpendre em ruínas, reconciliados nos instantes que lhes restam antes de serem devolvidos às estrelas. “The Straight Story” é uma obra onde não acontece “nada” e que permite imaginar tudo. É Lynch depurado ou, na opinião do realizador, o seu filme “mais experimental”. É o filme mais “fordiano” não assinado por John Ford e é, discutivelmente a par com “Young Mr. Lincoln”, o filme mais bonito (medi o termo) que há.

Não foi por acaso que Steven Spielberg escolheu Lynch para interpretar Ford em “The Fabelmans”. Também não foi por abundarem as semelhanças entre ambos, para além da aversão em comentarem o próprio trabalho e, talvez, de certo conservadorismo anárquico das respectivas personalidades e da solidão “existencial” ou literal dos respectivos heróis (Nicolas Cage em  Wild at Heart”: “Já te disse que o meu casaco de pele de cobra é um símbolo do meu individualismo e da minha crença na liberdade pessoal?” Laura Dern: “Umas 50 mil vezes”).

A semelhança que importa é outra. Como Ford com o Oeste, Lynch fez o mesmo aos pedaços da América em que pegou (as “small towns” e Los Angeles), ou seja, inventou um mundo, um mundo parecido com o real mas que não é exactamente o real: os bombeiros não acenam em câmara lenta ao som de Bobby Vinton. É esse ligeiro desfasamento que nos deixa sem pé e suscita os pequenos e os enormes abalos de que a arte é capaz. David Lynch foi um artista, e embora o adjectivo hoje se distribua por muitos, muito poucos o merecem.

DAVID LYNCH       CULTURA      CINEMA

COMENTÁRIOS

Alexandre Barreira: Pois. Caro AG, Bela "ode" ao grande David Lynch. O "homem Elefante"....foi extraordinário....!!!                   Meio Vazio: Excelente retrato de Lynch, num texto ainda melhor.          José Paulo Castro: O período de "Blue Velvet" (1986) até "The Straight Story" (1999) é o mais característico. Lembro que nesse período há um filme "Twin Peaks" que remete para a série televisiva homónima, desvendando a parte crucial do enigma. No entanto, é um filme que se autonomiza. Para os mais exigentes e intelectuais há sempre "Inland Empire", o último, que rebenta com a escala da compreensão.                     klaus muller: Esta crónica de AG de hoje para mim foi quase chinês. É que quando vejo um filme, nunca me interessa saber quem o fez, só me interessa que haja pelo menos uma atriz "boa" e também pelo menos uma morte violente em cada meia hora. Eu sei que isto não abona muito em meu favor, mas é a realidade: reconheço que não sou culto; pertenço às ciências exatas.                           José Paulo Castro > klaus muller: A meia hora, não sei, talvez hora e meia, mas atrizes não faltam. Veja "Wild At Heart" (Coração Selvagem). Acho que cumpre os critérios. Terá de esperar pelo fim, mas cumpre...                    Maria Paula Silva: Um belo tributo a David Lynch!         klaus muller > Maria Paula Silva; Já vi que a Paula é culta.             Liberales Semper Erexitqueklaus muller: Yes she is! Comigo também me tem sucedido o mesmo que a AG com a namorada. Houve quem tivesse meditado no assunto e chegou à conclusão que as mulheres preferem que um homem faça uma coisa contrariado (mas que elas querem) do que não a faça. Mesmo que essa coisa possa perfeitamente não ser feita. Acho que é para mostrarem que têm poder. Será que o que acabo de escrever pode ser considerado misoginia, discurso de ódio nos tempos que correm?       S Beloklaus muller: Misoginia ? Uma coisa pode crer como certa: “se ficar o bicho come; se fugir o bicho agarra”

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