terça-feira, 30 de abril de 2024

OS DEZ MAIS


Para mim, contou muito PEDRO PASSOS COELHO. Na questão da firmeza e seriedade, que não é, naturalmente, item de monta, embora esteja contido na exigência “Pessoas que, pelo seu trabalho e exemplo, marcaram de forma inequívoca o país em democracia”.

Uma boa pesquisa dos autores deste trabalho.

Da política à literatura, do desporto à economia, da música ao mundo empresarial, estes são os 10 portugueses mais marcantes desde o 25 de Abril, de acordo com os leitores do Observador.

Texto de ANA SUSPIRO, ANA SANLEZ, ALEXANDRA MACHADO, JOANA MOREIRA, PAULO FARINHA e RUI PEDRO ANTUNES, grafismo de RODRIGO MENDES

OBSERVADOR, 29 abr. 2024, 19:344

Índice

LÍDERES E INOVADORES: RUI NABEIRO e MÁRIO SOARES

POLÍTICA: RAMALHO EANES e SALGUEIRO MAIA

ECONOMIA: CHAMPALIMAUD e SALVADOR CAETANO

CULTURA: AMÁLIA e SARAMAGO

DESPORTO: RONALDO e ROSA MOTA

O desafio foi lançado um mês antes da celebração dos 50 anos do 25 de Abril: perguntámos aos leitores e ouvintes do Observador e da Rádio Observador quais os dez portugueses mais influentes das últimas cinco décadas, divididos por categorias. Pessoas que, pelo seu trabalho e exemplo, marcaram de forma inequívoca o país em democracia.

Para isso, a redação do Observador escolheu cem nomes marcantes para a história de Portugal depois do 25 de Abril. Essa centena de figuras foi classificada em cinco categorias: Líderes e Inovadores, Política, Economia, Desporto e Cultura. Em cada uma destas áreas havia vinte nomes a partir dos quais se podiam escolher dois. A lista final, que agora revelamos, representa as duas figuras mais votadas em cada uma destas categorias.

Mais de 11.200 pessoas votaram para a escolha destes dez nomes, a partir da nossa lista inicial que pode consultar aqui.

Líderes e inovadores: Rui Nabeiro e Mário Soares

Rui Nabeiro, o homem que fez do café um império (a partir do interior do país)

O “pai” dos cafés Delta nunca teve o destino traçado. Foi pregoeiro, vendeu peixe e viveu do contrabando para alimentar a miséria a que a década de 1940 votou uma pequena vila fronteiriça após a guerra civil espanhola. Foi pela mão de um tio que Rui Nabeiro começou a forjar o império que veio a criar em Campo Maior, onde ainda hoje está cimentado. Primeiro com “umas barracas” de açúcar, massa, arroz e feijão. Até que surgiu o café. Em 1961, uma máquina artesanal que torrava trinta quilos de grãos de café deu origem à marca que nunca descolou da pele de Rui Nabeiro e de Campo Maior. E não foi por falta de oportunidade.

Foram várias as propostas que teve para vender a Delta a gigantes como a Nestlé ou a Pepsi. Nunca aceitou nenhuma, porque tal implicaria tirar a empresa à terra que a viu nascer e que, graças à indústria do café, tem uma taxa de natalidade acima da média nacional e uma taxa de desemprego mais baixa que o resto do Alentejo.

A ligação umbilical do “Senhor Rui” a Campo Maior teve várias ramificações. Na política, aderiu ao Partido Socialista após o 25 de abril e foi pelo partido da rosa que foi três vezes eleito presidente da Câmara de Campo Maior, entre 1977 e 1986. No desporto, foi também com Rui Nabeiro que o Campomaiorense provou o sabor da glória chegando à I Divisão.

Rui Nabeiro (que conquistou 3981 votos na categoria de “Líderes e Inovadores” na eleição dos dez portugueses mais influentes) morreu no dia do pai, 19 de março, de 2023, em Campo Maior. Deixou uma fortuna avaliada em cerca de 400 milhões de euros. Em seis décadas, a Delta, hoje liderada pelo neto, Rui Miguel Nabeiro, espalhou-se por mais de quarenta países e emprega cerca de quatro mil pessoas.

Mário Soares, o construtor da democracia que foi tudo na política

Mário Soares juntou-se ainda jovem a movimentos de oposição ao regime, tendo passado por várias estruturas, incluindo o PCP, que combatiam o salazarismo. A oposição a Salazar valeu-lhe várias detenções pela PIDE — no total esteve preso três anos — e até um exílio para São Tomé, revertido na chamada “primavera marcelista”. Que foi sol de pouca dura, já que foi forçado a exilar-se pouco depois. É nesse entretanto que, em 1973, fundou o Partido Socialista português na Alemanha, partido do qual é a figura maior.

Soares foi três vezes primeiro-ministro (duas nos dois primeiros governos constitucionais e uma terceira no chamado “Bloco Central”) e, em 1986, contra todas as expectativas iniciais, venceu à segunda volta as Presidenciais. Em Belém funcionaria como contra-poder ao cavaquismo. Foi reeleito em 1991 com a maior vitória até agora registada na democracia portuguesa: 70,35% dos votos. Sempre activo na política, foi candidato ao Parlamento Europeu em 1999, tendo vencido as eleições, mas falhado o objectivo de presidir ao hemiciclo europeu. Em 2006, concorreu uma terceira vez à Presidência da República, mas perdeu para Cavaco Silva e ficaria atrás do camarada de partido Manuel Alegre.

Nos anos seguintes manteve a sua actividade política com livros e artigos de opinião, que não deixavam de ter peso. Em 2014, por exemplo, contribuiu para o início da queda de António José Seguro e ascensão de António Costa à liderança do PS, quando classificou a vitória eleitoral das Europeias de 2014 de “pírrica”.

Morreu a 7 de janeiro de 2017, sendo reconhecido como uma das figuras maiores da democracia portuguesa e da História de Portugal. Foi a segunda figura mais votada na categoria “Líderes e Inovadores”, com 3128 votos.

Política: Ramalho Eanes e Salgueiro Maia

António Ramalho Eanes, o primeiro Presidente em democracia

António Ramalho Eanes queria ser médico, mas teve de optar pela carreira militar, onde ingressou aos 17 anos. Fez parte de uma geração de oficiais que fez toda a Guerra Colonial e estava em Angola em serviço a 25 de Abril de 1974. Não participou, por isso, nas operações militares que, no terreno, derrubaram o regime de Marcello Caetano.

Ramalho Eanes estava, no entanto, alinhado com o MFA na visão para as Forças Armadas (e para o país) e foi chamado a Lisboa logo após a Revolução. Deram-lhe a missão de presidir à RTP, o mais poderoso meio de informação da época. Durante o PREC alinhou com os militares moderados no chamado “Grupo dos Nove”, liderando o contra-golpe de 25 de Novembro de 1975. Tornou-se após esse dia Chefe do Estado-Maior do Exército. No ano seguinte, foi eleito Presidente da República, o primeiro em democracia, batendo o seu antigo colega de camarata em África, Otelo Saraiva de Carvalho. Em 1980, foi reeleito em Belém, novamente à primeira volta. Antes de sair da Presidência, resistiu a abandonar o poder e promoveu um partido (PRD), que fez mossa ao PS nas primeiras legislativas em que foi a votos, mas dois anos depois, já sob a liderança do próprio Ramalho Eanes, tornou-se irrelevante.

