Para o cepticismo. Mas não desistamos.
Teremos sempre o HINO NACIONAL a dar-nos ânimo… Decididamente, não muito, hoje,
o mar reduzido às praias.
Eu quero acreditar, contudo, em
MONTENEGRO, que me parece competente a contra-atacar, descrente que sou, tantas
vezes, dos atacantes nos seus maquiavelismos nem sempre isentos de chamariz
pessoal…
Alberto Caeiro
Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...
Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...
Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...
Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...
Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...
1914
De Sá Carneiro ao novo normal
Nenhum regime se compõe exclusivamente de “eleitos”. Mas nenhum
regime aguenta impune a ascensão exclusiva de mediocridades.
ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador
OBSERVADOR, 06 dez. 2025, 00:207
Não tenho a certeza do ano, talvez 1979,
durante a campanha das “legislativas”. Tenho a certeza do lugar: o restaurante
de uns primos, em Vimioso. E lembro-me do pretexto, uma almoçarada de militantes
e eleitores do PPD/PSD. A sala estava cheia e ruidosa, com os
convivas, cinquenta ou sessenta, a investir fortemente nos aperitivos e na
conversa. De repente, a tropa fandanga calou-se à entrada de um homem. Não houve anúncio ou ordem, só um homem baixinho e
sorridente a passar a ombreira da porta e, com passos claros e um ou dois
acenos ligeiros, a dirigir-se para a cadeira sob um silêncio de claustros. No
instante imediato, o claustro lançou-se a gritar o nome do homem, com os
dedinhos que haviam segurado o presunto agora em forma de “V”.
O homem era obviamente Sá
Carneiro e eu, que com nove ou dez anos estava ali de
férias e não integrava o bando de comensais, espreitava o episódio fascinado
com a descoberta: pelos
vistos, os seres humanos variavam em peso – e isso não dependia da balança.
Após o repasto, recordo o meu pai a trocar gargalhadas e um abraço com
Sá Carneiro, e eu achar aquilo ousadíssimo. E recordo
um amigo da família, socialista e devoto de Salgado Zenha, confessar que se arrepiou
na presença do futuro primeiro-ministro.
Não quero resvalar para a
hagiografia, ou sequer para uma celebração do “carisma”, característica que
ninguém sabe definir e que ocasionalmente
calha de abençoar espécimes desaconselháveis. O que Sá
Carneiro possuía e inspirava, fosse gravitas ou
respeito, definia-se melhor pelas reacções que suscitava. E as
reacções eram idênticas em todas as situações que testemunhei. Entre parêntesis, explico que depois de o meu pai se
embrenhar por uns meses na fundação do PPD na zona do Porto, ele e a minha mãe
não deixaram de seguir o líder onde pudessem, desde comícios grandiosos a
churrascos sem grandeza. E, não me perguntem porquê,
levavam-me com eles. A condição era a presença de Sá
Carneiro, e a consequência era invariavelmente a reverência
não requisitada que aquele sujeito discreto e afável provocava.
Se calhar, a palavra que
procuro, sem grande empenho, é “dignidade”. É provável que os outros reconhecessem em Sá Carneiro a dignidade que eles próprios não teriam ou julgavam não ter, por falta
de sorte ou de coragem. E é provável que muitos lidassem mal com
essa desvantagem, e contrariados dedicassem a Sá Carneiro difamações reles, de
carácter sentimental e material. Não sei. Sei que, após décadas a escrever
sobre política, não encontrei com frequência exemplos similares. Na verdade, encontrei um único exemplo.
Entrevistei
Cavaco e Soares em 2005, casos raros em que vislumbrei um vestígio da “coisa”,
a tal “coisa” que eleva uns pouquíssimos alguns centímetros acima dos
restantes, e bem acima da mera legitimidade que o voto confere. Também estive
literalmente ao colo de Eanes numa “arruada” em 1976, e, não pela qualidade do
colo, mantenho que o general “mereceu” o cargo que viria a ocupar semanas mais
tarde. Em geral, porém, os indivíduos e indivíduas
que conheci, directamente ou a precavida distância, não se distinguem pela
dignidade ou pela tal “coisa”. Mesmo os simpáticos e educados, não “merecem”
coisa nenhuma. A excepção, que julgo evidente, é Pedro Passos Coelho, e não
preciso de desenvolver as razões pelas quais há inteira justiça em compará-lo
com Sá Carneiro. E as razões pelas quais se tornou, ou provavelmente sempre
foi, um corpo estranho na política portuguesa actual.
