Sobre um Santo e uma Igreja de Coimbra,
que visitava, in illo tempore… Uma
bela história de um Santo, superiormente contada por JOSÉ EDUARDO FRANCO, pretexto para a pesquisa numa Internet revigorante,
para uma revivescência de profundo encanto.
E um fado em gratidão, pela História que nos leva às nossas origens, com
santos a amparar a nação, e um Sebastião Desejado, pelo meio, a fortalecer,
contra os fins da nossa previsibilidade sem santidade, mas com alegria e
simpatia naturais.
São Teotónio, o primeiro santo português
São Teotónio, amigo de D. Afonso Henriques e fundador do Mosteiro de
Santa Cruz em Coimbra, representa a convergência entre santidade e política no
projecto de fundação de um Portugal independente.
JOSÉ EDUARDO FRANCO Vice-Presidente da Comissão Executiva de Portugal 900
Anos. Director do Centro de Estudos Globais da
Universidade Aberta
OBSERVADOR, 27
jun. 2024, 00:1714
A afirmação do estatuto de santidade e o
seu reconhecimento pela autoridade eclesiástica assumem contornos e
funcionalidades simbólicas, sociais e mesmo políticas que ultrapassam a estrita
esfera espiritual e o critério de legitimação de um dado modelo de exemplaridade
cristã creditada por critérios evangélicos canonicamente estabelecidos.
São Teotónio, amigo de D. Afonso Henriques
O investimento na proclamação oficial de uma dada personalidade como
tendo tido uma vida santa de acordo com os parâmetros cristãos serve vários
fins.
Primeiro,
os fins canónicos e explícitos de quem é declarado santo: tornar-se modelo inspirador de vida e
representar um papel intercessor diante da corte divina em favor dos humanos. Depois, vêm os fins implícitos e não
declarados que remetem para funcionalidades de legitimação de instituições, de
movimentos, de comunidades autónomas, de nações que desejam confirmar e
reforçar identidades distintivas com caução sustentada na esfera transcendente.
São Teotónio, contemporâneo e amigo do Fundador da
Nação Portuguesa, D. Afonso Henriques, é uma figura que ganha, desde o seu
tempo, reconhecimento de santidade popular e eclesiástica, mas cuja
função enquanto primeiro santo dos primórdios fundacionais do Reino de Portugal
será muito valorizada nos processos de construção da memória histórica, adquirindo
funcionalidades simbólicas de grande significado.
De
tal modo são ampliados pela posteridade o valor e a importância espiritual e
até política da sua vida que outras figuras mais relevantes do seu tempo ficaram
subalternizadas na sombra do esquecimento historiológico. Falar de
São Teotónio implica
assumir a tarefa de tentar descortinar aquilo
que teria sido a sua biografia histórica e distingui-la daquela que podemos
chamar a sua biografia hagiográfica, nacionalizante e política, servindo
o ideário de afirmação da nacionalidade e da identidade portuguesas com
fundamentação de natureza sobrenatural.
Importa, pois, perceber que, na
interpretação das fontes, o fito que presidia à construção das narrativas históricas
era apologético, ético, espiritual e político, visando torná-las funcionais para efeito de exemplaridade e para o
estabelecimento de uma imagem ideal das origens. Aliás, estas narrativas de
legitimação, de horizonte providencialista, contribuíram para erguer aquilo que
chamamos a construção do mito das origens da nacionalidade. Inseriam-se
numa corrente europeia com denominadores comuns, que procurou legitimar a
afirmação dos reinos e das nacionalidades, descrevendo de forma idealizada o
dealbar das origens com tónus transcendente.
São Teotónio, numa pintura de Nuno
Gonçalves
A
fundação do reino autónomo de Portugal por D. Afonso Henriques não se deveu
apenas à sua perícia militar e à da nobreza que juntou meios materiais e
milícias armadas para formar um exército muitas vezes vencedor. Deveu-se
também a uma estratégia de diplomacia e de investimentos no mercado simbólico,
para o que a Igreja e a fé do povo muito contribuíram. De
facto, o primeiro Rei de Portugal contou com qualificados assessores, nomeadamente
eclesiásticos. Aquele que foi mais
relevado na memória histórica posterior foi São
Teotónio, apesar
da sua função ter sido mais moral e espiritual e menos política, propriamente
falando. No plano político e diplomático, especialmente
nas relações com a autoridade internacional da época, a Santa Sé, D. João
Peculiar teve o papel
preponderante, apesar
de a História o ter destacado pouco. Este importante e politicamente empenhado arcebispo
de Braga acabou por ser
secundarizado pela visibilidade e pelo significado atribuído pela memória
escrita e apologética a São Teotónio. São Teotónio foi, de facto, promovido e apoiado por D.
