Do apoio, manifestado pelo nosso ministro. Ainda que seja mais como
estratégia para visibilidade externa, de acordo com os mais. A figura de Putin
mereceria, de facto, uma punição genérica, mas ele continua sorrindo, impante,
nas imagens da sua mundanidade tenebrosa. As de Zelensky, ao contrário,
impõem-se, na sua despretensão corajosa.
A primeira viagem de Montenegro à
Ucrânia e a viragem da política de defesa portuguesa
O problema dos últimos anos não residiu no apoio à Ucrânia. Residiu
na forma como esse apoio foi tratado, como se não devesse, ou não pudesse,
produzir retorno estratégico.
ANA MIGUEL DOS SANTOS Advogada, ex-deputada do PSD
OBSERVADOR, 22 dez. 2025, 00:1817Seguir
A primeira viagem do Primeiro-Ministro Luís Montenegro à Ucrânia, em
20 de dezembro de 2025, não foi apenas um gesto diplomático de solidariedade.
Constituiu um ponto de inflexão político claro: o momento em que Portugal
começou, finalmente, a exercer a sua política de defesa como ela deve ser
exercida: com lucidez estratégica.
Esta lucidez traduz-se numa assunção fundamental que, durante
demasiado tempo, foi evitada no debate público: os
recursos são finitos. Num contexto de guerra prolongada, ajudar por ajudar, sem retorno estratégico,
não é sustentável, nem responsável nem defensável.
É neste quadro que esta mudança deve ser lida. Não decorre apenas da adaptação
a um novo contexto internacional,
mas da necessidade de alinhar a acção externa do Estado com
aquilo que é correcto, exigível e estruturalmente coerente para um país de dimensão média, com
responsabilidades atlânticas, confrontado com uma guerra prolongada no seu
espaço estratégico alargado.
Durante demasiado tempo, o apoio à Ucrânia foi enquadrado quase exclusivamente
como um imperativo moral. Esse
enquadramento foi legítimo, e necessário, nos primeiros meses do conflito.
Com a consolidação da guerra como factor estrutural da segurança europeia,
esse registo revelou limites evidentes, tornando-se
politicamente frágil face aos impactos directos na indústria, na economia, na
defesa e na coesão social.
É nesse contexto que esta visita adquire verdadeiro significado político: assinala o fim da
ambiguidade entre solidariedade retórica e estratégia efectiva.
O anúncio de acordos entre Portugal e a Ucrânia no domínio da indústria dos drones aquáticos
deve ser lido à luz dessa clarificação. Não
se trata de um detalhe técnico nem de um gesto simbólico. Trata-se
de uma decisão consciente de política de defesa, num sector crítico directamente
ligado à segurança marítima, à protecção
de infraestruturas críticas, à vigilância de cabos submarinos, à energia
offshore e às principais rotas comerciais.
Este é um dos raros domínios onde
tecnologia,
soberania, economia e segurança convergem
de forma directa. É, por isso,
um sector particularmente relevante para Portugal.
Portugal é um país atlântico, com uma
das maiores zonas marítimas da União Europeia, responsabilidades acrescidas na
protecção de infraestruturas sensíveis e um interesse objectivo em integrar
cadeias industriais emergentes da defesa. Enquadrar esta cooperação como política industrial, inovação
tecnológica e reforço da autonomia estratégica nacional corresponde ao exercício responsável da
função governativa num contexto de escassez relativa.
É neste ponto que a política de defesa portuguesa muda de
patamar. O discurso político passa a assumir de forma explícita algo
essencial, durante demasiado tempo implícito ou mesmo evitado: solidariedade
não significa renúncia ao interesse nacional. Ajudar não equivale a aceitar sacrifícios unilaterais. Em contextos de guerra
prolongada, apenas a solidariedade que gera capacidades, cria valor económico e
reforça relevância estratégica pode ser sustentada no tempo.
O problema dos últimos anos não
residiu no apoio à Ucrânia. Residiu na forma como esse apoio foi tratado, como
se não devesse, ou não pudesse, produzir retorno estratégico.
Desde
o início da guerra, Portugal manteve uma posição clara de solidariedade
política e apoio diplomático a Kiev. Esse posicionamento foi
coerente com os compromissos internacionais do país e com os seus valores
fundamentais. A acção desenvolvida manteve, contudo, um carácter predominantemente reactivo,
defensivo e táctico, sem integração numa visão estruturada de política de
defesa, política industrial ou posicionamento estratégico nacional.
A lógica dominante foi a da contribuição “limpa”: ajudar
sem estruturar, apoiar sem racionalizar, financiar sem converter apoio em
capacidade. Essa abordagem teve mérito moral. Revelou, contudo, um
limite político claro: num mundo de bens finitos, a solidariedade que não
produz valor estratégico esgota-se.
É precisamente aqui que esta visita marca uma ruptura substantiva.
Portugal deixa de operar exclusivamente no plano da táctica – o da reacção
e do financiamento – e
passa a actuar no plano da estratégia. A ajuda deixa de ser dispersa para se
tornar organizada. O apoio deixa de ser simbólico para se
transformar em capacidade. A posição deixa de ser meramente reativa para se
tornar afirmativa.
Ao ligar o apoio à Ucrânia a um sector
crítico como a indústria dos drones aquáticos, o Estado
português converte solidariedade em política pública estruturante: cria
capacidades, integra cadeias industriais emergentes, reforça a autonomia
estratégica e torna o apoio politicamente sustentável no tempo.
Aqui reside a diferença essencial: a
táctica responde ao momento, a estratégia prepara o futuro.
Portugal não resolve, com esta
visita, os dilemas mais amplos da guerra. Afirma, contudo, algo politicamente decisivo: uma
política de defesa séria protege valores defendendo interesses, num quadro em
que os recursos são finitos e a responsabilidade é real. No dia 20
de dezembro de 2025, Portugal não foi apenas a Kiev.
Assumiu, finalmente, que ajudar
bem não é ajudar sem critério: é ajudar com sentido estratégico.
E isso muda tudo!
21 de dezembro de
2021
DEFESA SOCIEDADE GUERRA NA
UCRÂNIA UCRÂNIA EUROPA MUNDO
COMENTÁRIOS (de 17)
Carlos Chaves: Caríssima Ana Miguel dos Santos, tão
simpática que você é com os socialistas/comunistas que nos desgovernaram
recentemente (mais uma vez), serão regras do Observador? Os governos de Costa
com o apoio dos comunistas e dos trotskistas, se pudessem tinham deixado a
Ucrânia e o martirizado povo Ucraniano, nas mãos do déspota Putin! Parabéns a
este governo bipolar por esta mudança de estratégia, para mim, subiu uns níveis
na minha consideração, vamos lá ver quando é que vem a próxima asneira, a que
infelizmente já nos habituaram! Feliz Natal para si para sua família e
amigos, e para todos os leitores e jornalistas, de bem, do Observador!
Francisco
Almeida: Inteiramente
de acordo. Apenas tenho uma curiosidade e uma dúvida. Gostava de saber quem foi
o arquitecto da ideia, pois drones marítimos não sairiam do bestunto de
Montenegro. E a dúvida é ver como vai ser concretizado o projecto, se como de
costume, já estão a ser constituídas firmas por políticos, para concorrer a
cadernos de encargos desenhados para elas mesmas. Pedro
Campos: Excelente
artigo!!!!
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