terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Pessimismo


Na questão da relação entre a Europa e a América. É coisa antiga, a mudança nas prioridades. A América manda, juntamente com a Rússia. Já mandaram antes. E o mundo deu uma volta. Só mais uma, por agora. As voltas são para se dar, sempre foi assim, tanto do linho como do vira, e presentemente da Europa, uma, duas, três do agrado do Trump, ao que consta e o texto explica. Do Putin também, que dá o seu contributo para a mudança. Com gosto e poder, temos assistido, no espanto já antigo.

Trump, um murro no estômago e a fatal apatia da velha Europa

A nova estratégia de segurança dos EUA representa um choque que não pode deixar ninguém indiferente, sobretudo porque põe o dedo em muitas das feridas que explicam a impotência e decadência da Europa.

JOSÉ MANUEL FERNANDES Publisher e colunista do Observador

OBSERVADOR, 08 dez. 2025, 00:20140

A Europa tem um problema. E cito: “A Europa tem perdido quota do PIB global – desceu de 25 por cento em 1990 para 14 por cento actualmente – em parte devido a regulações nacionais e transnacionais que prejudicam a criatividade e o empreendedorismo”.

Ou melhor: a Europa tem dois problemas. A frase que citei não consta de nenhum relatório europeu, nem sequer de um qualquer documento comunitário que, na sequência do famoso relatório sobre competitividade europeia de Mario Draghi, defenda a eliminação do excesso de leis e regulamentos que atrapalham, quando não inibem, o investimento da Europa.

Ou para ser ainda mais exacto, a Europa tem três problemas, pois a frase que citei integra um documento já proscrito pelas elites europeias: o NSS (National Security Strategy), isto é, o documento oficial da administração dos Estados Unidos onde se definem as prioridades de segurança estratégica do país.

Sejamos francos: este é de facto um documento francamente desagradável para as elites europeias pois é um texto que coloca preto no branco prioridades políticas que há muito eram conhecidas nos Estados Unidoshá várias administrações, e especialmente desde a administração Obama, que Washington dá mais atenção ao que se passa no Pacífico do que à sua frente atlântica –, prioridades que fingíamos ignorar. Com outros presidentes, a lenta mas progressiva separação de caminhos foi sendo disfarçada por uma diplomacia delicodoce; com Trump o que agora lemos – e vale a pena ler o documento na íntegra – chega sem rodriguinhos. Eu diria mesmo que chega como um murro no estômago.

Notemos algumas das passagens mais polémicas (traduções minhas):

“O declínio económico da Europa é eclipsado pelo cenário ainda mais grave de um retrocesso civilizacional”. Porquê? Porque os países europeus têm sacrificado a sua “liberdade política e soberania” a favor de organismos transnacionais, porque as suas “políticas de imigração estão a transformar o continente e a criar conflitos”, porque “as taxas de natalidade entraram em colapso” e porque se regista uma “perda de identidades nacionais e de autoconfiança”.

Qual é o problema deste diagnóstico? É que ele coloca o dedo em muitas das feridas hoje abertas, e bem abertas, na Europa. E o que é que é grave neste diagnóstico? É que, acrescenta o documento, “se estas tendências se mantiverem, o continente estará irreconhecível dentro de 20 anos ou mesmo menos”. E se isso acontecer nessa altura deixa “de ser óbvio que certos países europeus tenham economias e poder militar suficientemente fortes para permanecerem aliados fiáveis” dos Estados Unidos. Mais adiante acrescenta-se mesmo que, pelo caminho que estão a seguir, alguns países europeus podem deixar de ter populações maioritariamente europeias, o que deverá levar os Estados Unidos a interrogarem-se sobre se fará sentido que continuem a integrar a NATO.

É fácil responder, como alguns já responderam, que assumir essa perspectiva é equivalente a subscrever a teoria conspiratória (e de extrema-direita) da “grande substituição”, mas isso é atirar areia para os nossos olhos – o facto de as mudanças demográficas na Europa não derivarem de qualquer plano maquiavélico não significa que não estejam a acontecer (como de resto assinalei no meu último artigo), e a acontecer a ritmo acelerado.

Mas o que porventura mais determina a clareza deste documento da administração americana é a sua irritação com aquilo que consideram ser a duplicidade da Europa – em primeiro lugar da Europa simultaneamente grandiloquente e incoerente naquilo que diz respeito à guerra que se trava na sua margem oriental, nas trincheiras da Ucrânia. O documento recorre mesmo a um exemplo concreto: há conglomerados industriais químicos alemães que estão a construir na China algumas das maiores fábricas do mundo, e estão a fazê-lo usando o gás russo que já não podem usar na Alemanha. Ou seja, estão elas mesmas a iludir as sanções ao mesmo tempo que fortalecem uma China que os Estados Unidos vÊem como seu principal adversário estratégico. Comportar-se desta forma não é propriamente aquilo que se espera de um país aliado, pelo que Washington está apenas a dizer preto no branco — e aos gritos — o que antes apenas se sussurrava nos gabinetes.

