Presépios são todos, onde o amor, a alegria e a fraternidade parecem
existir - ao menos uma vez em cada ano. Um belo texto alegre, sobre um Natal
que pede por todos aqueles onde Ele falha.
Neste começo de 2026, prestes a chegar. 23h 55 HAPPY NEW YEAR
O presépio
Por detrás do
ruído familiar e do atropelo de vozes e gestos, o Natal e o desafio do recomeço
que ele traz consigo, estiveram ali: convivemos, contemplámos, rezámos,
agradecemos.
MARIA JOÃO AVILLEZ, Jornalista,
colunista do Observador
OBSERVADOR31 dez.
2025, 00:229
1“Este ano o presépio também tem seis Reis Magos?” perguntou um filho
cuja ironia exibia uma resignada disponibilidade para que não só voltasse a
haver vários Magos como talvez dois S. José, cinco camelos ou qualquer outra
interpretação fantasiosa do presépio. O
caso é que tendo uma vez trazido do longínquo Peru um belíssimo terceto de Reis
Magos em terracota, foi-me irresistível juntá-los na companhia dos que já
estavam “montados” e assim, num ápice, os reis passaram a seis numa coabitação
estética digno de estudo.
Às vezes também tem havido
pastores a mais e ovelhas a menos, excesso de “figurantes” – lavadeiras,
camponeses, fontes (fontes, calcule-se…). E claro as habituais
hesitações na escolha do protagonista do mais maravilhoso mistério da
civilização que me foi berço: um Menino Jesus clássico? aquele vincadamente
popular e muito colorido? o “antigo” vindo amorosamente de avós e bisavós? e se
fosse a tão poética figura, feita em papel pelos doentes do antigo Hospital
Júlio Matos, que me foi um dia oferecida quando há anos lá fiz algum
voluntariado?
Contado assim parece que o “armar” do presépio é à vontade do freguês ou um mero jogo de sala. Nunca o foi. É antes um modo de andarmos ali de roda com vagar, sabendo estarmos diante do “anúncio” da possibilidade de outra vida. E por isso digamos que as inopinadas fantasias a que acima aludi na representação do nascimento de Cristo em nada afectam a nossa convicção – quase geral aqui em casa – de que é no presépio que se encontra e dele que emana a essência do Natal – e o seu mistério e o seu milagre. Mantemo-lo contra os ventos do tempo, as falácias, os assaltos à História: distorcendo-a num desvio ao seu curso, e revendo-a ao belo prazer de conveniências e agendas da guerra – em curso acelerado – contra a matriz judaica cristã da nossa civilização (quando não é ela própria, ainda mais aceleradamente, a desistir de si mesma, na inexplicável demissão que observamos todos os dias).
2Mas este ano não houve
sobreposição de Reis Magos, nem outros “extras”, este ano
foi tudo como Deus manda. Ou melhor,
como decidiu mandar-me, Ele e o habitat familiar: eu que me desvencilhasse na
tarefa espiritual e doméstica de ter dois Natais nos braços, geograficamente
distantes e, como tal, reclamando forte logística e distintas “encenações” pela
natureza dos lugares onde se celebravam.
Ainda estive quase a sugerir
ser paga à hora pela ubiquidade que a distância e o “trabalho” me exigiam, mas
o sopro natalício susteve – in extremis – a tentação.
Além de que este amontado de gente e gerações que dá pelo mais comum nome de
família e no qual vivo mergulhada sofreria um choque que a quadra não
recomendaria, ao constatar uma “mater familias” subitamente remunerada (e por
quem, desde logo?). E pior ainda,
aceitando o opróbrio quem sabe se até com desenvolta naturalidade.
De modo que recuperei a
decência, por breves instantes perdida e servi
o Natal com a consciência de tão séria “convocatória” e uma azáfama alegre
-não, não é contraditório: primeiro numa urbana avenida lisboeta, a seguir na
genuína ruralidade do nosso Oeste “privativo”. Milagrosamente
dotados ambos, o Natal citadino e o Natal campestre, de tempo e espaço. Usámos o
tempo, beneficiámos do espaço. Claro que o silêncio foi escasso, a
vozearia alta, a ordem pouco praticada, agitadas as refeições, o relógio nunca
cumprido mas pensando bem, que importância? Por detrás do ruído humano e do
atropelo dos seus verbos e gestos, o Natal – e o desafio do recomeço que ele
traz consigo e nos oferece – esteve ali: convivemos, contemplámos, rezámos,
agradecemos.
3 E amanhã,? Amanhã já começou
outro ano. São muitas as conjecturas, poucas as expectativas, pesadas as
dúvidas, trémulo o temor. Sobretudo, rara e difusa a esperança.
Mas amanhã, ficará para depois. Hoje ainda é este ano.
NATAL SOCIEDADE FAMÍLIA LIFESTYLE
COMENTÁRIOS
JOHN MARTINS: Cara, Maria João, que o amanhã seja melhor do
que ontem, que também eu ao ler os seus excelentes artigos me possa
regozijar com prováveis momentos agradáveis caso se venham a verificar,
no NOVO ANO.
MARIA NUNES: Obrigada MJA por todos os excelentes artigos
com que nos brindou este ano.
ANTÓNIO DIAS: Bonito texto.
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