quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

AFINAL

 

Presépios são todos, onde o amor, a alegria e a fraternidade parecem existir - ao menos uma vez em cada ano. Um belo texto alegre, sobre um Natal que pede por todos aqueles onde Ele falha.

Neste começo de 2026, prestes a chegar. 23h 55   HAPPY NEW YEAR

O presépio

Por detrás do ruído familiar e do atropelo de vozes e gestos, o Natal e o desafio do recomeço que ele traz consigo, estiveram ali: convivemos, contemplámos, rezámos, agradecemos.

MARIA JOÃO AVILLEZ, Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR31 dez. 2025, 00:229

1Este ano o presépio também tem seis Reis Magos?” perguntou um filho cuja ironia exibia uma resignada disponibilidade para que não só voltasse a haver vários Magos como talvez dois S. José, cinco camelos ou qualquer outra interpretação fantasiosa do presépio. O caso é que tendo uma vez trazido do longínquo Peru um belíssimo terceto de Reis Magos em terracota, foi-me irresistível juntá-los na companhia dos que já estavam “montados” e assim, num ápice, os reis passaram a seis numa coabitação estética digno de estudo.

Às vezes também tem havido pastores a mais e ovelhas a menos, excesso de “figurantes” – lavadeiras, camponeses, fontes (fontes, calcule-se…). E claro as habituais hesitações na escolha do protagonista do mais maravilhoso mistério da civilização que me foi berço: um Menino Jesus clássico? aquele vincadamente popular e muito colorido? o “antigo” vindo amorosamente de avós e bisavós? e se fosse a tão poética figura, feita em papel pelos doentes do antigo Hospital Júlio Matos, que me foi um dia oferecida quando há anos lá fiz algum voluntariado?

Contado assim parece que o “armar” do presépio é à vontade do freguês ou um mero jogo de sala. Nunca o foi. É antes um modo de andarmos ali de roda com vagar, sabendo estarmos diante do “anúncio” da possibilidade de outra vida. E por isso digamos que as inopinadas fantasias a que acima aludi na representação do nascimento de Cristo em nada afectam a nossa convicção – quase geral aqui em casa – de que é no presépio que se encontra e dele que emana a essência do Natal – e o seu mistério e o seu milagre. Mantemo-lo contra os ventos do tempo, as falácias, os assaltos à História: distorcendo-a num desvio ao seu curso, e revendo-a ao belo prazer de conveniências e agendas da guerra – em curso acelerado – contra a matriz judaica cristã da nossa civilização (quando não é ela própria, ainda mais aceleradamente, a desistir de si mesma, na inexplicável demissão que observamos todos os dias).

2Mas este ano não houve sobreposição de Reis Magos, nem outros “extras”, este ano foi tudo como Deus manda. Ou melhor, como decidiu mandar-me, Ele e o habitat familiar: eu que me desvencilhasse na tarefa espiritual e doméstica de ter dois Natais nos braços, geograficamente distantes e, como tal, reclamando forte logística e distintas “encenações” pela natureza dos lugares onde se celebravam.

Ainda estive quase a sugerir ser paga à hora pela ubiquidade que a distância e o “trabalho” me exigiam, mas o sopro natalício susteve – in extremis – a tentação. Além de que este amontado de gente e gerações que dá pelo mais comum nome de família e no qual vivo mergulhada sofreria um choque que a quadra não recomendaria, ao constatar uma “mater familias” subitamente remunerada (e por quem, desde logo?). E pior ainda, aceitando o opróbrio quem sabe se até com desenvolta naturalidade.

De modo que recuperei a decência, por breves instantes perdida e servi o Natal com a consciência de tão séria “convocatória” e uma azáfama alegre -não, não é contraditório: primeiro numa urbana avenida lisboeta, a seguir na genuína ruralidade do nosso Oeste “privativo”. Milagrosamente dotados ambos, o Natal citadino e o Natal campestre, de tempo e espaço. Usámos o tempo, beneficiámos do espaço. Claro que o silêncio foi escasso, a vozearia alta, a ordem pouco praticada, agitadas as refeições, o relógio nunca cumprido mas pensando bem, que importância? Por detrás do ruído humano e do atropelo dos seus verbos e gestos, o Natal – e o desafio do recomeço que ele traz consigo e nos oferece – esteve ali: convivemos, contemplámos, rezámos, agradecemos.

3 E amanhã,? Amanhã já começou outro ano. São muitas as conjecturas, poucas as expectativas, pesadas as dúvidas, trémulo o temor. Sobretudo, rara e difusa a esperança.

Mas amanhã, ficará para depois. Hoje ainda é este ano.

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COMENTÁRIOS

JOHN MARTINS: Cara, Maria João, que o amanhã seja melhor do que ontem, que também eu  ao ler os seus excelentes artigos me possa regozijar com prováveis momentos agradáveis caso  se venham a verificar, no NOVO ANO.

MARIA NUNES: Obrigada MJA por todos os excelentes artigos com que nos brindou este ano.              

ANTÓNIO DIAS: Bonito texto.

 

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