Mais, e também muito elucidativo. Esta semana, Christopher Landau, vice-secretário de Estado dos Estados Unidos, divulgou no Twitter um gráfico onde compara o dinheiro que os países europeus canalizaram para a Ucrânia desde que a guerra começou e aquele que continuaram a pagar à Rússia pelo gás que ainda não deixaram de importar. É um gráfico revelador:(…).

E não se pense que Portugal, que não figura neste quadro e é o país mais distante da Rússia, escapa ileso: ainda esta semana O nosso primeiro-ministro admitiu no Parlamento que só “muito brevemente” Portugal se tornará independente de importações de gás russo. Ou seja, também nós andámos a financiar, mesmo que pouco, o esforço de guerra russo nestes últimos três anos e meio. É de ficar corado de vergonha – ou de raiva.

Voltando ao documento americano, ao famoso NSS 2025, (NSS - New Sign Solutions - Empresa de electrónicos) não há dúvida que nele se assume um claro distanciamento relativamente à Europa, mas não uma ruptura ao contrário do que alguns sugeriram. O documento também considera que “a Europa permanece estratégica e culturalmente vital para os Estados Unidos”, acrescentando que “não só não podemos prescindir da Europa, como fazê-lo seria contraproducente para os nossos objectivos estratégicos”.

Só que, claramente, Washington deseja não só uma Europa que invista o necessário na sua defesa – recorda-se a meta dos 5% do PIB estabelecida na recente cimeira da NATO –, como deseja uma Europa que lhe seja culturalmente mais próxima, ou mais próxima do que representa a Administração Trump e o movimento MAGA. É por isso que também se escreve que o objectivo dos EUA “deve ser ajudar a Europa a corrigir a sua trajetória actual”.

Ora é precisamente aqui que a porca torce o rabo. Washington quer uma Europa com orgulho na sua civilização e na sua história – leia-se: uma Europa não woke – e quer também uma Europa com menos barreiras regulatórias – leia-se: menos hostil quer ao investimento, quer às grandes tecnológicas americanas, e também com mais capacidade de criar as suas próprias tecnológicas (o atraso europeu na Inteligência Artificial é arrepiante, porventura mesmo irreversível).

É também aqui que julgo que há duas formas de olhar para este documento. Uma é fecharmo-nos nas trincheiras europeias, na esperança de que Trump saia da Casa Branca e a ela regresse alguém que dificilmente regressará (um líder mais virado para o Atlântico e menos focado no Pacífico). É o caminho advogado por todos os que, nomeadamente em Bruxelas, já falam de dificultar qualquer apoio da Casa Branca aos que Trump designa como “partidos patrióticos” e na Europa se cataloga logo como sendo de extrema-direita – e como há várias eleições cruciais à porta, compreende-se a aflição destes “homens das trincheiras”. (Pequena nota: houve partidos europeus que ajudaram nas presidenciais de 2024 Kamala Harris, mas aparentemente nestes casos não se aplica o princípio da reciprocidade.)

A outra é admitir que, por mais que nos cause arrepios a linguagem e os modos da Administração Trump — e a mim causa verdadeira pele de galinha –, os cenários de decadência e irrelevância são cada vez mais fortes na Europa, tal como é cada vez mais difícil tomar decisões consequentes num continente onde os graus de soberania se sobrepõem e anulam e onde os eleitorados estão descontentes (para perceber melhor essa evolução e o seu enquadramento histórico recomendo a leitura do ensaio de Vítor Bento sobre democracia e populismos que também hoje publicamos no Observador).

Por fim é mesmo necessário regressar ao debate sobre o que é realmente este mundo em que vivemos, um mundo que já não é, de forma alguma, o mundo do “fim da História” e do triunfo inelutável das democracias liberais e da economia de mercado. Até há pouco tempo acreditámos, ou fingimos acreditar, que a chamada “ordem internacional” do pós-guerra era um adquirido, ao mesmo tempo que teorizava sobre como a “terceira vaga democrática” iniciada com a revolução portuguesa de 1974 acabaria por tocar todo o mundo. Nesse tempo chegou a ver-se o papel dos Estados Unidos como sendo, ao mesmo tempo, o de polícia do mundo e o de grande promotor das democracias liberais, porventura até as impondo pela força.

Talvez seja altura de perceber que essa ilusão era bonita mas acabou, e que voltaremos a um mundo de equilíbrios de poder, sendo que historicamente o equilíbrio de poderes sempre foi um dos melhores antídotos contra guerras de agressão. A NSS recupera essa visão e creio que temos de ser menos idealistas e perceber se queremos ou não fazer parte dela, até porque nos deixámos enfraquecer tanto que mal podemos equilibrar o poder com quem quer que seja.

