terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O dever


Do apoio, manifestado pelo nosso ministro. Ainda que seja mais como estratégia para visibilidade externa, de acordo com os mais. A figura de Putin mereceria, de facto, uma punição genérica, mas ele continua sorrindo, impante, nas imagens da sua mundanidade  tenebrosa. As de Zelensky, ao contrário, impõem-se, na sua despretensão corajosa. 

A primeira viagem de Montenegro à Ucrânia e a viragem da política de defesa portuguesa

O problema dos últimos anos não residiu no apoio à Ucrânia. Residiu na forma como esse apoio foi tratado, como se não devesse, ou não pudesse, produzir retorno estratégico.

ANA MIGUEL DOS SANTOS Advogada, ex-deputada do PSD

OBSERVADOR, 22 dez. 2025, 00:1817Seguir

A primeira viagem do Primeiro-Ministro Luís Montenegro à Ucrânia, em 20 de dezembro de 2025, não foi apenas um gesto diplomático de solidariedade. Constituiu um ponto de inflexão político claro: o momento em que Portugal começou, finalmente, a exercer a sua política de defesa como ela deve ser exercida: com lucidez estratégica.

Esta lucidez traduz-se numa assunção fundamental que, durante demasiado tempo, foi evitada no debate público: os recursos são finitos. Num contexto de guerra prolongada, ajudar por ajudar, sem retorno estratégico, não é sustentável, nem responsável nem defensável.

É neste quadro que esta mudança deve ser lida. Não decorre apenas da adaptação a um novo contexto internacional, mas da necessidade de alinhar a acção externa do Estado com aquilo que é correcto, exigível e estruturalmente coerente para um país de dimensão média, com responsabilidades atlânticas, confrontado com uma guerra prolongada no seu espaço estratégico alargado.

Durante demasiado tempo, o apoio à Ucrânia foi enquadrado quase exclusivamente como um imperativo moral. Esse enquadramento foi legítimo, e necessário, nos primeiros meses do conflito. Com a consolidação da guerra como factor estrutural da segurança europeia, esse registo revelou limites evidentes, tornando-se politicamente frágil face aos impactos directos na indústria, na economia, na defesa e na coesão social.

É nesse contexto que esta visita adquire verdadeiro significado político: assinala o fim da ambiguidade entre solidariedade retórica e estratégia efectiva.

O anúncio de acordos entre Portugal e a Ucrânia no domínio da indústria dos drones aquáticos deve ser lido à luz dessa clarificação. Não se trata de um detalhe técnico nem de um gesto simbólico. Trata-se de uma decisão consciente de política de defesa, num sector crítico directamente ligado à segurança marítima, à protecção de infraestruturas críticas, à vigilância de cabos submarinos, à energia offshore e às principais rotas comerciais.

Este é um dos raros domínios onde tecnologia, soberania, economia e segurança convergem de forma directa. É, por isso, um sector particularmente relevante para Portugal.

Portugal é um país atlântico, com uma das maiores zonas marítimas da União Europeia, responsabilidades acrescidas na protecção de infraestruturas sensíveis e um interesse objectivo em integrar cadeias industriais emergentes da defesa. Enquadrar esta cooperação como política industrial, inovação tecnológica e reforço da autonomia estratégica nacional corresponde ao exercício responsável da função governativa num contexto de escassez relativa.

É neste ponto que a política de defesa portuguesa muda de patamar. O discurso político passa a assumir de forma explícita algo essencial, durante demasiado tempo implícito ou mesmo evitado: solidariedade não significa renúncia ao interesse nacional. Ajudar não equivale a aceitar sacrifícios unilaterais. Em contextos de guerra prolongada, apenas a solidariedade que gera capacidades, cria valor económico e reforça relevância estratégica pode ser sustentada no tempo.

O problema dos últimos anos não residiu no apoio à Ucrânia. Residiu na forma como esse apoio foi tratado, como se não devesse, ou não pudesse, produzir retorno estratégico.

Desde o início da guerra, Portugal manteve uma posição clara de solidariedade política e apoio diplomático a Kiev. Esse posicionamento foi coerente com os compromissos internacionais do país e com os seus valores fundamentais. A acção desenvolvida manteve, contudo, um carácter predominantemente reactivo, defensivo e táctico, sem integração numa visão estruturada de política de defesa, política industrial ou posicionamento estratégico nacional.

A lógica dominante foi a da contribuição “limpa”: ajudar sem estruturar, apoiar sem racionalizar, financiar sem converter apoio em capacidade. Essa abordagem teve mérito moral. Revelou, contudo, um limite político claro: num mundo de bens finitos, a solidariedade que não produz valor estratégico esgota-se.

É precisamente aqui que esta visita marca uma ruptura substantiva.

Portugal deixa de operar exclusivamente no plano da táctica – o da reacção e do financiamentoe passa a actuar no plano da estratégia. A ajuda deixa de ser dispersa para se tornar organizada. O apoio deixa de ser simbólico para se transformar em capacidade. A posição deixa de ser meramente reativa para se tornar afirmativa.

Ao ligar o apoio à Ucrânia a um sector crítico como a indústria dos drones aquáticos, o Estado português converte solidariedade em política pública estruturante: cria capacidades, integra cadeias industriais emergentes, reforça a autonomia estratégica e torna o apoio politicamente sustentável no tempo.

Aqui reside a diferença essenciala táctica responde ao momento, a estratégia prepara o futuro.

Portugal não resolve, com esta visita, os dilemas mais amplos da guerra. Afirma, contudo, algo politicamente decisivo: uma política de defesa séria protege valores defendendo interesses, num quadro em que os recursos são finitos e a responsabilidade é real. No dia 20 de dezembro de 2025, Portugal não foi apenas a Kiev.
Assumiu, finalmente, que ajudar bem não é ajudar sem critério: é ajudar com sentido estratégico.

E isso muda tudo!

21 de dezembro de 2021

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COMENTÁRIOS (de 17)

Carlos Chaves: Caríssima Ana Miguel dos Santos, tão simpática que você é com os socialistas/comunistas que nos desgovernaram recentemente (mais uma vez), serão regras do Observador? Os governos de Costa com o apoio dos comunistas e dos trotskistas, se pudessem tinham deixado a Ucrânia e o martirizado povo Ucraniano, nas mãos do déspota Putin! Parabéns a este governo bipolar por esta mudança de estratégia, para mim, subiu uns níveis na minha consideração, vamos lá ver quando é que vem a próxima asneira, a que infelizmente já nos habituaram!   Feliz Natal para si para sua família e amigos, e para todos os leitores e jornalistas, de bem, do Observador!                  Francisco Almeida: Inteiramente de acordo. Apenas tenho uma curiosidade e uma dúvida. Gostava de saber quem foi o arquitecto da ideia, pois drones marítimos não sairiam do bestunto de Montenegro. E a dúvida é ver como vai ser concretizado o projecto, se como de costume, já estão a ser constituídas firmas por políticos, para concorrer a cadernos de encargos desenhados para elas mesmas.                     Pedro Campos: Excelente artigo!!!!

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