De NUNO LEBREIRO, excelentes, também os comentários. Mas a vida dá muitas voltas,
a ESPERANÇA não morre, o HOMEM, como ser pensante, “roseau” que seja, dará a
volta conveniente à insensatez da falsa virtude piedosa que tão insensatamente
destruiu valores, não só pátrios mas morais, numa frieza arrepiante, nesses
tempos referidos. Esperemos pela mudança, mesmo sem contrição, e que o amor
pelo cantinho pátrio faça brotar ao menos uma inteligência que esclareça tanta
pobreza de espírito vivida e repercutida…
A
geração de 68 visava desconstruir. Um eufemismo, repare-se, para destruir.
Destruir o quê? O que havia. E destruiu. Só que não construiu nada de novo para
substituir o que resolveu estragar.
NUNO LEBREIRO Investigador académico, membro do
podcast Linhas Direitas
OBSERVADOR, 18 dez. 2025, 00:1830
Frank Zappa, com pertinência,
lembrava, ao bom estilo “criativo”, “não-conformado” dos anos 70, que sem nos
desviarmos da norma o progresso não é possível. De facto, é uma evidência. Um
sistema rígido, estático, altamente burocrático, não permite a criatividade e a
inovação. Aliás, tanto assim é que é essa a primeira razão pela qual o
planeamento central, o socialismo e o estatismo, seja em que variante for,
inevitavelmente falha: cristalizado
na norma, não consegue adaptar-se a um mundo que necessariamente vive em
constante mudança. Ora, como
sabemos já desde Darwin, aquilo que não se adapta, morre.
A este propósito, não deixa de ser curioso
o paradoxo cultural que ocorreu no Ocidente no espaço de uma geração, em
particular a dos jovens de 68. Então,
à esquerda, louvava-se o não-conformismo, a irreverência, a rebeldia, lutando
contra o sistema que se imaginava “opressor”, ou seja, a tal norma da qual era urgente
desviarmo-nos para se permitir o “progresso” e, com ele, a solução política
futurística que, cumprindo o sonho Kantiano, haveria de trazer
abundância, harmonia, paz e segurança, para sempre.
No
entanto, e desde logo revelando a
enorme contradição intelectual em que essa geração sempre se enrodilhou, no que
concerne a economia, a sociedade, a política, essa mesmíssima esquerda sempre apoiou a estrita
norma, pior ainda, a edificação constante de colossos administrativos que, em
nome do tal progresso que prometiam às massas, por trás,
aniquilavam o menor vislumbre de inovação, afundando todo e qualquer desvio num
oceano de carimbos, clips, agrafos e dossiers.
O grande segredo que toda a gente
sabe e ninguém fala é que, hoje, essa esquerda triunfou. Triunfou de uma forma
brutal, total, hegemónica. E, precisamente porque se tornou culturalmente
impositiva, nem lhes ocorre que a norma contra a qual constantemente vociferam
é aquela criada por ela própria. Ou seja, a verdade escondida com o rabo de fora, aquela verdade que se vai
revelando agora — motivo pelo
qual a constatação “anti-sistémica” passou para a “extrema-direita” e os blocos
da vida se afundam em irrelevância eleitoral — é que a
antiga esquerda libertária, revolucionária, idealista, é agora, em boa-verdade,
o famigerado “sistema”, o sistema resultante da tal vitória cultural, social,
hoje totalitária, dessa geração rebelde de 68.
Apenas
que ao contrário do imaginário infantil pseudo-rebelde, essa vitória retumbante
não apareceu com armas, nem concertos, nem sequer manifestações ou qualquer
espécie de “activismo” como aquele que sobeja hoje por aí, a soldo, de iPhone nas
mãos e All Stars nos pés — aliás, até que resultou, mas apenas
indirectamente. Na prática,
triunfou pela mesma razão que qualquer mudança é sempre inevitável: no mundo,
como Heraclito lembrava, a
vida é como um rio na medida em que nunca se entra na mesma água duas vezes — uma
metáfora que procura relembrar que, no caso dos homens, os pais morrem e depois
vêm os filhos. Assim, a seu tempo, os jovens revolucionários e idealistas,
ainda para mais desfrutando de um mundo pleno de abundância, facilidades e
“estudos” como nunca havia sido visto antes, tornaram-se eles próprios pais, e
agora avós.
A
geração mais rica de sempre foi aquela em que eles, em 68, de cabelos compridos
e desregrados, de sandálias e barba por fazer, e elas, depois do triunfo da
mini-saia, experimentaram pela primeira vez a liberdade sexual a cavalo da
pílula contraceptiva. Hoje, quer uns quer outros, carecas e grisalhos, mas bem
aburguesados, vão saindo de cena, ufanos, cheios de botox, rumo a uma reforma
plena de direitos garantidos por décadas de “luta contra o sistema”. Ou seja,
décadas de construção do sistema que deixam agora para quem vier a seguir os
continuar a sustentar.
