Que é o Homem. Movido por sentimentos, por comodismos, por receios, sempre na expectativa de que tudo se resolva
na distância, a amizade subjacente, contudo, o auxílio possível também, mais visível
em alguns, no entanto…
Quem está a trair a Ucrânia?
A União Europeia espera a
bancarrota de Putin, e Putin espera a bancarrota da União Europeia. Resta saber
qual virá primeiro.
RUI RAMOS Colunista do Observador
OBSERVADOR, 05 dez. 2025, 00:22128
Lê-se e não se acredita: na quarta-feira, os governos da União Europeia
concordaram finalmente em desligar-se do gás russo por volta do fim de 2027.
Perceberam? Putin começou a ocupar a Ucrânia em 2014. Em 2022, invadiu em
força. Desde aí que a UE proclama sanções à Rússia. Acontece
que, entre tantas exibições de virtude, tem continuado a financiar Putin,
enquanto cliente do principal recurso económico da ditadura russa, as suas
exportações de gás e petróleo. A
ministra dos Negócios Estrangeiros sueca admitiu a semana passada que a UE gastou mais desde 2022 a
fazer compras à Rússia (311 mil milhões de euros) do que a ajudar a Ucrânia
(187). Não é só a Hungria que compra. É também a França, cujo presidente alertou
ontem para o perigo de Trump “trair” a Ucrânia. Não sei se Trump vai trair. Sei
quem, para usar essa linguagem, já traiu. As importações europeias de gás russo diminuíram. Mas representam
ainda hoje 13% do total importado pela UE. Em 2022, oito anos depois de Putin
ter iniciado a anexação da Ucrânia, eram 45%. Estava até previsto um segundo
gasoduto russo para a Alemanha. Percebe-se que Putin tenha interpretado
tudo isso como indiferença pela Ucrânia, e não tivesse hesitado em avançar.
A guerra na Ucrânia é, para a
população ucraniana e para o exército russo, uma guerra clássica, de
bombardeamentos e trincheiras. Mas os governos Ocidentais têm-na entendido como
uma guerra económica. Esperam
quebrar a Rússia, não no campo de batalha, porque temem uma reacção desesperada
de Putin, mas na tesouraria, deixando-o sem meios de pagar o esforço militar. É
da bancarrota russa que se está à espera há três anos. A imprensa ocidental anuncia-a quase todas as semanas. E sempre que Trump faz diligências para um
acordo, ei-la a lamentar que o presidente americano esteja a reanimar Putin
logo quando ele ia desistir.
Acontece que não é só a UE que faz
cálculos com as fraquezas de Putin. Putin também faz cálculos com as fraquezas
do Ocidente e da UE em particular. A Rússia tem uma economia do Terceiro Mundo e uma
população em declínio. Mas pela frente, na Europa ocidental, tem economias que,
por erros de política energética, não se conseguem desligar do seu gás, Estados que, por erros de política social, arriscam
crises de dívida, como a França, e sociedades que, por erros de política
migratória, estão a perder coesão. A Rússia não está bem. Mas uma Europa ocidental que julga que o imposto é a solução para o empobrecimento, a regulação uma alternativa à inovação, e o fim
das fronteiras
um meio de pagar o Estado social, não está muito melhor. Também
Putin está à espera da bancarrota – mas da Europa ocidental. Resta saber qual
virá primeiro.
Isto ajuda a pôr em perspectiva os planos de paz de Trump. Não se trata de “traição” nem do narcisismo de quem
quer o Nobel. Trata-se de realismo, por mais que nos custe. É verdade: nunca
haverá paz duradoura enquanto a Ucrânia não for restituída às suas fronteiras
de 2014 e coberta pelas garantias da NATO. Mas esse objectivo, no curto prazo, exige esforços de
que o Ocidente e em especial a UE não são capazes, enquanto a própria Ucrânia,
bombardeada, vai deixando de ter homens para a frente. Faz
sentido procurar algum acordo que interrompa a guerra. O cenário alternativo seria a ditadura de
Putin cair, mas esse, dada a dependência do resto do mundo e até da UE em
relação à energia russa, tem por enquanto de ser encarado como um simples
desejo. O que
resta? O que Trump, mal ou bem, está a tentar fazer,
e outro desejo: esperemos que bem. Da
UE, é que não há que esperar muito.
