Qui
finit bien». Refiro-me, naturalmente, ao debate entre Seguro e Catarina (I), a que assisti, no conforto
do sofá, para logo esquecer, nos desvios para outras artes, mas que revejo nos
pormenores - para mais, explicativos - do texto do OBSERVADOR.
Entretanto, relativamente a coisas menos somenos, transcrevo a
seguinte, também do OBSERVADOR, que mostra o oposto do sentido da frase com que
iniciei este texto:
II- "Há a possibilidade de EUA traírem a Ucrânia",
alerta Macron
«Zelensky
deve ser “extremamente cauteloso nos próximos dias”, avisou Merz numa chamada
entre líderes europeus, na qual Macron alerta para a possibilidade de
Washington estar prestes a trair Kiev.»
«Traição», eis, pois, outra frase das nossas realidades comezinhas, a considerar, por cá, a Oeste, a acrescentar à já sofrida por lá, a Leste, onde “Tout va mal, sauf le Courage et l´Honneur d’un HOMME et d’un PEUPLE” …
I -Só estiveram mais ou menos de acordo
na questão da Justiça. Depois Catarina Martins quis colar Seguro à direita e
colar-se a ela a Soares e Sampaio. Quem é mais de esquerda e ganha mais
socialistas?
OBSERVADOR, 06 dez. 2025, 22:51
Como nos últimos dois debates, o tema inicial foi o da Justiça, a
propósito da recente revelação das escutas do caso Influencer. E como nos
últimos debates, neste ponto, houve acordo. Catarina Martins disse que “Amadeu Guerra
fica fragilizado com a publicação de escutas” e declarações que tem
feito. António José Seguro foi
ainda um pouco mais longe, dizendo que o “Ministério Público tem se vir explicar o que se passa”, e que se
chegar a Belém chamará o PGR porque “há perguntas para as quais a democracia
tem que ter respostas porque “temos
uma Justiça fragilizada”.
A partir deste primeiro momento veio o que mais se esperava deste
debate: o posicionamento ideológico dos dois candidatos, com
Catarina Martins a tentar ir mais para o centro, chamando para si os socialistas
mais à esquerda. A bloquista não só nomeou várias vezes Jorge Sampaio e Mário
Soares como seus aliados, como tentou colar Seguro à direita, lembrando a sua
“abstenção violenta” no OE da troika de Passos. Foram dez minutos a discutir o que se passou há
13 anos. Catarina questionou
Seguro sobre a sua relação com a esquerda, dizendo-lhe mesmo que “não quer ser o candidato da esquerda”. Seguro
respondeu já de forma acesa, frisando que este “é um argumento artificial de
campanha” e que “não cola”.
Depois, o ex-líder do PS assumiu que se absteve no OE de 2012 por
“convicção”, já que “a maioria de
direita não precisava da abstenção da esquerda”, lembrou que não fez “parte dos
governos de José Sócrates”, que “não discutiu o memorando” da troika, mas que
“teve de honrar a palavra”. E acusou Catarina Martins de ter na altura como
modelo económico o do Syriza na Grécia: “O que isso deu foi mais sofrimentos,
menos pensões, menos salários e mais sofrimento ao povo grego”.
Catarina Martins acusou ainda Seguro
de ter negociado a entrada do PS no Governo de Passos Coelho. Ele
negou e falou apenas na iniciativa de
Cavaco para um acordo de salvação nacional, acusando o BE de não ter querido
entrar na procura de uma solução: “A Catarina preferiu ficar no
protesto”. A antiga líder do BE contestou e disse que enquanto Seguro cortava o subsídio de
férias e de Natal, ela “estava a lutar para os repor, estava na Aula Magna com
Mário Soares a defender a Constituição”. “Não é justo tentar colar-me a esse Governo” de Passos, queixou-se
ainda Seguro.
Quando finalmente Clara de Sousa conseguiu mudar de tema, sobrava
pouco tempo para falarem de modelos económicos e de política internacional.
A NATO ainda os colocou novamente em
confronto: “Seguro garantiu que será fiel à Constituição”, defendendo que a
“Europa deve aumentar a autonomia estratégica na defesa, mas não deve sair da
NATO”; Catarina Martins, depois de um protesto contra Israel,
questionou como é que “a NATO é a garantia da nossa segurança, quando quem
manda na NATO é Donald Trump”.
Com direito à última
intervenção, Seguro acabou a pedir voto útil “para que não se acabe com dois
candidatos de direita na segunda volta”.
Um painel de avaliadores do Observador
dá notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos 28 debates
televisivos para as eleições presidenciais e um texto de avaliação ao próprio
confronto. A média vai surgindo a cada dia de debates, no gráfico inicial, que
abre este artigo. Este domingo o confronto é entre Cotrim Figueiredo e
Marques Mendes, na TVI, que
disputam eleitorado (como todos os restantes, às 21h00). Pode ver o calendário completo
dos debates aqui.
António José Seguro, 12,5 — Catarina
Martins, 11
Alexandra Machado — O debate ficou marcado pelos anos da
troika e António José Seguro teve a difícil tarefa de ter de estar sempre em
defesa. Catarina Martins insiste (falando em coisas da imprensa na altura, mas
sem justificar) na crítica ao socialista por esses tempos e cola-o sempre ao
governo de direita que teve a tarefa de lidar com a ajuda financeira. Seguro
defendeu-se bem, com a responsabilidade. Uma responsabilidade que, diz, é de
Presidente. “Entre a partidarite e o interesse
nacional optei pelo interesse nacional”, declarou Seguro, que lembrou ter lutado pelo país e pela não inscrição
de um limite de défice e dívida na Constituição (“deve-me a mim”) e ainda ligou
Catarina Martins ao Syriza na Grécia, que o Bloco e Catarina tanto elogiaram
para depois assumirem desilusão pelo partido que acabou a cumprir um plano de
austeridade. Catarina Martins
contra-atacou com o governo da geringonça, dizendo que foi essa parceria que
permitiu limpar os anos da troika. Mas também aí Seguro terminou a lembrar à ex-líder do Bloco que foi o seu partido
a dar a machadada final à geringonça. Catarina Martins falou bastante aos socialistas, querendo assumir-se
mais soarista ou até sampaísta do que Seguro. O candidato que já foi líder do PS não consegue convencer que é da
esquerda e a estratégia de Catarina Martins era colocar o seu adversário à
direita e assumir que é ela a candidata dos soaristas ou dos sampaístas.
Soa a falso este posicionamento de Catarina Martins, quase como se fosse do
PS. Seguro ensaiou uns ataques, mas quase pede desculpas por eles. Mas ganhou
pela actuação defensiva. E claro, mais uma vez, pelo tema da NATO. Ficou mal a
Catarina Martins ter desviado o assunto para Gaza.
Filomena Martins — Foi um
debate calmo, maduro e inesperadamente denso entre dois candidatos que disputam o mesmo território: a esquerda.
Um
mais institucional e outra mais de protesto. E aqui Seguro quis
deixar claro que, ao contrário de Catarina Martins, ele não valoriza a forma — valoriza o conteúdo. Essa é a
estratégia dele: apresentar-se como
presidente, não como tribuno e contendor de debates.
Começaram pela justiça fragilizada. Catarina Martins
disse o essencial: um país onde um
primeiro-ministro cai por causa de uma nota mal explicada e onde escutas são
publicadas sem controlo é um país que tem medo da justiça — e esse
medo corrói a democracia. Seguro
alinhou no diagnóstico, mas elevou o registo: recordou que há dois anos se
derrubou um governo por uma frase infeliz e que nada foi esclarecido desde
então. A divergência foi no remédio: Catarina exige explicações imediatas do PGR;
Seguro também as quer mas defende o mandato longo, promete reunião de trabalho
e rejeita interferência presidencial. Ao Parlamento o que é do Parlamento.
O passado surgiu cedo. Catarina tentou associar Seguro à
austeridade e ao apoio à direita na troika; Seguro devolveu com precisão:
“Voltaria a fazer o mesmo” na ‘abstenção violenta’ (no primeiro orçamento do
governo de Passos Coelho) — um acto de coragem, diz ele — num momento dramático
do país. E lembrou dois factos: foi graças a ele que não houve
revisão constitucional e foi ele quem defendeu grandes empresas de Portugal em
Londres, Paris e Berlim. Depois lançou a estocada que mais desconcertou
Catarina: o BE, que apoiou o Syriza que levou a Grécia contra as cordas em
plena austeridade, votou contra dois orçamentos (2021 e 2022), fragilizando a
geringonça de António Costa.
