quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

AFINAL

 

Presépios são todos, onde o amor, a alegria e a fraternidade parecem existir - ao menos uma vez em cada ano. Um belo texto alegre, sobre um Natal que pede por todos aqueles onde Ele falha.

Neste começo de 2026, prestes a chegar. 23h 55   HAPPY NEW YEAR

O presépio

Por detrás do ruído familiar e do atropelo de vozes e gestos, o Natal e o desafio do recomeço que ele traz consigo, estiveram ali: convivemos, contemplámos, rezámos, agradecemos.

MARIA JOÃO AVILLEZ, Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR31 dez. 2025, 00:229

1Este ano o presépio também tem seis Reis Magos?” perguntou um filho cuja ironia exibia uma resignada disponibilidade para que não só voltasse a haver vários Magos como talvez dois S. José, cinco camelos ou qualquer outra interpretação fantasiosa do presépio. O caso é que tendo uma vez trazido do longínquo Peru um belíssimo terceto de Reis Magos em terracota, foi-me irresistível juntá-los na companhia dos que já estavam “montados” e assim, num ápice, os reis passaram a seis numa coabitação estética digno de estudo.

Às vezes também tem havido pastores a mais e ovelhas a menos, excesso de “figurantes” – lavadeiras, camponeses, fontes (fontes, calcule-se…). E claro as habituais hesitações na escolha do protagonista do mais maravilhoso mistério da civilização que me foi berço: um Menino Jesus clássico? aquele vincadamente popular e muito colorido? o “antigo” vindo amorosamente de avós e bisavós? e se fosse a tão poética figura, feita em papel pelos doentes do antigo Hospital Júlio Matos, que me foi um dia oferecida quando há anos lá fiz algum voluntariado?

Contado assim parece que o “armar” do presépio é à vontade do freguês ou um mero jogo de sala. Nunca o foi. É antes um modo de andarmos ali de roda com vagar, sabendo estarmos diante do “anúncio” da possibilidade de outra vida. E por isso digamos que as inopinadas fantasias a que acima aludi na representação do nascimento de Cristo em nada afectam a nossa convicção – quase geral aqui em casa – de que é no presépio que se encontra e dele que emana a essência do Natal – e o seu mistério e o seu milagre. Mantemo-lo contra os ventos do tempo, as falácias, os assaltos à História: distorcendo-a num desvio ao seu curso, e revendo-a ao belo prazer de conveniências e agendas da guerra – em curso acelerado – contra a matriz judaica cristã da nossa civilização (quando não é ela própria, ainda mais aceleradamente, a desistir de si mesma, na inexplicável demissão que observamos todos os dias).

2Mas este ano não houve sobreposição de Reis Magos, nem outros “extras”, este ano foi tudo como Deus manda. Ou melhor, como decidiu mandar-me, Ele e o habitat familiar: eu que me desvencilhasse na tarefa espiritual e doméstica de ter dois Natais nos braços, geograficamente distantes e, como tal, reclamando forte logística e distintas “encenações” pela natureza dos lugares onde se celebravam.

Ainda estive quase a sugerir ser paga à hora pela ubiquidade que a distância e o “trabalho” me exigiam, mas o sopro natalício susteve – in extremis – a tentação. Além de que este amontado de gente e gerações que dá pelo mais comum nome de família e no qual vivo mergulhada sofreria um choque que a quadra não recomendaria, ao constatar uma “mater familias” subitamente remunerada (e por quem, desde logo?). E pior ainda, aceitando o opróbrio quem sabe se até com desenvolta naturalidade.

De modo que recuperei a decência, por breves instantes perdida e servi o Natal com a consciência de tão séria “convocatória” e uma azáfama alegre -não, não é contraditório: primeiro numa urbana avenida lisboeta, a seguir na genuína ruralidade do nosso Oeste “privativo”. Milagrosamente dotados ambos, o Natal citadino e o Natal campestre, de tempo e espaço. Usámos o tempo, beneficiámos do espaço. Claro que o silêncio foi escasso, a vozearia alta, a ordem pouco praticada, agitadas as refeições, o relógio nunca cumprido mas pensando bem, que importância? Por detrás do ruído humano e do atropelo dos seus verbos e gestos, o Natal – e o desafio do recomeço que ele traz consigo e nos oferece – esteve ali: convivemos, contemplámos, rezámos, agradecemos.

3 E amanhã,? Amanhã já começou outro ano. São muitas as conjecturas, poucas as expectativas, pesadas as dúvidas, trémulo o temor. Sobretudo, rara e difusa a esperança.

Mas amanhã, ficará para depois. Hoje ainda é este ano.

NATAL       SOCIEDADE       FAMÍLIA      LIFESTYLE

 

COMENTÁRIOS

JOHN MARTINS: Cara, Maria João, que o amanhã seja melhor do que ontem, que também eu  ao ler os seus excelentes artigos me possa regozijar com prováveis momentos agradáveis caso  se venham a verificar, no NOVO ANO.

MARIA NUNES: Obrigada MJA por todos os excelentes artigos com que nos brindou este ano.              

ANTÓNIO DIAS: Bonito texto.

 

Fado

 

Nosso, é bom de ver, resultante de falhas antigas - na educação moral, associada, talvez, a uma intelectualidade de dimensão, de longa data, limitada, habituados que somos desde cedo, a espetar o dedo acusador sobre o “outro”, mais do que a assumir, quantas vezes, a nossa culpa. Mas nunca isto se viu, em tempos idos, parece-me, tal pesquisa de “podres” -  sobretudo dos que vão desempenhar um cargo de dirigente social. Que falta de vergonha nacional! Será a inveja o motor do despautério? Um despudor acicatado pela comunicação social, a televisão com maior visibilidade no processo…

Activar alertas

Estava escrito nas estrelas

O homem que se esforçava por parecer mais sério que todos os outros juntos vai passar dias a explicar as suspeitas que recaem sobre ele. Lá se foi a vantagem moral. É uma enorme ironia. E não a única.

