sábado, 6 de dezembro de 2025

Esse conhecido

 

Que é o Homem. Movido por sentimentos, por comodismos, por receios, sempre na expectativa de que tudo se resolva na distância, a amizade subjacente, contudo, o auxílio possível também, mais visível em alguns, no entanto…

Quem está a trair a Ucrânia?

A União Europeia espera a bancarrota de Putin, e Putin espera a bancarrota da União Europeia. Resta saber qual virá primeiro.

RUI RAMOS Colunista do Observador

OBSERVADOR, 05 dez. 2025, 00:22128

Lê-se e não se acredita: na quarta-feira, os governos da União Europeia concordaram finalmente em desligar-se do gás russo por volta do fim de 2027. Perceberam? Putin começou a ocupar a Ucrânia em 2014. Em 2022, invadiu em força. Desde aí que a UE proclama sanções à Rússia. Acontece que, entre tantas exibições de virtude, tem continuado a financiar Putin, enquanto cliente do principal recurso económico da ditadura russa, as suas exportações de gás e petróleo. A ministra dos Negócios Estrangeiros sueca admitiu a semana passada que a UE gastou mais desde 2022 a fazer compras à Rússia (311 mil milhões de euros) do que a ajudar a Ucrânia (187). Não é só a Hungria que compra. É também a França, cujo presidente alertou ontem para o perigo de Trump “trair” a Ucrânia. Não sei se Trump vai trair. Sei quem, para usar essa linguagem, já traiu. As importações europeias de gás russo diminuíram. Mas representam ainda hoje 13% do total importado pela UE. Em 2022, oito anos depois de Putin ter iniciado a anexação da Ucrânia, eram 45%. Estava até previsto um segundo gasoduto russo para a Alemanha. Percebe-se que Putin tenha interpretado tudo isso como indiferença pela Ucrânia, e não tivesse hesitado em avançar.

A guerra na Ucrânia é, para a população ucraniana e para o exército russo, uma guerra clássica, de bombardeamentos e trincheiras. Mas os governos Ocidentais têm-na entendido como uma guerra económica. Esperam quebrar a Rússia, não no campo de batalha, porque temem uma reacção desesperada de Putin, mas na tesouraria, deixando-o sem meios de pagar o esforço militar. É da bancarrota russa que se está à espera há três anos. A imprensa ocidental anuncia-a quase todas as semanas. E sempre que Trump faz diligências para um acordo, ei-la a lamentar que o presidente americano esteja a reanimar Putin logo quando ele ia desistir.

Acontece que não é só a UE que faz cálculos com as fraquezas de Putin. Putin também faz cálculos com as fraquezas do Ocidente e da UE em particular. A Rússia tem uma economia do Terceiro Mundo e uma população em declínio. Mas pela frente, na Europa ocidental, tem economias que, por erros de política energética, não se conseguem desligar do seu gás, Estados que, por erros de política social, arriscam crises de dívida, como a França, e sociedades que, por erros de política migratória, estão a perder coesão. A Rússia não está bem. Mas uma Europa ocidental que julga que o imposto é a solução para o empobrecimento, a regulação uma alternativa à inovação, e o fim das fronteiras um meio de pagar o Estado social, não está muito melhor. Também Putin está à espera da bancarrota – mas da Europa ocidental. Resta saber qual virá primeiro.

Isto ajuda a pôr em perspectiva os planos de paz de Trump. Não se trata de “traição” nem do narcisismo de quem quer o Nobel. Trata-se de realismo, por mais que nos custe. É verdade: nunca haverá paz duradoura enquanto a Ucrânia não for restituída às suas fronteiras de 2014 e coberta pelas garantias da NATO. Mas esse objectivo, no curto prazo, exige esforços de que o Ocidente e em especial a UE não são capazes, enquanto a própria Ucrânia, bombardeada, vai deixando de ter homens para a frente. Faz sentido procurar algum acordo que interrompa a guerra. O cenário alternativo seria a ditadura de Putin cair, mas esse, dada a dependência do resto do mundo e até da UE em relação à energia russa, tem por enquanto de ser encarado como um simples desejo. O que resta? O que Trump, mal ou bem, está a tentar fazer, e outro desejo: esperemos que bem. Da UE, é que não há que esperar muito.

