À Presidência Da República,
segundo os seus comentadores, a quem não falta sentido de humor.
As notas dos debates. António Filipe
estendeu a passadeira vermelha a Jorge Pinto: pôs no mesmo patamar Putin
e Zelensky
OBSERVADOR: Texto
Discutiu-se pela primeira vez
a eutanásia e depois a falta de convergência à esquerda. Mas foi
no tema Ucrânia que António Filipe voltou a tropeçar, ao colocar no mesmo
patamar Putin e Zelensky.
08 dez. 2025, 23:01
A eutanásia entrou
pela primeira vez nos debates presidenciais. Foi o primeiro tema
sobre o qual, neste frente a frente à esquerda, António Filipe e Jorge
Pinto tiveram de se pronunciar. E
foi também o primeiro em que ambos fizeram questão de marcar as diferenças — que as houve
e muitas — entre ambos. “A lei
não precisa de ser vetada, a lei existe,
o Tribunal Constitucional apontou dois aspectos não conformes à Constituição,
que têm de ser regulamentados”, começou
por dizer o candidato comunista, sublinhando que, “se fosse Presidente, tinha
promulgado a lei” se esta fosse entretanto “expurgada, por via de
regulamentação, das inconstitucionalidades”, por parte do Governo. O deputado do Livre concordou que o
tema não deve voltar à Assembleia, mas disse que tinha uma posição “distinta” do adversário. “A nossa
defesa é sempre a da dignidade em todas as fases da vida pessoa. É uma posição
muito clara.”
Seguiu-se a pergunta do porquê de não ter existido um só candidato
da esquerda. Jorge Pinto,
que chegou a admitir desistir, afirmou de imediato que “esse barco já zarpou” e lembrou que “foi dos últimos a avançar,
à 24.ª hora, porque esperou por essa
candidatura de convergência”. Agora, diz, quer falar “para um eleitorado para quem ninguém falava” até
ele aparecer, “os de
esquerda europeísta”. Neste primeiro remoque a António Filipe, acrescentou ainda que
está a fazer “um enormíssimo favor à
esquerda”, está a “recuperar votos
de quem ou não iria votar ou iria para Henrique
Gouveia e Melo.”
Sobre o tema, António Filipe quis ser mais realista,
questionando “qual seria o candidato de esquerda que seria capaz de ganhar à
primeira volta? Quem seria o Messias? Isso não existia”. Segundo o comunista, “só havia candidatos do consenso neoliberal” e se não
tivesse avançado seria “ficar, como canta Sérgio Godinho, à espera do comboio
na paragem do autocarro”. Para
ele, António José Seguro “faz parte desse consenso neoliberal” e uma “candidatura agregadora [à esquerda com Seguro]
seria imaginária”. Questionado se Jorge Pinto faz parte do que chama consenso
neoliberal, respondeu: “Tem dias”.
Saltou daqui a principal discussão do
debate. O
europeísmo de cada um e dos seus partidos. “Como vamos ser patriotas com Putin de um lado e Trump
do outro, só dentro da Europa”, explicou Jorge Pinto, dizendo-se um europeísta crítico,
não um europeísta seguidista” e acusando António Filipe de não ser “europeísta” de todo, com
este a interromper para garantir que, o que não é, é “eurodependente”. O
candidato apoiado pelos comunistas quis depois esclarecer: “Não
tenho nada a ver com Putin, nem Trump, mas também não tenho com a senhora Von
der Leyen”. E
perguntou se os “valores europeus” que Jorge Pinto defende são apoiar Israel ou
a posição da troika nesses anos”.
Enredaram-se depois numa troca de acusações, com Jorge Pinto a dar o exemplo de Timor Leste e afirmar que “o surpreende” que António Filipe não esteja ao seu
lado sobre a guerra da Ucrânia, “onde também há um invasor e um invadido”. O comunista disse então a frase da
noite: “Nem Putin nem Zelensky, é a minha
posição para a Ucrânia, esta guerra em 2022 podia ter sido evitada, mas
estenderam uma passadeira vermelha a Zelensky, talvez se venham a arrepender
mais tarde”.