Nenhum regime se compõe exclusivamente
de “eleitos”. Mas
nenhum regime aguenta impune a ascensão exclusiva de mediocridades, e Portugal
parece estar submetido a um permanente teste de esforço. É
que quando falo de mediocridades não falo de ideologia, inteligência,
currículo, erudição, simpatia, popularidade: falo da plausibilidade de determinada
pessoa em desempenhar determinado cargo. Sá
Carneiro e as figuras que referi foram estadistas
plausíveis. Os demais, com tendência de agravamento galopante, não foram. E se,
independentemente das respectivas virtudes e desgraças, é difícil “acreditar” em Balsemão, Santana, Sampaio ou Montenegro,
é rigorosamente impossível “acreditar”
em Guterres, Durão, Sócrates, Costa ou esse monumento ao inacreditável que se
chama Marcelo Rebelo de Sousa.
Acima de todos, o conhecido
prof. Marcelo é responsável pela erosão do que sobrava na relação de exigência
entre os eleitores e os seus representantes à escala nacional. No peculiar
universo do “poder local”, a exigência nunca foi grande, se é que havia alguma.
Nas chefias do Estado e do governo,
havia mínimos, sucessivamente rebaixados por personagens menores e implodidos
de vez pelo ainda inquilino de Belém. Depois do prof. Marcelo, não há
mínimos e o poço não tem fundo. As incontáveis (no sentido de que temos
vergonha de as contar) proezas da personagem são um repositório de embaraços e
um aval definitivo à vulgaridade.
Isto tudo para dizer o seguinte:
vejo por aí certo desconsolo com a genérica irrelevância dos candidatos à
presidência. À parte a decência ou indecência que possamos atribuir a cada
um, vocês esperavam o quê em 2025? Vocês, que toleram horrores e
apreciam o horroroso termo, “normalizaram” o que temos, somos e merecemos. Sá
Carneiro não morreu apenas em Camarate.
FRANCISCO SÁ
CARNEIRO POLÍTICA PESSOAS SOCIEDADE
COMENTÁRIOS:
Alfaiate Tuga: Há dois tipos de líderes políticos, os que
seguem o povo e os que são seguidos pelo povo. Nos últimos anos temos tido lideranças que seguem o povo, ou melhor, a
maioria do povo, funcionários públicos e pensionistas. Kosta e Spinunviva
governam e governam para servir estas classes, o futuro do país pouco interessa,
o que é preciso é garantir os votos necessários para manter o poder até que ele
caia de podre.
Sá
Carneiro tinha um desígnio para o país, e dizia alto e bom som que era preciso
cortar despesa pública para libertar a economia, Passos dizia o mesmo e cortou
bastante. Foi preciso uma aliança de esquerdas para correr com
Passos, veio o Kosta, um líder sem desígnio para o país, que mais não fez do
seguir o povo e governar para funcionários públicos e pensionistas, saiu pela
porta pequena, deixou o país num caos e foi mamar para Bruxelas. Depois veio o
spinunviva aplicar a mesma fórmula, aumentos para a função pública e
suplementos para pensionistas, desígnio para o país, zero. O objectivo é apenas
ser o partido mais votado e para isso vai distribuindo o dinheiro esbulhado em
impostos pelos dependentes do Estado para comprar votos. Vivo resta o
Passos, vamos ver até quando vai aguentar o spinunviva, o ministério público e
ou os portugueses lá sabem. Uma coisa é certa, se não mudarmos de rumo, o
empobrecimento está garantido.
NOTAS da INTERNET:
Caso Spinumviva
O caso Spinumviva é um
escândalo político em Portugal desencadeado por acusações de eventuais conflitos de interesses por parte
do Primeiro-Ministro Luís Montenegro. Em causa estará uma empresa de
consultoria da propriedade da família de Montenegro, a Spinumviva, e contratos
que terá mantido com a operadora de casino Solverde,
que actua sob concessão do Estado.
A polémica levou à queda do XXIV Governo Constitucional em
março de 2025, na sequência da rejeição de uma moção de confiança na Assembleia da República.
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