João Peculiar, que reconheceu, desde logo, a sua grande
qualidade espiritual e a capacidade para assumir funções eclesiásticas
relevantes. Aliás, os talentos de São Teotónio cedo foram
notados e a sua formação foi promovida sob os auspícios de grandes figuras e
instituições eclesiásticas do seu tempo.
Segundo a tradição, São Teotónio teria nascido na terra minhota de
Ganfei, pertencente ao concelho de Valença, que sediava um importante convento
e igreja beneditina, onde foi batizado e recebeu os primeiros rudimentos da
espiritualidade cristã, juntamente com a aprendizagem das primeiras letras, até
aos 10 anos. Teve,
depois, o importante patrocínio do bispo de Coimbra, seu tio paterno, D.
Crescêncio, que promoveu a sua formação em ordem a uma carreira eclesiástica
promissora. Com a morte
do seu tio, transferiu-se para a cidade de Viseu, onde se ordenou sacerdote com
grande ardor pastoral, revelando desde cedo, na sua missão pastoral, o desejo
de seguir uma via ascética de aperfeiçoamento espiritual e de dedicação ao
ideal de evangelização. D. Gonçalo, sucessor do seu tio Crescêncio à frente do
bispado de Coimbra, nomeou-o, entretanto, prior da Sé de Viseu,
que então dependia do bispado de Coimbra.
O apelo da Terra Santa
Em ambiente de Cristandade, no
coração da Idade Média, animado pelo espírito de cruzada e de peregrinação, o
apelo da Terra Santa atraía tanto nobres guerreiros, como homens espirituais
com desejo de percorrer os caminhos do fundador do Cristianismo e de
experimentar uma maior intimidade com Deus na terra considerada santa para os
cristãos, como era também para os fiéis das outras duas religiões do livro. Teotónio, movido pelo ideário de peregrinação e de
ascese, também foi atraído pelo desejo de seguir a via peregrinante em direcção
a Jerusalém, que, no imaginário medieval, era o centro da Terra e, por
excelência, da geografia do sagrado cristão, onde o caminho ascético de procura
de maior conversão interior se consumaria mais plenamente. São
Teotónio abandona, em nome deste ideal, o priorado da Sé em favor do seu amigo
Honório e arrisca uma viagem à Terra Santa com trajes de peregrino,
associando-se ao grande movimento medieval europeu de peregrinação aos lugares
santos.
Por
isso, no regresso, acaba por voltar a assumir as funções de prior da Sé de
Viseu, dedicando-se intensamente àquilo que configura o modelo de sacerdote
santo: extraordinária dedicação ao múnus de pregação
da palavra de Deus e atenção socio-caritativa aos mais necessitados, em plena
sintonia com o movimento europeu que preconizava um novo modelo de padre, à luz
da reforma gregoriana e canonical.
Mas,
novamente, cede ao apelo de regressar à Terra Santa e à procura de uma vida
mais contemplativa. Nesta segunda peregrinação, contacta de perto com os Cónegos Regrantes de
Santo Agostinho, que
teriam ganhado grande apreço pelas qualidades deste sacerdote lusitano,
querendo mesmo fazê-lo seu superior. Não teria anuído a esta intimação, antes
teria regressado a Portugal, mas já imbuído do ideal monástico vivido
pelos Cónegos seguidores da Regra do Bispo de Hipona.
Nas viagens de Teotónio à Terra Santa e no contacto com esta
experiência monástica canonical se pode entrever as origens daquela que pode
ser considerada a instituição religiosa e cultural também fundadora da
nacionalidade portuguesa: o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, assente na regra e no modelo de vida dos
Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Com efeito, no regresso da sua
segunda viagem de peregrinação, São Teotónio é convidado pelo arcediago D. Telo e pelo bispo de Coimbra a instalar, em Coimbra, uma nova
congregação/comunidade de Cónegos Regulares de Santo Agostinho, que
marcará decisivamente a cultura portuguesa e o apoio espiritual à monarquia,
tão decisivo para a sua estruturação enquanto poder organizado e reconhecido
como para a afirmação de uma identidade nacional distinta dos reinos vizinhos
de Leão e Castela.
