terça-feira, 9 de dezembro de 2025

O pensamento dos candidatos


À Presidência Da República, segundo os seus comentadores, a quem não falta sentido de humor.

 

As notas dos debates. António Filipe estendeu a passadeira vermelha a Jorge Pinto: pôs no mesmo patamar Putin e Zelensky

OBSERVADOR: Texto

Discutiu-se pela primeira vez a eutanásia e depois a falta de convergência à esquerda. Mas foi no tema Ucrânia que António Filipe voltou a tropeçar, ao colocar no mesmo patamar Putin e Zelensky.

08 dez. 2025, 23:01

A eutanásia entrou pela primeira vez nos debates presidenciais. Foi o primeiro tema sobre o qual, neste frente a frente à esquerda, António Filipe e Jorge Pinto tiveram de se pronunciar. E foi também o primeiro em que ambos fizeram questão de marcar as diferençasque as houve e muitas — entre ambos. “A lei não precisa de ser vetada, a lei existe, o Tribunal Constitucional apontou dois aspectos não conformes à Constituição, que têm de ser regulamentados”, começou por dizer o candidato comunista, sublinhando que, “se fosse Presidente, tinha promulgado a lei” se esta fosse entretanto “expurgada, por via de regulamentação, das inconstitucionalidades”, por parte do Governo. O deputado do Livre concordou que o tema não deve voltar à Assembleia, mas disse que tinha uma posição “distinta” do adversário.A nossa defesa é sempre a da dignidade em todas as fases da vida pessoa. É uma posição muito clara.”

Seguiu-se a pergunta do porquê de não ter existido um só candidato da esquerda. Jorge Pinto, que chegou a admitir desistir, afirmou de imediato que “esse barco já zarpou” e lembrou que “foi dos últimos a avançar, à 24.ª hora, porque esperou por essa candidatura de convergência”. Agora, diz, quer falar “para um eleitorado para quem ninguém falava” até ele aparecer, os de esquerda europeísta”. Neste primeiro remoque a António Filipe, acrescentou ainda que está a fazer “um enormíssimo favor à esquerda”, está a “recuperar votos de quem ou não iria votar ou iria para Henrique Gouveia e Melo.”

Sobre o tema, António Filipe quis ser mais realista, questionando “qual seria o candidato de esquerda que seria capaz de ganhar à primeira volta? Quem seria o Messias? Isso não existia”. Segundo o comunista, “só havia candidatos do consenso neoliberal” e se não tivesse avançado seria “ficar, como canta Sérgio Godinho, à espera do comboio na paragem do autocarro”. Para ele, António José Seguro “faz parte desse consenso neoliberal” e uma “candidatura agregadora [à esquerda com Seguro] seria imaginária”. Questionado se Jorge Pinto faz parte do que chama consenso neoliberal, respondeu: “Tem dias”.

Saltou daqui a principal discussão do debate. O europeísmo de cada um e dos seus partidos. “Como vamos ser patriotas com Putin de um lado e Trump do outro, só dentro da Europa”, explicou Jorge Pinto, dizendo-se um europeísta crítico, não um europeísta seguidistae acusando António Filipe de não ser “europeísta” de todo, com este a interromper para garantir que, o que não é, é “eurodependente”. O candidato apoiado pelos comunistas quis depois esclarecer:Não tenho nada a ver com Putin, nem Trump, mas também não tenho com a senhora Von der Leyen. E perguntou se os “valores europeus” que Jorge Pinto defende são apoiar Israel ou a posição da troika nesses anos”.

Enredaram-se depois numa troca de acusações, com Jorge Pinto a dar o exemplo de Timor Leste e afirmar que “o surpreende” que António Filipe não esteja ao seu lado sobre a guerra da Ucrânia, “onde também há um invasor e um invadido”. O comunista disse então a frase da noite: “Nem Putin nem Zelensky, é a minha posição para a Ucrânia, esta guerra em 2022 podia ter sido evitada, mas estenderam uma passadeira vermelha a Zelensky, talvez se venham a arrepender mais tarde”.

Jorge Pinto ainda viria dizer que lhe “faz confusão” que António Filipe veja “mil e um responsáveis pelo conflito, menos a Rússia, sublinhando que tanto quer ver Putin como Netanyahu perante o TPI.

