Nos meus tempos de leituras pelos intelectuais de gauche dos tais autores russos, Tolstói, Dostoievsky, Gogol, Soljenitsin, para orgulho desses e espanto dos não intelectuais, mais habituados/as ao romanesco amoroso de autores menos politizados – mas que facilmente aderíamos aos Crime e Castigo, Ana Karenina, Guerra e Paz, de tanta projecção no seu estranho mundo longínquo, bem diverso do dos nossos autores mais próximos - já se falava desses espaços soviéticos com relutância, por praticarem um comunismo que merecia rejeição por cá. Essa marca de repúdio ficou-nos no espírito, julgo, na preferência pelos autores ocidentais, de menor estranheza para o nosso entendimento. Mas esta invasão da Ucrânia e tudo isso em torno disso nos faz desgostar-nos, cada vez mais, desses mundos que Salazar não nos facultava, com a razão da sua inteligência certeira.
A paz russa
Na perspectiva de Putin só
existirá paz quando o Ocidente aceitar confinar-se no reconhecimento da Rússia
como a grande potência da Eurásia e com legitimidade para dominar a geografia
da antiga URSS.
ADELINO CUNHA Historiador,
Professor Associado da Universidade Europeia e Investigador Integrado da
Universidade Nova de Lisboa
OBSERVADOR, 01 dez. 2025, 00:1825
O significado de paz para a Rússia
projecta-se muito para além do
vocabulário e das próprias questões geopolíticas. É mais do que uma dinâmica diplomática.
É um
instrumento de construção identitária.
Uma
força narrativa que distorce a história para recuperar um território imaginado
e concretizar uma ilusória renovação imperial assente no ressentimento.
A paz não é o contrário da guerra convencional. A paz russa é a configuração política que a guerra
assume quando deixa simplesmente de ser necessária. É disso
que se falará quando começarem as negociações com a Ucrânia.
Este processo de construção
ideológica iniciou-se com a implosão da
União Soviética e subsequente marginalização da Rússia e dos povos eslavos das
grandes questões pós-1991. Moscovo resvalou para a periferia da geopolítica mundial, desligada
das grandes decisões da política internacional, convertendo-se num fantasma
exótico no horizonte ocidental.
A facilidade expansionista da NATO
tornou-se símbolo dessa irrelevância percepcionada e, consequentemente, uma
ameaça existencial para a Rússia.
Foi nesse espaço ignorado, e raramente compreendido, que as elites pós-soviéticas foram formulando silenciosamente uma nova
realidade pós-imperial, algures
entre a nostalgia da Guerra Fria e a urgência da construção de um mundo
multipolar que reconheça o seu papel como potência nuclear.
Essa reconquista do passado
que já passou tornou-se inevitavelmente militar. Não por um qualquer
fatalismo histórico, mas porque os mecanismos de diálogo com o Ocidente foram
negligenciados ou simplesmente desligados. O desconhecimento sobre a realidade
para lá dos Urais tornou-se penosamente estrutural e ajuda a explicar o choque
emocional provocado pela invasão da Ucrânia e a consequente dor empática que
tomou conta dos europeus desde então.
Estas são as boas notícias.
Quando se começar a negociar um
cessar-fogo, o Ocidente irá descobrir que
a Rússia atribui um valor substancialmente diferente à paz. A sua visão do
mundo assenta agora na revindicação pela força dos seus direitos
históricos no espaço pós-soviético e na exigência do
reconhecimento internacional do seu papel enquanto potência.
A paz não se esgotará na ausência da
guerra.
A paz civilizacionista e soberanista
A paz imaginada pelas elites
pós-soviéticas traduz a sua gramática do mundo multipolar e do papel dos russos
nessa reconstrução. Encontra-se
ancorada numa corrente intelectual que concebe a Rússia como uma civilização
singular, investida de uma missão histórica e espiritual inalienável
(ALEXANDER DUGIN, LEV GUMILEV, MIKHAIL YURYEV, O PRÓPRIO PATRIARCA DA IGREJA
ORTODOXA RUSSA, entre outros).
Esta paz civilizacionista concilia a
ideia de preservação e expansão do mundo russo sem depender de acordos
internacionais, na medida em que a sua existência decorre da coerência interna
dessa civilização e do seu poder para impor uma posição absolutamente decisiva
na Eurásia. Por outras palavras, significa
a existência da Rússia como centro difusor civilizacional, sustentada pela
autoridade histórica e moral que aspira exercer sobre os povos eslavos
ocidentais que considera parte da sua esfera de influência.
Nesta visão, a Ucrânia não é apenas um
país vizinho: é parte
indissociável da paisagem civilizacional russa. Uma Ucrânia soberana,
democrática e orientada para o Ocidente representa uma ameaça identitária para
a Rússia, na medida em que rompe com a unidade cultural e espiritual dessa
mundivisão.
É essa essência que importa
considerar neste conceito de paz. A ameaça não se limita à dimensão
militar representada pela integração do leste europeu na NATO. É uma ameaça ideológica, identitária e
civilizacional e a sua aplicação prática traduz-se na reintegração e
subordinação da Ucrânia através do seu desmembramento
e submissão.
A restauração da harmonia histórica
deste espaço carrega uma dimensão profundamente espiritual e histórica. A paz
civilizacionista não se alcança através de regras universais, mas da obediência
intransigente aos valores tradicionais, como a estrutura social hierárquica, a
autoridade religiosa e os laços czaristas de lealdade entre o Estado e as
pessoas.