O Mosteiro de Santa Cruz
O mosteiro é instalado com o patrocínio de Afonso Henriques, sob a
direção de São Teotónio, nos arredores da cidade coimbrã, a 28 de junho de 1131. A
comunidade monástica, fundada sob a invocação de Santa Cruz (Ordo Canonicorum Regularium Sanctae Crucis), começou a
funcionar com vida religiosa regular a 25 de fevereiro do ano seguinte, com 72
religiosos consagrados sob a direcção do primeiro prior eleito, Teotónio. É destacada, na espiritualidade de São
Teotónio e na dos seus Cónegos de Santa Cruz, uma atenção espiritual à devoção
a Nossa Senhora, o que tornará este mosteiro um centro importante para compreender a história da irradiação
da espiritualidade mariana em Portugal.
Fachada da Igreja de Santa Cruz, em Coimbra
A primeira dinastia portuguesa, a começar pelo seu fundador Afonso
I, cumulou este mosteiro de abundantes privilégios e bens, por ter percebido,
desde logo, a importância que representaria garantir apoio a uma instituição
que ofereceria um suporte espiritual, cultural e até mesmo no plano da formação
de quadros para o reino que se queria estruturar com uma autonomia que
perdurasse.
Importa acentuar que esta fundação
monástica deve inscrever-se no ideário
de renovação espiritual da Cristandade que tanto Telo, como Teotónio
incarnavam. Este desejo de reforma, que marcou a
transição da Alta para a Baixa Idade Média, resultou da consciência gritante da
corrupção e do afrouxamento espiritual que tinham afectado largas camadas da
hierarquia eclesiástica, que geraram movimentos críticos de descontentamento,
por vezes derivando em correntes heréticas e em propostas utópicas de
transformação social e eclesial.
As suas viagens à Terra Santa, passando
pelo sul de França, permitiram conhecer de perto os ventos de renovação
promovidos pela reforma de Cluny e pela reforma gregoriana da Igreja. Esta reforma eclesial, inspirada no
modelo monástico de que o Papa Gregório
VII, antigo
monge da regra beneditina, era herdeiro, gerou uma corrente em toda a
Cristandade que levou, por um lado, à procura da reforma da vida do clero e dos
cabidos canonicais adscritos às sés, procurando imprimir-lhe ritmos de vida
mais exigentes, à luz dos modelos de vida monástica, e, por outro, mobilizou
para uma dedicação pastoral mais intensa guiada pelo escopo de conversão da
vida secular a uma vida cristã mais santa. A
opção dos Regrantes dos séculos xi e xii pela Regra Agostiniana não pode ser
desligada, portanto, do renascimento das urbes e das redes de comércio, que
fazia concentrar nos novos aglomerados citadinos populações mais numerosas, as
quais interpelavam a uma acção espiritual mais intensa pela palavra e pelo
exemplo.
Espiritual por excelência
São Teotónio é descrito
pelos textos hagiográficos e pelas crónicas de Santa Cruz como um homem espiritual por excelência: homem de
oração intensa, amigo dos pobres e humildes, austero na vida, conciliador na
sociedade e operador de ações prodigiosas. A sua vida evoca bem a
tensão entre dois apelos que as reformas do clero em concurso implicavam e, por
vezes, também impunham dificuldades da gestão de opções; ou seja, o
apelo da vida contemplativa e a exigência ou obrigação de uma vida activa de
pregação e serviço aos mais pobres, interrompendo
um recolhimento de natureza monástica. Se a reforma
gregoriana
valorizava uma gestão equilibrada do atendimento a estes dois apelos, que
repartisse a vida do clero entre a contemplação, o cuidado da liturgia e a ação
evangelizadora, o modelo de Cluny acabava por sobrevalorizar a
contemplação em detrimento da acção, em que se investia mais nos ritos litúrgicos
com solenidade e nos ritmos de oração e menos numa vida de acção pastoral.
Do ponto de vista político, são estabelecidas ligações íntimas entre
o primeiro prior de Santa Cruz e as acções políticas e militares bem-sucedidas
de D. Afonso Henriques, que lhe pedia conselho e apoio espiritual. Ao
poder do seu apoio espiritual, através da oração e do conselho conveniente,
foram atribuídas importantes vitórias da reconquista cristã dos territórios de
mouros operadas por Afonso Henriques, nomeadamente a estratégia de conquista de Santarém. É também imputado a São Teotónio um papel no
aconselhamento em favor de uma política de tolerância e integração dos cristãos
moçárabes nas povoações conquistadas aos mouros. Relatados são os casos das incursões
militares de Afonso Henriques à região da Andaluzia, onde fez cativos muitos
mouros, com moçárabes à mistura.
A
experiência internacional de Teotónio, advinda das suas viagens de
peregrinação, permitia-lhe distinguir facilmente fiéis islâmicos
de fiéis cristãos inculturados sob domínio muçulmano. A distinção foi tornada patente junto do
rei, que, por conselho deste cónego-monge, os libertou e lhes deu cidadania
cristã.
