domingo, 7 de dezembro de 2025

«Tout va bien

 

Qui finit bien». Refiro-me, naturalmente, ao debate entre Seguro e Catarina (I), a que assisti, no conforto do sofá, para logo esquecer, nos desvios para outras artes, mas que revejo nos pormenores - para mais, explicativos - do texto do OBSERVADOR.

 

Entretanto, relativamente a coisas menos somenos, transcrevo a seguinte, também do OBSERVADOR, que mostra o oposto do sentido da frase com que iniciei este texto:

 

II- "Há a possibilidade de EUA traírem a Ucrânia", alerta Macron

«Zelensky deve ser “extremamente cauteloso nos próximos dias”, avisou Merz numa chamada entre líderes europeus, na qual Macron alerta para a possibilidade de Washington estar prestes a trair Kiev.»

«Traição», eis, pois, outra frase das nossas realidades comezinhas, a considerar, por cá, a Oeste, a acrescentar à já sofrida por lá, a Leste, onde “Tout va mal, sauf le Courage et l´Honneur d’un HOMME et d’un PEUPLE” …

 

I -Só estiveram mais ou menos de acordo na questão da Justiça. Depois Catarina Martins quis colar Seguro à direita e colar-se a ela a Soares e Sampaio. Quem é mais de esquerda e ganha mais socialistas?

OBSERVADOR, 06 dez. 2025, 22:51

Como nos últimos dois debates, o tema inicial foi o da Justiça, a propósito da recente revelação das escutas do caso Influencer. E como nos últimos debates, neste ponto, houve acordo. Catarina Martins disse que “Amadeu Guerra fica fragilizado com a publicação de escutas” e declarações que tem feito. António José Seguro foi ainda um pouco mais longe, dizendo que o “Ministério Público tem se vir explicar o que se passa”, e que se chegar a Belém chamará o PGR porque “há perguntas para as quais a democracia tem que ter respostas porque “temos uma Justiça fragilizada”.

A partir deste primeiro momento veio o que mais se esperava deste debate: o posicionamento ideológico dos dois candidatos, com Catarina Martins a tentar ir mais para o centro, chamando para si os socialistas mais à esquerda. A bloquista não só nomeou várias vezes Jorge Sampaio e Mário Soares como seus aliados, como tentou colar Seguro à direita, lembrando a sua “abstenção violenta” no OE da troika de Passos. Foram dez minutos a discutir o que se passou há 13 anos. Catarina questionou Seguro sobre a sua relação com a esquerda, dizendo-lhe mesmo que “não quer ser o candidato da esquerda”. Seguro respondeu já de forma acesa, frisando que este “é um argumento artificial de campanha” e que “não cola”.

Depois, o ex-líder do PS assumiu que se absteve no OE de 2012 por “convicção”, já que “a maioria de direita não precisava da abstenção da esquerda”, lembrou que não fez “parte dos governos de José Sócrates”, que “não discutiu o memorando” da troika, mas que “teve de honrar a palavra”. E acusou Catarina Martins de ter na altura como modelo económico o do Syriza na Grécia: “O que isso deu foi mais sofrimentos, menos pensões, menos salários e mais sofrimento ao povo grego”.

Catarina Martins acusou ainda Seguro de ter negociado a entrada do PS no Governo de Passos Coelho. Ele negou e falou apenas na iniciativa de Cavaco para um acordo de salvação nacional, acusando o BE de não ter querido entrar na procura de uma solução: “A Catarina preferiu ficar no protesto”. A antiga líder do BE contestou e disse que enquanto Seguro cortava o subsídio de férias e de Natal, ela “estava a lutar para os repor, estava na Aula Magna com Mário Soares a defender a Constituição”. “Não é justo tentar colar-me a esse Governo” de Passos, queixou-se ainda Seguro.

Quando finalmente Clara de Sousa conseguiu mudar de tema, sobrava pouco tempo para falarem de modelos económicos e de política internacional. A NATO ainda os colocou novamente em confronto: “Seguro garantiu que será fiel à Constituição”, defendendo que a “Europa deve aumentar a autonomia estratégica na defesa, mas não deve sair da NATO”; Catarina Martins, depois de um protesto contra Israel, questionou como é que “a NATO é a garantia da nossa segurança, quando quem manda na NATO é Donald Trump”.