Afastou-se depois da política activa, mas manteve-se como um informal senador da política nacional — posição que materializa no Conselho de Estado. A sua palavra tem peso, em particular quando fala sobre as Forças Armadas. É visto como um referencial de ética, com vários episódios marcantes, como o de ter recusado 1,3 milhões de euros que o Estado lhe devia ou ter dito, no auge da pandemia, que, perante uma situação extrema, cedia o seu ventilador caso um jovem precisasse. Mais recentemente alinhou na ideia que o 25 de Novembro de 1975, do qual é o principal protagonista, deve ser celebrado.

Com 4479 votos, Eanes foi o português mais votado na categoria “Política”.

Salgueiro Maia, o capitão que construiu Abril

© ALFREDO CUNHA

Quando Salgueiro Maia nasceu em Castelo de Vide, em 1944, já Salazar governava o país há 12 anos. Filho de um ferroviário e órfão de mãe desde os quatro anos, o jovem Maia entra na Academia Militar, em Lisboa, aos 20 anos, e é colocado na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém. Não sabia então que, dez anos depois, acabaria por eternizar aquele quartel escalabitano. Em 1968, seguiu para a Guerra Colonial em Moçambique integrado num regimento de comandos e ascendeu à patente de capitão. E é já como capitão Maia que, em 1971, passou para a Guiné.

Dois anos depois, em 1973, Maia voltou para Santarém e foi nesse ano que começou a participar nas reuniões clandestinas da Comissão Coordenadora do MFA. No desenho do 25 de Abril de 1974, foi a ele que lhe competiu comandar as tropas de Santarém até ao Terreiro do Paço, em Lisboa. De madrugada fez um discurso na parada do Quartel que se tornou famoso: “Há diversas modalidades de Estado: os Estados socialistas, os Estados corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos”.

Salgueiro Maia acabou não só por tomar o Terreiro do Paço como também acabaria por se dirigir ao Largo do Carmo para escoltar o presidente do Conselho, Marcello Caetano, até ao aeroporto para seguir para exílio para o Brasil. O capitão Maia foi uma das principais figuras da Revolução que pôs fim a 48 anos de ditadura, mas recusou sempre ser glorificado pelo momento. Depois disso, licenciou-se, foi subindo na hierarquia militar, mas recusou cargos que lhe dessem responsabilidade política, como o Conselho da Revolução ou ser governador civil de Santarém.

Ainda assim, e pela sua relevância no Portugal pós-25 de Abril, o seu nome foi incluído na secção “Política” desta eleição, tendo conquistado 3434 votos.Morreu com apenas 47 anos, em 1991, já numa democracia estabilizada que ajudou a construir.

Economia: Champalimaud e Salvador Caetano

António Champalimaud, o empresário genial mas implacável

Genial para uns, implacável para outros, António Champalimaud construiu por duas vezes o grupo, muitas vezes em conflito com os governos e com os pares. E terá sido o único grande empresário do Estado Novo a fugir do país antes do 25 de Abril.

Herdou negócios da família que fez crescer, um percurso impulsionado pelo casamento com uma neta de Alfredo da Silva. Os seus interesses, que chegaram ao Ultramar, iam dos cimentos à siderurgia, até à banca com o Banco Pinto e Sotto Mayor. Foi neste sector que chocou de frente com o poder, quando quis tomar o controlo do BPA. Marcello Caetano tentou travar a operação que daria a Champalimaud um terço do sector financeiro, com uma lei à medida. O empresário já estava exilado para evitar as consequências do processo da herança Sommer, no qual era acusado de se ter apropriado de acções por abuso de confiança. Os dois casos foram resolvidos, mas após o 25 de Abril Champalimaud viu as empresas nacionalizadas.

Recomeçou no Brasil e, na década de 1990, chegou a acordo com o Governo de Cavaco Silva para receber uma indemnização de dez milhões de contos (50 milhões de euros) pelas nacionalizações, dinheiro que usou para comprar ao Estado a Mundial Confiança e o Pinto e Sotto Mayor. Nos últimos dias de 1995 fintou o rival José de Mello na aquisição do Totta e Açores e novamente foi feito um despacho à medida, desta vez para ajudar o negócio, que o livrou de ter lançar uma OPA cara sobre o resto das acções. Champalimaud ficou com o segundo maior grupo financeiro do país liderado pelo filho mais novo, Luís — já tinha perdido dois filhos, um deles assassinado em 1992.

Os alegados favores que recebeu no tempo de Cavaco Silva foram alvo de uma comissão de inquérito que não teve conclusões, porque os socialistas no poder não quiseram afrontar Champalimaud e levá-lo a vender os negócios a estrangeiros. O que acabou por fazer quando em 1999 fez um acordo com espanhóis do Santander para ceder 40% do grupo. Portugal tentou travar a operação, mas Bruxelas ameaçou com um processo. O Santander ficou com o Totta e Açores e o resto foi dividido pelo BCP e pela Caixa Geral de Depósitos. O negócio fez de Champalimaud o homem mais rico de Portugal, o que não o impediu de pôr o Estado em tribunal a exigir mais compensações pelas nacionalizações.

Foi-se o grupo, ficou o nome. Quando morreu em 2004, aos 86 anos, legou um terço da sua fortuna à criação da Fundação Champalimaud que hoje é uma instituição de referência na investigação e tratamento contra o cancro.

Com 7749 votos, António Champalimaud foi o português mais votado na categoria “Economia”.

Salvador Caetano, o homem que, sem herança, criou o grupo agora liderado pelos herdeiros

Não é um herdeiro. É o que se pode chamar um self made man. Começou cedo a trabalhar para ajudar os pais a garantir sustento para a casa. Conta-se que terá começado aos 11 anos. Primeiro na construção civil, depois numa oficina de reparação de automóveis como pintor — embora tenha assumido, mais tarde, que nem ligava muito a carros.

É verdade que a empresa foi fundada, com dois sócios (um deles seu irmão), em 1946, ainda o Estado Novo estava enraizado. Uns anos mais tarde, Salvador Caetano ficaria sozinho na sociedade e aí se lançou na indústria de carroçaria. O embrião do futuro. Recebia encomendas dos transportes públicos e fazia parcerias internacionais. O que, aliás, foi sempre um dos “segredos” da Salvador Caetano, aliando-se a quem possuía o conhecimento.

Juntou, mais tarde, à montagem de autocarros o comércio de automóveis, como representante de grandes marcas e como concessionário: 1968 foi um ano decisivo ao garantir a representação da nipónica Toyota. Mas, devido a imposições legais, os carros tinham de ser montados em Portugal, incorporando mão-de-obra nacional. E assim nasceu a unidade de Ovar em 1971 que já depois do 25 de Abril se converteu para a montagem de comerciais e mais tarde para fabrico de autocarros. A influência dos sócios japoneses e as exigências de gestão não podem ser dissociadas da evolução da Salvador Caetano, que viria a viver períodos conturbados depois do 25 de Abril, com ameaças de nacionalização e intervenção sindical e até com um assalto pelas FP 25 em Vila Nova de Gaia.

Salvador Caetano resistiu. E cresceu. Entrou em outros negócios. Esteve no arranque do BPI e do BCP. Ainda se envolveu na Soares da Costa. Mas foi saindo. Nos automóveis passou a ter, além da representação da Toyota, a da BMW, através da Baviera. Hoje é também sinónimo da importação dos veículos chineses Byd, que andam a conquistar a Europa (e em Portugal ganhou já este ano o concurso carro do ano).