Nunca o disse, mas Seguro não
se esqueceu que foi um governo do PS, de Sócrates, que trouxe a troika pela
terceira vez ao nosso País.
Catarina tentou apropriar-se
da herança de Soares e Sampaio; Seguro respondeu com biografia: foi número dois
de Mário Soares nas europeias, não precisa de reivindicar legados que viveu por
dentro. Nesse duelo, ganhou por pouco — mas ganhou.
No plano internacional, repetiu-se
o contraste clássico: Catarina insistiu no multilateralismo e na dissolução de
blocos militares; Seguro afirmou a fidelidade à Constituição e à NATO como
aliança defensiva, com firmeza perante a Rússia. Trump
pairou, mas não capturou o debate.
Nas prioridades, Seguro apresentou um guião presidencial
claro — saúde no primeiro ano, demografia no segundo — e pediu, pela primeira
vez, uma convergência da esquerda para lhe garantir presença na segunda volta.
Catarina centrou-se na tecnologia, nos jovens e na paz.
Foi um bom debate. Seguro sai com 13,
Catarina com 12. Um ganhou leve vantagem — mas nada ficou resolvido.
Helena Matos — No debate entre
os candidatos presidenciais António José Seguro venceu, mas esse não foi o
debate principal que aconteceu esta noite. Mas já lá iremos. Cingindo-nos
ao debate propriamente dito, Seguro ganhou com a ajuda preciosa do Syriza.
António José Seguro criou um incómodo visível em Catarina Martins
quando lhe lembrou que o BE, à semelhança do grego Syriza, defendia o não
cumprimento dos compromissos assumidos no memorando da troika. E Catarina
acusou o toque. Numa espécie de
reflexo condicionado da esquerda radical quando se vê em apuros, Catarina até
deitou a mão a Gaza mas o dano já estava feito: Seguro fê-la parecer
uma radical irresponsável, percepção que de modo algum lhe é vantajosa
entre o eleitorado em que aposta, o do PS.
E aí chegamos ao que esteve em confronto neste debate e que não foram apenas nem sobretudo as
diferenças entre Catarina Martins e António José Seguro mas sim o futuro do
PS.
Catarina Martins aposta na
capacidade fracturante da ala esquerda do PS. Uma boa parte do BE passou da
fase das causas fracturantes para apostar numa fractura específica: a do PS e esse BE está vivo na candidatura de Catarina
Martins. Aliás a candidata apoiada pelo BE parece cada vez mais
esquecida do Bloco. Falou o tempo todo para a ala esquerda do PS. Referiu Jorge Sampaio, Mário Soares, Isabel Moreira…
(Não sei aliás o que pensará o novo líder bloquista desta quase amnésia de
Catarina Martins em relação ao seu próprio partido mas esse é um detalhe.) O futuro do BE e o do PS podem vir a
cruzar-se e isso é de certeza um factor a ter em conta no redesenhar da
esquerda portuguesa.
Seguro, o
patinho feio dos candidatos, ganhou o debate de hoje. Mas para o PS o problema
é mesmo acontecer um cisne negro.
Luís Rosa — Um debate das presidenciais de 2026 que
se concentra no que aconteceu entre 2012 e 2015 é, em grande medida, um debate
falhado. Porque demonstra que
os candidatos têm contas antigas para ajustar e porque, acima de tudo, não
estão sintonizados com o presente e com as preocupações dos portugueses sobre o
futuro do país. Foram cerca de 20 minutos a falar do tempo da troika por
iniciativa de Catarina Martins, sendo que António José Seguro deixou-se enredar
na teia da adversária e foi duramente atacado com ideias que fazem ressonância
no eleitorado da extrema-esquerda (cada vez mais reduzido, é certo), como a
alegada colaboração de Seguro com o Diabo (para a extrema-esquerda e para uma
boa parte do PS) chamado Pedro Passos Coelho — o homem que, na visão de
Martins, não respeitou a Constituição, permitiu que os ‘estrangeiros’ mandassem
no nosso país e, veja-se, deixou crianças nas escolas públicas a morrerem à
fome na hora do pequeno-almoço. É verdade que isto é pura demagogia e do populismo
mais rasca que há (ao nível do de André Ventura) mas é capaz de convencer algum
eleitorado de esquerda a recusar Seguro, logo a ex-líder do BE marcou os seus
pontos. Seguro também
respondeu bem com o modelo económico do Syriza (de Varoufakis e Tsipras) que
Catarina Martins sempre defendeu — e que levou a Grécia à miséria e a quatro programas
de reajustamento. Mas Martins foi mais lutadora do que Seguro, que
prefere passar uma imagem de moderado, a contra-atacar com assertividade.