Com direito à última intervenção, Seguro acabou a pedir voto útil “para que não se acabe com dois candidatos de direita na segunda volta”.

Um painel de avaliadores do Observador dá notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos 28 debates televisivos para as eleições presidenciais e um texto de avaliação ao próprio confronto. A média vai surgindo a cada dia de debates, no gráfico inicial, que abre este artigo. Este domingo o confronto é entre Cotrim Figueiredo e Marques Mendes, na TVI, que disputam eleitorado (como todos os restantes, às 21h00). Pode ver o calendário completo dos debates aqui.

António José Seguro, 12,5 — Catarina Martins, 11

Alexandra Machado — O debate ficou marcado pelos anos da troika e António José Seguro teve a difícil tarefa de ter de estar sempre em defesa. Catarina Martins insiste (falando em coisas da imprensa na altura, mas sem justificar) na crítica ao socialista por esses tempos e cola-o sempre ao governo de direita que teve a tarefa de lidar com a ajuda financeira. Seguro defendeu-se bem, com a responsabilidade. Uma responsabilidade que, diz, é de Presidente. “Entre a partidarite e o interesse nacional optei pelo interesse nacional”, declarou Seguro, que lembrou ter lutado pelo país e pela não inscrição de um limite de défice e dívida na Constituição (“deve-me a mim”) e ainda ligou Catarina Martins ao Syriza na Grécia, que o Bloco e Catarina tanto elogiaram para depois assumirem desilusão pelo partido que acabou a cumprir um plano de austeridade. Catarina Martins contra-atacou com o governo da geringonça, dizendo que foi essa parceria que permitiu limpar os anos da troika. Mas também aí Seguro terminou a lembrar à ex-líder do Bloco que foi o seu partido a dar a machadada final à geringonça. Catarina Martins falou bastante aos socialistas, querendo assumir-se mais soarista ou até sampaísta do que Seguro. O candidato que já foi líder do PS não consegue convencer que é da esquerda e a estratégia de Catarina Martins era colocar o seu adversário à direita e assumir que é ela a candidata dos soaristas ou dos sampaístas. Soa a falso este posicionamento de Catarina Martins, quase como se fosse do PS. Seguro ensaiou uns ataques, mas quase pede desculpas por eles. Mas ganhou pela actuação defensiva. E claro, mais uma vez, pelo tema da NATO. Ficou mal a Catarina Martins ter desviado o assunto para Gaza.

Filomena Martins — Foi um debate calmo, maduro e inesperadamente denso entre dois candidatos que disputam o mesmo território: a esquerda. Um mais institucional e outra mais de protesto. E aqui Seguro quis deixar claro que, ao contrário de Catarina Martins, ele não valoriza a forma — valoriza o conteúdo. Essa é a estratégia dele: apresentar-se como presidente, não como tribuno e contendor de debates.

Começaram pela justiça fragilizada. Catarina Martins disse o essencial: um país onde um primeiro-ministro cai por causa de uma nota mal explicada e onde escutas são publicadas sem controlo é um país que tem medo da justiçae esse medo corrói a democracia. Seguro alinhou no diagnóstico, mas elevou o registo: recordou que há dois anos se derrubou um governo por uma frase infeliz e que nada foi esclarecido desde então. A divergência foi no remédio: Catarina exige explicações imediatas do PGR; Seguro também as quer mas defende o mandato longo, promete reunião de trabalho e rejeita interferência presidencial. Ao Parlamento o que é do Parlamento.

O passado surgiu cedo. Catarina tentou associar Seguro à austeridade e ao apoio à direita na troika; Seguro devolveu com precisão: “Voltaria a fazer o mesmo” na ‘abstenção violenta’ (no primeiro orçamento do governo de Passos Coelho) — um acto de coragem, diz ele — num momento dramático do país. E lembrou dois factos: foi graças a ele que não houve revisão constitucional e foi ele quem defendeu grandes empresas de Portugal em Londres, Paris e Berlim. Depois lançou a estocada que mais desconcertou Catarina: o BE, que apoiou o Syriza que levou a Grécia contra as cordas em plena austeridade, votou contra dois orçamentos (2021 e 2022), fragilizando a geringonça de António Costa.