Jorge Pinto ainda viria
dizer que lhe “faz confusão” que António
Filipe veja “mil
e um responsáveis pelo conflito, menos a Rússia”, sublinhando
que tanto quer ver Putin como
Netanyahu perante o TPI.
No fim, e em tom acelerado, lá
concordaram ambos com a greve geral da quarta-feira.
Um painel de avaliadores do
Observador dá notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos 28 debates
televisivos para as eleições presidenciais e um texto de avaliação ao próprio
confronto. A média vai surgindo a cada dia de debates, no gráfico inicial, que
abre este artigo. A semana, depois do feriado, começa com um confronto, na SIC,
entre dois candidatos que disputam a segunda volta, Gouveia e Melo e António
José Seguro (como todos os restantes, às 21h00). Pode ver o calendário completo dos debates aqui.
António Filipe, 9,75 — Jorge Pinto, 12
Alexandra Machado — Olhe que não! Cá veio a frase de Álvaro
Cunhal (no célebre debate com Mário Soares) dita por Jorge Pinto. Até se
riu quando por duas vezes António Filipe atirou que o candidato apoiado pelo
Livre e deputado no Parlamento por esse partido não se demarcava
suficientemente do consenso neoliberal.
De
facto só mesmo rindo. António Filipe, que se prendeu mais do que o costume aos papéis que levava, não deve
continuar, debate atrás de debate, a considerar que os temas internacionais são
enfadonhos ou que não se devem discutir nas presidenciais. Não só
pode como deve. António
Filipe, como em anteriores debates até declarou, quando questionado sobre a
utilização de activos russos congelados para a reconstrução da Ucrânia: “Não
sou banqueiro. Tenho alguma coisa a ver?”. Um Presidente é mais do isto. Sempre que o debate se centre nas políticas
internacionais, António Filipe acaba derrotado. O debate desta noite à esquerda tratava
essencialmente de visões diferentes
nesta frente, nomeadamente do papel
da União Europeia, que Jorge Pinto soube defender. E António Filipe não soube atacar quando colocou Putin
e Zelensky no mesmo patamar. E ensaiou um ataque a Von der Leyen para
confrontar Jorge Pinto, que não tremeu.
No campo nacional, o jurista António Filipe prevaleceu
– quer na eutanásia quer no que faria na
lei laboral – mas nem com
ironia é possível ver uma segunda volta entre os dois (como António
Filipe brincou). Como também nem
por ironia se pode acreditar que Jorge Pinto não está a canibalizar à esquerda
e está a conquistar novo eleitorado aos indecisos e a Gouveia Melo. Um debate
para cumprir calendário à esquerda mas que está longe das decisões.
Helena Matos — Ponto prévio: a forma como António Filipe
(retoricamente muito mais traquejado que o candidato do Livre) desconversa para
iludir o que são as posições do PCP acerca da invasão da Ucrânia não me permite
dar-lhe a vitória. Nesta
matéria António Filipe não debate, cria deliberadamente a confusão. Repito,
deliberadamente.
Passemos agora ao debate propriamente
dito. Este debate
era importante para António Filipe. O
eleitorado do Livre é o couvert destas eleições presidenciais: PCP, BE e PS
esperam ir lá buscar votos. O Livre, ao contrário do PCP, cresceu nas
legislativas mas nas presidenciais os eleitores do Livre não só não estão muito
mobilizados em torno do seu candidato como as outras candidaturas se mobilizam
activamente para os atrair. E se António Filipe tinha o objectivo de ir buscar
votos ao Livre no debate desta noite falhou: colocar Putin e Zelensky ao mesmo
nível é algo que para o eleitorado do Livre será uma linha vermelha. E, acrescento eu, para a esmagadora maioria dos
portugueses sejam eles de direita ou de esquerda.
António Filipe, que passou largo tempo por um comunista
sem arestas, revelou-se esta noite o que sempre foi e é: um
ortodoxo.
Se continuar assim António
Filipe terá no fim desta campanha mais ou menos os mesmos votos que o PCP nas
últimas legislativas.
Jorge Pinto terá conseguido não perder votos para o
PCP e segurar outros dentro do próprio Livre. Dou-lhe
a vitória porque argumentou de forma mais honesta. O que também conta. Ou devia
contar.