Nesse debate haverá muito a ter em conta e porventura um dos contrastes mais estimulantes é o de saber se nos continuamos a sentir unidos aos Estados Unidos por fazermos parte de uma mesma civilização ocidental sedimentada ao longo de milénios – parece ser essa a abordagem estratégica americana – ou se devemos continuar a defender a ideia de que aquilo que nos une é a missão da promoção da democracia liberal, aquém e além fronteiras. A minha amiga Teresa de Sousa está desolada por a administração Trump ter recuperado o tema da civilização que partilhamos e até acha que agora a América tem um novo inimigo que é a Europa. Eu creio contrariamente que é porventura aí, à civilização e aos valores culturais que partilhamos, que temos de regressar se queremos manter as referências que tornaram possíveis as sociedades em que gostamos de viver.

O debate prosseguirá em próximos capítulos.

EUROPA       MUNDO       ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA       AMÉRICA       PRESIDENTE TRUMP

COMENTÁRIOS

Português de bem: Trump e os EUA têm toda a razão. Mais: o estado de negação a que alguns de nós chegam só encontra paralelo nos que defendem que homens também engravidam. Sim, a UE está decadente, principalmente no aspecto social e cultural. O mais grave disto é que os culpados são os que foram eleitos para nos proteger e zelar pelos nossos interesses. Costumo afirmar que isto tem de ser propositado, não consigo acreditar que os países da UE defendam todos a mesma coisa, seja quem for eleito, a não ser que isto faça parte de um qualquer plano para destruir a europa das nações para ser uma europa dos estados unidos da europa (minúsculas propositadas). Mas, para isso, têm de fazer o que têm vindo a fazer há tempos: a constante retirada de soberania e independência aos países, a destruição social e cultural, pouco a pouco, ano após ano. Qual o objectivo? Que as pessoas das gerações seguintes não sintam o apego pela sua Pátria e que já nada as separe ou diferencie de um qualquer cidadão do Paquistão que venha para cá morar. A melhor prova disso? O fim das festas de Natal, os mercados de Natal com barreiras para evitar ataques com viaturas, etc.          Manuel Magalhaes Há que assumir, a Europa tem sido dirigida por gente fantasiosa, para não dizer idiota, e dominada por um esquerdismo complexado e doentio que nos tem conduzido a esta situação,  que, quer queiramos quer não, já é dramática. Há que reconhecer que a fábula do “Rei vai nu” se aplica como uma luva a esta Europa que se tornou ridículo exemplo, a burocracia e a falta de identidade é o Partido Socialista Dois (PSD): O sr. Luís Montenegro entendeu que o sr. António Costa, depois de 8 anos a destruir Portugal, tinha o perfil para servir a Europa; O sr. Marques Mendes entendeu que o sr. Dino de Santiago que quer reescrever o Hino e os Lusíadas têm qualidade para representar a cultura portuguesa.                     Rui Lima: A Europa passou décadas concentrada na construção de um Estado Social XXL, tão grande e tão generoso que, em certos países, parece que até o sofá recebe subsídio de desemprego.  Entre prestações, apoios, programas, subprogramas, incentivos e “direitos adquiridos”, alguns Estados chegam a gastar cerca de 35% do PIB apenas em protecção social . Entretanto , aquilo que deveria ser o pilar mais básico de qualquer nação moderna — defesa e segurança — foi sendo deixado para segundo plano ou seja tudo para o social a caça de votos defesa não dava votos. É neste contexto que surge a ligação entre o modelo social europeu e os fluxos migratórios. O Estado Social atrai imigração por duas vias: Atracção directa, porque em várias regiões de África tornou-se comum a ideia de que “na Europa vive-se sem trabalhar”. Eu próprio assisti a conversas desse género — e não as relato em detalhe para limitar o comentário. Faltam trabalhadores e o modelo cria gente que não trabalha,  por isso dizem que são precisos imigrantes que chegam e compreendem o sistema e fazem o mesmo quando têm os direitos. Isso dá grande  massa de pessoas dependentes . Os números oficiais do desemprego não captam esta realidade, o único indicador realmente válido é saber quantos, entre cada 100 pessoas em idade activa, trabalham de facto. A imigração económica,  aqueles que entram para trabalhar ronda os 20% já foi pior a minoria; a maioria chega por outros motivos (familiar, humanitário, estudantil, vida melhor sustentadas pelo sistema social, saúde protecção e aqui vale tudo). No pós-guerra, a Europa reconstruiu-se com a força de trabalho essencialmente europeia: portugueses, espanhóis, italianos, gregos,…Havia minas, fábricas, grandes obras, e eram sobretudo europeus . Nos anos 80: encerram-se minas,  as fábricas, as grandes obras  estão feitas,  surgem políticas de rendimentos mínimos garantidos e novas redes de apoios sociais, é  precisamente nessa época que começa o povoamento de povos do 3.º mundo, não motivada pelo trabalho um modelo assistencialista que chama todie isto não deixa dinheiro para a defesa. Trump põe o dedo na ferida da Europa .             

Nenhum comentário: