quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Um cheirinho a direita



Na governação, e logo a “esquerda” abre os cordões da sua liberalidade de bom-tom, para mostrar serviço perante o público mais pobrezinho, naturalmente jamais por defeito próprio, mas por culpa dessa direita da exclusividade ricaça absorvente e mesquinha. Bastou a mudançazinha à “direita” naturalmente mais comedida e movida por responsabilidades pátrias, para o alarido atacante, lhe desfigurar os propósitos. Não, um país assim não parece governável, ai dele, tanto a mesquinhez rebaixa! Não, os das greves não as fazem por razões de solidariedade, mas por ódios mascarados de falsa generosidade. É triste, este nosso índice de pequenez moral. O costume, de resto.

A pergunta pode ser verosímil: o país é governável?

Têm sido longas estas semanas: longa e arrevesada a negociação tripartida da lei laboral; pesadas as queixas mutuas, agressiva a desconfiança; e sintomática alguma manipulação.

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 10 dez. 2025, 00:245

1Toda a gente quer “cedências”. Exige cedências. O governo também. Sendo a coligação governamental minoritária há naturalmente maior obrigação de uma negociação parlamentar que comporte a cedência como um instrumento e um activo do diálogo entre parceiros da mesa da concertação social. Tanto quanto se tem por igualmente natural que se consinta ao governo a firmeza da convicção e se tenha em conta a legitimidade do voto. Têm porém sido longas estas semanas: longa e arrevesada a negociação tripartida da lei Laboral; pesadas as queixas mútuas, agressiva a desconfiança; e sintomática alguma manipulação.

Luís Montenegro diz que “o país não sairá do ‘rame-rame’ se não se fizer a reforma laboral”. Tem razão, a lei em vigor não só é datada – e o adjectivo não é aqui aplicado por conveniência de argumento: a lei é datada por simplesmente não servir o mundo do trabalho do século XXI. E logo não propiciar nem convidar a subir patamares. E o Primeiro Ministro volta a ter razão quando explica ou fundamenta que “a conjuntura do país é favorável a alterações na Lei Laboral que permitam abrir um ciclo de pujança económica’ duradoura”. La Palisse não diria melhor mas nem La Palisse consegue abrir um pouco os olhos do que já sinalizaram ao país que justamente não querem ver.

Onde o Primeiro Ministro tem muito menos razão : 1) não podendo ignorar que há que saber negociar – convencer, ceder, renegociar para só depois se rearrumarem de novo as peças no puzzle da proposta de lei, estranha-se que governo se tenha (aparentemente) preparado mal para a disciplina da “negociação”. Quem são os generais políticos? Quem é um núcleo duro de Luís Montenegro? Quem aconselha quem antes de abrir uma frente desta especifica natureza? 2) permitindo a suspeita que se privilegiou mais a CIP – nas suas posições ou propostas – do que a UGT. Não sei se é assim. Sei que (aparentemente) não se negociou com a UGT como se ela fosse a UGT: isto é, sem nunca correr o risco de a deixar de lado ou à margem, em vez de inteiramente dentro. E isto, mesmo que a União Geral dos Trabalhadores já tenha tido maior influencia, melhores dias, lideranças mais qualificadas. Mas numa negociação tripartida, só cedendo todos, ganham todos.

Claro que a UGT foi (aparentemente) manipulada: entregou-se antes “do” tempo e com gosto a uma greve desta importância; e até se adiantou pressurosamente na sugestão de que ela durasse 48 horas em vez de 24. E claro que a manipulação por uma parte do PS era irresistível. Basta ter em conta o actual desnorte do rumo socialista – que surpreenderá qualquer ser normalmente constituído –para perceber que tudo o que viesse hoje à rede era peixe. E que bom peixe lhes pareceu uma greve geral, vamos a ela! .

Agora dizem-nos que logo a seguir as negociações continuarão, como se nada tivesse sido. Mas foi. Já foi.