Nunca o disse, mas Seguro não se esqueceu que foi um governo do PS, de Sócrates, que trouxe a troika pela terceira vez ao nosso País.

Catarina tentou apropriar-se da herança de Soares e Sampaio; Seguro respondeu com biografia: foi número dois de Mário Soares nas europeias, não precisa de reivindicar legados que viveu por dentro. Nesse duelo, ganhou por pouco — mas ganhou.

No plano internacional, repetiu-se o contraste clássico: Catarina insistiu no multilateralismo e na dissolução de blocos militares; Seguro afirmou a fidelidade à Constituição e à NATO como aliança defensiva, com firmeza perante a Rússia. Trump pairou, mas não capturou o debate.

Nas prioridades, Seguro apresentou um guião presidencial claro — saúde no primeiro ano, demografia no segundo — e pediu, pela primeira vez, uma convergência da esquerda para lhe garantir presença na segunda volta. Catarina centrou-se na tecnologia, nos jovens e na paz.

Foi um bom debate. Seguro sai com 13, Catarina com 12. Um ganhou leve vantagem — mas nada ficou resolvido.

Helena Matos — No debate entre os candidatos presidenciais António José Seguro venceu, mas esse não foi o debate principal que aconteceu esta noite. Mas já lá iremos. Cingindo-nos ao debate propriamente dito, Seguro ganhou com a ajuda preciosa do Syriza. António José Seguro criou um incómodo visível em Catarina Martins quando lhe lembrou que o BE, à semelhança do grego Syriza, defendia o não cumprimento dos compromissos assumidos no memorando da troika. E Catarina acusou o toque. Numa espécie de reflexo condicionado da esquerda radical quando se vê em apuros, Catarina até deitou a mão a Gaza mas o dano já estava feito: Seguro fê-la parecer uma radical irresponsável, percepção que de modo algum lhe é vantajosa entre o eleitorado em que aposta, o do PS.

E aí chegamos ao que esteve em confronto neste debate e que não foram apenas nem sobretudo as diferenças entre Catarina Martins e António José Seguro mas sim o futuro do PS.

Catarina Martins aposta na capacidade fracturante da ala esquerda do PS. Uma boa parte do BE passou da fase das causas fracturantes para apostar numa fractura específica: a do PS e esse BE está vivo na candidatura de Catarina Martins. Aliás a  candidata apoiada pelo BE parece cada vez mais esquecida do Bloco. Falou o tempo todo para a ala esquerda do PS. Referiu Jorge Sampaio, Mário Soares, Isabel Moreira… (Não sei aliás o que pensará o novo líder bloquista desta quase amnésia de Catarina Martins em relação ao seu próprio partido mas esse é um detalhe.) O futuro do BE e o do PS podem vir a cruzar-se e isso é de certeza um factor a ter em conta no redesenhar da esquerda portuguesa.

Seguro, o patinho feio dos candidatos, ganhou o debate de hoje. Mas para o PS o problema é mesmo acontecer um cisne negro.

Luís Rosa — Um debate das presidenciais de 2026 que se concentra no que aconteceu entre 2012 e 2015 é, em grande medida, um debate falhado. Porque demonstra que os candidatos têm contas antigas para ajustar e porque, acima de tudo, não estão sintonizados com o presente e com as preocupações dos portugueses sobre o futuro do país. Foram cerca de 20 minutos a falar do tempo da troika por iniciativa de Catarina Martins, sendo que António José Seguro deixou-se enredar na teia da adversária e foi duramente atacado com ideias que fazem ressonância no eleitorado da extrema-esquerda (cada vez mais reduzido, é certo), como a alegada colaboração de Seguro com o Diabo (para a extrema-esquerda e para uma boa parte do PS) chamado Pedro Passos Coelho — o homem que, na visão de Martins, não respeitou a Constituição, permitiu que os ‘estrangeiros’ mandassem no nosso país e, veja-se, deixou crianças nas escolas públicas a morrerem à fome na hora do pequeno-almoço. É verdade que isto é pura demagogia e do populismo mais rasca que há (ao nível do de André Ventura) mas é capaz de convencer algum eleitorado de esquerda a recusar Seguro, logo a ex-líder do BE marcou os seus pontos. Seguro também respondeu bem com o modelo económico do Syriza (de Varoufakis e Tsipras) que Catarina Martins sempre defendeu — e que levou a Grécia à miséria e a quatro programas de reajustamento. Mas Martins foi mais lutadora do que Seguro, que prefere passar uma imagem de moderado, a contra-atacar com assertividade.