MIGUEL SANTOS CARRAPATOSO Editor Adjunto de Política do Observador

OBSERVADOR, 30 dez. 2025, 00:1829

Existem três coisas certas na vida colectiva nacional: a morte, os impostos e uma campanha eleitoral com impressão digital do Ministério Público — e não necessariamente por esta ordem hierárquica. Esta corrida presidencial, aliás, já teve direito a duas dedadas, uma para LUÍS MARQUES MENDES (denúncia anónima entretanto arquivada), outra para HENRIQUE GOUVEIA E MELO (inquérito sobre factos ocorridos há mais de três anos). Os mais melindrosos, onde se incluem muitos jornalistas, acharão indigno que se questione sequer esta ululante coincidência nos timings. Mais uma. É só a Justiça a funcionar, dizem. Tudo certo, siga a Marinha.

Ironicamente, a mais recente vítima de umainvestigação em curso” — HENRIQUE GOUVEIA E MELO é o candidato que estava a tentar atirar o rival mais directo — LUÍS MARQUES MENDES — para uma teia de suspeitas e de insinuações, exigindo uma espécie de inversão do ónus da prova. É mais um exemplo acabado de como é muito arriscado apostar tudo em campanhas negativas, que nunca correram particularmente bem a quem as organizou e liderou. Depois, já se sabe: quem com ferros mata, com ferros morre.

Em boa verdade, LUÍS MARQUES MENDES estendeu o tapete a todos aqueles que lhe exigiam maior transparência. Revelar (tarde) a lista de clientes da empresa familiar, por muito saudável que seja, é manifestamente insuficiente quando toda a gente sabe que a principal actividade profissional do antigo líder social-democrata não era essa. E escudar-se no dever de sigilo de advogado é desculpa esfarrapada.

Os eleitores tinham e têm o direito de perceber o que fez e que interesses representou LUÍS MARQUES MENDES na sociedade de advogados a que pertenceu. Ter uma vida para lá da política partidária e fora do Estado não é, nem pode ser um anátema, muito menos cadastro; mas ser candidato a um cargo político também não é uma obrigação, pelo que quem o deseja fazer está sujeito a regras de transparência a que outros não estão.

Perante as hesitações, contradições, amnésias selectivas e as omissões de Mendes, os adversários podem, legitimamente, censurar a conduta do homem que têm pela frente. Outra coisa diferente é fazer disso tema único e bóia de salvação de uma campanha que estava a ir ao fundo. Correu mal. Correu muito mal. O homem que se esforçava por parecer mais sério do que todos os outros juntos vai passar agora os dias a explicar as suspeitas que recaem sobre ele e a queixar-se de que não foi sequer ouvido. Lá se foi a vantagem moral.

E ainda há uma segunda enorme ironia. É que no debate com LUÍS MARQUES MENDES, HENRIQUE GOUVEIA E MELO chegou a questionar a celeridade com que a Procuradoria-Geral da República decidiu não dar sequência à queixa anónima contra o adversário. A insinuação — gravíssima partindo de quem se candidata à Presidência da República — é, a esta luz, particularmente cruel: o que daria HENRIQUE GOUVEIA E MELO para que este inquérito fosse arquivado o quanto antes. O almirante nem legitimidade política tem para se queixar dos tempos da Justiça.

Apesar de tudo, medir o impacto político destes casos (diferentes na sua natureza, semelhantes nas leituras que se podem retirar) é um exercício difícil. Difícil porque uma parte da opinião pública parece estar anestesiada com esta sucessão de “investigações”, buscas, casos e casinhos em alturas sempre oportunas; e difícil porque uma outra parte parece convencida de que os políticos são todos iguais. Não são. Mas fariam todos um enorme favor se não se entretivessem a atirar lama uns contra os outros, judicializando eles próprios a política. Inevitavelmente dá asneira. Não é pedir o impossível; o impossível seria pedir ao Ministério Público que comunicasse com transparência. Mas nisso já ninguém acredita.

PRESIDENCIAIS 2026       ELEIÇÕES       POLÍTICA       MINISTÉRIO PÚBLICO       JUSTIÇA

COMENTÁRIOS (de 29)

