segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

CONTINUAÇÃO

 

Do TEXTO anterior  - «A razão e a necessidade» de MIGUEL MORGADO - e respectivos  Comentários ( emE para além disso”).

História dos nossos tempos.

COMENTÁRIOS (Conclusão):

De Antonio C Moreira:

 8. O SIP pode ser: a) de Ordem Única ou b) Multi Ordens.

Convém perceber a diferença entre um Sistema Internacional de Poder de Ordem Única (SIPOU), que contempla em si actores com liderança de vários tipos (unipolar, bipolar ou multipolar ou de zonas de influência) e um Sistema Internacional de Poder Multi Ordens (SIPMO). No SIPOU, os vários actores / potências respeitam as mesmas regras e pretendem subir na escala da importância e força dentro dessas regras. É, digamos, um “campeonato” no qual todos disputam o título de campeão. No SIPMO, o líder de cada ordem estabelece e desenvolve a sua Ordem como lhe convém e segundo as suas próprias regras com o único objectivo de impor aos demais os seus interesses pela força. Nas fronteiras ou quando estabelece contacto com outras Ordens, ou negoceia, ou impõe ou sujeita-se à lei do mais forte. Enquanto não estabelece contactos com outra Ordem, desenvolve a sua como quer ou pode, incluindo para fazer a paz onde e como lhe convém. A este título é paradigmático o slogan da Ordem MAGA, ainda ouvido este fim de semana : A Paz pela Força

9. No SIP, que é global, se mantém global e sempre foi palco de afirmação de Poder, é fácil perceber que é inevitável o choque das várias Ordens em desenvolvimento e que, em cada choque, depende dos líderes de cada uma das Ordens em presença e da força destas o acerto das fronteiras ou interesses, de modo negocial ou em confronto.

10. Num mundo global, todas as Ordens são tendencialmente globais. Mas só duas aspiram a ser hegemónicas, líderes.

11. Cada uma das Ordens define as suas regras, não tendo de adoptar quaisquer normas ou princípios, digamos Supra Ordens, pois nenhum líder destas aceita essa submissão ou adopção. Daí que só aceitem algo de diverso, se a isso forem obrigadas pela força de outros.

12Cada Ordem exige: poder militar nuclear; poder convencional militar de alta capacidade e número; território; poder económico; população; capacidade de defender os interesses em qualquer parte do planeta, designadamente para garantir os seus negócios e a aquisição de matérias primas de que necessite. E sempre: consciência estratégica e vontade de assumir a ambição de constituir uma Ordem de Poder Global.

13. São as seguintes as Ordens detecctáveis em 2025 no Sistema Internacional de Poder:

a) Ordem da Rota da Seda, liderada pela China – mais desenvolvida e em crescendo – foi a primeira a afirmar-se como tal;

b)  Ordem MAGA (Make America Great Again), liderada pelos EUAem afirmação desde janeiro de 2025 com a segunda administração Trump, parece incorporar a potência nuclear não assumida Israel;

c)  Ordem Ocidental ou Liberal, anteriormente liderada pelos EUA – em definhamento – talvez reconstrução provocada pela necessidade de impedir a vitória da Rússia na guerra da Ucrânia – liderada por potências europeias entre as quais as nucleares França e Reino Unido – mais Canadá, Coreia do Sul, Japão e Austrália;

d) Ordem da Eurásia, liderada pela Rússiaem afirmação, mas dependente da vitória na guerra da Ucrânia, reforçada recentemente pela Coreia do Norte;

e)  Ordem Islâmica – em disputa de liderança – em construção, anunciada pela Turquia, Arábia Saudita, Irão, Egipto e, em menor grau, Indonésia.

A Arábia Saudita reforçou recentemente o seu papel com o Paquistão (a única potência nuclear islâmica).

14. Só as duas primeiras destas Ordens podem disputar e disputam efectivamente a liderança global: As lideradas pela China e pelos EUA.

A EUROPA – DEFESA E MODELO FEDERAL

15. Em caso de vitória da Rússia, e mesmo que as potências nucleares europeias estejam disponíveis a defender os países europeus não nucleares, a existência de forças militares não nucleares em número e eficácia é absolutamente indispensável a essa defesa.

A Ucrânia, conforme sair da guerra, é crucial nesta defesa europeia.

Nota histórica: a seguir à II grande Guerra, enquanto as potências aliadas ocidentais desmobilizaram os seus fortes contingentes, Estaline manteve integralmente o seu exército não desmobilizando e subjugando pela força territórios e populações na parte oriental da Europa, separados pela “cortina de ferro”, na expressão de Churchill em 1949.

16. A Rússia, seja qual for o resultado da guerra da Ucrânia não desmobilizará o seu contingente armado. Antes o irá reforçar e preparar para as novas conquistas.

A diferença, que pode ser vital para a Europa, encontra-se na comparação de forças com as das potências europeias. Se a Ucrânia mantiver as suas Forças Armadas actuais, isso fará dela um importante aliado das potências europeias (o maior da Europa, juntamente com a Turquia), em número de homens bem treinados e experientes.

