domingo, 7 de dezembro de 2025

Condenar o MAL


Segundo os preceitos dos tempos em que o MAL se produz. Mal seria se não se condenasse, contudo. Só assim se vão enriquecendo, ao longo dos tempos, os próprios requisitos do BEM, com o enriquecimento gradual dos poderes do MAL, a inteligência humana sempre em evolução, a exigir recato, também evolutivo, felizmente ...

Nuremberga

Quando se multiplicam as identificações do nazismo e as comparações ao hitlerismo, o que conseguimos fazer é relativizar e diminuir o horror incomensurável que o nacional-socialismo efectivamente foi.

MIGUEL MORGADO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 07 dez. 2025, 00:201

Levado pelo entusiasmo, fui ver o mais recente filme sobre o julgamento de Nuremberga, com o título da cidade onde 22 criminosos de guerra nacional-socialistas foram condenados e onde 10 anos antes Hitler proclamara as infames leis raciais. Já tenho idade para ter juízo e é difícil justificar por que é que ainda mantenho algum tipo de esperança nos produtos de Hollywood. Anos e anos de desilusão ainda não me curaram e com “Nuremberga” paguei o preço.

Talvez seja o fascínio dos temas que os filmes exploram. Neste caso foi aquele julgamento como acontecimento histórico e como precedente jurídico para o novo mundo que à época se supunha estar a fundar. No passado recente foi o Papado, tratado com a inteligência de uma pedra da calçada, e o moralismo de um deslumbrado de 15 anos, pelo realizador brasileiro Fernando Meireles no filme “Os Dois Papas”. “Oppenheimer” foi a excepção porque Christopher Nolan é excepcional. Mas é sintomático do tempo em que vivemos que nem “Oppenheimer” tenha evitado, aqui e ali, o deslize para o respeitinho beato pelos preconceitos do nosso tempo.

Escrito e realizado por James Vanderbilt, “NUREMBERGA” tinha tudo ao seu dispor: orçamento, meios técnicos e um grande tema. No final, ficamos com pouco mais do que nada. A lista do nada não é edificante. Personagens como a do protagonista, o psiquiatra Douglas Kelley, a fazer questão de exibir todos os maneirismos dos influencers das redes sociais em 2025 e as mesmas declamações previamente empacotadas que hoje em dia os filmes e séries repetem infalivelmente, sejam comédias sobre famílias suburbanas ou dramas sobre discriminação sexual.

Erros históricos imperdoáveis, como dizer-se que a transmissão sucessória do 3º Reich para Hermann Göring em caso de morte de Hitler ficara decidida em 1939, quando na verdade fora determinada por dois decretos de Dezembro de 1934 ainda na sequência da rearrumação violenta do regime após o massacre da Noite das Facas Longas. Encenações dos figurantes invariavelmente postiças. Implausibilidades atrás de implausibilidades num filme que pretende obter o seu valor da fidedignidade histórica para fundar as “lições” que quer dar ao espectador. A americanização total do ambiente, da linguagem, da densidade psicológica das personagens, ao retratar um acontecimento que é descrito como “mundial”, “internacional”, em registo de microcosmos do universo humano, desde os vencedores até aos vencidos passando pelas vítimas. Tudo é encaixado pela compressão do estilo de Hollywood que combina uma pontaria para o entretenimento que consiga fixar a atenção de pré-adolescentes e um moralismo de pacotilha incapaz de fazer justiça às complexidades dos desafios morais dos acontecimentos ou das suas putativas “lições”.

Convém não esquecer que a promessa do filme é grande. Feita pela personagem principal, o Coronel Kelley descontroladamente interpretado por Rami Malek, a promessa era nada mais nada menos do que levar a cabo uma “análise psicológica do mal” que os humanos perpetram.E se dissecássemos o mal?”, diz Kelley/Malek com um entusiasmo deslocado. Escusado é dizer que, mais de duas horas depois, ninguém se atreve a adiantar uma sílaba sobre o que a anunciada dissecação revelou. Além dos lugares-comuns estafados segundo os quais “qualquer um de nós pode ser nazi”, ou as personalidades “narcisistas” são as piores imagináveis, das “lições” que esperávamos receber nem o sumário nos é dado.