GRAÇA DIAS: Caríssimo Miguel Carrapatoso  Se me permite, quanto afirma que esta campanha presidencial tem " o cartão digital da Procuradoria Geral da República " esqueceu olimpicamente,  que esta, bem como todas as campanhas eleitorais,  o cartão digital campeão é o da obtusa comunicação social, com todo o seu activismo político permeável a múltiplos interesses.  Votos de bom 2026.              MARIA TUBUCCI: Bem, hoje é 3ªF, temos a bilhardeira do Observador a colocar a bisbilhotice em dia. Eu não confirmo nem desminto, mas contaram-me isto. Se MM é uma personagem escura o GeM é uma personagem cinzenta, é tudo uma questão de cor, por alguma razão foram escolhidos pelo sistema. Agora ficar escandalizado por GeM ter feito contratos por ajusto directo, que são o prato do dia na administração pública, quando estava na marinha é um bocadinho lamechas. Cheira-me que o MM se vitimizou porque não foi chamado para o negócio! Se GeM é mau para PR, o MM será péssimo, então quando começa a dar sermões com aquele ar de soberba é verdadeiramente repugnante. Oh sr. jornalista, diga de uma vez que apoia o MM, em vez de se esforçar tanto para ser um Bugalho, não lhe fica bem, não havia necessidade de colocar ao mesmo nível um suposto pilha-galinhas e uma raposa velha. Aliás, cada um interpreta as estrelas ou as borras de café da maneira que lhe convém...                ANTÓNIO DUARTE: Este miserável articulista não leu a notícia do próprio paskim que dizia ter o Ministério Público informado que o almirante não é arguido? Então o que tem que explicar é a quem? POR8175: O Lixo habitual do "Editor Adjunto". Nem vale a pena ler, deste sujeito só si porcaria...                 ANTÓNIO SOARES: Este carrapato acha que ser CEMA é tão fácil como escrever crónicas de maldizer. Não penso votar GM, não por causa dos ajustes directos, mas por algumas pessoas que o rodeiam, nomeadamente Rui Rio e Pizarro, e, sobretudo pelas loas que o mesmo teceu a Mário Soares, personagem principal do livro Contos Proibidos, além da confessada vontade de fazer como este, caso venha a ser eleito. Comparar as negociatas de Marques Meia Leca, com os ajustes directos do Almirante é um bocado ridículo por parte do autor desta croniqueta.                GABRIEL MADEIRA: A sério?? E só agora, por conveniência, os órgãos (in) competentes do Estado descobriram o assunto? Balha-me Deus.                FILIPE PAES DE VASCONCELLOS: UM HOMEM COM A MANIA QUE É MAU. Assisti ao debate de Marques Mendes / Gouveia e Melo e perguntei cá para mim: Será que Gouveia e Melo quer bater? O tiranete estava enfurecido. Haja alguém que o aconselhe a no caso de estar zangado com a vida, que se trate. Agora, Portugal não pode querer ter na presidência da República um homem armado em mau mas com a mania que é o “supra sumo da barbatana”. E quem vai buscar o candidato para o acompanhar são todos aqueles que já “não contam para o totobola” Aqueles que ainda se acham relevantes porque são muito vaidosos e arrogantes, cheios de “importância”. Fazem-me lembrar os “inadiáveis “ de má sorte e memória. Portugal não pode ter no mais alto cargo da Nação um TIRANETE. MANUEL GONÇALVES: O Sr.Almirante podia ter ficado descansadinho, a gozar o prestígio postiço atribuído por um povo deslumbrado pelo seu sucesso no desempacotamento de vacinas. Mas também ele se deslumbrou pelo deslumbramento provocado e vai daí achou que o povo se mantinha deslumbrado para sempre.                JOSE PIRES: Estava escrito nas estrelas que a Comunicação Social teria de fazer fretes a quem lhe paga, de uma forma ou de outra. Eu até ia votar em branco na primeira volta. Vou votar no Almirante               POBRE PORTUGAL: Não foi o MP quem tramou o almirante. As pessoas é que não o querem. As pessoas, isto é, nós, queremos é que o Ventura nos liberte desta masmorra esquerdista onde nos acorrentaram.                A FJ: A população não está anestesiada, a população percebe que, no país dos favores, compadres, cunhas e jeitinhos, os políticos também vivem disso. Isto é tão óbvio que dói. A população também tem dois dedos de testa para perceber a diferença entre um Lobista de carreira como Marques Mendes e umas adjudicações directas na marinha, intencionais ou não. Esteve muito bem o almirante a confrontar o Marques Mendes, e só faltou atirar lhe com a maçonaria. (E não vou votar almirante, pelo menos não na primeira volta)                TRISTÃO:  “E escudar-se no dever de sigilo de advogado é desculpa esfarrapada.” O Miguel Carrapatoso não lê o Observador? Aconselho-o a ler o artigo do seu colega Miguel Pereira Santos. No seu término diz o seguinte:  “Para os revelar teria de pedir aos clientes, à Abreu Advogados, à Ordem dos Advogados e teria de alegar defesa da honra. Mesmo assim, a permissão podia não lhe ser dada.”  Afinal, acha a desculpa ainda esfarrapada? Quanto ao resto do artigo, já o povo diz que “o peixe morre pela boca”, é só mais um caso…                ALFAIATE TUGA: Dizer que estava escrito nas estrelas é o mesmo que dizer que tem todos telhados de vidro, se calhar é verdade, eu já digo há muitos anos que somos um país de gente séria e idónea ,pois a justiça praticamente não condena ninguém por corrupção ou enriquecimento ilícito, deve ser porque é tudo legal, vejam o 44. Pela minha parte acho muito bem que tentem descobrir a careca uns aos outros, quanto mais se souber sobre a forma como ganham ou ganharam a vida melhor, e já agora, quanto é que cada um pagou de IRS também dava muito jeito. O que me preocupa é que haja quem esteja preocupado por se saberem umas verdades….                 JOHN MARTINS: Primeiro, Melo atirou um saco de lama a Mendes, no debate. Agora, a maré virou. É o clássico da política: quando alguém constrói a campanha em superioridade moral, qualquer onda mais forte expõe o casco. Pela boca morre o peixe,  sobretudo os que nadam em águas profundas e acham que nunca vêm á superfície.                 PAULO MACHADO: A esquerda a fazer de tudo para colocar Seguro na 2a volta.

