Tal qual como em outras Revoluções, a
Francesa, por exemplo! Tanta gente que se matou então, em
nome da causa do povo explorado! Tanta libertinagem consentida! Nessa altura,
foram as tais classes sociais em foco, e a nobreza foi extinta, de facto, a
burguesia avançou então, dona do trabalho e das finanças, posta em causa,
contudo, no século XX, pelos adeptos de uma esquerda que hoje se debruça mais
sobre os coitados das raças mais pigmentadas, exploradas a seu tempo, tal como
o povo o fora, inicialmente. As democracias assim se protegem e introduzem
princípios de libertinagem em várias direcções, entre os quais o da liberdade
sexual sob um ror de ângulos comportamentais. Todavia, os princípios
espirituais, entre os quais os morais, mantêm-se nos livros antigos, por vezes
revistos e relidos. E surgem outros livros do bom-senso e da razão, que voltam
a explicar com idênticos porquês, acrescidos de outros considerandos, arrancados
também à psicologia do bom-senso e da razão. E as pessoas que os lêem, tais
como PATRÍCIA FERNANDES, os difundem, justificando os seus dados, segundo os tais
argumentos, que as liberdades apelidadas de democráticas ou mesmo outras
libertinagens apoiadas em princípios de permissividade luxuosa ou puramente
pedante de um progresso ruidoso, tentaram pontapear. Felizmente, existem as
Patrícias e os Patrícios a alertar, esperemos que criando bons discípulos. É
preciso ter esperança. E estudar mais.
O que é isso de revolução sexual? (1)
60 anos volvidos sobre a alegria
esfuziante e libertadora da revolução sexual, é tempo de reavaliar as suas
consequências e compreender melhor o preço que, como indivíduos e sociedade,
estamos a pagar
PATRÍCIA FERNANDES
Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho
OBSERVADOR, 13
jan. 2025, 00:1860Re
1Convicções de luxo
Regressemos a Rob Henderson
e à sua expressão “convicções de luxo”. No seu artigo, Henderson explica que a
ideia surgiu quando uma colega da Universidade de Yale lhe disse que “a monogamia se tinha tornado obsoleta e
não seria boa para a sociedade”. Considerando a complicada infância que tinha tido,
Henderson ficou surpreendido com esta posição e perguntou à colega pelo seu
contexto familiar e se planeava casar. E, sim, a colega vinha de uma família
estável e rica e pretendia ter um casamento monogâmico – “mas acrescentou rapidamente que o casamento não tem de valer para
todos”.
Considerar que todas as estruturas
familiares são igualmente válidas – uma
posição que as elites intelectuais progressistas tendem a defender – constitui,
para Henderson, uma típica convicção de luxo: uma ideia que defendemos para nos
dar prestígio social, mas que, consideradas as suas consequências negativas,
não pretendemos pessoalmente pôr em prática. Contudo, como são defendidas pelas elites, estas ideias tendem a
influenciar a cultura e as normas sociais pelo que os seus impactos passam a
ser sentidos pelas classes socais mais desfavorecidas.
É precisamente o que acontece com a desvalorização social do
casamento enquanto compromisso estável e duradouro entre duas pessoas. Afinal,
“[o]s dados provam que as famílias
com dois pais casados são as mais benéficas para as crianças pequenas. E, no
entanto, é mais provável que pessoas ricas, educadas e criadas por dois pais
casados defendam que a monogamia está ultrapassada, o casamento é uma farsa ou
que todas as formas familiares são iguais.”
Brad Wilcox, director do
National Marriage Project da Universidade da Virginia e que publicou, em 2024,
o livro Get Married: Why Americans Must
Defy the Elites, Forge Strong Families, and Save Civilization,
denuncia esta atitude das elites como uma terrível hipocrisia:
“Muitas elites – professores, jornalistas,
educadores e outros formadores de cultura – desconsideram ou negam publicamente
a importância do casamento, da família de dois pais e o valor de fazer tudo o
que for possível para “ficar juntos para o bem das crianças”, apesar de, em privado,
valorizarem cada uma destas coisas. Em matéria de família,
“falam à esquerda”, mas “andam à direita” – uma forma invulgar de hipocrisia
que, por muito bem-intencionada que seja, contribui para a desigualdade
norte-americana, aumenta a miséria e raia o imoral.”
