Na governação, e logo a “esquerda”
abre os cordões da sua liberalidade de bom-tom, para mostrar serviço perante o público
mais pobrezinho, naturalmente jamais por defeito próprio, mas por culpa dessa
direita da exclusividade ricaça absorvente e mesquinha. Bastou a mudançazinha à
“direita” naturalmente mais comedida e movida por responsabilidades pátrias, para
o alarido atacante, lhe desfigurar os propósitos. Não, um país assim não parece
governável, ai dele, tanto a mesquinhez rebaixa! Não, os das greves não as
fazem por razões de solidariedade, mas por ódios mascarados de falsa generosidade.
É triste, este nosso índice de pequenez moral. O costume, de resto.
A pergunta pode ser verosímil: o país é governável?
Têm sido longas estas semanas: longa e arrevesada a negociação
tripartida da lei laboral; pesadas as queixas mutuas, agressiva a desconfiança;
e sintomática alguma manipulação.
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 10 dez. 2025, 00:245
1Toda a gente quer “cedências”.
Exige cedências. O governo também. Sendo a coligação governamental minoritária
há naturalmente maior obrigação de uma negociação parlamentar que comporte a
cedência como um instrumento e um activo do diálogo entre parceiros da mesa da
concertação social. Tanto quanto se tem por igualmente natural que se consinta
ao governo a firmeza da convicção e se tenha em conta a legitimidade do voto.
Têm porém sido longas estas semanas: longa e arrevesada a negociação tripartida
da lei Laboral; pesadas as queixas mútuas, agressiva a desconfiança; e
sintomática alguma manipulação.
Luís Montenegro diz que “o país não sairá do ‘rame-rame’ se não se fizer a reforma laboral”. Tem
razão, a lei em vigor não só é datada – e o adjectivo não é aqui aplicado por
conveniência de argumento: a lei é datada por simplesmente não servir o
mundo do trabalho do século XXI. E
logo não propiciar nem convidar a subir patamares. E o Primeiro
Ministro volta a ter razão quando explica ou fundamenta que “a
conjuntura do país é favorável a alterações na Lei Laboral que permitam abrir
um ciclo de pujança económica’ duradoura”. La Palisse não diria melhor mas
nem La Palisse consegue abrir um pouco
os olhos do que já sinalizaram ao país que justamente não querem ver.
Onde o Primeiro Ministro tem
muito menos razão : 1) não podendo ignorar que há que saber negociar – convencer, ceder,
renegociar para só depois se rearrumarem de novo as peças no puzzle da proposta
de lei, estranha-se que governo se tenha (aparentemente) preparado mal para a
disciplina da “negociação”. Quem são os generais políticos? Quem
é um núcleo duro de Luís Montenegro? Quem aconselha quem antes de abrir uma
frente desta especifica natureza? 2) permitindo a suspeita que se privilegiou mais a CIP – nas suas posições
ou propostas – do que a UGT. Não sei se é assim. Sei que (aparentemente)
não se negociou com a UGT como se ela fosse a UGT: isto é, sem nunca correr o
risco de a deixar de lado ou à margem, em vez de inteiramente dentro. E isto, mesmo que a União Geral dos
Trabalhadores já tenha tido maior influencia, melhores dias, lideranças mais
qualificadas. Mas numa negociação tripartida, só cedendo todos,
ganham todos.
Claro
que a UGT foi (aparentemente) manipulada: entregou-se antes “do” tempo e com
gosto a uma greve desta importância; e até se adiantou pressurosamente na
sugestão de que ela durasse 48 horas em vez de 24. E claro que a manipulação
por uma parte do PS era irresistível. Basta ter em conta o actual desnorte
do rumo socialista – que surpreenderá qualquer ser normalmente constituído
–para perceber que tudo o que viesse hoje à rede era peixe. E que bom peixe
lhes pareceu uma greve geral, vamos a ela! .
Agora dizem-nos que logo a
seguir as negociações continuarão, como se nada tivesse sido. Mas foi. Já foi.
