quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

E todavia


Nos meus tempos de leituras pelos intelectuais de gauche dos tais autores russos, Tolstói, Dostoievsky, Gogol, Soljenitsin, para orgulho desses e espanto dos não intelectuais, mais habituados/as ao romanesco amoroso de autores menos politizados – mas que facilmente aderíamos aos Crime e Castigo, Ana Karenina, Guerra e Paz, de tanta projecção no seu estranho mundo longínquo, bem diverso do dos nossos autores mais próximos - já se falava desses espaços soviéticos com relutância, por praticarem um comunismo que merecia rejeição por cá. Essa marca de repúdio ficou-nos no espírito, julgo, na preferência pelos autores ocidentais, de menor estranheza para o nosso entendimento. Mas esta invasão da Ucrânia e tudo isso em torno disso nos faz desgostar-nos, cada vez mais, desses mundos que Salazar não nos facultava, com a razão da sua inteligência certeira.

A paz russa

Na perspectiva de Putin só existirá paz quando o Ocidente aceitar confinar-se no reconhecimento da Rússia como a grande potência da Eurásia e com legitimidade para dominar a geografia da antiga URSS.

ADELINO CUNHA Historiador, Professor Associado da Universidade Europeia e Investigador Integrado da Universidade Nova de Lisboa

OBSERVADOR, 01 dez. 2025, 00:1825

O significado de paz para a Rússia projecta-se muito para além do vocabulário e das próprias questões geopolíticas. É mais do que uma dinâmica diplomática. É um instrumento de construção identitária. Uma força narrativa que distorce a história para recuperar um território imaginado e concretizar uma ilusória renovação imperial assente no ressentimento.

A paz não é o contrário da guerra convencional. A paz russa é a configuração política que a guerra assume quando deixa simplesmente de ser necessária. É disso que se falará quando começarem as negociações com a Ucrânia.

Este processo de construção ideológica iniciou-se com a implosão da União Soviética e subsequente marginalização da Rússia e dos povos eslavos das grandes questões pós-1991. Moscovo resvalou para a periferia da geopolítica mundial, desligada das grandes decisões da política internacional, convertendo-se num fantasma exótico no horizonte ocidental.

A facilidade expansionista da NATO tornou-se símbolo dessa irrelevância percepcionada e, consequentemente, uma ameaça existencial para a Rússia.

Foi nesse espaço ignorado, e raramente compreendido, que as elites pós-soviéticas foram formulando silenciosamente uma nova realidade pós-imperial, algures entre a nostalgia da Guerra Fria e a urgência da construção de um mundo multipolar que reconheça o seu papel como potência nuclear.

Essa reconquista do passado que já passou tornou-se inevitavelmente militar. Não por um qualquer fatalismo histórico, mas porque os mecanismos de diálogo com o Ocidente foram negligenciados ou simplesmente desligados. O desconhecimento sobre a realidade para lá dos Urais tornou-se penosamente estrutural e ajuda a explicar o choque emocional provocado pela invasão da Ucrânia e a consequente dor empática que tomou conta dos europeus desde então.

Estas são as boas notícias.

Quando se começar a negociar um cessar-fogo, o Ocidente irá descobrir que a Rússia atribui um valor substancialmente diferente à paz. A sua visão do mundo assenta agora na revindicação pela força dos seus direitos históricos no espaço pós-soviético e na exigência do reconhecimento internacional do seu papel enquanto potência.

A paz não se esgotará na ausência da guerra.

A paz civilizacionista e soberanista

A paz imaginada pelas elites pós-soviéticas traduz a sua gramática do mundo multipolar e do papel dos russos nessa reconstrução. Encontra-se ancorada numa corrente intelectual que concebe a Rússia como uma civilização singular, investida de uma missão histórica e espiritual inalienável (ALEXANDER DUGIN, LEV GUMILEV, MIKHAIL YURYEV, O PRÓPRIO PATRIARCA DA IGREJA ORTODOXA RUSSA, entre outros).

Esta paz civilizacionista concilia a ideia de preservação e expansão do mundo russo sem depender de acordos internacionais, na medida em que a sua existência decorre da coerência interna dessa civilização e do seu poder para impor uma posição absolutamente decisiva na Eurásia. Por outras palavras, significa a existência da Rússia como centro difusor civilizacional, sustentada pela autoridade histórica e moral que aspira exercer sobre os povos eslavos ocidentais que considera parte da sua esfera de influência.

Nesta visão, a Ucrânia não é apenas um país vizinho: é parte indissociável da paisagem civilizacional russa. Uma Ucrânia soberana, democrática e orientada para o Ocidente representa uma ameaça identitária para a Rússia, na medida em que rompe com a unidade cultural e espiritual dessa mundivisão.

É essa essência que importa considerar neste conceito de paz. A ameaça não se limita à dimensão militar representada pela integração do leste europeu na NATO. É uma ameaça ideológica, identitária e civilizacional e a sua aplicação prática traduz-se na reintegração e subordinação da Ucrânia através do seu desmembramento e submissão.

A restauração da harmonia histórica deste espaço carrega uma dimensão profundamente espiritual e histórica. A paz civilizacionista não se alcança através de regras universais, mas da obediência intransigente aos valores tradicionais, como a estrutura social hierárquica, a autoridade religiosa e os laços czaristas de lealdade entre o Estado e as pessoas.