2 O gap familiar
Para
compreendermos de que modo a ideia da obsolescência do casamento se popularizou
entre as elites progressistas norte-americanas, temos de regressar às décadas de
1960 e 1970 e identificar o
espírito de contracultura
daqueles anos. No
Ocidente, a geração que tinha nascido após a segunda guerra mundial revoltava-se
contra os valores conservadores da chamada “geração silenciosa”, que
tinha, silenciosamente, sofrido o impacto das guerras e triunfado. Nascidos
num conforto material incomparável, esses jovens chegaram às universidades
desejosos de mais liberdade e igualdade e indisponíveis para participar em
incursões militares. A
revolta era direccionada contra as hierarquias e todas as formas de
manifestação de poder e autoridade, entendidas como opressoras da liberdade
individual – um sentimento consagrado em Paris com um dos slogans
mais relevantes do Maio de 68: “É proibido proibir.”
No
meio académico, as influências combinavam princípios marxistas, intuições
estruturalistas e, em particular, a defesa freudiana da libertação das pulsões
biológicas, nomeadamente sexuais – uma mistura representada especialmente bem
por Herbert Marcuse, considerado o pai da Nova Esquerda.
É
este espírito de libertação que dá forma à designada revolução sexual, que
visava libertar corpos e mentes das regras sociais que determinavam o que era
ou não admissível na esfera do corpo, nas relações e na família. E libertaria,
em particular, a mulher, como proclamado por Germaine Greer, em 1970, com a
publicação de The Female
Eunuch.
Estávamos
em plena segunda vaga do feminismo e, nesse contexto, a família era apresentada
como estrutura social particularmente opressora para a mulher, em resultado da
sua essência burguesa e patriarcal. Emancipar a mulher e garantir a sua
condição de igualdade parecia assim requerer uma redefinição (para
alguns, mesmo a destruição) da instituição familiar, para que desses escombros
pudessem surgir novas formas de organização menos sujeitas à lógica do
“casamento tradicional”. Foram estas ideias que se tornaram culturalmente
populares, simbolizando a abertura de espírito e o avanço do arco moral em
direção ao progresso e que continuam a ser usadas pelas elites intelectuais e
económicas para simbolizar o espírito progressista.
No entanto, ao mesmo tempo que tinham
este discurso público, as elites continuaram a constituir família no contexto
de um casamento monogâmico e estável, com o seguinte resultado registado nos
Estados Unidos: desde a década de 1960, os casamentos diminuíram, os divórcios aumentaram e as
famílias monoparentais multiplicaram-se… em particular nas classes
trabalhadoras e pobres. E
é esta discrepância que tem vindo a ser designada como “gap familiar” entre os
mais ricos e os mais pobres, com especiais consequências para as crianças. Como
diz o sociólogo Andrew Cherlin: “São os
norte-americanos privilegiados que se casam, e o casamento ajuda-os a
manterem-se privilegiados”.
3O sucesso do casamento
Esse
fosso familiar é tão evidente que Melissa Kearney publicou, em 2023, um livro intitulado The Two-Parent Privilege para
revelar como a questão familiar
constitui um dos factores mais relevantes do problema das
desigualdades económicas nos Estados Unidos. De facto,
“a investigação mostra que as crianças de lares com pais casados
tendem a apresentar menos problemas de comportamento, a ter menos sarilhos na
escola ou com a lei, a atingir níveis de educação mais elevados, a obter
rendimentos mais elevados e a ter taxas mais elevadas de casamento.”
E, como já vimos, as consequências são ainda
mais graves para os rapazes. De acordo com o Institute for Family Studies, os
jovens que cresceram sem a presença do pai biológico estão mais ausentes das
universidades e do mercado de trabalho e mais presentes nas prisões.