Martins também esteve bem com a frase “porque não temos um Jorge Sampaio nestas eleições”. O objectivo
é claro: recentra Martins, que se identifica com um Presidente da República
moderado que uniu a esquerda, e volta a colar Seguro à direita. É muito duvidoso que Isabel Moreira dê
votos a Catarina Martins (ou a qualquer outro candidato) mas Sampaio dá.
Seguro não conseguiu responder bem a esta ideia e só reagiu quando Martins também se tentou colar a Mário Soares — o
líder histórico do PS que se aproximou da extrema-esquerda no final da sua
vida, depois de ter ganho a luta pela liberdade em 74/75 contra o PCP e os
grupúsculos que vieram a dar origem ao BE.
Seguro só marcou pontos na área da
Defesa e da NATO — numa fase do debate em que as
perguntas certeiras da moderadora Clara de Sousa deixaram a nu o radicalismo e
o extremismo das ideias de Catarina Martins. Confrontada
com a saída da NATO com base o artigo da Constituição da República sobre a
dissolução dos blocos político-militares, Martins assumiu a ideia, mas fugiu a
sete pés da mesma, tentando desviar a conversa para Gaza. Percebe-se porquê — porque a
máscara da Catarina Martins moderada cai automaticamente. Seguro marcou os seus pontos facilmente dizendo algo
com que Jorge Sampaio e Mário Soares concordariam a 100%: a NATO é uma aliança
defensiva e a Europa deve ter uma maior autonomia em termos da defesa — mas sem
sair da NATO. Quem é que defenderia os europeus de um eventual
ataque da Rússia de Putin: as pombas da paz de Catarina Martins e das irmãs
Mortágua? Um delírio,
obviamente. Acrescente-se que o artigo sobre os blocos político-militares é um
dos muitos exemplos de letra morta da Constituição que devia ser limpa destas
heranças do tempo revolucionário e da Guerra Fria.
Uma palavra final para a Justiça — o
tema inicial. As minhas notas
são baixas devido precisamente a este tema. Os dois candidatos pensam que os
portugueses são estúpidos — e que não sabem que Vítor Escária, chefe de
gabinete do primeiro-ministro António Costa, tinha 75.8000 euros em envelopes
no espaço que ocupava no Palácio de São Bento. E que Costa conseguiria
continuar como primeiro-ministro depois disso. Estão enganados, como a
degradação eleitoral do PS tem provado.
Como Seguro também erra quando pensa
que consegue unir o PS à volta de uma pressão — porque é isso que está a fazer
— sobre o Ministério Público para arquivar o processo de António Costa.
Catarina Martins, como boa marxista, quer
controlar politicamente a Procuradoria-Geral da República. Eu sei que Seguro não quer e defende o combate à corrupção, mas a sua
estratégia passa uma imagem diferente.
E, já agora, os dois candidatos deveriam estudar mais. Sabem
quantas escutas foram realizadas em 2023? 10.553 escutas. Os dados são oficiais
e a fonte é a procuradora-geral Lucília Gago, que informou o Parlamento em 2024 destes números depois de mais um
alegado escândalo com as escutas do Influencer. Sabem qual é a percentagem do número de inquéritos que têm escutas
telefónicas? 1,5% dos inquéritos. O país está sob vigilância, como Catarina
Martins afirmou à André Ventura? Obviamente que não. Os candidatos também devem
ser avaliados quando faltam à verdade ou fazem demagogia barata.
PRESIDENCIAIS 2026 ELEIÇÕES
POLÍTICA CATARINA MARTINS ANTÓNIO JOSÉ SEGURO PS
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