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COMENTÁRIOS (de 128)

Carlos Ferreira > Manuel Gonçalves: Mas relativamente à postura que a UE (e maioria dos países) tem tido relativamente à Rússia, tem toda a razão. Tem sido absolutamente miserável! Tenho vergonha. Veja-se este último exemplo da Bélgica relativamente aos fundos russos que lá estão e que não permite que sejam mobilizados para ajudar a Ucrânia. O Putin deve estar a rir-se dos poltrões europeus.            SDC Cruz: Uma crónica tão aterradora quanto verdadeira. De facto, a UE é uma manta de retalhos, cada vez mais caduca, que não consegue (conseguirá algum dia?) falar a uma só voz.  Está como aquele que diz, cheio de medo, "agarrem-me que eu vou me a ele". Querem usar os fundos da oligarquia russa depositados em Bruxelas e não são capazes de o fazer. Continuam a comprar gás russo e não são capazes de fazer um gasoduto que vá até Portugal. Porquê? Porque a França tem medo de perder o domínio do corredor do gás. Falam de peito cheio para europeu ver e continuam, pela calada, a financiar a Rússia. Que tristeza de Europa esta! Obrigado, Rui Ramos, por mais uma excelente crónica.                Jose Carmo: Segundo percebi, a proposta realista do Rui Ramos é repetir com o Donbass o que se fez com os Sudetas. Tendo em conta os objectivos estratégicos da Rússia, é realista esperar um resultado diferente? Na minha opinião, o problema não se resolve com atribuição de culpas. Sim,  a Europa cometeu erros estratégicos graves, desde logo o ter andado todos estes anos a flanar nos domínios de Vénus, enquanto o mundo orbitava para Marte. Mas o problema está aí e é o futuro. Objectivamente, os EUA encararam esta invasão da Ucrânia no papel de aliados. Relutantes, mas aliados. E esta administração, à revelia de qq visão estratégica ou geopolítica consistente, saltou abruptamente desse papel, instalou-se no de mediador parcial e acaba a fazer o papel de parceiro da Rússia, um seu inimigo, alienando os seus aliados tradicionais, e dando, imho, um desastroso tiro no pé. Não ignoro que os países da Europa andaram e ainda andam muitas vezes a fazer o mesmo, hostilizando frequentemente os EUA nas organizações internacionais… Mas uma coisa são discussões "familiares" , outra é, perante uma ameaça existencial, ao grupo, passar a fazer o jogo de quem ameaça esse grupo.                 observador censurado: "... a UE gastou mais desde 2022 a fazer compras à Rússia (311 mil milhões de euros) do que a ajudar a Ucrânia (187)". "Em 2022, oito anos depois de Putin ter iniciado a anexação da Ucrânia ... Estava até previsto um segundo gasoduto russo para a Alemanha". Com amigos destes, quem precisa de inimigos?          Álvaro Venâncio: Excelente artigo: infelizmente e lamentavelmente, é tudo verdade.                  Carlos Chaves: Não esperava ver o Rui Ramos tão insensível ao indescritível sofrimento do povo Ucraniano, e ao branqueamento/aceitação tácita de um regime, que faz gato sapato dos acordos internacionais (alguns que assinou), apenas porque a Europa se portou mal!  Sim portou-se  mal, muito mal, mas não é por se ter portado mal que vamos sacrificar o povo Ucraniano! E a seguir caro Rui Ramos, quem serão os próximos a serem crucificados?  Em época de Natal devíamos ter esperança e trabalharmos para corrigir os erros passados, não para capitular e condenar à crucificação à mão dos bárbaros russos e americanos, um povo tão sofrido!           Tristão: Se RR não critica Trump por este tratar a agressão russa como um detalhe, então está simplesmente a normalizar que um país possa invadir outro e ainda ser recompensado por isso. Uma paz que parte do princípio de que o invadido deve ceder ao invasor não é paz,  é capitulação. E apoiar essa lógica, mesmo que involuntariamente, é ficar do lado da Rússia, não do lado da justiça nem da segurança europeia. Ao mesmo tempo, a vilã Europa é a culpada de tudo, ou seja, a lógica é criticar a Europa por tudo e mais alguma coisa, enquanto se passa pano a quem propõe uma paz que só favorece Moscovo, é entrar numa narrativa que branqueia o agressor e culpa a vítima. Lamentável, mas já é um padrão de RR, está numa deriva populista sem retorno          José B Dias > Carlos Ferreira: Esquece que a Bélgica pretende garantir que, caso legalmente fosse obrigada a restituir os fundos à sua guarda, não teriam os seus cidadãos contribuintes de suportar o prejuízo ... Nenhum dos demais Estados membros deu um passo em frente para garantir compartilhar o peso da responsabilidade... Imagino que se fosse responsável político eleito para defender os interesses dos cidadãos do seu país, não hesitasse um segundo a colocar o ónus nos seus filhos e netos! É tão fácil ser-se herói com a vida e o futuro dos outros ...              GateKeeper: Top 10.                 Manuel Gonçalves: O habitual em Rui Ramos: - cortina de fumo para proteger Trump; - culpa total da UE e países europeus. Mas esta narrativa sucumbe face aos erros e, sobretudo, aos conúbios cada vez mais evidentes do putino- trumpismo. Chegará o momento em que os articulistas entusiastas vão ter de se confrontar com o que andaram a defender.               joao lemos: há que agradecer a Merkel, Sarkozy, Macron etc etc - a opção pelo mais barato a qualquer preço, levou a EU a esta situação                   Komorebi Hi: A nova "República de Weimar" é hoje a UE controlada por uma  Comissão de burocratas corruptos que copiaram a forma de governar da URSS, apoiados por governos de países ocupados e endividados, sem criação de riqueza como a França, Alemanha, Espanha, Bélgica ou Portugal dos pequeninos, com governantes fracos e oportunistas do Centrão político que ontem foram socialistas da alternância, hoje são woke e amanhã fracos como o Euro que criaram, igual em tudo à moeda papel da República de Weimar,  basta esperar, só os míopes e oportunistas ainda não viram o monstro criado. A guerra está dentro de cada país da UE que permitiu tudo aos socialistas e comunistas, nem essa vencem, quanto mais dar palpite sobre uma guerra no Leste da Europa, tão longe dos USA, como Bruxelas de Vladivostok.                    Komorebi Hi: Os USA estão tão longe da Ucrânia que não vão mexer uma palha se a Rússia anexar grande parte do território da Ucrânia e não será uma França endividada fraca e ocupada com os erros de sempre, como os que acumula desde o fim da I Guerra, para não ir mais atrás no tempo. Macron continua a servir os interesses de uma Comissão corrupta que não serve a UE, serve o Centrão socialista/social democrata e de centro direita(?)/verde e oportunista como no caso da CDU da Alemanha.  França, UK, Alemanha e Espanha estão capturados por interesses que não são os dos seus cidadãos, servem apenas e só, interesses de oligarquias de burocratas a comer da mão da RPC, como fazem muitos dos ditadores de África ou da América latina, só que em nome de uma democracia mais avançada, mas com crescimentos miseráveis, desindustrialização e caminho corrompido por dívida cada vez maior que será impagável quando o Euro passar a valer o mesmo que um bocado de papel moeda no tempo da República de Weimar, como se em toda a UE caísse um novo Tratado de Versalhes, neste caso sempre com a França a manipular arrastando toda a UE casos da Espanha, ou Alemanha que reincide no erro de políticos fracos. A memória da UE em relação à Ucrânia, é a hipocrisia instalada em Bruxelas com uma Comisssão controlada pelos partidos do Centrão, socialistas ou centristas que afundam a UE e o Euro. A nova "República de Weimar" é hoje a UE da França, Alemanha, Espanha, Bélgica ou Portugal.                    João Diogo: Um dos poucos cronistas que vale a pena ler no Observador , tal o wokismo que vai por aqui, a questão da Ucrânia exige , como dizia Kissinger real politik e não é desta Europa que vai sair nada.                   David Pinheiro > Carlos Ferreira: Caro Carlos, analise bem as razões belgas e depois venha criticar.  Podemos todos ser prejudicados com esta decisão. Pode-nos sair mais cara do que simplesmente fazer um empréstimo à Ucrânia deste montante.                 David Pinheiro: Meu Deus, hoje valeu a pena vir ao Observador.                Américo Silva: Os europeus querem vingar a derrota da WW II usando os ucranianos simpaticamente fornecidos por Zelensky, não sei se conseguirão, quem entretanto quer fazer bons negócios e está a conseguir são os USA.                  Vitor Batista: A Ucrânia vive um grave perigo existencial entre o ogre ruzzo e os Judas Escariotes Europeus e Americanos.                    Gonçalo Caseiro: Independentemente de quem trai quem, uma coisa eu sei. A Rússia atacou e ocupou um país soberano. A partir daí podem dizer o que quiserem. Agora porque é que atacou e quais as razões, acaba por ser, neste momento irrelevante. Foi aberto um precedente, que está a ter repercussões imprevisíveis. Nos EUA, já não se pode confiar. A Europa vai ter que resolver este imbróglio, e determinados actores políticos vão ter que tomar medidas impopulares. Eu questiono-me se eventualmente a Rússia tentasse expandir para oeste, ocupando países da União europeia, qual seria a reacção da população...pelos comentários que vou lendo, fico com a ideia de que seriam muito poucos os que iriam defender os valores da liberdade. No ocidente, começo a ver muita inclinação para ditaduras, e isso preocupa-me. As pessoas deixaram de estar bem sendo livres. Preferem a prisão de alguém que lhes indique o caminho.         Jacinto Leite > A Sameiro: De pouco servirá o exército português. Em 1918 os oficiais desertaram. Em 1974 os oficiais entregaram o país ao inimigo.                  David Pinheiro > Jose Carmo: Mais um que não se importa que a guerra dure mais 20 anos...         José B Dias >Carlos Ferreira: Mas olhe que Afonso Henriques não perguntou nunca ao povo o que é que este queria fazer e estando em guerra e sob regime marcial também os britânicos estiveram impedidos de se pronunciar, até voltarem a poder exercer o seu direito de voto. Onde Churchill foi derrotado e substituído como primeiro-ministro ... Não é a minha opinião ... são os factos!               Maria Helena Oliveira: Tudo verdade

 

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