Miguel Viterbo Dias — Nos debates com António Filipe o tema vai
indubitavelmente parar à
Ucrânia, à conhecida posição do PCP sobre o conflito, e por lá vai
ficando. António Filipe bem vai procurando sair do assunto mas a actualidade (a negociação do
plano para a paz) e o consenso nacional e europeu de apoio à Ucrânia jogam
contra a narrativa comunista.
Para além disso, António Filipe deu
neste debate um passo em frente ao equiparar Zelensky a Vladimir Putin.
“Talvez se arrependam de estender a passadeira
vermelha” a Zelensky, avisou o candidato apoiado pelo PCP. Talvez. Mas, hoje em dia esta comparação não só é
profundamente injusta e injustificada como é contrária aos interesses europeus,
logo portugueses.
No final do debate entre António
José Seguro e Jorge Pinto, o candidato apoiado pelo PS fez um
apelo ao voto útil mas talvez esse apelo tenha feito mais eco nesta discussão.
No
debate entre quem é mais de esquerda, Seguro não entra e deixa a discussão para
os oponentes. É que, nesta
discussão, há de tudo. Desde António Filipe a acusar o candidato
apoiado pelo Livre de fazer parte “do consenso neoliberal” a Jorge Pinto a
arrogar-se o fiel depositários dos votos da esquerda que iam ser entregues a
Gouveia e Melo. Enquanto isso, Seguro vai testando a dinâmica do voto
útil em presidenciais e, entre os concorrentes à esquerda, segue com relativa
distância na frente. E se a convergência ainda fosse uma possibilidade?
Rui Pedro Antunes — António Filipe e Jorge Pinto tinham por
missão tentar resgatar votos entre si, mas também evitar o voto útil no
candidato apoiado pelo PS. Neste
último particular, o candidato apoiado pelo PCP atirou a António José Seguro,
dizendo que o socialista não seria um candidato convergente à esquerda nem
capaz de ganhar à primeira volta. Já Jorge Pinto acredita — e de facto é preciso muita fé — que fez
um “enormíssimo favor” à esquerda ao candidatar-se, insistindo que foi buscar
votos ao eleitorado, imagine-se, de Henrique Gouveia e Melo — o que já deve
entrar na categoria de milagre.
No plano internacional, António Filipe continua a ter argumentos
muito similares aos do Peskov ou Lavrov, mesmo que vá repetindo que não há
ninguém mais distante de Putin do que os comunistas portugueses. Perdido na coerência ortodoxa, o candidato do PCP não
se importa mesmo de sacrificar o voto do povo para defender Moscovo. Voltou a
colocar Zelensky e Putin no mesmo patamar, alegou a complexidade da situação em
critérios que não aplica à guerra Israel-Hamas, além de esquecer o ímpeto
soberanista em tudo o que envolve o Kremlin. Desde logo
porque tem passado os debates a dizer que Portugal (incluindo o Presidente da
República) devia ter voz própria na Europa e na NATO, mas — quando lhe
perguntaram se a Portugal devia, no âmbito da UE, apoiar o uso de ativos russos
para a reconstrução da Ucrânia — atirou a soberania aos Urais: “Então a UE não se entende e eu é que vou decidir
isso?”
Já
Jorge Pinto soube aproveitar bem o tema Ucrânia (foi ele que o puxou, não o moderador) e
foi hábil a dizer que todas as guerras são complexas e que o argumentário do
PCP é o mesmo dos invasores. É verdade, como diz António Filipe, que as eleições não são para Presidente
da Ucrânia, mas já tinha tido tempo para, no mínimo, corrigir a forma quase
colérica com que se dirige a Volodymyr Zelensky.
Sobre a União Europeia, a história repetiu-se. Há duas matérias em que há um
consenso nacional grande: o apoio à Ucrânia e a pertença à UE. Jorge Pinto levou a melhor em ambas,
embora provavelmente António Filipe tenha razão quando diz que o candidato
apoiado pelo Livre é mais euro seguidista que euro crítico. O candidato comunista continua, porém, a
acantonar-se no eleitorado do PCP, que só valeu cerca de 3% nas últimas
legislativas. Honra lhe seja feita que, pelo menos foi ao encontro desses 3% e
do politburo (perdão, Secretariado) do Comité Central.
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