A prova de que não há


Pretexto russo retaliativo, segundo a acusação implicante ucraniana, é a apresentada pelo comentador JOÃO ABREU, garantindo que «O Zé propaganDias diz que até levou com um fragmento de telha, na esguelha d'orelha», encontrando-se, certamente, o Zé na Rússia, que não ia mentir a respeito da sua orelha. A Ucrânia não deve, pois, inventar sobre as intenções russas, embora, feitas bem as contas, até tem direito a lançar telhas, ou mesmo outros instrumentos atacantes, quem poderá negar isso?


Demonstração de "terrorismo estatal" ou operação de falsa bandeira para criar um pretexto?

As duas versões sobre o ataque à casa de Putin

Rússia acusa Ucrânia de ter atacado a residência oficial de Putin e ameaça rever posição nas negociações de paz. Kiev garante que é "mais uma mentira" de Moscovo para criar pretextos de retaliação.

JOÃO FRANCISCO GOMES: Texto

MANUEL NOBRE MONTEIRO: Texto

30 dez. 2025, 10:46 8 

O primeiro anúncio foi feito pelo próprio ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov: na noite de domingo para segunda-feira, a Ucrânia teria lançado um ataque com drones contra a residência oficial de Vladimir Putin na região russa de Novgorodo. Segundo o relato do chefe da diplomacia de Moscovo, divulgado por agências russas como a Tass, pelo menos 91 drones tinham sido abatidos e não havia registo de quaisquer feridos ou mortos na sequência do ataque.

De imediato, a notícia teve eco global e deu rapidamente origem a duas linhas narrativas distintas em Kiev e em Moscovo.

Logo no primeiro momento, as autoridades russas deram pistas claras sobre a perspectiva de Moscovo acerca do assunto. A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, MARIA ZAKHAROVA, classificou o suposto ataque como “terrorismo” e falou mesmo de uma acção de Kiev “sem precedentes” por ter ocorrido justamente no momento em que decorrem negociações de paz, com os Estados Unidos a servir de mediadores. E o próprio Lavrov deixava claro que, embora a Rússia não pretendesse abandonar a negociação, a posição negocial de Moscovo neste processo seria “revista tendo em conta a transição final do regime de Kiev para uma política de terrorismo estatal”, de acordo com as palavras citadas pela agência Tass.

Em Kiev, porém, a reacção era radicalmente oposta: o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, rejeitou liminarmente que a Ucrânia tivesse levado a cabo qualquer ataque contra uma residência de Putin e classificou a alegação russa como “mais uma mentira”, destinada a obter um pretexto para prejudicar as negociações de paz e para lançar novos ataques contra a Ucrânia.

“Com este comunicado sobre um alegado ataque a uma qualquer residência, eles estão a preparar o terreno para atacar, provavelmente, a capital e edifícios do governo”, disse ZELENSKY em declarações à imprensa ucraniana, citadas pelo The Kyiv Independent.É óbvio que ontem tivemos uma reunião com o Presidente Trump e é claro que, quando não há escândalo para os russos, quando há progresso, é um falhanço para eles. Eles não querem acabar esta guerra e só o vão conseguir fazer sob pressão. Por isso, estão à procura de um pretexto.”

Na Europa, a possibilidade de se ter tratado de uma operação de falsa bandeira (ou seja, um ataque feito pelos próprios russos para criar o pretexto para uma retaliação) está a ser colocada em cima da mesa, mas há também outras possíveis explicações, incluindo a de o ataque ter sido efetuado por sabotadores leais a Kiev.

A declaração de Lavrov surgiu num momento em que Volodymyr Zelensky se encontrava nos Estados Unidos para uma reunião com Donald Trump que teve o plano de paz para a Ucrânia no centro da agenda. À saída dessa reunião, Zelensky afirmou que o plano de paz se encontra 90% finalizado, mas mantém-se o impasse em torno do tema mais difícil: o dos territórios do leste ucraniano que a Rússia anexou unilateralmente e de que a Ucrânia não abdica. Uma proposta avançada por Kiev passa pela criação de uma zona económica livre e desmilitarizada através do recuo simétrico dos dois exércitos, mas ainda não há avanços nesta matéria.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andrii Sybiha, já veio afirmar que todos os ataques de Kiev no território russo são contra alvos militares legítimos, em retaliação a ataques russos, e sustentou que é a Rússia — e não a Ucrânia — a agressora na guerra.Pedimos ao mundo que condene os comentários provocatórios da Rússia, destinados a minar um processo construtivo de paz”, disse Sybiha. “A Ucrânia continua comprometida com os esforços de paz liderados pelos Estados Unidos com o envolvimento dos parceiros europeus.

O próprio Donald Trump, que tem mediado as negociações de paz entre Kiev e Moscovo, acabaria por dar eco às duas versões da história. Num primeiro momento, Trump, que tinha acabado de falar com Vladimir Putin ao telefone, disse aos jornalistas que estava “muito zangado” com o ataque.

“Não gosto. Não é bom”, disse Trump, após o telefonema com Putin, que aconteceu já depois da reunião na Flórida com Zelensky.Soube-o pelo Presidente Putin, hoje. Fiquei muito zangado.” Destacando que o conflito atravessa um “período delicado”, Trump assinalou que este não era o momento certo para uma ofensiva daquela natureza. “Uma coisa é ser ofensivo, porque eles são ofensivos. Outra coisa é atacar a casa dele. Não é o momento certo para fazer nada disto.” Ainda assim, Trump admitiu que “é possível que o ataque não tenha ocorrido”.

Se do lado ucraniano os responsáveis políticos têm negado reiteradamente o ataque e a imprensa se tem referido à ocorrência como um “alegado ataque”, do lado russo a narrativa é a de que o ataque aconteceu mesmo. As agências russas têm noticiado vários detalhes sobre um ataque com drones, incluindo o tipo de drones usados. Ao mesmo tempo, várias figuras do regime de Moscovo têm acusado não só Kiev, mas também os aliados europeus, de terem estado por trás do ataque contra a residência de Putin.