2Se em teoria se cede de todos
os lados para que uma negociação seja o que tem de ser – séria, útil, decente – na prática, às vezes não, e também me
interessa este ponto. Se o
governo for de centro direita, ao mero anúncio de uma medida, uma proposta de
lei, às vezes apenas uma intenção, o primeiro som mediático que se ouve no ar
do país – logo após
a compulsiva discordância do costume – é a exigência de “cedências” que podem ir até á descaracterização de
qualquer proposta, projecto lei, etc.. Nada importando que ao fim de semanas ou
meses de negociações se venha a aprovar um texto ferido da intenção ou do
propósito para que foi concebido: melhorar qualquer coisinha no país, seja
em que sector for, e nem sequer falo de uma reforma a doer, falo mesmo de
qualquer coisinha. Mas não: o governo “cedeu”? Era o que
importava. O
PS não abriu os braços e os votos ao Chega – ou vice versa – por 13 euros no
caso das “Propinas”? E não ocorreu o
mesmíssimo comportamento parlamentar na
disparatada e caríssima medida da abolição de portagens, quase parecendo que foram casuisticamente
pescadas à linha no mapa de Portugal?
3Em resumo: assim estamos. Na agenda
dos dias há uma greve geral amanhã. Ah….. e tanta gente impressionada porque
“há muito não havia uma greve geral” sem lhe ocorrer – ah não? – que em
estações políticas conduzidas pela esquerda, nunca há a necessidade de as
convocar e menos de as pressionar.
De modo que face ao governo, todos exigem várias e variadas cedências.
Comportando-se como se a cedência do Executivo antes mesmo da reflexão sobre o
conteúdo e o alcance de leis ou medidas, fosse o primeiro e obrigatório
mandamento a cumprir nos primeiros minutos de uma negociação. Refiro-me
ás oposições partidárias, aos sindicatos, à rua, em coros ficticiamente unidos
mas com o selo de garantia da media, com que todos sabem previamente poder
contar: o selo será sempre estampado.
4E o país? O país não se sabe. Mas
podemos arriscar a verosimilhança da pergunta: será governável?
GREVE ECONOMIA TRABALHO LEGISLAÇÃO
LABORAL LEGISLAÇÃO PAÍS SOCIEDADE
COMENTÁRIOS
Hugo Silva: A cronista escreve que a UGT foi, aparentemente, manipulada. Que o
governo foi, aparentemente, mal preparado. Tanta prosa para, quando devia ser
frontal e assertiva, coloca entre parêntesis, o que todos sabemos. Isto é uma greve manipulada por dois partidos
políticos, o PCP e o PS. O PCP manteve o registo habitual, o PS, veio revelar
finalmente, aquilo em que se transformou. Quanto ao governo, tirando
uns slogans, em tudo o que "mexe", cria problemas em vez de os
resolver, nada que surpreenda. A cronista revela um certo cuidado a escrever,
aparentemente, com receio de que o céu lhe caia em cima da cabeça... Porque será? Jose
Paulo Farinha: Já os
romanos diziam que não nos sabíamos governar, nem nos deixávamos governar Carlos Almeida: O país são os Marcelos desta vida e os
comentadeiros que deles vivem. Que nada mais fazem que não seja palrar. Coragem
para trabalharem, fazendo coisas, concretizando, inovando, fazendo reformas,
nada. Este país está uma desgraça. Espero eu ajudar a preparar meus netinhos
para os tirar deste charco, que tanto amo mas que mirrou de vez. João Angolano: Afinal o PCP ainda manda no país através dos
pcpzinhos que ainda há em cada socialista e social-democrata impregnados de
complexo de esquerda. País este
que para além do turismo não tem mais nada e arrisca-se a importar pessoal rico
e velho e o pobre do Bangladesh e exportar os nossos jovens que já
perceberam o fim a que a esquerda nos destina. Jorge Barbosa: Esta greve è 100% político partidária; Por
parte do PCP - que só pode querer aproveitar a ocasião da reforma laboral que
lhe foi colocada na manjedoura, e isto para dar conta pública de que ainda
respira - e por parte da UGT que como sempre tem de alinhar para mostrar aos
seus clientes, os trabalhadores, que é melhor do que o seu concorrente de sempre,
o PCP (perdão, a CGTP). Fosse, pois, qual fosse, a táctica negocial do governo
ou mesmo as alterações propostas, seria indiferente, pois a reacção sindical é
estritamente político-partidária. O braço de ferro, político-partidário está
lançado, vai-se arrastar, e então falaremos sobre quem vai ganhar, se o governo
se as oposições, já que, quem vai determinar quem será o vencedor (governo ou
oposições) serão os eleitores pois estes é que sofrerão na carne as
consequências da greve geral
Ana Lucas ><Jorge Barbosa: Concordo em absoluto!
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