Esta
concepção tem uma fortíssima influência no imaginário político russo
contemporâneo, na medida
em que apresenta uma missão histórica que legitima a expansão territorial
através da sua transformação em conflitos que protegem a alma da mãe
Rússia. A mais ténue manifestação ocidental dentro desta bolha
civilizacionista configura-se como uma ameaça directa à identidade russa.
Vladimir Putin partiu desta
narrativa de missão histórica (utilizada
essencialmente em discursos internos) para projectar externamente a Rússia como
uma grande potência portadora de direitos soberanos sobre o espaço
pós-soviético. É isso que legitima
a utilização da guerra como instrumento de soberania e que o presidente russo
estruturou como paz soberanista com um círculo restrito de pensadores (Sergei
Karaganov, Vyacheslav Nikonov, Sergey Lavrov e o próprio Vladimir
Putin).
Esta paz não resulta da ausência da
guerra, mas de uma ofensiva que procura a estabilização de poderes
internacionais através do reconhecimento pelo Ocidente dos seus próprios
limites e do direito da Rússia ao domínio de uma esfera de influência.
A UCRÂNIA é absolutamente central,
tanto no imaginário pós-soviético quanto na racionalização dos interesses
geopolíticos, na medida em que é precisamente a sua orientação que permite
determinar se a Rússia é uma potência euroasiática respeitada pelo Ocidente ou
apenas um Estado confinado no seu espaço territorial.
Uma
Ucrânia soberana, democrática e integrada no bloco euro-americano é vista como
incompatível com paz russa porque dissolve as fronteiras entre os dois mundos.
Esta ideia encontra-se consolidada entre
as suas elites políticas e militares desde a entrada no milénio e a surpresa
sobre o seu significado só pode ser justificada à luz do desinteresse ocidental.
A Rússia não irá limitar-se a
negociar um cessar-fogo.
Putin tentará impor uma
reconfiguração do mapa da Europa que reconheça a legitimidade das suas
conquistas territoriais e a neutralização a Ucrânia como fronteira externa da
Rússia. Para Putin, uma solução diferente da paz soberanista será
simplesmente uma pausa estratégica, pois a
Rússia continuará vulnerável a futuras expansões ocidentais. A guerra
continuará, assim, como instrumento de imposição desse reconhecimento.
A paz liberal e a paz estratégica
Nos
círculos militares existe uma terceira via para a paz que não
perturba as ideias soberanista e civilizacionista do regime, já que a encara
não como uma questão ideológica, mas como um problema de equilíbrio estratégico
entre potências (Alexei Arbatov, Dmitri Trenin, Sergey Rogov, entre
outros).
A
sua perspectiva de estabilidade depende da paridade nuclear entre a Rússia e os Estados Unidos e de mecanismos
de controlo de armamento. A sugestão de rejeição do
expansionismo imperial decorre da interpretação das guerras longas como um
risco estratégico por desgastarem recursos e diminuírem a segurança nacional.
Tendo
perdido influência política directa no regime, os promotores
da paz estratégica ainda preservam
a sua relevância intelectual através dos modelos de dissuasão que sustentam o
aparelho de segurança russo.
Existe ainda uma última
corrente defensora da ideia de que a paz só existe com democracia e a Rússia
deve renunciar à tradição imperial e construir relações de respeito com os
países vizinhos. A expressão desta visão liberal encontra-se confinada aos
opositores de Vladimir Putin que se encontram no exílio (Garry
Kasparov, Vladislav Inozemtsev, Lilia Shevtsova, entre outros).
Lutam por uma refundação
constitucional da Rússia que permita adoptar uma política externa previsível e
enquadrada no direito internacional. Porém, perante uma autocracia que controla
a memória histórica e criminaliza a dissidência, esta visão liberal sobrevive
mais como projecto intelectual e menos como hipótese política imediata.
Na perspectiva de Vladimir Putin,
só existirá paz quando o Ocidente
aceitar confinar-se no reconhecimento da Rússia como a grande potência da
Eurásia e com legitimidade para dominar a geografia da antiga União Soviética.
Esta
paz russa irá colidir frontalmente com a perspectiva europeia baseada em
soberania, integridade territorial e normas universais. É neste
embate entre uma paz ressentida como reconstrução de identidade e uma paz como
prevalência do direito internacional que se irá decidir o futuro dos europeus.
RÚSSIA-UCRÂNIA MUNDO RÚSSIA UCRÂNIA EUROPA
COMENTÁRIOS (de 25)
Filipe Paes
de Vasconcellos: Só que enquanto Putin não perceber que “o tempo
não volta para trás “ irá continuar a estoirar com o seu país, cabendo ao
Ocidente manter-se firme da defesa da “paz liberal”. Para o
mundo ocidental esta visão é profundamente existencial porque se a Ucrânia não
vencer esta guerra e se entregar à Rússia a Europa tem os dias contados,
porque, para além de tudo o mais, será entregue à União Soviética em
construção um pais altamente armado pelo Ocidente.
Eduardo Mãos de Tesoura: A dita "Paz Russa"
de Putin não vai acontecer. A potência asiática é a China. E não há nenhuma potência
euro-asiática. O Império Russo, com uma economia mais pequena
que a da Itália, pouco inovadora, assente na exportação de matérias primas e
nada mais, nada de útil em termos ideológicos tem para oferecer, e por isso
mesmo vai colapsar. E com esse colapso, colapsará
esse ideário russo, e essa ideologia hiper-agressiva e imperialista. Vitor Batista:
Morte á
Ruzzia!
Nenhum comentário:
Postar um comentário