O
tema não é, na verdade, novo. Em 1965, Daniel Patrick Moynihan publicou
o famoso Relatório Moynihan (que se tornaria politicamente inaceitável)
e Isabel Sawhill dedicou
décadas de investigação à causa familiar (há quem entenda que o livro Generation
Unbound, publicado em 2014, é a sua desistência). Mas a consistência dos estudos que
continuam a ser feitos e uma certa resposta contra-cultural têm permitido
colocar o assunto na ordem do dia com mais pertinência.
Consideremos o trabalho de Brad Wilcox em
torno da designada “sequência de sucesso”
para que uma nova narrativa cultural
substitua aquela que desvaloriza o casamento. De
acordo com as suas investigações, a melhor forma de os
membros das classes pobres aumentarem
a sua mobilidade social é percorrerem os seguintes passos: 1) terminar, pelo menos, o ensino secundário; 2)
trabalhar a tempo inteiro enquanto se está na casa dos 20 anos; e 3) casar
antes de ter filhos. Esta é também a melhor fórmula de evitar que as crianças
cresçam em contexto de pobreza.
Esta nova narrativa deveria,
assim, ser enquadrada nas reflexões mais amplas de combate à pobreza, e é
particularmente importante entre as classes mais desfavorecidas e com menos
estudos. Como os investigadores notam, nos meios mais abastados, os
pais tendem a esforçar-se mais para manter o casamento, mesmo com todas as dificuldades
e problemas pessoais,por causa das crianças.
É junto dos outros grupos sociais que o divórcio é mais recorrente.
Mas
o casamento não constitui apenas uma vantagem económica: de acordo
com o estudo realizado por Sam Peltzman sobre “demografia social e política da
felicidade”, as pessoas casadas são mais felizes do que as solteiras; outro estudo revela que o casamento parece ajudar a prevenir as “deaths of despair”; e Kay Hymowitz remete para “o
inextinguível impulso humano para a união de pares” que ajuda a explicar a persistência da
família nuclear ao longo da história da humanidade e a satisfação por ela
gerada.
Existem, claro, situações graves em que o
casamento não se deve manter – em
particular quando há crianças envolvidas (o argumento funciona,
nesses casos, ao contrário). Mas,
sessenta anos volvidos sobre a alegria esfuziante e libertadora da revolução
sexual, estamos hoje no momento de reavaliar as suas consequências e
compreender melhor o preço que, como indivíduos e sociedade, estamos a pagar,
nomeadamente, na perda de sentido e felicidade.
Afinal, como diz Christine Emba, no seu
maravilhoso Rethinking Sex: “Podemos desejar liberdade
hoje, mas queremos sentido amanhã e para o resto das nossas vidas.”Sexualidade
AMOR E SEXO LIFESTYLE FAMÍLIA COMPORTAMENTO SOCIEDADE
COMENTÁRIOS (de 60)
Carlos Chaves: Fico à espera da segunda
reflexão da Patrícia Fernandes sobre este tema, se for tão boa como esta
primeira, finalmente começamos a assistir à probabilidade de voltarmos ao
normal, de antes das várias ideias impostas pelos “progressistas”, leia-se de
pela esquerda! A família tradicional, com o casamento incluído, é a célula base
de uma sociedade funcional! Jorge
Mayer: Muito bem fundamentado, com amplas fontes. Mais uma vez parabéns! Faz
pensar e bem, com sustentação e moderação! Muito obrigado! Alberto
Mendes: A Patricia, sozinha, vale a assinatura. Pena a redação do OBS não ler os
livros e autores que cita. Obrigado. Meio
Vazio: O que estudantes do ISCTE e da FCSH da Nova teriam a ganhar com uma
professora (!) destas!... Meio
Vazio: Lê-la é também um privilégio. Domingas
Coutinho: Excelente! Afinal qual é o objetivo do ser humano? Não será ser feliz? E
será que se conseguiu com esta revolução sexual? Os divórcios a torto e a
direito resolvem de facto os problemas? joao lemos: excelente artigo e bem
fundamentado, desagradável para os mesmos do costume. Lily Lx: Verdade. Porém, a consequência
que a esquerda retira destas conclusões não é a necessidade de promover o
casamento e a família; é a necessidade de combater o privilégio das crianças
que vivem em famílias funcionais.
(Continua)
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