Na questão da relação entre a Europa e a
América. É coisa antiga, a mudança nas prioridades. A América manda, juntamente
com a Rússia. Já mandaram antes. E o mundo deu uma volta. Só mais uma, por
agora. As voltas são para se dar, sempre foi assim, tanto do linho como do
vira, e presentemente da Europa, uma, duas, três do agrado do Trump, ao que
consta e o texto explica. Do Putin também, que dá o seu contributo para a mudança.
Com gosto e poder, temos assistido, no espanto já antigo.
Trump, um murro no estômago e a fatal
apatia da velha Europa
A
nova estratégia de segurança dos EUA representa um choque que
não pode deixar ninguém indiferente, sobretudo porque põe o dedo em muitas das
feridas que explicam a impotência e decadência da Europa.
JOSÉ MANUEL
FERNANDES Publisher e colunista do Observador
OBSERVADOR, 08
dez. 2025, 00:20140
A Europa tem um problema.
E cito: “A Europa tem perdido quota do
PIB global – desceu de 25 por cento em 1990 para 14 por cento actualmente – em
parte devido a regulações nacionais e transnacionais que prejudicam a
criatividade e o empreendedorismo”.
Ou melhor: a Europa tem dois problemas. A frase que
citei não consta de nenhum relatório europeu, nem sequer de um qualquer
documento comunitário que, na sequência do famoso relatório
sobre competitividade europeia de Mario
Draghi,
defenda a eliminação do excesso de leis e regulamentos que
atrapalham, quando não inibem, o investimento da Europa.
Ou para ser ainda mais exacto, a
Europa tem três problemas, pois a frase que citei integra um documento já proscrito pelas elites
europeias: o NSS
(National Security Strategy), isto
é, o documento oficial da administração dos Estados Unidos onde se definem
as prioridades de segurança estratégica do país.
Sejamos francos: este é de facto um documento francamente desagradável
para as elites europeias pois é um texto que coloca preto no branco prioridades
políticas que há muito eram conhecidas nos Estados Unidos – há várias administrações, e
especialmente desde a administração
Obama, que Washington dá mais atenção ao que
se passa no Pacífico do que à sua frente atlântica –, prioridades
que fingíamos ignorar. Com outros
presidentes, a lenta mas progressiva separação de caminhos foi sendo disfarçada
por uma diplomacia delicodoce; com Trump o que agora lemos – e vale a pena ler o
documento na íntegra –
chega sem rodriguinhos. Eu diria mesmo que chega como um murro no estômago.
Notemos algumas das passagens mais
polémicas (traduções
minhas):
“O declínio económico da Europa é
eclipsado pelo cenário ainda mais grave de um retrocesso civilizacional”.
Porquê? Porque
os países europeus têm sacrificado a sua “liberdade política e soberania” a
favor de organismos transnacionais, porque as suas “políticas de imigração
estão a transformar o continente e a criar conflitos”, porque “as taxas de
natalidade entraram em colapso” e porque se regista uma “perda de identidades
nacionais e de autoconfiança”.
Qual é o problema deste
diagnóstico? É que ele coloca o dedo em muitas das feridas hoje abertas,
e bem abertas, na Europa. E o
que é que é grave neste diagnóstico? É
que, acrescenta o documento, “se
estas tendências se mantiverem, o continente estará irreconhecível dentro de 20
anos ou mesmo menos”. E se isso acontecer nessa altura deixa “de ser óbvio que certos países
europeus tenham economias e poder militar suficientemente fortes para
permanecerem aliados fiáveis” dos Estados Unidos. Mais
adiante acrescenta-se mesmo que, pelo caminho que estão a seguir, alguns países
europeus podem deixar de ter populações maioritariamente europeias, o que
deverá levar os Estados Unidos a interrogarem-se sobre se fará sentido que
continuem a integrar a NATO.
É fácil responder, como alguns já responderam, que assumir essa perspectiva é equivalente a subscrever a
teoria conspiratória (e de extrema-direita) da “grande substituição”, mas isso
é atirar areia para os nossos olhos – o facto de as mudanças demográficas na
Europa não derivarem de qualquer plano maquiavélico não significa que não
estejam a acontecer (como de resto assinalei no meu
último artigo), e a
acontecer a ritmo acelerado.
Mas o que porventura mais determina a clareza deste documento da
administração americana é a sua
irritação com aquilo que consideram ser a duplicidade da Europa – em primeiro
lugar da Europa simultaneamente grandiloquente e incoerente naquilo que diz
respeito à guerra que se trava na sua margem oriental, nas trincheiras da Ucrânia.
O documento recorre mesmo a um exemplo concreto: há
conglomerados industriais químicos alemães que estão a construir na China
algumas das maiores fábricas do mundo, e estão a fazê-lo usando o gás russo que
já não podem usar na Alemanha. Ou seja, estão elas mesmas a iludir as sanções
ao mesmo tempo que fortalecem uma China que os Estados Unidos vÊem como seu
principal adversário estratégico. Comportar-se desta forma não é
propriamente aquilo que se espera de um país aliado, pelo que Washington está apenas a dizer preto no branco — e aos
gritos — o que antes apenas se sussurrava nos gabinetes.
Mais, e também muito elucidativo.
Esta semana, Christopher Landau, vice-secretário de Estado dos Estados
Unidos, divulgou no Twitter um gráfico onde compara o
dinheiro que os países europeus canalizaram para a Ucrânia desde que a guerra
começou e aquele que continuaram a pagar à Rússia pelo gás que ainda não
deixaram de importar. É um gráfico revelador:(…).
E não se pense que Portugal, que não figura neste quadro e é o
país mais distante da Rússia, escapa ileso: ainda esta semana O nosso
primeiro-ministro admitiu no Parlamento que
só “muito
brevemente” Portugal
se tornará independente de importações de gás russo. Ou seja, também nós andámos a
financiar, mesmo que pouco, o esforço de guerra russo nestes últimos três anos
e meio. É de ficar corado de vergonha – ou de
raiva.
Voltando ao documento americano,
ao famoso
NSS 2025, (NSS - New Sign
Solutions - Empresa de electrónicos) não
há dúvida que nele se assume um claro distanciamento relativamente à Europa, mas não uma ruptura ao contrário do que alguns sugeriram. O documento também
considera que “a Europa permanece estratégica e culturalmente vital
para os Estados Unidos”, acrescentando que “não só não podemos prescindir da
Europa, como fazê-lo seria contraproducente para os nossos objectivos
estratégicos”.
Só que, claramente, Washington
deseja não só uma Europa que invista o necessário na sua defesa – recorda-se a
meta dos 5% do PIB estabelecida na recente cimeira da NATO –, como deseja uma
Europa que lhe seja culturalmente mais próxima, ou mais próxima do que
representa a Administração Trump e o movimento MAGA. É por isso que
também se escreve que o objectivo dos EUA “deve ser ajudar a Europa a corrigir
a sua trajetória actual”.
Ora é precisamente aqui que a porca
torce o rabo. Washington
quer uma Europa com orgulho na sua civilização e na sua história – leia-se: uma
Europa não woke – e quer também uma Europa com menos barreiras regulatórias –
leia-se: menos hostil quer ao investimento, quer às grandes tecnológicas
americanas, e também com mais capacidade de criar as suas próprias tecnológicas
(o atraso europeu na Inteligência Artificial é arrepiante, porventura
mesmo irreversível).
É também aqui que julgo que há duas formas de olhar para este
documento. Uma é fecharmo-nos nas trincheiras
europeias, na esperança de que Trump saia da Casa Branca e a ela regresse
alguém que dificilmente regressará (um líder mais virado para o Atlântico e
menos focado no Pacífico). É
o caminho advogado por todos os que, nomeadamente em Bruxelas, já falam de
dificultar qualquer apoio da Casa Branca aos que Trump designa como “partidos
patrióticos” e na Europa se cataloga logo como sendo de extrema-direita – e
como há várias eleições cruciais à porta, compreende-se a aflição destes
“homens das trincheiras”. (Pequena nota: houve partidos europeus que ajudaram
nas presidenciais de 2024 Kamala
Harris, mas aparentemente nestes casos não se aplica o princípio da
reciprocidade.)
A outra é admitir que, por mais que nos cause
arrepios a linguagem e os modos da Administração Trump — e a mim causa
verdadeira pele de galinha –, os cenários de decadência e irrelevância são cada vez
mais fortes na Europa, tal como é cada vez mais difícil tomar decisões
consequentes num continente onde os graus de soberania se sobrepõem e anulam e
onde os eleitorados estão descontentes (para perceber melhor essa evolução e o seu enquadramento histórico
recomendo a leitura do ensaio de Vítor Bento sobre democracia e populismos que também hoje publicamos no
Observador).
Por fim é mesmo necessário
regressar ao debate sobre o que é realmente este mundo em que vivemos, um mundo
que já não é, de forma alguma, o mundo do “fim da História” e do triunfo
inelutável das democracias liberais e da economia de
mercado. Até há pouco tempo acreditámos, ou fingimos
acreditar, que a chamada “ordem internacional” do pós-guerra era um
adquirido, ao mesmo tempo que teorizava sobre como a “terceira vaga democrática” iniciada com a revolução
portuguesa de 1974 acabaria por tocar todo o mundo. Nesse tempo chegou
a ver-se o papel dos Estados Unidos como sendo, ao mesmo tempo, o de polícia
do mundo e o de grande promotor das democracias liberais, porventura até as impondo
pela força.
Talvez seja altura de perceber que essa ilusão era bonita mas acabou,
e que voltaremos a um mundo de
equilíbrios de poder, sendo que historicamente o equilíbrio de poderes sempre
foi um dos melhores antídotos contra guerras de agressão. A NSS
recupera essa visão e creio que temos de ser menos idealistas e perceber se
queremos ou não fazer parte dela, até porque nos deixámos enfraquecer tanto que
mal podemos equilibrar o poder com quem quer que seja.