Em cima, fica ainda um legado que,
curiosamente, poucos se têm dado ao trabalho de analisar. Socialmente,
desde logo para começar, um desastre. A Europa é hoje um aglomerado de
famílias desintegradas, caracterizada por taxas de natalidade tão baixas que
nem sequer garantem a capacidade de manutenção da população — em
português simples, a consequência é a extinção.
A
sociedade, fragmentada, atomizada, diluída num individualismo materialista,
hedonista, profundamente alienado, não oferece sentido ou significado para a
vida humana, bem como se revela incapaz de criar adultos fortes, conscientes de
verdades tão simples como a de que um direito esconde sempre um dever e que é
na responsabilidade individual que se conquista a liberdade. A
desconstrução de 68 prometia, relembre-se, direitos a rodos e a “libertação”
dos deveres como a noção — estúpida, infantil e mimada — de liberdade. O
resultado, claro, está aí na tradução da libertação por simples alienação.
Na base de toda essa ilusão, o
“outsourcing” moral e sentimental, em muitos casos por necessidade, noutros,
nomeadamente nas elites, por simples conveniência. Depois, consequência da
desestruturação da hierarquia anterior, sobeja a ausência emocional dos pais
face aos filhos, quanto mais não seja anteriormente consubstanciada na
estrutura social e familiar. Hoje,
sobram verdadeiros estranhos, uns face aos outros, agarrados à ideia, ridícula,
de que a escola, logo o Estado, seria capaz de suprir as obrigações familiares
na educação das novas gerações.
Como deveria ser óbvio, não foi. A estandardização, a massificação, a
anonimização copiada do ambiente fabril, em série, para a escola apenas gerou
espaços onde os filhos foram programados para o “mercado de trabalho”,
produzindo, ao invés de cidadãos, uma crescente maioria de gente
estandardizada, massificada, anónima, distante e, porque desligada,
profundamente infeliz — todos diferentes, mas todos iguais.
A geração de 68 visava desconstruir. Um
eufemismo, repare-se, para destruir. Destruir
o quê? O que havia. E destruiu. Só que não construiu nada de novo para
substituir o que resolveu estragar. Quebrou, por exemplo, os laços com o
passado. O orgulho dos “egrégios avós”, hoje vilipendiados como esclavagistas,
colonialistas, opressores, misóginos, racistas e homofóbicos. Cortados da História, arrancados do nosso
rochedo civilizacional, entregues ao relativismo absoluto, a única referência
valorativa que nos resta passou a ser a própria virtude dos operários da
revolução — o bem, a moral, a partir daí material, vota-se, decide-se, cria-se.
Num
mundo onde as fontes morais foram repudiadas, esquecidas, pisadas, sobra então
a húbris de quem se imaginou como o porta-estandarte de “um tempo novo” — o
tempo do novo-bem, da nova-moral, do novo-homem, o admirável mundo novo.
Ele
hoje aí está. Um vazio absoluto, superficial, material, que tudo olha com
indiferença e leviandade. Os valores, os famosos valores, encaixotados pela
geração de 68 como hipócritas, datados, logo coisas do passado, portanto
inúteis, foram substituídos por lemas, slogans, palavras de guerra — liberdade,
igualdade, fraternidade — que tanto significam uma coisa como seu contrário. Já os
afectos, isso sim, é o que conta. Depois
o amor-livre, bem como a busca da
liberdade plena, aquela certificada, naturalmente, pelo Estado, eis os novos
ideais de gratificação imediata
que, crescentemente, junto com
a maior revolução tecnológica da História da Humanidade, geraram um efeito de bola de neve onde, à medida que
o desafio colocado pela tecnologia se tornava cada vez maior, a capacidade da
sociedade, progressivamente enfraquecida, atomizada, ausente, se tornava ela
também cada vez mais vulnerável para lidar com a mudança abrupta.
Primeiro audio-visual, depois digital, enfim
cibernética, ora móvel e social, “em rede”, o espaço-tempo divide-se agora em
dois: por um lado, o plano do real,
empobrecido, escondido, onde, como numa gruta, nos viramos para dentro da
solidão, como no cliché da outrora espampanante miúda, hoje na menopausa,
sozinha, de comando na mão, agarrada ao gato, ao copo de vinho e à lembrança
das oportunidades que em nome da carreira, da liberdade, do “YOLO”, desperdiçou
a expensas de criar família. Já
pelo outro lado, lá fora, no ciberespaço, vive o avatar em rede, como que a
nova máscara que, a expensas de fotografias de viagens, de refeições ou de
qualquer coisa digna de ser mostrada no Instagram, como capa, esconde a
gruta real inundada da proverbial insatisfação humana — como se sabe, a relva
do vizinho, bem como as suas fotografias, é sempre mais verdejante, viçosa e,
em todas métricas possíveis, muito melhor.