A confissão de impotência de Vanderbilt está cristalizada no uso das imagens de arquivo que mostraram a todos o crime indizível descoberto pelas tropas americanas quando chegaram à Alemanha e libertaram os sobreviventes em Buchenwald, Dachau ou Bergen-Belsen. São imagens inesquecíveis de cadáveres amontoados, corpos esqueléticos, rostos emaciados de olhar atónito com os horrores sofridos e testemunhados, hoje familiares para nós que assistimos a vários documentários sobre o Shoah e sobre a 2ª Guerra Mundial. Mas naquela altura foram exibidas pela primeira vez na sala do julgamento. As imagens são usadas no filme demoradamente (por mais de 5 minutos) para trabalhar as reacções surpreendidas e emocionadas dos representantes dos Aliados no tribunal e pouco mais. São elas o único verdadeiro objecto de meditação que James Vanderbilt nos proporciona, e logo, para seu azar, como matéria onde a intervenção dele é residual ou nula.

No final fica apenas a mensagem política nada subtil de que o nazismo está a ser repetido no nosso tempo, com Trump a substituir a liderança de Hitler. Isso é sugerido ao longo do filme em cenas estratégicas. Mas, no fim do filme, é para o futuro que é o nosso presente que fica reservado o regresso do nazismo. Esses últimos instantes situam-nos já em plena fase do alcoolismo de Kelley, quando este publicara o seu livro sobre a experiência em Nuremberga e avisava o seu país de que os padrões de personalidade dos nacional-socialistas estavam patentes nos segregacionistas do sul dos EUA nos anos 40 e 50. Vanderbilt não nos deixa perceber que Kelley estava a denunciar o racismo organizado no Sul de Jim Crow, deixando antes a ambiguidade suficiente para fazer de Kelley um profeta da catástrofe do nosso tempo.

Tudo ponderado, talvez se diga que seria irresistível a Vanderbilt deixar aquela nota para “trazer actualidade” à sua obra, como se tal requisito fosse indispensável ou sequer profícuo. Mas isso não se faz sem sofrer um custo grave. Pela infinitésima vez passa despercebido o problema com a redução a Hitler e ao nacional-socialismo de tudo o que nos desgosta no mundo contemporâneo. Quando se multiplicam as identificações do nazismo e as comparações ao hitlerismo, o que conseguimos certamente fazer é relativizar e diminuir o horror incomensurável que o nacional-socialismo efectivamente foi.

O primeiro passo para compreender a radicalidade do mal é não confundir as suas diversas expressões no mundo, nem tomar o seu exemplo mais acabado como molde de tudo o que politicamente nos desagrada. De se ceder a esta tentação resulta tanto uma evitável violência na discussão pública e na polarização política, como um empobrecimento da compreensão do mal e da nossa visão do bem.

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COMENTÁRIOS:

ISABEL GOMES: Das três versões que vi. Esta é a pior. Lamento, mas a de 1961 ou 2000 são superiores em credibilidade ou narrativa.

 

NOTAS DA INTERNET:

Nos meses que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, o psiquiatra norte-americano Douglas Kelley (1912-1958) foi incumbido de avaliar a sanidade dos principais criminosos de guerra nazis julgados pelo Tribunal Militar Internacional, nos chamados Julgamentos de Nuremberga. Entre os acusados, o oficial de mais elevada patente era Hermann Göring (1893-1940), um homem carismático e manipulador, determinado a evitar a condenação. Apesar da inteligência de Göring, Kelley manteve o profissionalismo, sempre muito consciente do perigo de ser influenciado pelo prisioneiro e da necessidade de manter o distanciamento necessário para uma avaliação o mais rigorosa possível. 
Após extensas entrevistas e testes psicológicos detalhados para avaliar a sua responsabilidade criminal, Göring foi considerado mentalmente apto para julgamento. Condenado à morte pelo seu papel no Holocausto, suicidou-se com uma cápsula de cianeto na noite anterior à execução.

Depois desta experiência marcante, Douglas Kelley continuou a trabalhar nas áreas de psiquiatria e criminologia, mas enfrentou problemas pessoais graves que culminaram no seu suicídio a 1 de Janeiro de 1958, usando o mesmo método de Göring.

Com argumento, realização e produção de James Vanderbilt (conhecido pelos argumentos de “Terror na Escuridão”, “Zodiac” ou “O Fantástico Homem-Aranha” e pela realização de “Verdade”), este filme conta com as interpretações de Rami Malek, Russell Crowe, Leo Woodall, John Slattery, Mark O'Brien, Colin Hanks, Richard E. Grant e Michael Shannon. PÚBLICO

 

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