Do TEXTO anterior - «A razão e a necessidade» de MIGUEL MORGADO - e respectivos Comentários ( em “E para além disso”).
História dos nossos tempos.
COMENTÁRIOS (Conclusão):
De Antonio C Moreira:
8. O SIP pode ser: a) de Ordem
Única ou b) Multi Ordens.
Convém perceber a diferença entre um Sistema Internacional de Poder de
Ordem Única (SIPOU), que contempla em si actores
com liderança de vários tipos (unipolar,
bipolar ou multipolar ou de zonas de influência) e um Sistema Internacional de Poder
Multi Ordens (SIPMO). No SIPOU, os vários actores / potências respeitam as
mesmas regras e pretendem subir na escala da importância e força dentro dessas
regras. É,
digamos, um “campeonato” no qual todos disputam o título de campeão. No SIPMO, o líder de cada ordem estabelece e
desenvolve a sua Ordem como lhe convém e segundo as suas próprias regras com o único objectivo de impor aos demais
os seus interesses pela força. Nas fronteiras ou quando estabelece contacto com outras Ordens, ou
negoceia, ou impõe ou sujeita-se à lei do mais forte. Enquanto não estabelece
contactos com outra Ordem, desenvolve a sua como quer ou pode, incluindo para
fazer a paz onde e como lhe convém. A este título é paradigmático o slogan da
Ordem MAGA,
ainda ouvido este fim de semana : A Paz pela
Força.
9. No SIP, que é global, se mantém global e sempre foi palco de
afirmação de Poder, é fácil perceber que é inevitável o choque das
várias Ordens em desenvolvimento e que, em cada choque, depende dos
líderes de cada uma das Ordens em presença e da força destas o acerto das
fronteiras ou interesses, de modo negocial ou em confronto.
10. Num mundo global, todas as
Ordens são tendencialmente globais. Mas só duas aspiram a ser
hegemónicas, líderes.
11. Cada uma das Ordens define as suas regras, não
tendo de adoptar quaisquer normas ou princípios, digamos Supra Ordens, pois nenhum
líder destas aceita essa submissão ou adopção. Daí que só aceitem algo
de diverso, se a isso forem obrigadas pela força de outros.
12. Cada
Ordem exige: poder
militar nuclear; poder convencional militar de alta capacidade e número;
território; poder económico; população; capacidade de
defender os interesses em qualquer parte do planeta, designadamente para
garantir os seus negócios e a aquisição de matérias primas de que necessite.
E sempre: consciência
estratégica e vontade de assumir a ambição de constituir uma Ordem de Poder
Global.
13. São
as seguintes as Ordens detecctáveis em 2025 no Sistema Internacional de Poder:
a) Ordem da Rota da Seda, liderada pela China – mais
desenvolvida e em crescendo –
foi a primeira a afirmar-se como tal;
b) Ordem MAGA (Make America Great Again), liderada pelos EUA – em afirmação desde janeiro de 2025
com a segunda administração Trump, parece incorporar a potência nuclear não
assumida Israel;
c) Ordem Ocidental ou Liberal, anteriormente liderada pelos EUA – em
definhamento – talvez reconstrução provocada pela necessidade de impedir a
vitória da Rússia na guerra da Ucrânia – liderada por potências europeias entre as quais as
nucleares França e Reino Unido – mais Canadá, Coreia do
Sul, Japão e Austrália;
d) Ordem da Eurásia, liderada pela Rússia – em afirmação, mas dependente da
vitória na guerra da Ucrânia, reforçada recentemente pela Coreia do Norte;
e) Ordem
Islâmica – em disputa de liderança – em construção, anunciada pela
Turquia, Arábia Saudita, Irão, Egipto e, em menor grau, Indonésia.
A Arábia Saudita reforçou recentemente o seu papel com o Paquistão
(a única potência nuclear islâmica).
14. Só as duas primeiras destas Ordens podem disputar e disputam efectivamente
a liderança global: As lideradas pela China e pelos EUA.
A EUROPA – DEFESA E MODELO
FEDERAL
15.
Em caso de vitória da Rússia,
e mesmo que as potências nucleares europeias estejam disponíveis a defender
os países europeus não nucleares, a existência de forças militares não
nucleares em número e eficácia é absolutamente indispensável a essa defesa.
A Ucrânia, conforme sair da guerra, é
crucial nesta defesa europeia.
Nota
histórica: a seguir à II grande Guerra, enquanto as potências
aliadas ocidentais desmobilizaram os seus fortes contingentes, Estaline manteve
integralmente o seu exército não desmobilizando e subjugando pela força
territórios e populações na parte oriental da Europa, separados pela “cortina
de ferro”, na expressão de Churchill em 1949.
16. A Rússia, seja qual for o resultado da guerra da Ucrânia não
desmobilizará o seu contingente armado. Antes o irá reforçar e
preparar para as novas conquistas.
A diferença, que pode ser vital para a Europa, encontra-se na
comparação de forças com as das potências europeias. Se
a Ucrânia mantiver as suas Forças Armadas actuais, isso fará dela um importante
aliado das potências europeias (o maior da Europa, juntamente
com a Turquia), em número de homens bem treinados e experientes.