GUERRA NA
UCRÂNIA UCRÂNIA EUROPA MUNDO UNIÃO
EUROPEIA VLADIMIR
PUTIN RÚSSIA DONALD
TRUMP ESTADOS
UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA
COMENTÁRIOS (de 128)
Carlos Ferreira > Manuel Gonçalves: Mas relativamente à postura que a UE (e
maioria dos países) tem tido relativamente à Rússia, tem toda a razão. Tem sido
absolutamente miserável! Tenho vergonha. Veja-se este último exemplo da Bélgica
relativamente aos fundos russos que lá estão e que não permite que sejam
mobilizados para ajudar a Ucrânia. O Putin deve estar a rir-se dos poltrões
europeus. SDC Cruz: Uma crónica tão aterradora quanto
verdadeira. De facto, a UE é uma manta de retalhos, cada vez mais caduca, que
não consegue (conseguirá algum dia?) falar a uma só voz. Está como aquele
que diz, cheio de medo, "agarrem-me que eu vou me a ele". Querem usar
os fundos da oligarquia russa depositados em Bruxelas e não são capazes de o
fazer. Continuam a comprar gás russo e não são capazes de fazer um gasoduto
que vá até Portugal. Porquê? Porque a França tem medo de perder o domínio do
corredor do gás. Falam de peito cheio para europeu ver e continuam, pela
calada, a financiar a Rússia. Que tristeza de Europa esta! Obrigado, Rui
Ramos, por mais uma excelente crónica. Jose Carmo: Segundo percebi, a proposta realista do Rui
Ramos é repetir com o Donbass o que se fez com os Sudetas. Tendo em conta os
objectivos estratégicos da Rússia, é realista esperar um resultado diferente?
Na minha opinião, o problema não se resolve com atribuição de culpas.
Sim, a Europa cometeu erros estratégicos graves, desde logo o ter andado
todos estes anos a flanar nos domínios de Vénus, enquanto o mundo orbitava para
Marte. Mas o problema está aí e é o futuro. Objectivamente, os EUA encararam
esta invasão da Ucrânia no papel de aliados. Relutantes, mas aliados. E esta
administração, à revelia de qq visão estratégica ou geopolítica consistente,
saltou abruptamente desse papel, instalou-se no de mediador parcial e acaba a
fazer o papel de parceiro da Rússia, um seu inimigo, alienando os seus aliados
tradicionais, e dando, imho, um desastroso tiro no pé. Não ignoro que os
países da Europa andaram e ainda andam muitas vezes a fazer o mesmo,
hostilizando frequentemente os EUA nas organizações internacionais… Mas uma
coisa são discussões "familiares" , outra é, perante uma ameaça
existencial, ao grupo, passar a fazer o jogo de quem ameaça esse
grupo. observador
censurado: "...
a UE gastou mais desde 2022 a fazer compras à Rússia (311 mil milhões de euros) do que a ajudar a Ucrânia (187)". "Em 2022, oito anos depois de Putin
ter iniciado a anexação da Ucrânia ... Estava até previsto um segundo gasoduto
russo para a Alemanha". Com amigos destes, quem precisa de inimigos? Álvaro Venâncio: Excelente artigo: infelizmente e
lamentavelmente, é tudo verdade. Carlos Chaves: Não esperava ver o Rui Ramos tão insensível
ao indescritível sofrimento do povo Ucraniano, e ao branqueamento/aceitação
tácita de um regime, que faz gato sapato dos acordos internacionais (alguns que
assinou), apenas porque a Europa se portou mal! Sim portou-se mal, muito mal, mas não é por se ter portado
mal que vamos sacrificar o povo Ucraniano! E a seguir caro Rui Ramos, quem
serão os próximos a serem crucificados? Em época de Natal devíamos ter
esperança e trabalharmos para corrigir os erros passados, não para capitular e
condenar à crucificação à mão dos bárbaros russos e americanos, um povo tão
sofrido! Tristão: Se RR não critica Trump por este tratar a
agressão russa como um detalhe, então está simplesmente a normalizar que um
país possa invadir outro e ainda ser recompensado por isso. Uma paz que
parte do princípio de que o invadido deve ceder ao invasor não é paz, é
capitulação. E apoiar essa lógica, mesmo que involuntariamente, é ficar
do lado da Rússia, não do lado da justiça nem da segurança europeia. Ao mesmo
tempo, a vilã Europa é a culpada de tudo, ou seja, a lógica é criticar a Europa
por tudo e mais alguma coisa, enquanto se passa pano a quem propõe uma paz que
só favorece Moscovo, é entrar numa narrativa que branqueia o agressor e
culpa a vítima. Lamentável, mas já é um padrão de RR, está numa deriva
populista sem retorno… José B
Dias > Carlos Ferreira: Esquece que a Bélgica pretende garantir que,
caso legalmente fosse obrigada a restituir os fundos à sua guarda, não teriam
os seus cidadãos contribuintes de suportar o prejuízo ... Nenhum dos demais Estados membros deu um
passo em frente para garantir compartilhar o peso da responsabilidade... Imagino
que se fosse responsável político eleito para defender os interesses dos
cidadãos do seu país, não hesitasse um segundo a colocar o ónus nos seus filhos
e netos! É tão fácil ser-se herói com a vida e o futuro dos outros ... GateKeeper: Top 10. Manuel Gonçalves: O habitual em Rui Ramos: - cortina de fumo
para proteger Trump; - culpa total da UE e países europeus. Mas esta narrativa
sucumbe face aos erros e, sobretudo, aos conúbios cada vez mais evidentes do