Nesse debate haverá muito a ter em conta e porventura um dos
contrastes mais estimulantes é o de saber se nos continuamos a sentir unidos
aos Estados Unidos por fazermos parte de uma mesma civilização ocidental
sedimentada ao longo de milénios – parece ser essa a abordagem estratégica
americana – ou se devemos continuar a defender a ideia de que aquilo que nos
une é a missão da promoção da democracia liberal, aquém e além fronteiras. A minha amiga Teresa de Sousa está desolada
por a administração Trump ter recuperado o tema da civilização que partilhamos
e até acha que agora a América
tem um novo inimigo que é a Europa. Eu creio contrariamente que é porventura aí, à civilização e aos
valores culturais que partilhamos, que temos de regressar se queremos manter as
referências que tornaram possíveis as sociedades em que gostamos de viver.
O debate prosseguirá em próximos capítulos.
EUROPA MUNDO ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA PRESIDENTE TRUMP
COMENTÁRIOS
Português de bem: Trump e os EUA têm
toda a razão. Mais: o estado de negação a que alguns de nós chegam só encontra
paralelo nos que defendem que homens também engravidam. Sim, a UE está
decadente, principalmente no aspecto social e cultural. O mais grave disto é
que os culpados são os que foram eleitos para nos proteger e zelar pelos nossos
interesses. Costumo afirmar que isto tem de ser propositado, não consigo
acreditar que os países da UE defendam todos a mesma coisa, seja quem for
eleito, a não ser que isto faça parte de um qualquer plano para destruir a
europa das nações para ser uma europa dos estados unidos da europa (minúsculas
propositadas). Mas, para isso, têm de fazer o que têm vindo a fazer há tempos:
a constante retirada de soberania e independência aos países, a destruição
social e cultural, pouco a pouco, ano após ano. Qual o objectivo? Que as
pessoas das gerações seguintes não sintam o apego pela sua Pátria e que já nada
as separe ou diferencie de um qualquer cidadão do Paquistão que venha para cá
morar. A melhor prova disso? O fim das festas de Natal, os mercados de Natal
com barreiras para evitar ataques com viaturas, etc. Manuel Magalhaes Há que assumir, a
Europa tem sido dirigida por gente fantasiosa, para não dizer idiota, e
dominada por um esquerdismo complexado e doentio que nos tem conduzido a esta
situação, que, quer queiramos quer não, já é dramática. Há que reconhecer que a
fábula do “Rei vai nu” se aplica como uma luva a esta Europa que se tornou
ridículo exemplo, a burocracia e
a falta de identidade é o Partido Socialista Dois (PSD): O sr.
Luís Montenegro entendeu que o sr. António
Costa, depois de 8 anos a destruir Portugal, tinha o perfil para servir
a Europa; O sr. Marques Mendes entendeu que o sr. Dino de
Santiago que quer reescrever o Hino e os Lusíadas têm qualidade
para representar a cultura portuguesa. Rui Lima: A Europa passou
décadas concentrada na construção de um Estado Social XXL, tão grande e tão
generoso que, em certos países, parece que até o sofá recebe subsídio de
desemprego. Entre prestações, apoios, programas, subprogramas,
incentivos e “direitos adquiridos”, alguns Estados chegam a gastar cerca de 35%
do PIB apenas em protecção social . Entretanto , aquilo que deveria ser o pilar
mais básico de qualquer nação moderna — defesa e segurança — foi sendo deixado
para segundo plano ou seja tudo para o social a caça de votos defesa não dava
votos. É neste contexto que surge a ligação entre o modelo social europeu e os
fluxos migratórios. O Estado Social atrai imigração por duas vias: Atracção directa,
porque em várias regiões de África tornou-se comum a ideia de que “na Europa
vive-se sem trabalhar”. Eu próprio assisti a conversas desse género — e não as
relato em detalhe para limitar o comentário. Faltam trabalhadores e o modelo cria
gente que não trabalha, por isso dizem que são precisos imigrantes que
chegam e compreendem o sistema e fazem o mesmo quando têm os direitos. Isso dá
grande massa de pessoas dependentes . Os números oficiais do desemprego
não captam esta realidade, o único indicador realmente válido é saber quantos,
entre cada 100 pessoas em idade activa, trabalham de facto. A imigração
económica, aqueles que entram para trabalhar ronda os 20% já foi pior a
minoria; a maioria chega por outros motivos (familiar, humanitário, estudantil, vida melhor sustentadas pelo sistema social, saúde protecção e aqui vale tudo). No pós-guerra, a Europa reconstruiu-se com a força de trabalho essencialmente
europeia: portugueses, espanhóis, italianos, gregos,…Havia minas, fábricas,
grandes obras, e eram sobretudo europeus . Nos anos 80: encerram-se minas,
as fábricas, as grandes obras estão feitas, surgem políticas
de rendimentos mínimos garantidos e novas redes de apoios sociais, é
precisamente nessa época que começa o povoamento de povos do 3.º mundo, não
motivada pelo trabalho um modelo assistencialista que chama todie isto não
deixa dinheiro para a defesa. Trump põe o dedo na ferida da Europa .
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