A morte de São Teotónio, a 18 de fevereiro de 1162, é descrita de
forma prodigiosa e mística. Como acontece com descrições semelhantes de homens
eminentes pela sua santidade e outras qualidades excepcionais, no
momento da morte de Teotónio vê-se um globo luminoso a descer e a subir sobre o
claustro do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, abundando narrações de milagres
e prodígios, atribuídos, depois, ao poder intercessor de Teotónio, que o povo
rapidamente considerou santo. A fama de
santidade foi tal que a sua canonização pela autoridade eclesiástica aconteceu logo no ano
seguinte. Por iniciativa do arcebispo de Braga, D. João Peculiar,
reuniram-se os bispos do reino e, usando do poder que tinham então os
metropolitas, reconheceram o grau de santidade em Teotónio, canonização que
veio a ser confirmada pela Igreja Universal pela mão de Alexandre
III.
A vida de São Teotónio foi revisitada em várias crónicas e
histórias, muitas delas produzidas no percurso de feitura da história e da
valorização da importância do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. O prestígio
da sua figura e da sua santidade é-lhe dado também pela sua eleição para patrono de
importantes cidades portuguesas. Este
santo fundador do Reino de Portugal tornou-se padroeiro de Viana do Castelo, de
Viseu e de Coimbra. Além de outros significados patentes na construção da
memória histórica da vida e acção deste santo fundador de Portugal, São
Teotónio representou, no processo de afirmação da nacionalidade portuguesa, a
prototípica figura religiosa intermedial que operou a articulação entre o plano
humano de criação de um novo reino autónomo e o plano transcendente, em que se
procurava encontrar a bênção e a legitimação divinas para dar sentido
sobrenatural ao empreendimento desta edificação terrena que era o novo Reino de
Portugal.
PORTUGAL 900 ANOS HISTÓRIA CULTURA
COMENTÁRIOS (de 14)
Maria Augusta
Martins: Haja quem ensine a nossa
História, aliás é Obra de Misericórdia num tempo em que campeia a ignorância o
futebol e os festivais. Parabéns! Maria
Nunes: Excelente
artigo. Nunca é demais recordar a nossa magnífica História. Obrigada. Francisco
Almeida: Obrigado pelo
que me relembrou e ensinou. Pensar em D.
Afonso Henriques e São Teotónio e lembrar comparativamente Guterres e Vítor
Melícias, é deprimente.
NOTAS da Internet:
SOBRE
Mosteiro de Santa Cruz - Coimbra
Situado
nas margens do Mondego, o Mosteiro de Santa Cruz é um dos mais antigos e
importantes monumentos de Coimbra, fundado em 1131 pelos Cónegos Regrantes de
Santo Agostinho no exterior das muralhas que rodeavam a cidade. D. Afonso
Henriques, primeiro rei de Portugal, vinha aqui assistir aos ofícios religiosos
quando regressava das suas batalhas de Reconquista Cristã, e é aqui que se
encontra o seu túmulo, bem como o de seu filho D. Sancho I.
Santa Cruz foi berço dos primeiros
estudos medievais em Portugal, que iriam fortalecer o poder real emergente
através da sua acção educativa. Foi
dentro das suas paredes que uma das figuras mais universais da cultura
ocidental dos séculos XII/XIII, Santo António, Doutor da Igreja,
aprofundou os seus estudos teológicos e o vasto conhecimento das Sagradas
Escrituras patente nos seus sermões.
A igreja, o claustro e as
capelas foram reconstruídos no séc. XVI, de acordo com um plano de Diogo de
Boitaca, tornando-se
uma das mais belas obras do Renascimento artístico português. Conserva ainda
pormenores magníficos: a fachada, o púlpito e os túmulos dos reis, o claustro
do silêncio, os baixos-relevos do claustro e os quadros da sacristia.
Actualmente,
é possível visitar também o interior do Mosteiro que é panteão nacional e onde,
além dos túmulos dos dois primeiros reis de Portugal, se pode ver o
Museu de Arte Sacra (com as reliquias do primeiro santo português, S. Teotónio),
o Claustro do Silêncio, o Cadeiral do Coro Alto (situado no segundo
andar e que dá acesso a uma vista panorâmica da igreja) e um Santuário
relicário.
Igreja de Santa Cruz
Também virou fado – de amor - que costumávamos
cantar:
Fado de
Coimbra
Igreja de
Santa Cruz
Feita de pedra morena
Dentro de ti
vão rezar
Dois olhos que me dão pena
Quando
estavas na igreja
A teus pés ajoelhei
À Virgem por mim rezavas
À Virgem por ti rezei