Kremlin considera “absurdas” as afirmações que contestam o alegado ataque à residência oficial de Putin.

Já esta terça-feira, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, considerou “absurdas” as afirmações que contestam o suposto ataque à residência oficial de Putin em Novgorod.

 Vemos que o próprio Zelensky está a tentar negar isso e muitos meios de comunicação ocidentais estão a fazer o jogo do regime de Kiev e estão a começar a espalhar a narrativa de que isso não aconteceu. Estas são alegações absurdas”, disse Peskov aos jornalistas, citado pela agência estatal russa TASS.

O porta-voz do Kremlin reiterou que a Rússia não se está a retirar do processo de negociação sobre um plano de paz. “A Rússia continuará o processo de negociação e diálogo, principalmente com os norte-americanos”, disse, alertando que o suposto ataque levará a um “endurecimento” da posição negocial da Rússia.

“Quanto às consequências militares, os nossos militares sabem como, com o quê e quando responder”, rematou Peskov.

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COMENTÁRIOS (de 8)

LÚCIO MONTEIRO: Esse pseudo ataque acabou por se transformar num tiro no próprio pé desse filho da Putina. Foi um pretexto para conseguir que o "xerife global", Trump, se virasse contra Zelensky, mas o feitiço acabou por se virar contra o feiticeiro. Um aldrabão, terrorista e pirata, do jaez de Putin, aproveita sempre todas as oportunidades para expor o seu lado monstruoso. Mas este pesadelo, que ele está a impor a milhões de pessoas, não vai durar eternamente. Ai não vai, não.           ALBERICO LOPES: Vamos lá ver: Mas alguém de bom senso acredita nesta narrativa dos corsários putinescos? Isto foi tudo engendrado para criar ainda mais fricção nos esforços de paz levados a cabo pelo presidente Zelensky com os americanos e os eunucos europeus! Reparem bem como aquele general de aviário, que dá pelo nome de AGOSTINHO COSTA e que comenta na CNN/TVI se apressou a alarvemente condenar a Ucrânia, fazendo de porta-voz do Kremlin, como costuma fazer! Não consigo entender como a direcção da TVI ainda dá palco a este espião do Putin!      EDUARDO MÃOS DE TESOURA: Qual será a nova desculpa que o Criminoso Genocida Putin vai agora inventar para recusar o Plano de Paz Trump- Zelensky?                    JOÃO ABREU: O Zé propaganDias diz que até levou com um fragmento de telha, na esguelha d'orelha.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Teatralidade


Russa benfazeja, na reconstrução teatral prioritária, ávidos que são os russos de bons espectáculos, que eles próprios protagonizam, como pretendem demonstrar aos ucranianos, após a sua invasão massacrante no terreno vizinho. Putin espreita as obras da sua cadeira. Digo, do seu trono de satisfação televisiva, no primeiro quarto deste nosso século 21, que tanta fama lhe trará, veremos como será no segundo, embora eu já não possa assistir, ai de mim!

Ucrânia. Teatro de Mariupol, palco de massacre em 2022, reaberto pela Rússia 

O Teatro de Mariupol, onde cerca de 600 pessoas morreram num ataque russo em 2022, reabriu, depois de restaurado pela Rússia. "É como dançar e cantar sobre ossos", diz conselho municipal ucraniano,

AGÊNCIA LUSA: Texto

OBSERVADOR,30 dez. 2025, 01:47  

As autoridades russas de Mariupol anunciaram a reabertura o teatro da cidade ocupada à Ucrânia, onde durante a ocupação em 2022 morreram em bombardeamentos mais de meio milhar de civis, segundo estimativas independentes.

Local de refúgio de civis durante a invasão e incessantes bombardeamentos russos, o teatro original foi destruído num ataque aéreo russo a 16 de março de 2022, apesar de em frente ter sido escrita na altura a palavra “crianças”, em tamanho suficientemente grande para ser vista do ar.

O palco da amplamente documentada tragédiauma investigação da Associated Press (AP) encontrou posteriormente provas de que o ataque matou cerca de 600 pessoas dentro e fora do edifíciofoi reaberto no domingo com um concerto de gala no novo palco principal.

Imagens partilhadas por meios de comunicação estatais russos do agora denominado Teatro Dramático Regional Académico de Donetsk mostram os pilares e as escadarias de mármore do edifício, bem como bailarinos a usar os tradicionais toucados russos conhecidos como kokoshniks.

Entre os convidados de honra na inauguração de domingo estiveram Denis Pushilin, chefe da região parcialmente ocupada de Donetsk, nomeado pela Rússia, e o governador de São Petersburgo, Alexander Beglov.

A reconstrução do edifício teve apoio dos trabalhadores de São Petersburgo, que ficou geminada com Mariupol depois de a Rússia ter assumido o controlo total da cidade em maio de 2022.

Segundo a investigação da AP, as ruínas do teatro foram arrasadas por tratores e os restos mortais foram levados para valas comuns em Mariupol e arredores.

Moscovo afirmou que as forças ucranianas demoliram o teatro, uma alegação que a investigação da AP refutou.

O conselho municipal ucraniano de Mariupol, que abandonou a cidade quando esta foi ocupada, operando na Ucrânia, classificou a reconstrução e a reabertura do teatro como cantar e dançar sobre ossos”.