A Salvador Caetano passou por três intervenções do FMI, pela liberalização do mercado automóvel, pela globalização. Hoje tem mais de oito mil trabalhadores, que estão em negócios como o automóvel, mas também o ferroviário e até o aeronáutico. Salvador Caetano morreu em 2011, com 85 anos, tendo repartido os negócios pelos três filhos (o filho Salvador Acácio também já morreu, estando agora o seu filho, também de nome Salvador, a liderar a Baviera). O genro José Silva Ramos, casado com a filha Maria Angelina, lidera a componente industrial na Toyota Caetano. Onde também já está a terceira geração. A outra filha (a mais nova), Ana Maria distanciou-se, ficando com a Caetano Coatings, de tratamento de pintura automóvel e fazendo outros investimentos, optando por uma carreira “a solo”.

Salvador Caetano — que conquistou 3646 votos nesta eleiçãofez as partilhas ainda em vida. Nos últimos anos, foi assistindo de fora à evolução das suas empresas. “Nada se faz sem que eu saiba, mas não interfiro na gestão corrente”, disse ao Público. Com fama de implacável, confessou que gostava de ter sido actor. O seu palco foi outro. Deixou-o aos filhos e, agora, também já é a terceira geração a avançar. Os herdeiros.

Cultura: Amália e Saramago

Amália Rodrigues, a mulher livre que se fez maior do que o fado que transformou

EDUARDO GAGEIRO

Na vida de Amália Rodrigues há inexactidões e contradições sobre datas e lugares — dúvidas quanto ao seu nascimento levaram-na a escolher dois dias de Julho para celebrar o aniversário, 1 e 23. O que é inegável: que Amália da Piedade Rodrigues nasceu em Lisboa, em 1920, em casa dos avós maternos, naturais do Fundão.

Figura única da música portuguesa, símbolo insuperável do fado e de Portugal, teve uma fulgurante projecção internacional, com uma pequena ajuda de Salazar, o que a levou a, após o 25 de Abril, ser apelidada de estandarte do velho regime, ou mesmo “princesa da PIDE”, apesar de durante a ditadura tivesse apoiado a causa antifascista e sido vigiada pela polícia política da ditadura do Estado Novo por suspeita de apoio aos comunistas (como revela uma investigação recente do jornalista Miguel Carvalho, que a biografou). Certo é que a sua voz atravessou os dois regimes, a ditadura e a democracia, enquanto expressão maior da portugalidade.

Em Portugal, Amália foi além do fado, desdobrando-se por vários palcos, da música aos filmes, do teatro à revista — a estreia da fadista no teatro fez-se em 1940, no Maria Vitória, com a peça Ora vai tu!. O estilo da incontestável diva do fado também acabaria por influenciar os que lhes seguiram as pisadas: o uso de vestido e xailes negros, bem como o posicionamento à frente dos guitarristas vieram a transformar-se em verdadeiras convenções performativas do género. A vida artística foi um território natural de afirmação, mas não o único. A grandeza artística libertou-a de uma redoma e conferiu-lhe um estatuto de excepção e admiração também por tudo o resto: era divorciada, viajada, emancipada, independente. Em suma, uma mulher livre.

Quando morreu, em 1999, milhares de portugueses saíram às ruas e foram decretados três dias de luto nacional. Em 2001, tornou-se a primeira mulher a receber honras de Panteão Nacional. Foi escolhida por 4236 pessoas nesta eleição das dez figuras mais influentes depois do 25 de Abril.

José Saramago, o Nobel que disse o que quis, quando quis, como quis

SYGMA VIA GETTY IMAGES

O único escritor de língua portuguesa a quem foi atribuído o Nobel da Literatura nasceu em 16 de novembro de 1922, em Azinhaga do Ribatejo. Filho e neto de camponeses sem terra, foi aos dois anos para a capital, levado pelo pai, que se tornara guarda da PSP. O contexto humilde afastou-o do ensino regular. Foi serralheiro e funcionário público, passou pelos jornais, e só na década de 1970 se dedicou à escrita, ofício que depurou numa aprendizagem solitária e persistente. Controverso e crítico, como jornalista e militante político (era conhecida a filiação comunista), entrevistado ou escritor, Saramago gerou polémicas, tanto pelos seus livros, como pelas suas declarações, que lançava para o espaço público sem temer ficar isolado no debate.

Em 1975, era director-adjunto do Diário de Notícias quando 24 jornalistas foram saneados. “A revolução ou é colectiva ou não é”, diria. A revolução literária de Saramago viria a provar-se na década seguinte, com o romance Levantado do Chão (1980), uma assumida apologia da reforma agrária. Nele liberta-se das regras da pontuação e das maiúsculas, rejeitando o discurso directo e confirmando a sua forma original de narrar histórias, mesclando erudição clássica com sabedoria popular, num fluir narrativo torrencial próprio do discurso oral. Memorial do Convento, publicado dois anos depois, marca a consagração definitiva do autor e abre-lhe as portas do reconhecimento internacional.

Em 1991, publica O Evangelho Segundo Jesus Cristo e vê o seu nome vetado dos candidatos ao Prémio Literário Europeu. A decisão é do Governo então chefiado por Cavaco Silva. O livro atacava princípios que tinham a ver “com o património religioso dos portugueses”. Saramago exila-se na ilha espanhola de Lanzarote, onde continuará a escrever até ao fim, concretizando fisicamente a ideia de um homem à margem das instituições e do poder dominante. Ensaio sobre a Cegueira (1995) e Todos os Nomes (1997) precedem a atribuição do Prémio Nobel da Literatura, em 1998, quando o escritor tinha 76 anos. Nas entrevistas posteriores dirá que abandonaria este mundo sem “nenhuma esperança”, mas com a certeza de que “disse o que queria, como queria, quando queria”. José Saramago publicou 46 livros (16 romances, além de poesia, teatro, contos, crónicas, viagem, memória e diários). Foi autor dos libretos de três óperas. A sua vasta obra encontra-se editada em mais de trinta países. Percorrê-la é uma viagem que tem tanto de literatura quanto de património histórico. Morreu em 2010, na sua casa da ilha de Lanzarote, onde vivia com a mulher, Pilar del Río, presidente da fundação com o nome do escritor.

Foi a escolha de 3307 eleitores da selecção dos dez portugueses mais influentes dos últimos cinquenta anos.

Desporto: Ronaldo e Rosa Mota

Cristiano Ronaldo, o maior futebolista de todos os tempos?

VI-IMAGES VIA GETTY IMAGES

A imagem de Cristiano Ronaldo sentado no relvado, a chorar, naquele que era, possivelmente, o mais importante jogo da vida do futebolista, teria ficado para sempre associada àquele participação de Portugal no Campeonato da Europa de Futebol de 2016. Teria, se Éder não tivesse feito o que fez. E se o Stade de France, naquele 10 de julho, não se tivesse assim tornado o palco da maior conquista da selecção nacional. Em vez disso, talvez nos venham mais à memória as imagens do jogador eufórico, a coxear, a empurrar o selecionador Fernando Santos, a dar indicações aos colegas para dentro do campo, a gritar para o árbitro apitar para o fim da partida. Ou esta mesmo, com o capitão a segurar a cobiçada taça.

Não há outro como ele no futebol mundial. Nunca houve. E não se sabe se alguma vez haverá. Com mais jogos (197) e mais golos (145) nas competições de clubes da UEFA, com mais golos na Liga dos Campeões (140), com mais golos pela respetiva selecção nacional masculina (128), o primeiro a conquistar por cinco vezes o troféu maior da UEFA, o primeiro a marcar dez hat-tricks por uma seleção. Etc, etc, etc.

É infindável, a lista de recordes do jogador pobre da Madeira que foi para Lisboa sozinho, com 11 anos, para ingressar nos escalões iniciais do Sporting depois de dar os primeiros pontapés no Andorinha (ainda passou pelo Nacional). Dos recordes desportivos aos recordes financeiros, entre contratos de publicidade, vencimentos com os clubes ou negócios vários no vestuário ou imobiliário.