No fim, e em tom acelerado, lá concordaram ambos com a greve geral da quarta-feira.

Um painel de avaliadores do Observador dá notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos 28 debates televisivos para as eleições presidenciais e um texto de avaliação ao próprio confronto. A média vai surgindo a cada dia de debates, no gráfico inicial, que abre este artigo. A semana, depois do feriado, começa com um confronto, na SIC, entre dois candidatos que disputam a segunda volta, Gouveia e Melo e António José Seguro (como todos os restantes, às 21h00). Pode ver o calendário completo dos debates aqui.

António Filipe, 9,75 — Jorge Pinto, 12

Alexandra Machado — Olhe que não! Cá veio a frase de Álvaro Cunhal (no célebre debate com Mário Soares) dita por Jorge Pinto. Até se riu quando por duas vezes António Filipe atirou que o candidato apoiado pelo Livre e deputado no Parlamento por esse partido não se demarcava suficientemente do consenso neoliberal.

De facto só mesmo rindo. António Filipe, que se prendeu mais do que o costume aos papéis que levava, não deve continuar, debate atrás de debate, a considerar que os temas internacionais são enfadonhos ou que não se devem discutir nas presidenciais. Não só pode como deve. António Filipe, como em anteriores debates até declarou, quando questionado sobre a utilização de activos russos congelados para a reconstrução da Ucrânia: “Não sou banqueiro. Tenho alguma coisa a ver?”. Um Presidente é mais do isto. Sempre que o debate se centre nas políticas internacionais, António Filipe acaba derrotado. O debate desta noite à esquerda tratava essencialmente de visões diferentes nesta frente, nomeadamente do papel da União Europeia, que Jorge Pinto soube defender. E António Filipe não soube atacar quando colocou Putin e Zelensky no mesmo patamar. E ensaiou um ataque a Von der Leyen para confrontar Jorge Pinto, que não tremeu.

No campo nacional, o jurista António Filipe prevaleceuquer na eutanásia quer no que faria na lei laboral – mas nem com ironia é possível ver uma segunda volta entre os dois (como António Filipe brincou). Como também nem por ironia se pode acreditar que Jorge Pinto não está a canibalizar à esquerda e está a conquistar novo eleitorado aos indecisos e a Gouveia Melo. Um debate para cumprir calendário à esquerda mas que está longe das decisões.

Helena Matos — Ponto prévio: a forma como António Filipe (retoricamente muito mais traquejado que o candidato do Livre) desconversa para iludir o que são as posições do PCP acerca da invasão da Ucrânia não me permite dar-lhe a vitória. Nesta matéria António Filipe não debate, cria deliberadamente a confusão. Repito, deliberadamente.

Passemos agora ao debate propriamente ditoEste debate era importante para António Filipe. O eleitorado do Livre é o couvert destas eleições presidenciais: PCP, BE e PS esperam ir lá buscar votos. O Livre, ao contrário do PCP, cresceu nas legislativas mas nas presidenciais os eleitores do Livre não só não estão muito mobilizados em torno do seu candidato como as outras candidaturas se mobilizam activamente para os atrair. E se António Filipe tinha o objectivo de ir buscar votos ao Livre no debate desta noite falhou: colocar Putin e Zelensky ao mesmo nível é algo que para o eleitorado do Livre será uma linha vermelha. E, acrescento eu, para a esmagadora maioria dos portugueses sejam eles de direita ou de esquerda.

António Filipe, que passou largo tempo por um comunista sem arestas, revelou-se esta noite o que sempre foi e é: um ortodoxo.

Se continuar assim António Filipe terá no fim desta campanha mais ou menos os mesmos votos que o PCP nas últimas legislativas.

Jorge Pinto terá conseguido não perder votos para o PCP e segurar outros dentro do próprio Livre. Dou-lhe a vitória porque argumentou de forma mais honesta. O que também conta. Ou devia contar.