Martins também esteve bem com a frase “porque não temos um Jorge Sampaio nestas eleições”. O objectivo é claro: recentra Martins, que se identifica com um Presidente da República moderado que uniu a esquerda, e volta a colar Seguro à direita. É muito duvidoso que Isabel Moreira dê votos a Catarina Martins (ou a qualquer outro candidato) mas Sampaio dá. Seguro não conseguiu responder bem a esta ideia e só reagiu quando Martins também se tentou colar a Mário Soares — o líder histórico do PS que se aproximou da extrema-esquerda no final da sua vida, depois de ter ganho a luta pela liberdade em 74/75 contra o PCP e os grupúsculos que vieram a dar origem ao BE.

Seguro só marcou pontos na área da Defesa e da NATO — numa fase do debate em que as perguntas certeiras da moderadora Clara de Sousa deixaram a nu o radicalismo e o extremismo das ideias de Catarina Martins. Confrontada com a saída da NATO com base o artigo da Constituição da República sobre a dissolução dos blocos político-militares, Martins assumiu a ideia, mas fugiu a sete pés da mesma, tentando desviar a conversa para Gaza. Percebe-se porquê — porque a máscara da Catarina Martins moderada cai automaticamente. Seguro marcou os seus pontos facilmente dizendo algo com que Jorge Sampaio e Mário Soares concordariam a 100%: a NATO é uma aliança defensiva e a Europa deve ter uma maior autonomia em termos da defesa — mas sem sair da NATO. Quem é que defenderia os europeus de um eventual ataque da Rússia de Putin: as pombas da paz de Catarina Martins e das irmãs Mortágua? Um delírio, obviamente. Acrescente-se que o artigo sobre os blocos político-militares é um dos muitos exemplos de letra morta da Constituição que devia ser limpa destas heranças do tempo revolucionário e da Guerra Fria.

Uma palavra final para a Justiça o tema inicial. As minhas notas são baixas devido precisamente a este tema. Os dois candidatos pensam que os portugueses são estúpidos — e que não sabem que Vítor Escária, chefe de gabinete do primeiro-ministro António Costa, tinha 75.8000 euros em envelopes no espaço que ocupava no Palácio de São Bento. E que Costa conseguiria continuar como primeiro-ministro depois disso. Estão enganados, como a degradação eleitoral do PS tem provado.

Como Seguro também erra quando pensa que consegue unir o PS à volta de uma pressão — porque é isso que está a fazer — sobre o Ministério Público para arquivar o processo de António Costa. Catarina Martins, como boa marxista, quer controlar politicamente a Procuradoria-Geral da República. Eu sei que Seguro não quer e defende o combate à corrupção, mas a sua estratégia passa uma imagem diferente.

E, já agora, os dois candidatos deveriam estudar mais. Sabem quantas escutas foram realizadas em 2023? 10.553 escutas. Os dados são oficiais e a fonte é a procuradora-geral Lucília Gago, que informou o Parlamento em 2024 destes números depois de mais um alegado escândalo com as escutas do Influencer. Sabem qual é a percentagem do número de inquéritos que têm escutas telefónicas? 1,5% dos inquéritos. O país está sob vigilância, como Catarina Martins afirmou à André Ventura? Obviamente que não. Os candidatos também devem ser avaliados quando faltam à verdade ou fazem demagogia barata.

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