E, aos 39 anos, depois do Manchester United, do Real Madrid, da Juventus e do Al-Nassr, onde joga actualmente, é possível que os números continuem a aumentar. O tabu sobre o clube onde CR7 terminará a carreira continua a existir, mas é até possível que ele próprio não tenha ainda decidido. Nem o clube, nem a época. Não se espera que venha conquistar outra Bola de Ouro (seria a sexta), mas, tendo falhado o objectivo de se sagrar campeão do mundo no Qatar, em 2022, o capitão Ronaldo (que conquistou 8263 votos nesta eleição) espera voltar a levantar o troféu de campeão europeu, na Alemanha a partir de 14 de junho.

Rosa Mota, a maratonista que continua a correr

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O nome actual é Super Bock Arena. O nome antigo era Pavilhão dos Desportos. Mas o nome por que todos conhecem o complexo multidesportivo utilizado também para concertos, comícios ou congressos nos jardins do Palácio de Cristal continua a ser o mesmo: Pavilhão Rosa Mota.

É assim desde 1991, numa das formas que a cidade que a viu crescer encontrou para homenagear a atleta que começou a carreira em 1974, no Futebol Clube da Foz, tendo depois passado pelo FC Porto e mais tarde pelo Clube de Atletismo do Porto, onde alcançou os maiores feitos e terminou o período profissional.

Reconhecida nacionalmente (é grã-cruz da Ordem do Mérito, além de outras comendas das Ordens Honoríficas portuguesas) e internacionalmente, Rosa Maria Correia dos Santos Mota começou a dar verdadeiramente nas vistas quando chegou em primeiro lugar à meta da maratona feminina do Campeonato Europeu de Atletismo, disputado em Atenas.

Na altura, o nome da atleta de 28 anos saltou logo para o lote de favoritas à vitória da mesma prova nos Jogos Olímpicos que seriam disputados dois anos depois – na primeira vez que a maratona feminina ganhou estatuto de modalidade olímpica. Ainda não foi dessa, em Los Angeles (alcançou o bronze), mas acabou por ser em 1988, em Seul, nos jogos da XXIV olimpíada, quando Rosa conquistou o segundo ouro olímpico para Portugal – até hoje há apenas cinco, todos no atletismo.

O currículo é impressionante. É a única atleta do mundo que foi campeã olímpica, mundial e europeia na maratona, além de ter também vencido a prova em Chicago, Boston, Roterdão, Tóquio, Londres e Osaka. Figura de referência do desporto nacional, tendo passado também pela Comissão Executiva do Comité Olímpico de Portugal, Rosa Mota continua a correr: em outubro do ano passado, com 65 anos, bateu, por duas vezes, o recorde de mundo da meia maratona para atletas do seu escalão etário. Primeiro em Riga, quando tirou mais de seis minutos à melhor marca que estava em vigor, três semanas depois em Valência, quando reduziu em 13 segundos o seu próprio tempo.

O nome de Rosa Mota alcançou 3675 votos nesta eleição.

COMENTÁRIOS (de 4)

NunoW Nunow: A omissão de Cavaco Silva é incompreensível e injusta. A escolha de Saramago também...

 

O amor imporá novamente as regras


Mesmo entre os e as activistas de ocasião, quando são ainda jovens, desejosos de saliência, encontrando-a na pura rebeldia, por vezes dependente da ignorância, ou da insensatez provocadora. Um dia, acalmarão, ainda que permaneça a ignorância do passado que foi retratado ao longo dos tempos, deixando a sua marca didáctica imprescindível, na consciência dos vindouros, ainda que vá periclitando...

A família

Os activistas revolucionários têm de acreditar que estão moralmente certos pois é essa crença que permite justificar a sua crueldade e a sua indiferença perante o sofrimento e a humilhação que causam.

PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

OBSERVADOR, 29 abr. 2024, 00:1811

1Redescrever a família

A escritora madrilena Rosa Montero é, fora dos seus livros, uma feminista profissional. Na aguerrida tradição espanhola, faz parte da associação Clásicas y Modernas e repete regularmente a ideia de que, na vida e na literatura, “la palabra del hombre sigue siendo la ley”. Na sua opinião, encontrar-se-ia aqui a justificação para o facto de as escritoras mulheres ocuparem um papel menos relevante no mundo literário, com menos reconhecimento público, poucos prémios literários e pouca visibilidade no mundo da crítica literária.

Em sentido contrário, parece-me que a razão que leva a que muitas escritoras femininas recebam menos reconhecimento do que aquele que desejariam não resulta do facto de serem mulheres, mas de terem sido convencidas a escrever como feministas. Quando o fazem, sujeitam a arte a objectivos políticos, escrevendo não para criar um livro de qualidade, mas para dar voz a uma visão política – logo, torna-se mais difícil que esses textos sejam reconhecidos como bons livros.

Rosa Montero é, aliás, um bom exemplo do meu argumento, pois, apesar da sua condição de feminista, os seus livros e ensaios debruçam-se sobre a natureza e a condição humanas, estando para lá de meros objectivos políticos. O reconhecimento literário que a sua obra recebe é precisamente por essa exploração, que está presente não apenas nos livros ensaísticos ou quase-biográficos (como não sentir a dor da perda em A ridícula ideia de não voltar a ver-te?), mas também nos livros de ficção científica (como ficar indiferente à angústia de Bruna Husky perante as suas memórias artificialmente implantadas, mas simultaneamente tão verdadeiras?). E como não nos revermos na tortuosa reflexão em torno do envelhecimento, que é levada a cabo em A Carne? (Talvez os mais novos não o sintam como nós, mas o tempo resolverá esse problema.)

Isto não significa que as mulheres não desempenhem um papel específico na literatura. Como Montero diz, em A louca da casa, as escritoras ampliam o universo literário (e humano) na medida em que transportam consigo uma perspectiva do mundo que está, naturalmente, inacessível aos homens em resultado dessa coisa tão fora de moda que é o corpo e a biologia. O corpo da mulher condiciona a sua experiência de vida e, por isso, a sua escrita oferece perspectivas diferentes sobre uma vivência que é comum:

“Se os homens tivessem as regras, a literatura universal estaria repleta de metáforas do sangue. Ora bem, são essas metáforas que as escritoras têm de criar e pôr em circulação na torrente geral da literatura. Agora que, pela primeira vez na história, pode haver tantas escritoras como escritores; agora que já não somos excepções; agora que a nossa participação na vida literária se normalizou, dispomos de uma total liberdade criativa para nomear o mundo. E há algumas pequenas zonas da realidade que só nós podemos nomear.”

Ora, uma zona da realidade que as escritoras parecem conseguir descrever melhor do que os homens prende-se com a família e as difíceis relações que dão forma à trama familiar. Tendo ocupado, até muito recentemente, o papel central da dinâmica familiar, as mulheres escritoras parecem mais hábeis a captar a sua essência e, na literatura mais recente, as transformações a que a família tem sido sujeita.

Nesse domínio, Elizabeth Strout é exemplar. A sua exploração familiar tem lugar, desde logo, em O meu nome é Lucy Barton, mas é na malha comum das histórias que atravessam os dois volumes sobre Olive Kitteridge, na primeira e na segunda vida, que isso se torna mais evidente. Dificilmente um homem conseguiria escrever tão claramente sobre o modo como as últimas décadas modificaram as relações familiares no ocidente, transformando expectativas e projectos familiares, sedimentados por séculos de tradições, em dolorosas redescrições sobre o lugar da família no século XXI.