Miguel Viterbo Dias — Nos debates com António Filipe o tema vai indubitavelmente parar à Ucrânia, à conhecida posição do PCP sobre o conflito, e por lá vai ficando. António Filipe bem vai procurando sair do assunto mas a actualidade (a negociação do plano para a paz) e o consenso nacional e europeu de apoio à Ucrânia jogam contra a narrativa comunista.

Para além disso, António Filipe deu neste debate um passo em frente ao equiparar Zelensky a Vladimir Putin. “Talvez se arrependam de estender a passadeira vermelha” a Zelensky, avisou o candidato apoiado pelo PCP. Talvez. Mas, hoje em dia esta comparação não só é profundamente injusta e injustificada como é contrária aos interesses europeus, logo portugueses.

No final do debate entre António José Seguro e Jorge Pinto, o candidato apoiado pelo PS fez um apelo ao voto útil mas talvez esse apelo tenha feito mais eco nesta discussão. No debate entre quem é mais de esquerda, Seguro não entra e deixa a discussão para os oponentes. É que, nesta discussão, há de tudo. Desde António Filipe a acusar o candidato apoiado pelo Livre de fazer parte “do consenso neoliberal” a Jorge Pinto a arrogar-se o fiel depositários dos votos da esquerda que iam ser entregues a Gouveia e Melo. Enquanto isso, Seguro vai testando a dinâmica do voto útil em presidenciais e, entre os concorrentes à esquerda, segue com relativa distância na frente. E se a convergência ainda fosse uma possibilidade?

Rui Pedro Antunes — António Filipe e Jorge Pinto tinham por missão tentar resgatar votos entre si, mas também evitar o voto útil no candidato apoiado pelo PS. Neste último particular, o candidato apoiado pelo PCP atirou a António José Seguro, dizendo que o socialista não seria um candidato convergente à esquerda nem capaz de ganhar à primeira volta. Já Jorge Pinto acreditae de facto é preciso muita fé — que fez um “enormíssimo favor” à esquerda ao candidatar-se, insistindo que foi buscar votos ao eleitorado, imagine-se, de Henrique Gouveia e Melo — o que já deve entrar na categoria de milagre.

No plano internacional, António Filipe continua a ter argumentos muito similares aos do Peskov ou Lavrov, mesmo que vá repetindo que não há ninguém mais distante de Putin do que os comunistas portugueses. Perdido na coerência ortodoxa, o candidato do PCP não se importa mesmo de sacrificar o voto do povo para defender Moscovo. Voltou a colocar Zelensky e Putin no mesmo patamar, alegou a complexidade da situação em critérios que não aplica à guerra Israel-Hamas, além de esquecer o ímpeto soberanista em tudo o que envolve o Kremlin. Desde logo porque tem passado os debates a dizer que Portugal (incluindo o Presidente da República) devia ter voz própria na Europa e na NATO, mas — quando lhe perguntaram se a Portugal devia, no âmbito da UE, apoiar o uso de ativos russos para a reconstrução da Ucrânia — atirou a soberania aos Urais: “Então a UE não se entende e eu é que vou decidir isso?”

Já Jorge Pinto soube aproveitar bem o tema Ucrânia (foi ele que o puxou, não o moderador) e foi hábil a dizer que todas as guerras são complexas e que o argumentário do PCP é o mesmo dos invasores. É verdade, como diz António Filipe, que as eleições não são para Presidente da Ucrânia, mas já tinha tido tempo para, no mínimo, corrigir a forma quase colérica com que se dirige a Volodymyr Zelensky.

Sobre a União Europeia, a história repetiu-se. Há duas matérias em que há um consenso nacional grande: o apoio à Ucrânia e a pertença à UE. Jorge Pinto levou a melhor em ambas, embora provavelmente António Filipe tenha razão quando diz que o candidato apoiado pelo Livre é mais euro seguidista que euro crítico. O candidato comunista continua, porém, a acantonar-se no eleitorado do PCP, que só valeu cerca de 3% nas últimas legislativas. Honra lhe seja feita que, pelo menos foi ao encontro desses 3% e do politburo (perdão, Secretariado) do Comité Central.

PRESIDENCIAIS 2026     ELEIÇÕES       POLÍTICA       PCP       PARTIDO LIVRE       DEBATE       SOCIEDADE

Nenhum comentário: