terça-feira, 4 de dezembro de 2018

À sombra da bananeira



Não, não vamos conspurcar a azinheira alentejana, de vasta copa antiga, que Bagão Félix cita como concorrente à Árvore Europeia 2019. Apesar dos incêndios também vastos, ainda temos árvores proporcionadoras de boa sombra, e se forem figueiras tanto melhor, não só para o deleite da sombra como para o deleite do estômago, sobretudo se forem pingo de mel os figos. O mais comum, contudo, nestas coisas do ripanço, é traduzir-se a expressão virgiliana,“sub tegmine fagi”, por “à sombra da bananeira”, por via da amplitude alimentícia dos seus generosos cachos.
Vem a referência a propósito do texto de Bagão Félix que explora, em abstracto, o tema da corrupção, da falta de ética, na convulsão das notícias, ou das propostas de acção, que se atropelam e seguem e se substituem, num ruído persistente em que os interesses próprios se impõem, e tudo isso resulta, certamente, da reviravolta ideológica, pela adopção de uma democracia exigente em direitos, a começar pelos que tomaram em mãos os destinos da nação. Sabe-se tudo isso, mas Bagão Félix talvez exagere na sua crítica, sobretudo quando afirma que «A soberania reside no povo. Qual soberania? A de apenas votar de x em x anos? É sobejamente pouco. E enganoso.» Penso que o povo já conquistou muito, através dos seus representantes, que fazem o que podem para criar condições de vida, mas era preciso que o povo trabalhasse com a mesma garra com exige os seus direitos, por altura das greves. Não podemos esquecer uma dívida de todo o tamanho, a pagar.
OPINIÃO    Política e políticas
ANTÓNIO BAGÃO FÉLIX
OBSERVADOR, 30 de Novembro de 2018
A política está cada vez mais capturada pela aparência, pela obsessão do actualismo, pela catadupa de notícias devoradas umas pelas outras, pelas sondagens e likes, pelo primado da conveniência, pelo tacticismo sem estratégia, pela erosão do poder-dever. A ideia de política com ética vem-se rarefazendo, porque se, para a política muitas vezes basta parecer, (e aparecer), para a ética não basta a “markética” de parecer, é mesmo preciso ser.
O espectáculo do anúncio tornou-se central. Já não é preciso fazer, basta anunciar. O escrutínio e acompanhamento da acção política perde-se na penumbra do tempo e na erosão da memória colectiva. Não se age, antes se reage, em agendas mais marcadas pelo oportunismo do que pela convicção. Abraçam-se minudências para se procrastinarem os grandes desafios. Mistura-se a insignificância com a gravidade, a festarola com a solenidade. As ideias tornaram-se moldáveis, volúveis, permutáveis, negociáveis em forma de plasticina intelectual. Pelo mundo fora, há fartura de políticos dos direitos, escasseiam políticos dos deveres e estadista é uma espécie em vias de extinção.
A míngua da ética da convicção e a diluição da ética da responsabilidade potenciam abordagens egoísticas ou, no máximo, utilitaristas, teleologicamente desprezíveis e favorecem ambientes corruptíveis e dissolventes. Hoje, diante de conflitos de interesses reais ou potenciais, moldam-se as leis e as regras para, não raro, legalizar o que nem sempre é legítimo. O pudor já nem sequer é um fiável regulador ou “termóstato” de conduta.
À falta de argumentos ou à boleia da preguiça intelectual, opta-se crescentemente por etiquetagens redutoras e perigosamente simplistas. Os “ismos” e os “istas” passaram à categoria de insulto alegremente papagueado que, todavia, esconde a ignorância. Em curto-circuitos axiologicamente indigentes, tuita-se, instagrama-se, facebooka-se, numa mistura de pobreza linguística, sintaxe primária, aversão ao raciocínio profundo e desprezo pela memória.
As fronteiras de interesses entre o que é ou deve ser público e sujeito à tutela do bem comum e o que é privado estão sujeitas a subjectivismos interpretativos, volúveis e movediços em função do contexto que existe ou se quer que exista.
A autenticidade, isto é, a conformidade ontológica entre ser-se, estar-se, pensar-se, dizer-se, fazer-se, esboroa-se e o mascarado só precisa de, de quando em vez, trocar de roupagem para prosseguir o fingimento.
Muda-se em razão das conveniências, não em função das convicções. Ou das dinâmicas e das narrativas, como agora se ouve. As doutrinas políticas já não são o que eram e as ideologias cedem ao pragmatismo de qualquer realpolitikdoméstica ou importada.
A linguagem parece perder a força da representação genuína para ser um instrumento ao serviço de objectivos ideológicos, que se servem da “correcção política” para tudo moldarem a arquétipos de construtivismo social. A mistura sórdida de individualismo agressivo e indiferentismo esboroa o primado da individualidade e até da dignidade da pessoa.
Os poderes transformam-se em sociedades de marketing comercial e de merchandising político. As estatísticas, torturadas a bel-prazer, tornaram-se a mãe de todos os instrumentos de análise, conveniência ou omissão. O Estado de direito, não raro, fica refém de poderes não escrutinados e de forças ocultas ou dissimuladas.
Cada vez mais se quer fazer restringir a responsabilidade política à culpa pessoal como forma de ultrapassar momentos críticos e de ladear a prestação ética de contas perante os representados. É o tempo do talvez, do apesar de, do caso tivesse sido ou de qualquer outra adversativa. É o tempo de, perante um problema, uma tragédia, se entrar num jogo de culpas, mas não de desculpas, num assomo de hipocrisia, limitando-se (quando conveniente) o Estado à Administração Central. Nada acontece diante da infracção e devassa por meios ilícitos de direitos cívicos inalienáveis, possibilitadas por um Estado de direito fraco, permeável, transaccionável q.b., aproveitado por certa comunicação social vampiresca que não olha a meios. Nada acontece a não ser os inquéritos da praxe sem fim à vista e com os responsáveis a assobiar para o lado.
A soberania reside no povo, dizem os preceitos constitucionais das democracias no mundo. Qual soberania? A de apenas votar de x em x anos? É sobejamente pouco. E enganoso.
IPSIS VERBIS
CITAÇÃO I: “O político pensa na próxima eleição. O estadista, na próxima geração” (James F. Clarke, escritor americano, 1810-1888)
CITAÇÃO II: "Podeis enganar toda a gente durante um certo tempo; podeis mesmo enganar algumas pessoas todo o tempo; mas não vos será possível enganar sempre toda a gente” (Abraham Lincoln, 1809-1865)
CITAÇÃO III: "O povo deve ser poupado de saber como são feitas as leis e as salsichas" (W. Churchill, 1874-1965)
CITAÇÃO IV: “O Estado é o servo do cidadão e não o seu senhor” (John F. Kennedy, 1907-1963)
CITAÇÃO V: “Perdoem, mas não esqueçam” (Nelson Mandela, 1918-2013)
CITAÇÃO VI: “Olho por olho e o mundo acabará cego” (Mahatma Gandhi, 1869-1948)
SCIENTIA AMABILIS
A Árvore Portuguesa de 2019
Foi eleita, por votação online, a Árvore Portuguesa de 2019. Trata-se de uma azinheira (Quercus rotundifolia, Lam.) situada no concelho de Mértola, com cerca de 150 anos. A sua copa é invulgarmente larga, dando-lhe uma expressão simultaneamente gigantesca e de grande beleza. É conhecida por Azinheira Secular do Monte Barbeiro. Lembra uma “árvore genealógica” em estilo expressionista. Inserida na Zona de Protecção Especial do Vale do Guadiana, tem um perímetro do tronco de 3,56m e ocupa quase 500 metros quadrados. Como está escrito no texto da sua candidatura, “sentarmo-nos debaixo da sua copa faz com que o calor abrasador do Alentejo nos pareça suportável e nos permita contemplar a vastidão da planície envolvente respirando a sua tranquilidade”. Vai agora concorrer à Arvore Europeia e, quem sabe, possa suceder ao Sobreiro Assobiador de Palmela, que venceu este ano.


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