Essas redescrições acentuam um fosso essencialmente geracional e passam pelo desaparecimento do casamento tradicional e da família alargada; pelo número reduzido de filhos, que vão viver para longe depois da universidade e tornam insignificantes as relações entre netos e avós; pelas novas liberdades e excentricidades sexuais; mas, sobretudo, pela destruição do próprio conceito de família enquanto fonte de relações estáveis e permanentes, que gera obrigações para lá dos nossos desejos mais imediatos.

2O problema das redescrições

Uso a palavra redescrição no sentido cunhado pelo filósofo norte-americano Richard Rorty, que se debruçou sobre o poder revolucionário da linguagem e a possibilidade de transformarmos o modo como percepcionamos o mundo através de inovações linguísticas. Novas metáforas, novas imagens e novas descrições permitir-nos-iam ver o mundo de uma nova forma, substituindo visões obsoletas por visões mais capazes de concretizar sociedades com menos sofrimento – ou seja, permitiriam transformar a realidade para criar um mundo melhor.

O argumento de Rorty é sedutor, mas notemos o seu lado escuro e que é reconhecido pelo próprio filósofo em Contingência, Ironia e Solidariedade: um uso revolucionário da linguagem – i.e., uma redescrição – traduz-se sempre num acto de violência para com aqueles que usam e acreditam nos termos que estão a ser redescritos. Como diz Rorty,

“a melhor maneira de causar uma dor duradoura às pessoas é humilhá-las fazendo as coisas que lhes pareciam mais importantes assumirem um aspecto fútil, obsoleto e impotente.”

Considerando esta capacidade de produzir humilhação e sofrimento, Rorty defende que as redescrições devem ficar reservadas para a esfera privada, não devendo ser impostas na esfera pública – pelo que foi criticado por autoras feministas, nomeadamente Nancy Fraser, que consideraram que esta ressalva limita a capacidade de as redescrições produzirem efeitos políticos concretos. As ideias rortyanas traduzir-se-iam, assim, em mero conservadorismo político – e a verdade é que Rorty pode ser entendido como filosoficamente revolucionário, mas politicamente conservador.

Embora esta discussão entre Fraser e Rorty tenha acontecido no final da década de 1980, ela permite-nos compreender a actual disputa no espaço público em torno do conceito de família. Por um lado, encontramos um processo de redescrição da família, que tenta modificar concepções entendidas como obsoletas e é defendido como mais humanista, mais inclusivo e mais progressista. Mas os seus activistas parecem esquecer que ele produz, inevitavelmente, os resultados de qualquer redescrição e constitui, nessa medida, uma forma de violência e humilhação sobre os outros, ou seja, traduz-se numa forma de crueldade. Não é, assim, surpreendente que seja salvaguardado por um sentimento de superioridade moral: os activistas revolucionários têm de acreditar que estão moralmente certos pois é essa crença que permite justificar a sua crueldade e a sua indiferença perante o sofrimento e a humilhação que causam.

Por outro lado, as tentativas de redescrever conceitos partilhados geram, inevitavelmente, movimentos de reacção que procuram responder e defender-se desses ataques – e que revelarão uma violência proporcional ao ataque recebido. Não surpreende, por isso, o grau de antagonismo que marca a sociedade norte-americana em torno de valores morais: a tentativa de redescrever valores morais e culturais por um dos lados gera uma reacção proporcional do lado contrário, com uma violência justificada pela certeza absoluta de que estão certos. Esta divisão, marcada por lutas culturais, parece estar a criar condições para uma guerra civil, como defende Stephen Marche, mesmo que a maioria das pessoas não queira acreditar nisso: “Como ninguém quer o que aí vem, ninguém quer ver o que aí vem.”

Como escapar a este clima de conflito em Portugal, uma vez que muitos parecem decididos a importar todos os males da sociedade norte-americana?

Talvez possamos começar por introduzir alguma humildade na discussão e pensar que, se o mundo e as suas instituições nos parecem tão errados, é muito mais provável que o problema esteja em nós do que no mundo: afinal, o mundo está cá há mais tempo. Há redescrições da família que podem ser necessárias, mas nem todas as redescrições são positivas.

De seguida, talvez devamos introduzir algum distanciamento e reconhecer que nenhuma luta é justa quando um dos lados recusa ouvir os argumentos contrários, considerando que o insulto e a humilhação do outro são o caminho correcto. Como quase sempre acontece, a realidade é muito mais complexa do que os twitters desta vida dão a entender, e dificilmente o lado justicialista terá toda a razão.

Talvez possamos depois introduzir alguma racionalidade na discussão e reconhecer que há bons argumentos e dados empíricos válidos para a defesa da família enquanto instituição de estabilidade. O Moynihan Report é um estudo clássico e de mérito ainda reconhecido sobre as relações de forte causalidade entre monoparentalidade e pobreza; a estabilidade familiar oferece maiores condições de saúde mental; a exclusão social e económica está quase sempre relacionada com a perda de referências familiares; e a família orienta-nos para o reconhecimento dos sacríficos pessoais que estamos dispostos a fazer. Demonizar a família porque ela não se adapta aos nossos projectos de vida é quase sempre um mau caminho.

Em última instância, podemos recorrer aos mais clássicos dos clássicos e comparar as visões da família de Platão e Aristóteles. Embora um deles tenha dito coisas menos aceitáveis, aos nossos olhos, sobre a mulher e a escravatura, apenas um deles, o que aboliu a família, imaginou um estado totalitário.

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COMENTÁRIOS (de 11)

João Floriano: Como é habitual uma excelente crónica que introduz largos motivos de reflexão e discussão. Família e feminismo: por estes dias tem-se falado muito de família a propósito das inconfidências de Marcelo Rebelo de Sousa sobre as suas preferências familiares. Foi penoso ouvir sobre o afastamento do filho Nuno, que parece ter começado a existir antes do caso das gémeas e ao pódio dos netos preferidos, Passou talvez despercebida a notícia das desavenças cada vez maiores na família real espanhola, profundamente matriarcal já que tanto o rei emérito como Filipe VI assistem impotentes às brigas de quatro mulheres poderosas ( Sofia, as infantas e Letizia). As feministas ocidentais queixam-se de barriga cheia. É extremamente fácil ser feminista e lutar com sucesso, pelos direitos das mulheres nesta parte do mundo. Não digo que vivamos num mundo perfeito, muito longe disso, mas o mundo perfeito não existe, é a utopia. O que se pretende no universo feminista dos países de primeiro mundo, com amplas liberdades democráticas que ofuscam muitas vezes os deveres inerentes a uma sã cidadania não é a igualdade entre homens e mulheres ( a dicotomia mais simples onde se discute para além da biologia o que é uma Mulher e logo o que é um Homem). Muitas das nossas activistas pelo feminismo procuram, isso sim, superiorizar-se perante os homens e precisam de o demonstrar a todo o momento . Aquilo que observo é que se redescreve a família, que se desenha uma nova construção familiar mais alargada, com muitas variações, com muitas opções em que o tradicional ditado que diz que a Família não se escolhe já não é o que era dantes. Até se pode escolher não escolher qualquer família.  Contudo todos sem excepção procuram os mesmos valores que sempre se desejaram na família tradicional: o afecto, o apoio, a compaixão, o abraço, a companhia, a âncora. Com tanta gente infeliz e deprimida a contribuir para a indústria dos ansiolíticos e dos soporíferos, dá que pensar se a nossa sociedade anda a fazer as coisas certas.