putino- trumpismo. Chegará o momento em que os articulistas entusiastas vão ter
de se confrontar com o que andaram a defender. joao lemos: há que agradecer a Merkel, Sarkozy,
Macron etc etc - a opção pelo mais barato a qualquer preço, levou a EU a
esta situação Komorebi
Hi: A nova "República
de Weimar" é hoje a UE controlada por uma Comissão de burocratas
corruptos que copiaram a forma de governar da URSS, apoiados por governos de
países ocupados e endividados, sem criação de riqueza como a França, Alemanha,
Espanha, Bélgica ou Portugal dos pequeninos, com governantes fracos e
oportunistas do Centrão político que ontem foram socialistas da alternância,
hoje são woke e amanhã fracos como o Euro que criaram, igual em tudo à moeda
papel da República de Weimar, basta
esperar, só os míopes e oportunistas ainda não viram o monstro criado. A guerra
está dentro de cada país da UE que permitiu tudo aos socialistas e comunistas,
nem essa vencem, quanto mais dar palpite sobre uma guerra no Leste da Europa,
tão longe dos USA, como Bruxelas de Vladivostok. Komorebi Hi: Os USA estão tão longe da Ucrânia que não vão mexer uma palha se a
Rússia anexar grande parte do território da Ucrânia e não será uma França
endividada fraca e ocupada com os erros de sempre, como os que acumula desde o
fim da I Guerra, para não ir mais atrás no tempo. Macron continua a servir
os interesses de uma Comissão corrupta que não serve a UE, serve o Centrão
socialista/social democrata e de centro direita(?)/verde e oportunista como no
caso da CDU da Alemanha. França, UK, Alemanha e Espanha estão capturados
por interesses que não são os dos seus cidadãos, servem apenas e só, interesses
de oligarquias de burocratas a comer da mão da RPC, como fazem muitos dos
ditadores de África ou da América latina, só que em nome de uma democracia mais
avançada, mas com crescimentos miseráveis, desindustrialização e caminho
corrompido por dívida cada vez maior que será impagável quando o Euro passar a
valer o mesmo que um bocado de papel moeda no tempo da República de Weimar,
como se em toda a UE caísse um novo Tratado de Versalhes, neste caso sempre com
a França a manipular arrastando toda a UE casos da Espanha, ou Alemanha que
reincide no erro de políticos fracos. A memória da UE em relação à Ucrânia, é a
hipocrisia instalada em Bruxelas com uma Comisssão controlada pelos partidos do
Centrão, socialistas ou centristas que afundam a UE e o Euro. A nova
"República de Weimar" é hoje a UE da França, Alemanha, Espanha,
Bélgica ou Portugal.
João Diogo: Um dos poucos cronistas que vale a pena ler no Observador , tal o
wokismo que vai por aqui, a questão da Ucrânia exige , como dizia Kissinger
real politik e não é desta Europa que vai sair nada. David
Pinheiro > Carlos Ferreira: Caro Carlos,
analise bem as razões belgas e depois venha criticar. Podemos todos ser
prejudicados com esta decisão. Pode-nos sair mais cara do que simplesmente
fazer um empréstimo à Ucrânia deste montante. David Pinheiro: Meu Deus, hoje valeu a pena vir ao
Observador. Américo Silva: Os europeus querem vingar a derrota da WW
II usando os ucranianos simpaticamente fornecidos por Zelensky, não sei se
conseguirão, quem entretanto quer fazer bons negócios e está a conseguir são os
USA. Vitor
Batista: A
Ucrânia vive um grave perigo existencial entre o ogre ruzzo e os Judas
Escariotes Europeus e Americanos. Gonçalo Caseiro: Independentemente de quem trai quem, uma coisa
eu sei. A Rússia atacou e ocupou um país soberano. A partir daí podem dizer o
que quiserem. Agora porque é que atacou e quais as razões, acaba por ser, neste
momento irrelevante. Foi aberto um precedente, que está a ter repercussões
imprevisíveis. Nos EUA, já não se pode confiar. A Europa vai ter que resolver
este imbróglio, e determinados actores políticos vão ter que tomar medidas impopulares.
Eu questiono-me se eventualmente a Rússia tentasse expandir para oeste,
ocupando países da União europeia, qual seria a reacção da população...pelos
comentários que vou lendo, fico com a ideia de que seriam muito poucos os que
iriam defender os valores da liberdade. No ocidente, começo a ver muita
inclinação para ditaduras, e isso preocupa-me. As pessoas deixaram de estar bem
sendo livres. Preferem a prisão de alguém que lhes indique o caminho. Jacinto
Leite > A Sameiro: De pouco servirá o exército português. Em 1918
os oficiais desertaram. Em 1974 os oficiais entregaram o país ao inimigo. David Pinheiro > Jose Carmo: Mais um que não se importa que a guerra dure
mais 20 anos... José B
Dias >Carlos Ferreira: Mas olhe que Afonso Henriques não perguntou
nunca ao povo o que é que este queria fazer e estando em guerra e sob regime
marcial também os britânicos estiveram impedidos de se pronunciar, até voltarem
a poder exercer o seu direito de voto. Onde Churchill foi derrotado e
substituído como primeiro-ministro ... Não é a minha opinião ... são os factos! Maria Helena Oliveira: Tudo
verdade
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