2Se em teoria se cede de todos os lados para que uma negociação seja o que tem de serséria, útil, decentena prática, às vezes não, e também me interessa este ponto. Se o governo for de centro direita, ao mero anúncio de uma medida, uma proposta de lei, às vezes apenas uma intenção, o primeiro som mediático que se ouve no ar do país – logo após a compulsiva discordância do costume – é a exigência de “cedências” que podem ir até á descaracterização de qualquer proposta, projecto lei, etc.. Nada importando que ao fim de semanas ou meses de negociações se venha a aprovar um texto ferido da intenção ou do propósito para que foi concebido: melhorar qualquer coisinha no país, seja em que sector for, e nem sequer falo de uma reforma a doer, falo mesmo de qualquer coisinha. Mas não: o governo “cedeu”? Era o que importava. O PS não abriu os braços e os votos ao Chega – ou vice versa – por 13 euros no caso das “Propinas”? E não ocorreu o mesmíssimo comportamento parlamentar na disparatada e caríssima medida da abolição de portagens, quase parecendo que foram casuisticamente pescadas à linha no mapa de Portugal?

3Em resumo: assim estamos. Na agenda dos dias há uma greve geral amanhã. Ah….. e tanta gente impressionada porque “há muito não havia uma greve geral” sem lhe ocorrer – ah não? – que em estações políticas conduzidas pela esquerda, nunca há a necessidade de as convocar e menos de as pressionar.

De modo que face ao governo, todos exigem várias e variadas cedências. Comportando-se como se a cedência do Executivo antes mesmo da reflexão sobre o conteúdo e o alcance de leis ou medidas, fosse o primeiro e obrigatório mandamento a cumprir nos primeiros minutos de uma negociação. Refiro-me ás oposições partidárias, aos sindicatos, à rua, em coros ficticiamente unidos mas com o selo de garantia da media, com que todos sabem previamente poder contar: o selo será sempre estampado.

4E o país? O país não se sabe. Mas podemos arriscar a verosimilhança da pergunta: será governável?

GREVE      ECONOMIA      TRABALHO      LEGISLAÇÃO LABORAL      LEGISLAÇÃO      PAÍS      SOCIEDADE

COMENTÁRIOS
Hugo Silva: A cronista escreve que a UGT foi, aparentemente, manipulada. Que o governo foi, aparentemente, mal preparado. Tanta prosa para, quando devia ser frontal e assertiva, coloca entre parêntesis, o que todos sabemos. Isto é uma greve manipulada por dois partidos políticos, o PCP e o PS. O PCP manteve o registo habitual, o PS, veio revelar finalmente, aquilo em que se transformou. Quanto ao governo, tirando uns slogans, em tudo o que "mexe", cria problemas em vez de os resolver, nada que surpreenda. A cronista revela um certo cuidado a escrever, aparentemente, com receio de que o céu lhe caia em cima da cabeça...  Porque será?                      Jose Paulo Farinha: Já os romanos diziam que não nos sabíamos governar, nem nos deixávamos governar          Carlos Almeida: O país são os Marcelos desta vida e os comentadeiros que deles vivem. Que nada mais fazem que não seja palrar. Coragem para trabalharem, fazendo coisas, concretizando, inovando, fazendo reformas, nada. Este país está uma desgraça. Espero eu ajudar a preparar meus netinhos para os tirar deste charco, que tanto amo mas que mirrou de vez.                João Angolano: Afinal o PCP ainda manda no país através dos pcpzinhos que ainda há em cada socialista e social-democrata impregnados de complexo de esquerda. País este que para além do turismo não tem mais nada e arrisca-se a importar pessoal rico e velho e o  pobre do Bangladesh e exportar os nossos jovens que já perceberam o fim a que a esquerda nos destina.          Jorge Barbosa: Esta greve è 100% político partidária; Por parte do PCP - que só pode querer aproveitar a ocasião da reforma laboral que lhe foi colocada na manjedoura, e isto para dar conta pública de que ainda respira - e por parte da UGT que como sempre tem de alinhar para mostrar aos seus clientes, os trabalhadores, que é melhor do que o seu concorrente de sempre, o PCP (perdão, a CGTP). Fosse, pois, qual fosse, a táctica negocial do governo ou mesmo as alterações propostas, seria indiferente, pois a reacção sindical é estritamente político-partidária. O braço de ferro, político-partidário está lançado, vai-se arrastar, e então falaremos sobre quem vai ganhar, se o governo se as oposições, já que, quem vai determinar quem será o vencedor (governo ou oposições) serão os eleitores pois estes é que sofrerão na carne as consequências da greve geral                     Ana Lucas ><Jorge Barbosa: Concordo em absoluto!

 

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