Luis Silva: Quando uma mulher tem talento não precisa de se vitimizar por não ter sucesso devido a ser mulher. Não me lembro deJ. K. Rowling, se vitimizar alguma vez.

bento guerra > João Floriano: Marcelo afastou o filho e quer que o pai colonialista preste contas. Não tem primeira dama, nem presença feminina pública que o acompanhe, excepto aquelas pacientes guardas pessoais. É um tipo seco, excepto na beijoquice popular. Falta-lhe o saber fazer e ser feminino, que não é feminista

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Erros


Há muitos. Vilezas também, agregadas a poderio, na roda gigantesca do tempo e do mundo.

Vyacheslav Molotov (à direita), ministro soviético dos Negócios Estrangeiros, e Joachim von Ribbentrop (à esquerda), o homólogo alemão, na assinatura do pacto de não-agressão, com Estaline ao centro, em Moscovo, a 23 de agosto de 1939 CORBIS VIA GETTY IMAGES

O erro de Estaline que moldou o desfecho da guerra e o futuro da Europa

Como o pacto entre a União Soviética e a Alemanha Nazi teve consequências monumentais — este é um excerto do livro "Decisões Fatais", do historiador Ian Kershaw, do qual fazemos a pré-publicação.

TEXTO

OBSERVADOR, 28 abr. 2024, 19:385

Foi originalmente publicado em 2007, mas surge agora numa edição portuguesa, com carimbo da D. Quixote. Trata-se deDecisões Fatais”, livro de Ian Kershaw (historiador, professor e escritor britânico que estás prestes a cumprir 81 anos, um dos nomes fundamentais da historiografia do século XX) que tem no subtítulo a explicação sumária e necessária para que entendamos ao que vem: “Dez decisões que mudaram o mundo 1940-1941”.

Estamos em plena II Guerra Mundial. Na Europa, a Alemanha Nazi e forças associadas ameaçam tomar conta de todo o continente, através da eficácia de uma guerra relâmpago aparentemente imparável (à parte a resistência britânica). No Pacífico, o Japão segue uma política bélica que ainda está por revelar todas as intenções e capacidades. Entre estes dois anos, 1940 e 41, definem-se os rumos e as estratégias, as vitórias e as derrotas futuras, tudo com base — crê o autor — em, dez decisões fundamentais.

É uma destas dez decisões que aqui recordamos neste excerto do capítulo VI: Estaline decide confiar em Hitler. Os ministros dos Negócios Estrangeiros da Alemanha e da União Soviética assinam um pacto de não agressão em 1939. Mas quais as razões? E quais as consequências, manifestadas daí a muito pouco tempo? O livro chega às livrarias a 30 de maio.

A capa de "Decisões Fatais: Dez Decisões que Mudaram o Mundo 1940-1941", de Ian Kershaw, na edição portuguesa da D. Quixote (o livro é publicado a 30 de abril)

A escala da catástrofe não tinha precedente histórico. E ela seguira-se ao que ainda hoje se destaca como um dos mais extraordinários erros de cálculo de todos os tempos. Estaline tirara repetidamente conclusões erradas sobre as intenções alemãs, e fê-lo até à própria véspera da invasão. As tentativas de satisfazer as exigências económicas alemãs persistiram até ao fim. Os alertas vindos de todos os lados foram ignorados. Os que tentavam avançar argumentos em contrário eram tratados com desprezo. Estaline insistia: sabia como Hitler pensava. O ditador alemão atacaria; mas não já. A grande prioridade de Hitler, assegurava ele, era a exploração económica da URSS. A insistência no apaziguamento económico assentava neste desastroso mal-entendido. Com assuntos por resolver a ocidente, a prioridade inicial de Hitler seria a submissão soviética, e não a guerra total. Isto seria benéfico para a problemática economia alemã, e colocaria mais pressão a ocidente. Entretanto, o rearmamento soviético continuaria a um ritmo furioso. Se houvesse negociações de paz, a União Soviética teria de participar, e em posição de força. Mesmo enquanto os sinais de perigo aumentavam, Estaline continuou confiante em que conseguiria adiar o conflito para além da primavera e do verão de 1941; nessa altura, seria tarde demais para uma invasão. E em 1942, a União Soviética estaria pronta para Hitler. Era esta, mais ou menos, a linha de raciocínio de Estaline. A convicção de que tinha razão, e de que todas as advertências em contrário eram desinformação ou leituras desgraçadamente erróneas da situação, tornou-se cada vez mais firme. A combinação de medo, subserviência e admiração que caracterizava a autocracia do ditador soviético traduzia-se em que dificilmente se poderia propor alternativas sérias, e muito menos adoptá-las. Mas que alternativas poderiam ter sido essas? Que opções havia para evitar a calamidade?

Molotov, que foi o braço-direito de Estaline o tempo todo, defendeu insistentemente que todos os erros cometidos eram inevitáveis. Khrushchev, ao contrário, criticou os erros de cálculo e de liderança de Estaline no seu ataque ao ditador falecido, em 1956, atribuindo-os a acções arbitrárias de um só homem que acumulara poder absoluto. Esta forte personalização da responsabilidade era muito conveniente para ilibar aqueles que – sem exclusão do próprio Khrushchev – tinham aplaudido Estaline e apoiado as suas políticas. Também servia para passar uma esponja sobre muitas das chefias militares – cujas insuficiências não podem, porém, ser atribuídas inteiramente a Estaline. Estudos mais recentes vêm confirmando esta asserção. Ainda assim, o veredicto condenatório de Khrushchev continua a merecer grande acolhimento. Raramente se analisa que opções realistas tinha Estaline perante si. E, no entanto, uma autoridade proeminente, que submeteu os factos a um escrutínio meticuloso, concluiu que “o falhanço de Estaline na preparação para a ofensiva alemã reflecte em primeira instância as opções políticas pouco apetecíveis que a União Soviética defrontava antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial”, e acrescentando que “mesmo em retrospectiva, é difícil vislumbrar alternativas que poderia Estaline ter explorado com segurança”.

O que parece evidente é que, quaisquer que fossem as opções que Estaline pudesse ter tido, elas reduziram-se acentuadamente com o tempo. As decisões iniciais, e o raciocínio que a elas presidia, tinham-se traduzido necessariamente em que na véspera da invasão alemã o seu espaço de manobra se tivesse reduzido grandemente. Mas alguns anos antes disso, Estaline tivera as mãos relativamente livres. E foi então que cometeu um erro catastrófico que limitou as opções futuras.

Em 1939, com a guerra a espreitar a Europa, Estaline via-se perante uma segunda e altamente indesejável opção. Deveria aliar-se com as democracias ocidentais, em relação às quais nutria profunda desconfiança, ou com a Alemanha nazi, o arqui-inimigo ideológico? Isto viria a transformar-se, na realidade, numa decisão fatal.

Sem qualquer pressão externa, instigou, em 1937, e como vimos antes, a destruição das chefias do Exército, com consequências incomensuravelmente prejudiciais para a reconstrução de uma força militar profissionalizada capaz de opor-se ao perigo rapidamente crescente da Alemanha de Hitler. Para além dos fantasmas nas mentes de Estaline e seus acólitos, as purgas carecem de qualquer justificação racional. Eram absolutamente desnecessárias. Estaline não estava obrigado a realizar as purgas; foi ele que escolheu essa opção. Mas elas não causaram apenas danos incalculáveis à futura construção do poderio militar soviético; também instilaram em Hitler e nos seus conselheiros a ideia indelével da fraqueza do Exército Vermelho. Para Hitler, essa própria fraqueza era um convite a atacar antes que pudesse ser reconstruída uma poderosa máquina militar. Aos olhos de Hitler, portanto, as purgas de Estaline abriram uma oportunidade. Achava que Estaline devia estar louco. Já em 1937 comentara que “A Rússia não conhece nada senão o bolchevismo. É esse o perigo que havemos de ter de derrubar em algum momento”. Ao escolher destruir as chefias do seu Exército, Estaline removeu o que poderia ter sido a mais importante espinha dorsal de poderio em data posterior, quando a crise eclodiu. Em 1940 e 1941 foi feito um esforço enorme num programa apressado de rearmamento e militarização, mas já se perdera demasiado terreno, e o programa não podia ser concluído antes de a ameaça alemã se tornar assoberbante. O facto de Estaline ter deixado a si próprio um espaço militar de manobra demasiado estreito é atribuível em larga medida, portanto, à escolha que fez em 1937-8 de minar a sua própria capacidade militar. E isto na exacta altura em que a Europa era abalada pela incorporação alemã da Áustria e de grande parte da Checoslováquia, com a cumplicidade das pusilânimes democracias ocidentais.