Esta concepção tem uma fortíssima influência no imaginário político russo contemporâneo, na medida em que apresenta uma missão histórica que legitima a expansão territorial através da sua transformação em conflitos que protegem a alma da mãe Rússia. A mais ténue manifestação ocidental dentro desta bolha civilizacionista configura-se como uma ameaça directa à identidade russa.

Vladimir Putin partiu desta narrativa de missão histórica (utilizada essencialmente em discursos internos) para projectar externamente a Rússia como uma grande potência portadora de direitos soberanos sobre o espaço pós-soviético. É isso que legitima a utilização da guerra como instrumento de soberania e que o presidente russo estruturou como paz soberanista com um círculo restrito de pensadores (Sergei Karaganov, Vyacheslav Nikonov, Sergey Lavrov e o próprio Vladimir Putin).

Esta paz não resulta da ausência da guerra, mas de uma ofensiva que procura a estabilização de poderes internacionais através do reconhecimento pelo Ocidente dos seus próprios limites e do direito da Rússia ao domínio de uma esfera de influência.

A UCRÂNIA é absolutamente central, tanto no imaginário pós-soviético quanto na racionalização dos interesses geopolíticos, na medida em que é precisamente a sua orientação que permite determinar se a Rússia é uma potência euroasiática respeitada pelo Ocidente ou apenas um Estado confinado no seu espaço territorial.

Uma Ucrânia soberana, democrática e integrada no bloco euro-americano é vista como incompatível com paz russa porque dissolve as fronteiras entre os dois mundos. Esta ideia encontra-se consolidada entre as suas elites políticas e militares desde a entrada no milénio e a surpresa sobre o seu significado só pode ser justificada à luz do desinteresse ocidental.

A Rússia não irá limitar-se a negociar um cessar-fogo.

Putin tentará impor uma reconfiguração do mapa da Europa que reconheça a legitimidade das suas conquistas territoriais e a neutralização a Ucrânia como fronteira externa da Rússia. Para Putin, uma solução diferente da paz soberanista será simplesmente uma pausa estratégica, pois a Rússia continuará vulnerável a futuras expansões ocidentais. A guerra continuará, assim, como instrumento de imposição desse reconhecimento.

A paz liberal e a paz estratégica

Nos círculos militares existe uma terceira via para a paz que não perturba as ideias soberanista e civilizacionista do regime, já que a encara não como uma questão ideológica, mas como um problema de equilíbrio estratégico entre potências (Alexei Arbatov, Dmitri Trenin, Sergey Rogov, entre outros).

A sua perspectiva de estabilidade depende da paridade nuclear entre a Rússia e os Estados Unidos e de mecanismos de controlo de armamento. A sugestão de rejeição do expansionismo imperial decorre da interpretação das guerras longas como um risco estratégico por desgastarem recursos e diminuírem a segurança nacional.

Tendo perdido influência política directa no regime, os promotores da paz estratégica ainda preservam a sua relevância intelectual através dos modelos de dissuasão que sustentam o aparelho de segurança russo.

Existe ainda uma última corrente defensora da ideia de que a paz só existe com democracia e a Rússia deve renunciar à tradição imperial e construir relações de respeito com os países vizinhos. A expressão desta visão liberal encontra-se confinada aos opositores de Vladimir Putin que se encontram no exílio (Garry Kasparov, Vladislav Inozemtsev, Lilia Shevtsova, entre outros).

Lutam por uma refundação constitucional da Rússia que permita adoptar uma política externa previsível e enquadrada no direito internacional. Porém, perante uma autocracia que controla a memória histórica e criminaliza a dissidência, esta visão liberal sobrevive mais como projecto intelectual e menos como hipótese política imediata.

Na perspectiva de Vladimir Putin, só existirá paz quando o Ocidente aceitar confinar-se no reconhecimento da Rússia como a grande potência da Eurásia e com legitimidade para dominar a geografia da antiga União Soviética. Esta paz russa irá colidir frontalmente com a perspectiva europeia baseada em soberania, integridade territorial e normas universais. É neste embate entre uma paz ressentida como reconstrução de identidade e uma paz como prevalência do direito internacional que se irá decidir o futuro dos europeus.

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COMENTÁRIOS (de 25)

Filipe Paes de Vasconcellos: Só que enquanto Putin não perceber que “o tempo não volta para trás “ irá continuar a estoirar com o seu país, cabendo ao Ocidente manter-se firme da defesa da “paz liberal”. Para o mundo ocidental esta visão é profundamente existencial porque se a Ucrânia não vencer esta guerra e se entregar à Rússia a Europa tem os dias contados, porque,  para além de tudo o mais, será entregue à União Soviética em construção um pais altamente armado pelo Ocidente.                  Eduardo Mãos de Tesoura: A dita "Paz Russa" de Putin não vai acontecer. A potência asiática é a China. E não há nenhuma potência euro-asiática. O Império Russo, com uma economia mais pequena que a da Itália, pouco inovadora, assente na exportação de matérias primas e nada mais, nada de útil em termos ideológicos tem para oferecer, e por isso mesmo vai colapsar. E com esse colapso, colapsará esse ideário russo, e essa ideologia hiper-agressiva e imperialista               Vitor Batista: Morte á Ruzzia!

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