Se
não mantiver a capacidade das suas forças armadas, desaparecerá do mapa a maior
potência militar da Europa não nuclear, com tudo o que isso significa para
abrir o caminho às ambições de conquista russas sobre outros territórios ou
populações.
17. De notar que a Ordem da Euroásia é fraca em população e economia.
A conquista parcial e subjugação total da Ucrânia como país independente é e
sempre foi o objectivo da Rússia. Como será relativamente a outros países
europeus.
Tudo o apontado ajuda a
perceber a importância determinante para a segurança da Europa e sua
possibilidade de defender os seus interesses no futuro as condições do desfecho
da guerra na Ucrânia.
18. Razão pela qual dois recentes acontecimentos são
positivos quer para esta defesa da Europa quer para a possibilidade de uma
Ordem Ocidental Reconstruída:
a) o facto de uma ronda das negociações EUA v Ucrânia terem tido
lugar em Berlim (factor simbólico de reconhecimento dos interesses europeus);
b) a disponibilização de 90.000 mil milhões de euros europeus para
apoio à Ucrânia, que permite a esta manter mínimo de paridade negocial nas
conversações sobre o final da guerra.
19. Outro aspecto que merece destaque é o facto de, nestes momentos de
crise, aparecerem vozes a lastimar a falta de “avanço” europeu, na
dificuldade de existência de núcleo central forte definidor, etc. Procura-se,
em síntese, pressionar no sentido de um modelo político federal para a
UE.
Vejo isso como um disparate ou, no mínimo, limitador.
20. Desde o início da construção europeia, são dois os caminhos
políticos que se apresentam a essa construção:
ou Federação (a “Europa das Nações”
com mais ou menos soluções federais que se vão implementando)
ou Aliança (Confederação de Países /
Estados soberanos, aliados em cada momento para prosseguir objectivos comuns
bem definidos).
A União Europeia é compatível
com qualquer desses modelos,
É este um debate interessante e que
tem estado ausente.
Em grande parte porque não há coragem
política para se afirmar como viável o modelo Aliança de Países como
alternativa ao modelo Federalismo de Nações
PARA CONCLUIR, que já
vai longo o comentário, transcrevemos o último parágrafo de Miguel Morgado:
Há muita sabedoria na cabeça de
quem disse que “o que não te induz a razão, induz-te a necessidade”. Mas a resposta à “necessidade” tem sempre uma amplitude
angustiante de criatividade e qualidade. Nos próximos 10 anos teremos de tomar decisões políticas
determinantes. Convém que tanto os governantes como os povos europeus estejam à
altura do que lhes vai ser exigido.
Em momentos de crise – como o
actual – a União Europeia tem sabido encontrar respostas às exigências das
circunstâncias. Quer o programa de rearmar a Europa, de apoio à defesa
e à economia europeias, quer o apoio financeiro à Ucrânia de que é exemplo o
muito recente Conselho Europeu, dão-nos esperanças.
Mas os povos europeus têm de
ganhar consciência desta exigência e a aceitem. Para isso é importante
percebermos o que está em causa. Espero ter contribuído, embora modestamente,
para tal.
Jorge Barbosa: Excelente artigo. Os povos dos países
que integram a UE, ao que parece, terão de passar por um grande susto, e isso para
ganharem a consciência de que a defesa da vida tem de ser prioritária sobre o
bem-estar e o progresso. Parecendo agora inviável federalizar "de um dia
para o outro " a UE de forma a racionalizar-se o poder de decisão ao nível
da governação da UE a real ameaça putinesca animada pela estupidez americana
poderá levar à desagregacão mais ou menos rapidamente da UE , tal como a
conhecemos o que no mundo geopolítico actual será trágico para a Europa do séc
21, bem mais pacificada do que a anterior, mas será também ainda bem
mais trágica para pequenos países como Portugal,
país estupidamente envelhecido.
Tristão: A leitura parece-me bastante lúcida,
embora dramática. A Europa está num impasse, a meio da
ponte: os seus membros já perderam soberania suficiente para agir
autonomamente com eficácia, mas a União não tem ainda poder suficiente
para agir como actor geopolítico pleno e coeso.
Sem um salto político
decisivo, a Europa arrisca a fragmentação ou a irrelevância. Mas uma federação
imposta, sem base social, política e democrática sólida, pode agravar ainda
mais as fracturas existentes.
Por outro lado, os
populismos emergentes vão no sentido inverso: mais soberania nacional, menos
integração, o que, paradoxalmente, enfraquece ainda mais cada estado
isoladamente.
Sempre fui a favor de mais
integração, mas tenho plena consciência das enormes dificuldades políticas e
sociais que esse caminho implica. A alternativa é clara: sem mais integração, a Europa tornar-se-á
um actor secundário, com estados mais fracos, mais pobres e mais expostos a
conflitos internos e externos. A irrelevância terá consequências, não será
neutra como muitos julgam, o nosso modo de vida tal como o conhecemos hoje e o
futuro dos nossos filhos estarão em causa…haja coragem para fazer o que
tem de ser feito, mas, convenhamos, o ambiente reinante não é o mais favorável
para alterações tão profundas. Com as principais lideranças europeias acossadas
e sem carisma, acho mesmo tarefa impossível…
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