Em 1939, com a guerra a espreitar a Europa, Estaline via-se perante uma segunda e altamente indesejável opção. Deveria aliar-se com as democracias ocidentais, em relação às quais nutria profunda desconfiança, ou com a Alemanha nazi, o arqui-inimigo ideológico? Isto viria a transformar-se, na realidade, numa decisão fatal. Já analisámos o raciocínio plausível que levou Estaline, em agosto de 1939, a optar por um pacto com Hitler. Grã-Bretanha e França tinham demonstrado pouca apetência para uma aliança com a União Soviética. Estaline e outros líderes soviéticos consideravam que as motivações ocidentais eram pouco menos cínicas do que as de Hitler. Ao menos o pacto com a Alemanha proporcionaria algum espaço para respirar. E salvaguardava a perspectiva de a Alemanha e as potências ocidentais se guerrearem até um impasse, para benefício último da União Soviética.

Em 1939, com a guerra a espreitar a Europa, Estaline via-se perante uma segunda e altamente indesejável opção UNIVERSAL IMAGES GROUP VIA GETTY

Que consequências teriam resultado da improvável junção de forças com o Ocidente só pode ser matéria de especulação contra factual. A ofensiva de Hitler contra a Polónia teria sido mais arriscada nessa eventualidade. E as altas esferas na Alemanha, receosas das consequências do envolvimento numa guerra europeia generalizada contra inimigos poderosos, ver-se-iam fortalecidas. Hitler adiou a mobilização contra a Polónia uma vez, à última hora, e poderia ter sido ainda dissuadido caso se visse perante uma tripla aliança de URSS e potências ocidentais, uma reedição da aliança antigermânica de 1914.

Mas também poderia ter avançado de qualquer forma e invadido a Polónia. Em tais circunstâncias, a União Soviética também se teria abstido muito provavelmente de entrar em conflito directo, mas teria visto nessa Alemanha de após a vitória na Polónia não um aliado, mas um inimigo às portas do país. Talvez então a ofensiva alemã contra a União Soviética tivesse ocorrido mais cedo do que realmente aconteceu. Por outro lado, a grande ofensiva ocidental de Hitler na primavera de 1940 (que abalou seriamente os cálculos de Estaline) teria sido bem mais arriscada com uma União Soviética hostil posicionada a leste. Quem sabe qual teria sido o resultado? Mas o jogo de adivinhação é fútil. As variáveis da equação são simplesmente demasiadas para que a especulação possa ser frutífera.

O que parece, de facto, evidente, porém, é que Estaline estava demasiado cego pelos seus preconceitos ideológicos para permitir que a União Soviética desempenhasse mais do que um papel passivo nas conversações com o Ocidente no verão de 1939. Dava-se seguramente o caso de Grã-Bretanha e França pouco fazerem durante esses meses para viabilizarem a “grande aliança” que poderia ter sido a derradeira esperança de travar Hitler. Pouco interesse tinham em juntar forças com a União Soviética, que detestavam e de que suspeitavam. As negociações realizadas enquanto a guerra se aproximava foram previsivelmente morosas. Mas a União Soviética também estava encerrada na passividade. Uma diplomacia mais urgente e determinada da parte de Estaline poderia realisticamente ter aberto caminho, apesar das hesitações britânicas e francesas, para uma nova tripla aliança com o Ocidente. No mínimo, teria dado a Hitler e às elites de poder alemãs motivo para pensar. No entanto, Estaline contentou-se em deixar as negociações com as democracias ocidentais arrastar-se enquanto as nuvens de guerra se acastelavam ameaçadoramente. O resultado foi que essa inacção de parte dos soviéticos, e não apenas de parte dos ocidentais, acabou por empurrar a decisão para aquilo que fazia mais sentido em termos da segurança da URSS nesse momento: o pacto com a Alemanha de Hitler.

Estaline viu nesse pacto um grande golpe diplomático soviético. Mas, na prática, ele funcionava mais em benefício da Alemanha do que da União Soviética. É verdade que a URSS pôde alargar as suas fronteiras defensivas para oeste mediante ganhos territoriais. E a eliminação da ameaça imediata da Alemanha conseguia tempo para reconstruir o Exército Vermelho e preparar as defesas. Obviamente, porém, o tempo foi insuficiente. A reconstrução foi lacunar e inadequada. E também os alemães ganharam tempo para se aprontarem, não apenas militarmente, mas também em termos de peso diplomático. Durante o ano de 1940, depois de a vitória alemã sobre a França ter alterado completamente o equilíbrio de poder na Europa, Hitler pôde exercer influência sempre crescente sobre os países da bacia do Danúbio. O domínio alemão na Roménia, em particular, e as vãs tentativas de Estaline e Molotov para evitar que os Balcãs, a Norte, e a Finlândia caíssem na órbita alemã, levaram a esse acréscimo de tensões tão visíveis aquando da visita de Molotov a Berlim em novembro de 1940. A aventura de Mussolini nos Balcãs tinha, entretanto, agravado ainda mais a desestabilização da região. E na primavera seguinte, a intervenção alemã na Jugoslávia e na Grécia afastou a derradeira esperança de influência soviética no Sudeste da Europa (além de ter contribuído para ocultar a “Operação Barbarossa”, pois deixara de fazer grande sentido para Estaline que Hitler atacasse a leste nesse mesmo ano, imediatamente depois das suas conquistas nos Balcãs). A União Soviética ficava agora completamente isolada. A Turquia, portal de acesso ao mar Negro, mantinha-se neutral, embora numa posição relativamente favorável à Grã-Bretanha. A oeste, por outro lado, a URSS estava mais ou menos cercada por países sob influência alemã. O pacto tinha proporcionado à União Soviética vantagens de curto prazo, mas enquanto ele vigorou, a ameaça alemã aumentara grandemente. Que Estaline tenha feito a melhor escolha em 1939 pode, portanto, ser justamente questionado.

Entre agosto de 1939 e junho de 1941, a política de Estaline consistiu, como vimos, em rearmar-se consistentemente e a toda a velocidade, do mesmo passo que apaziguava tanto quanto possível a Alemanha. Não era tão ingénuo que acreditasse que o conflito com a Alemanha fosse evitável. Tinha lido e meditado sobre as passagens de Mein Kampf que defendiam a conquista de “espaço vital” a leste. Mas julgava que poderia adiar o confronto até 1942, e acreditava que conseguia “ler” as intenções de Hitler: submeter politicamente a União Soviética até chegar a um entendimento com a Grã-Bretanha, e só depois virar a agressão para leste. Estaline julgava que Hitler agiria com a mesma racionalidade fria e brutal de que ele próprio seria capaz. Na certeza de que Hitler emitiria um ultimato antes de qualquer ofensiva (um logro alemão que Estaline engoliu), sentia-se confiante em que conseguiria ganhar tempo. Entretanto, era preciso evitar a menor provocação. Isto era duplamente importante, do ponto de vista de Estaline, já que a União Soviética continuava perante uma outra ameaça, ainda que menor – a do Japão, no lado oriental. Mas isso tornou-o excessivamente prudente. Haveria alguma alternativa a esta política?