“A ‘restauração’ do teatro é uma tentativa cínica de encobrir os vestígios de um crime de guerra e parte de uma política agressiva de ‘russificação’ da cidade”, declarou o conselho em comunicado no Telegram. O repertório de domingo, exemplificou, consistiu sobretudo de obras de escritores e dramaturgos russos.

A região de Donetsk, onde se situa Mariupol, permaneceu um campo de batalha crucial durante toda a guerra. A Rússia anexou-a ilegalmente em 2022, embora Moscovo ainda não controle toda a região, cujo destino é um dos principais pontos de discórdia nas negociações para o fim da guerra.

A Rússia invadiu a Ucrânia a 24 de fevereiro de 2022, com o argumento de proteger as minorias separatistas pró-russas no leste e “desnazificar” o país vizinho, independente desde 1991 – após a desagregação da antiga União Soviética – e que tem vindo a afastar-se do espaço de influência de Moscovo e a aproximar-se da Europa e do Ocidente.

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Pacifismo de brincadeira


O de Putin, que está como peixe na água, comandando de cátedra a sua guerra. Ou da simples cadeira, tanto faz. Sem risco para ele - é o que conta. Não, não faz questão de chefiar as suas tropas. Mas o seu nome é que perdurará na História, não haja dúvidas, nisto da sorte  macaca. Macaqueadora, digo, em revisão da problemática bélica dos nossos tempos “democráticos”, em que tudo se permite - com lealdade, fraternidade, igualdade, seja qual for o significado disso. Daí que Zelensky não terá grande sorte, na expectativa da ajuda externa, acho.

MUNDO / Guerra na Ucrânia

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Zelensky pede tropas internacionais para dissuadir Rússia

Presidente ucraniano diz acreditar que as tropas internacionais são uma "garantia de segurança real", e salienta que bombardeamentos russos não condizem com "retórica supostamente pacífica" de Putin.

AGÊNCIA LUSA: Texto

OBSERVADOR, 29 dez. 2025, 13:25 1 

O Presidente ucraniano afirmou esta segunda-feira que o envio de tropas estrangeiras para o país seria garantia de segurança necessária e real para dissuadir a Rússia de novos ataques.

Para ser honesto, sim. Acredito que a presença de tropas internacionais constitui uma garantia de segurança real, um reforço das garantias de segurança que os nossos parceiros já nos oferecem”, disse Volodymyr Zelensky, em conferência de imprensa via internet.

O líder ucraniano declarou ainda que os bombardeamentos constantes da Ucrânia pela Federação Russa, não condizem com a “retórica supostamente pacífica” que o Presidente russo, Vladimir Putin, tem usado enquanto negoceia com o chefe de Estado norte-americano, Donald Trump.

Por um lado, diz ao Presidente dos Estados Unidos que quer acabar com a guerra. Por outro lado, comunica abertamente que quer continuar a guerra. Ataca-nos com mísseis, fala abertamente sobre isso, comemora a destruição das infraestruturas civis e dá instruções aos generais sobre onde avançar (…). Essas ações não correspondem à retórica supostamente pacífica que [Putin] usa nas conversas” com Trump, salientou.

Zelensky esclareceu também que o funcionamento da central nuclear de Zaporijia, no sul da Ucrânia, e as questões territoriais continuam por resolver no plano para o fim da guerra.

“Duas questões permanecem: a central nuclear de Zaporijia — como vai funcionar? — e o problema territorial. Essas são as duas questões que ainda constam no documento de 20 pontos“, afirmou.

Os EUA ofereceram à Ucrânia “garantias de segurança sólidas” contra a invasora Rússia por um período de 15 anos, renovável, disse também o presidente ucraniano.

Zelensky acrescentou ter pedido a Trump, no encontro de domingo, na Flórida (sudeste dos EUA), um prazo mais longo.

No domingo, Trump anunciou que Rússia e Ucrânia concordaram negociar através de um grupo de trabalho, formado pelos principais colaboradores, para finalizar um acordo de paz “nas próximas semanas”.

A Ucrânia vai contribuir com algumas pessoas muito boas”, disse em conferência de imprensa o líder dos EUA, no final do encontro com Zelensky.

Trump acrescentou que, numa ligação telefónica anterior, com Putin, obteve a aceitação do Kremlin para esta mediação.

Rússia e Ucrânia estão em guerra há quase quatro anos, depois de as tropas russas terem invadido território ucraniano, em 24 de fevereiro de 2022.

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COMENTÁRIOS:

Abilio SilvaCorrecção: A Ucrânia começou a ser invadida a 28fev14 por “homenzinhos verdes” russos que encontraram pouca resistência e assim se apoderaram da Crimeia e a resposta internacional na altura foi 000.

 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Eles já estão a cobrar


Hoje são eles que invadem a Europa. E assim vão cobrando, por um passado que até os elevou espiritualmente. Um passado que se deveu à extraordinária heroicidade dos que os foram achar. «Em 1418, João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira descobriram a Madeira. No ano seguinte, os mesmos e Bartolomeu Perestrelo descobriram Porto Santo…” Ou vice-versa, segundo leio na Internet, que fui consultar, na dúvida sobre uma memória em falha na questão das datas, para além dos dados. Foi assim que começou, até chegarmos a Timor… Foi grandioso, mas hoje cobra-se, e os portuguesitos, que outrora foram valentes, hoje acobardam-se. Foi o que fez Marcelo, coitado. E o Costa vingativo, apesar dos belos cargos que hoje ocupa, de vítima que foi, ou de descendente dos tais... Tanta bestialidade por aí, tanta hipocrisia, tanta cobardia nossa!… Nossa!