Se não mantiver a capacidade das suas forças armadas, desaparecerá do mapa a maior potência militar da Europa não nuclear, com tudo o que isso significa para abrir o caminho às ambições de conquista russas sobre outros territórios ou populações.

17. De notar que a Ordem da Euroásia é fraca em população e economia. A conquista parcial e subjugação total da Ucrânia como país independente é e sempre foi o objectivo da Rússia. Como será relativamente a outros países europeus.

Tudo o apontado ajuda a perceber a importância determinante para a segurança da Europa e sua possibilidade de defender os seus interesses no futuro as condições do desfecho da guerra na Ucrânia.

18. Razão pela qual dois recentes acontecimentos são positivos quer para esta defesa da Europa quer para a possibilidade de uma Ordem Ocidental Reconstruída:

a) o facto de uma ronda das negociações EUA v Ucrânia terem tido lugar em Berlim (factor simbólico de reconhecimento dos interesses europeus);

b) a disponibilização de 90.000 mil milhões de euros europeus para apoio à Ucrânia, que permite a esta manter mínimo de paridade negocial nas conversações sobre o final da guerra.

19. Outro aspecto que merece destaque é o facto de, nestes momentos de crise,  aparecerem vozes a lastimar a falta de “avanço” europeu, na dificuldade de existência de núcleo central forte definidor, etc. Procura-se, em síntese, pressionar no sentido de um modelo político federal para a UE.

Vejo isso como um disparate ou, no mínimo, limitador.

20. Desde o início da construção europeia, são dois os caminhos políticos que se apresentam a essa construção:

ou Federação (a “Europa das Nações” com mais ou menos soluções federais que se vão implementando)

ou Aliança (Confederação de Países / Estados soberanos, aliados em cada momento para prosseguir objectivos comuns bem definidos).

A União Europeia é compatível com qualquer desses modelos,

É este um debate interessante e que tem estado ausente.

Em grande parte porque não há coragem política para se afirmar como viável o modelo Aliança de Países como alternativa ao modelo Federalismo de Nações 

PARA CONCLUIR, que já vai longo o comentário, transcrevemos o último parágrafo de Miguel Morgado:

Há muita sabedoria na cabeça de quem disse que “o que não te induz a razão, induz-te a necessidade”. Mas a resposta à “necessidade” tem sempre uma amplitude angustiante de criatividade e qualidade. Nos próximos 10 anos teremos de tomar decisões políticas determinantes. Convém que tanto os governantes como os povos europeus estejam à altura do que lhes vai ser exigido. 

Em momentos de crise – como o actual – a União Europeia tem sabido encontrar respostas às exigências das circunstâncias. Quer o programa de rearmar a Europa, de apoio à defesa e à economia europeias, quer o apoio financeiro à Ucrânia de que é exemplo o muito recente Conselho Europeu, dão-nos esperanças

Mas os povos europeus têm de ganhar consciência desta exigência e a aceitem. Para isso é importante percebermos o que está em causa. Espero ter contribuído, embora modestamente, para tal.

Jorge Barbosa: Excelente artigo. Os povos dos países que integram a UE, ao que parece, terão de passar por um grande susto, e isso para ganharem a consciência de que a defesa da vida tem de ser prioritária sobre o bem-estar e o progresso. Parecendo agora inviável federalizar "de um dia para o outro " a UE de forma a racionalizar-se o poder de decisão ao nível da governação da UE a real ameaça putinesca animada pela estupidez americana poderá levar à desagregacão mais ou menos rapidamente da UE , tal como a conhecemos o que no mundo geopolítico actual será trágico para a Europa do séc 21, bem mais pacificada do que a anterior, mas será também ainda bem mais trágica para pequenos países como  Portugal, país estupidamente envelhecido.

Tristão: A leitura parece-me bastante lúcida, embora dramática. A Europa está num impasse, a meio da ponte: os seus membros já perderam soberania suficiente para agir autonomamente com eficácia, mas a União não tem ainda poder  suficiente para agir como actor geopolítico pleno e coeso.

Sem um salto político decisivo, a Europa arrisca a fragmentação ou a irrelevância. Mas uma federação imposta, sem base social, política e democrática sólida, pode agravar ainda mais as fracturas existentes.

Por outro lado, os populismos emergentes vão no sentido inverso: mais soberania nacional, menos integração, o que, paradoxalmente, enfraquece ainda mais cada estado isoladamente. 

Sempre fui a favor de mais integração, mas tenho plena consciência das enormes dificuldades políticas e sociais que esse caminho implica.  A alternativa é clara: sem mais integração, a Europa tornar-se-á um actor secundário, com estados mais fracos, mais pobres e mais expostos a conflitos internos e externos. A irrelevância terá consequências, não será neutra como muitos julgam, o nosso modo de vida tal como o conhecemos hoje e o futuro dos nossos filhos estarão em causa…haja coragem para fazer o que tem de ser feito, mas, convenhamos, o ambiente reinante não é o mais favorável para alterações tão profundas. Com as principais lideranças europeias acossadas e sem carisma, acho mesmo tarefa impossível…

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