Estaline julgava que Hitler agiria com a mesma racionalidade fria e brutal de que ele próprio seria capaz e estava certo de que Hitler emitiria um ultimato antes de qualquer ofensiva GETTY IMAGES

A política de Estaline de evitar a guerra a todo o custo foi for temente criticada, muitos anos mais tarde, pelo marechal Alexandre Mikhailovich Vasilevsky, vice-chefe da administração operacional do Estado-Maior-General em 1941, e de 1942 a 1945 chefe do Estado-Maior-General e comissário-adjunto para a Defesa. Vasilevsky defendeu que:

Estaline não vislumbrou o limite para além do qual essa linha se tornava, não só desnecessária, como perigosa. Esse limite deveria ter sido corretamente identificado, e as forças armadas conduzidas a prontidão de combate com a máxima velocidade possível, a mobilização acelerada, e todo o país convertido num campo de batalha. Enquanto procurava adiar o conflito armado, deveria ter sido empreendido e completado mais cedo todo o trabalho clandestino possível. Havia indícios mais do que suficientes de que a Alemanha planeava uma ofensiva militar contra o nosso país (…) Tínhamos chegado, devido a circunstâncias fora do nosso controlo, ao Rubicão da guerra, e era necessária a determinação de dar um passo em frente.

O rearmamento e a militarização estavam, na realidade e como vimos, em curso e a um ritmo frenético durante 1940 e 1941. Mas Vasilevsky era perentório em que deveria ter sido feito mais: mobilização precoce e total das forças armadas para prontidão de combate. O corolário desta afirmação é que a política de não-provocação ter-se-ia tornado altamente perigosa, e que a mobilização total deveria ter sido feita nessa altura. Era necessário aceitar o risco de a ofensiva alemã surgir mais cedo, mas teria valido a pena correr tal risco. Como os conselheiros de Estaline bem sabiam, o momento mais precoce em que os alemães poderiam ter invadido era, afinal, aquele em que invadiram, a primavera de 1941. O pior que a “provocação” poderia ter conseguido era, por outras palavras, exatamente o que aconteceu de qualquer forma (e apesar de Estaline ter querido evitar aquilo que durante muito tempo pensou ser, não necessariamente guerra total, mas uma iniciativa limitada dos alemães visando a conquista de territórios fronteiriços e maior dependência económica).

A responsabilidade dos erros cabe a um sistema de governação altamente personalizado. "Estaline era a maior autoridade para todos nós, e nunca ocorreu a ninguém questionar a sua opinião e avaliação da situação", comentaria Zhukov mais tarde.

Sabiam, além disso, que no verão de 1940 os líderes japoneses tinham optado pelo avanço para sul. Uma ofensiva japonesa vinda de oriente era, portanto, uma hipótese praticamente posta de parte. Em vez de permitir que os alemães se reforçassem sem contestação ao longo de tantos meses, é, portanto, provável que uma exibição dissuasora tivesse sido bem-sucedida no adiamento da ofensiva para além dos preciosos meses do verão de 1941. Acresce que a proclamação de poderio soviético teria contrariado a imagem de debilidade do Exército Vermelho prevalecente na liderança alemã. Ao invés, Estaline, petrificado com a ideia de proporcionar o menor pretexto, permitiu frequentes voos de reconhecimento, que fotografaram em pormenor as instalações militares e o posicionamento das tropas soviéticas, indícios que “confirmavam a impressão de que a Wehrmacht irromperia através das fileiras do Exército Vermelho”. Estaline encontrava-se, sem dúvida, numa posição nada invejável. Mas a escolha da não-provocação em relação à dissuasão foi outra decisão fatal.

Em junho de 1941, já as opções se tinham reduzido drasticamente. Zhukov reconheceria mais tarde que tinha sido correcta a rejeição por Estaline do plano de 15 de maio de 1941 de uma ofensiva preventiva. Seguir esse plano seria arriscar um desastre ainda pior. Naquelas circunstâncias, as defesas fronteiriças estavam demasiado dispersas, as divisões mal destacadas, e as fortificações inacabadas. Para agravar o problema, o planeamento militar de 1940 e 1941 previra que a principal frente de ataque alemã viesse do Sul da Polónia, pelo sul dos pântanos de Pripiat. E era aí que estava concentrado o grosso das forças soviéticas em junho de 1941. Mas, inteiramente ao contrário do que o comando do Exército Vermelho previra, o ímpeto esmagador alemão, quando chegou, veio pela área central da frente, a norte dos pântanos de Pripiat, na direção de Minsk, Smolensk e Moscovo. Colectivamente, e depois com a concordância de Estaline, as chefias militares soviéticas optaram desastrosamente pela opção errada.

Os tanques russos movimentação para a frente da batalha contra o exército nazi, em junho de 1941

Em última análise, a responsabilidade dos erros cabe a um sistema de governação altamente personalizado. “Estaline era a maior autoridade para todos nós, e nunca ocorreu a ninguém questionar a sua opinião e avaliação da situação”, comentaria Zhukov mais tarde. Num clima de medo e bajulação, onde as fobias paranoicas, o sentimento de infalibilidade, os limitados conhecimentos militares e a imprevisibilidade implacável de um único indivíduo se haviam tornado elementos estruturais do sistema soviético, não podia haver emenda para as preferências de Estaline. A reverência era endémica a todos os níveis. O Politburo era seguidista. Os militares não eram, em geral, muito diferentes, e quem quer que colocasse reservas era repreendido e submetido.

A recusa do ditador soviético de aceder às reivindicações das chefias militares, ainda uma semana antes da invasão, de que fossem colocadas tropas em prontidão em melhores posições defensivas é sintomática de um sistema de que a racionalidade fora excluída.

As obscenidades desesperadas proferidas dias antes da invasão são fáceis de compreender. Reflectiam o sentimento de que a liderança soviética, colectivamente, e ele, pessoalmente, tinham feito um erro de cálculo calamitoso. Feitas as contas, e independentemente de todos os equívocos e ilusões pessoais, as suas opções poderiam ser resumidas a uma escolha simples: deveria fazer tudo o que fosse imaginável para preparar a União Soviética para uma guerra com a Alemanha (possibilidade objectivamente impossível de afastar), ou persistir na crença (e nos riscos correspondentes) de que o conflito podia ser adiado até 1942? Ou, colocando a questão de outra forma, preferia Estaline trabalhar na base de um cenário de “melhor-caso ou pior-caso”. A resposta é óbvia. Era, realmente, uma decisão fatal. E, no entanto, o caminho para essa decisão tinha sido tudo menos a direito. Mesmo a esta distância, é impossível ter uma certeza sobre qual teria sido a viragem mais proveitosa nas encruzilhadas decisivas. O que podemos ver claramente é que as decisões que Estaline tomou convidavam ao desastre. Já a espantosa recuperação desse desastre é outra história diferente.

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COMENTÁRIOS (de 5):

José Ramos > Manuel Gonçalves: Não é preciso ser "admirador de Ventura", basta ser interessado por História. Neste caso, como se trata de erros de Stalin, poder-se-ia dizer que seria moldado para "admiradores de Raimundo". Em boa verdade, comparar Ventura e Raimundo com Hitler e Stalin só pode advir de mentes um bocado perturbadas. João Eduardo Gata: Comunismo = Fascismo e Estalinismo = Nazismo. Tudo a mesma perversidade, violência, criminalidade, ilegalidade, repressão.