O que António Costa não disse e JPP não ouviu

Muitos contribuem para adensar uma atmosfera de culpabilidade colonial portuguesa que se injecta constantemente na nossa sociedade, nos sangra em saúde e nos causará, adiante, muitas dores de cabeça.

JOÃO PEDRO MARQUES Historiador e romancista

OBSERVADOR, 29 dez. 2025

No final de Novembro, de visita oficial a Angola na qualidade de presidente do Conselho Europeu e no contexto da sétima cimeira União Europeia-União Africana, António Costa resolveu aflorar a história das relações Europa-África. Sentado entre o presidente angolano João Lourenço e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, António Costa disse o seguinte: “Há 50 anos terminaram as colónias europeias em África. Pôs-se assim fim a um ciclo de 500 anos de colonialismo cujo momento seguramente mais dramático foi o que foi marcado pelo comércio de escravos. As colónias europeias terminaram, mas infelizmente os efeitos do colonialismo não terminaram nessa altura e isso deve-nos inspirar a trabalhar em conjunto (…)”.

À primeira vista esta parte do seu discurso parece certa e adequada. O tráfico transatlântico de escravos foi um processo muito dramático, que implicou enormes sofrimentos e perdas humanas. Dizer que os efeitos do colonialismo não terminaram também parece perfeitamente banal e sem motivo de reparo pois os efeitos dos grandes acontecimentos históricos repercutem no tempo. Todavia, há nestas frases uma imprecisão e duas omissões ou acanhamentos, para não lhes chamar cobardias.

A imprecisão é a utilização extensiva do termo colonialismo. O colonialismo, um processo iniciado no último terço do século XIX e terminado com as independências das possessões portuguesas em África, em 1975, não durou 500 anos, mas no máximo 100. Nos primeiros 400 anos de contacto, excepção feita à zona de Luanda e aos arquipélagos (Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, etc.) os europeus não fundaram verdadeiras colónias, apenas entrepostos comerciais na costa que não permitiam qualquer domínio do interior.

As omissões ou acanhamentos estão no que não foi dito. Efectivamente, faltou a António Costa afirmar, de cabeça erguida e olhos nos olhos, que os efeitos do colonialismo não foram todos negativos e perversos. Os europeus devem estar bem cientes do sofrimento que a sua partilha de África, no final do século XIX, implicou para as populações locais, mas não devem esquecer que também foram europeus que levaram a África, a par da espada e da desalmada exploração, os meios de transporte modernos, as línguas que possibilitaram uma comunicação agregadora, o fim do tráfico humano e da escravidão, a medicina e a vacinação que permitiram erradicar ou controlar doenças que flagelavam não apenas os brancos, mas também os negros, e muitas outras coisas que, em suma, e numa palavra, poderemos designar por “progresso”, como os ocidentais do século XIX e XX faziam. E faltou a António Costa dizer uma outra coisa ainda mais importante, isto é, que o comércio de escravos, inegavelmente desumano e injusto, foi feito não apenas pelos europeus, mas também pelos africanos. Omitir ou remover os africanos — angolanos, neste caso — do dramático quadro do comércio negreiro, fazer crer que esse comércio, em África, terá apenas começado com a chegada dos portugueses e outros europeus, é um perigosíssimo disparate. António Costa teria sido um homem de coragem, e completamente fiel à verdade histórica, se tivesse lembrado ao presidente João Lourenço, aos dirigentes e ao povo angolano em geral que essa enormidade a que chamamos tráfico transatlântico de escravos, feito a partir de Luanda, Benguela e outros portos daquela parte do mundo, só foi possível com a participação activa —em certos casos activíssima — dos africanos.

E porque é que é tão importante dizê-lo dez, cem ou mil vezes aos nossos amigos angolanos, entre muitos outros? Porque os políticos de países que, no passado, foram colónias europeias, têm actualmente um discurso culpabilizador desse passado e dos europeus por factos ou supostos factos dos quais eles e os seus povos se eximem, esquivam ou isentam. Na ideologia que transmitem tanto para dentro como para fora dos seus países, muito do que de mal aí aconteceu é descrito como tendo sido obra dos europeus, e os africanos, puros e inocentes, não teriam posto um dedo sequer nessas iniquidades e barbaridades. Aliás, os africanos nem sequer são mencionados, como se não tivessem estado envolvidos nos factos em causa e, mais do que isso, como se não o tivessem feito em lugares de relevo e decisão.

Agregado a esse discurso, simultaneamente culpabilizador do europeu e desculpabilizador do africano (ou brasileiro, etc.) vem a exigência de reparações. E isto que há muito tempo digo e repito não é uma antecipação paranóica ou uma propensão para ver mosquitos na outra banda. Há dias o parlamento argelino aprovou, por unanimidade, uma lei que criminaliza a colonização francesa, exige um pedido oficial de desculpas e estipula quea compensação integral e equitativa de todos os danos materiais causados pela colonização francesa é um direito inalienável do Estado e do povo argelino”.

Esta pretensão, vinda de descendentes dos árabes e berberes que, no início do século VIII, invadiram a Península Ibérica, mantendo um domínio sobre partes dela que durou até ao final do século XV, e dos que, do século XVI ao XVIII, atacaram as costas e a navegação europeias, para capturar e escravizar 1,25 milhões de pessoas brancas e cristãs, pode ser olhada como cínica e parcial — e é-o, de facto.

Mas o que importa sobretudo perceber é que há uma forte corrente de opinião nas ex-colónias europeias, que aponta o dedo aos ex-colonos, e que todo esse discurso reivindicativo por parte de políticos dessas ex-colónias — e pelos activistas woke das ex-metrópoles — é construído sobre uma História martelada, cirurgicamente amputada, e sobre o silêncio dos líderes europeus, que tendem a aceitar, envergonhados e penitentes, tanto as responsabilidades que lhes caberiam e os malefícios que os seus fizeram como as que manifestamente não lhes cabem e acções que eles não fizeram. E é justamente por isso que ir a Luanda enfiar a carapuça da culpa europeia sem o contrapeso da culpa africana é um péssimo serviço que António Costa presta à Europa e aos europeus, quase tão mau como o que Marcelo Rebelo de Sousa já havia prestado ao deixar sem o mínimo comentário corrector, por breve que fosse, as referências que o presidente de Angola fez à história das relações luso-angolanas.

Aliás há várias formas de prestar esse mau serviço porque infelizmente António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa não estão sozinhos nessa senda de omissão e contrição. Há outros políticos e líderes de opinião portugueses que remam no mesmo sentido. Vou dar-vos um exemplo pois o discurso de João Lourenço, proferido na celebração do cinquentenário da independência de Angola, ecoou por cá.

José Pacheco Pereira (JPP) usou-o para atacar aqueles que designou por “nacionalistas” e que, segundo ele, considerariamerradamente em sua opinião — que “Portugal é o melhor país do mundo”. JPP garantiu que “não é” e enunciou vários pontos negros no nosso presente de pobreza, de gente alheada e mal dirigida por elites cobardes e ignorantes. Depois, tendo em mente o discurso de João Lourenço e olhando para a História e para a fase final do domínio colonial português em Angola, apontou várias violências: o imposto de palhota, o trabalho coercivo, os castigos corporais, entre outros abusos.

É importante dizer que o seu artigo não é especificamente sobre o discurso do presidente angolano, ou sobre o seu impacto ideológico e político no nosso país. Para JPP esse discurso foi apenas um teste do algodão que permitiu revelar os vícios e erros do pensamento nacionalista. Acontece, porém, que o colunista fez logo à partida uma entorse que falseia o tal teste e os termos da questão.

Efectivamente, JPP analisou a reacção do nacionalismo português à seguinte frase do discurso do presidente angolano: “São passados 50 anos desde que, como resultado da nossa luta, deixámos para trás 500 anos de colonização, escravatura e humilhação”. Concluiu que, excepção feita a um erro cronológico relativamente à duração da escravatura, nada haveria que apontar ao que João Lourenço disse. Porém, na verdade o que está em questão naquilo que disse não é uma frase, mas sim duas.

Nos momentos iniciais do seu discurso, aos 3 minutos e 23 segundos, o presidente angolano também afirmou o seguinte: “Mal tínhamos acabado de vencer o colonialismo português, que nos oprimiu e escravizou durante séculos, tivemos de imediato de enfrentar (…)”. JPP não se deu conta desta passagem, muito confrontativa, que visou directa e explicitamente Portugal e a sua relação histórica com Angola, e que descarregou o ónus da escravatura inteiramente nas costas dos portugueses (quando foi, na verdade, uma parceria com ampla participação africana). Ora, foi sobretudo em torno desta frase que os tais “nacionalistas”, com André Ventura à cabeça, se insurgiram. As palavras em que o fizeram, e as acções que propuseram, foram erradas e excessivas, mas o conteúdo da sua reacção está certo pelas razões que então mostrei e pelas que desenvolvo no presente artigo.

Sem a referida entorse, e se não estivesse tão focado naquilo que designou por “direita radical” e “nacionalismo de pacotilha”, é provável que JPP se tivesse apercebido dessa frase de João Lourenço e de que o mais interessante seria analisar e perceber por que razão André Ventura reagiu às alusões acusatórias do presidente de Angola e Marcelo não o fez. Ambos proclamam que “Portugal é o melhor país do mundo” — ver, por exemplo, aqui e aqui —, mas Ventura insurgiu-se contra as acusações de João Lourenço e Marcelo consentiu-as. António Costa fez pior e assumiu-as. JPP ignorou-as. Tudo isso contribui, infelizmente, para adensar uma atmosfera de culpabilidade colonial portuguesa que se injecta constantemente na nossa sociedade, nos sangra em saúde e nos vai causar, adiante, muitas dores de cabeça.

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COMENTÁRIOS (de 3):

João Santos: Como fica claramente demonstrado neste artigo, corajoso, rigoroso e patriótico, a quinta-coluna wokista  de marcelos, pachecos, costas, etc., para além de faltar à verdade histórica, está a contribuir para criar um problema de dimensões imprevisíveis (o das pretensas reparações históricas) cuja factura será duramente paga pelas próximas gerações de portugueses. Ou seja, sem medo das palavras, estamos perante acções e omissões que  consubstanciam uma traição a Portugal e aos portugueses.               António Duarte: A Argélia pretender ser reparada pela França da vontade de rir e não apenas por ter participado na colonização da península ibérica! Então os árabes sempre estiveram estabelecidos nesse país ou conquistaram-no? É que, que eu saiba, os númidas e outros povos berberes já lá estavam desde antes dos cartagineses se terem estabelecido na actual Tunísia no século VIII a.C.; aliás, é que dizer da Turquia que, como o nome indica, são um povo turcomano originário da Ásia Central e só se estabeleceram na Anatólia no século XV (quem lá estava eram os diversos povos de origem semita, grega, celta, romana, etc. organizada num estado chamado império romano do oriente ou bizantino com capital em Constantinopla, cujo nome mudaram para instabilidade…). Enfim, a História é uma bitch.