Ainda assim, a estandardização e a
viragem do enfoque para a satisfação materialista consubstanciada na “carreira”,
na “promoção” e na abundância não gerou uma sociedade rica. Paradoxalmente, na
sociedade hiper-materialista, a capacidade para gerar riqueza vai-se esfumando
a cada ano que passa. Porventura,
porque a riqueza material é consequência de uma sociedade próspera, e nunca da
decadência e destruição, o legado de 68 é agora igual ao de todos aqueles
filhos pródigos que, desbaratando a herança, não criando riqueza, se recusam a
baixar o seu nível de vida. Eis, então, a progressão súbita da dívida pública
que, suprindo o déficit produtivo, mantém as aparências.
Em 30 anos, para cobrir a diferença
entre o que se consome e aquilo que não se produz, os heróis das virtudes, da
igualdade, da fraternidade democrática, do progresso, conseguiram hipotecar o
futuro dos filhos, dos netos e dos bisnetos. É obra! E agora, o
corolário: críticos de todos os
deveres, mas fiéis defensores de todos os direitos, sai agora a geração de 68
para uma reforma que lhes garante o conforto material até aos últimos dos seus
dias — ainda que todos saibam que mais ninguém a seguir terá tamanho privilégio.
Pior. Para justificar os direitos que garantiu para si própria, a geração
que sai agora do poder anuncia como milagrosa solução para a continuação a
famosa “imigração”. Ou seja, para
suprir o déficit gerado pelos filhos que não teve, mas ainda assim garantir a
dimensão do estado-social do qual não abdica, abriram-se as portas ao
terceiro-mundo sob a bandeira, como sempre, da igualdade e da fraternidade, uma
bandeira que apenas esconde a triste hipocrisia dos arautos da virtude
democrática.
Eis-nos, pois, aqui. De
portas abertas, com as cidades desbaratadas, filhos de uma globalização
falhada, de contas falidas, finalmente desconstruídos, em escombros, esmifrados
por um sistema estatal imenso, centralizado, já pós-soberano e pós-democrático
na medida em que organizado de forma anónima, burocrática, a partir de Bruxelas. Eis, aí, a última e suprema constatação:
a geração de 68, em nome do progresso, da riqueza, da abundância que sempre
prometeu, desbaratou e nunca cumpriu, até a soberania e a democracia despachou
— a preço de saldo, por conveniência política.
E ai de quem criticar! Pois bem se sabe
que quem não acompanhar os virtuosos desígnios democráticos, inclusivos,
fraternos, veiculados pelo sistema, não merece nele participar. Daí, junto
com a soberania da democracia, a geração que agora sai de cena, em
nome da suprema salvação, trata ainda de despachar a inconveniente liberdade de
expressão, garantia última da liberdade individual.
Já os seus herdeiros, frutos da
estupidificação generalizada que acompanhou a estandardização industrial da
educação e o “outsourcing” moral e emocional familiar, esses parecem em larga
medida não compreender a gravidade do que se perdeu. Crentes na revolução, praticantes do culto
do progresso, ansiosos por calçar os sapatos dos seus antepassados, acabam, por
conveniência ou ignorância, gabando o fausto manto do rei que, nu, gordo, de
peles caídas, se passeia impante como Napoleão, Bismarck ou Carlos Magno. Acaba
tudo, pois, no ridículo.
Sem desvio da norma, é certo, não há
progresso. A geração de 68 comprovou isso por todos os lados. Tal como
comprovou uma outra importante característica do mundo que completa a frase de
Zappa, mas que nunca é referida: é que sem norma, não há nada do qual nos possamos desviar. E se antes,
nos tempos antigos de abundância e prosperidade reais, se equilibravam esses dois valores — norma e
liberdade, tradição e inovação —, o verdadeiro legado de 68 é que nos quedamos
por estes dias sem nenhum dos dois. Enfim o vazio.
COMENTÁRIOS (de 30)
Ana Luís da Silva: Arrasador! Excelente reflexão social e política. Um primor para este Advento, tempo que para os
católicos antecede e prepara o Natal. Esta maravilhosa crónica extravasa
a espuma dos dias e faz uma radiografia de uma geração que foi a que mais
condicionou o nosso tempo. Infelizmente, deixou-nos o seu vazio e a sua
infelicidade como herança, diz Nuno Lebreiro, e (acrescento)
gerações de jovens que pensam (na sua inocência) que inventam a roda quando
recusam comprometer-se a sério com o
que quer que seja, seja com o casamento, o nascimento de um filho, um emprego,
a Fé cristã e os seus princípios civilizacionais que dignificam o ser humano.
Quando, no final das contas, são um produto dessa desconstrução dos “mimados”
de 68 e das suas liberdades libertárias que arrasaram com a família, a Fé e a
comunidade, como se fossem um mal em si mesmas. Tudo, para as novas
gerações, é fluído e anda ao ritmo do sentimento. Não confiam em nada que
perdure. Assim não se magoam. Na melhor das hipóteses, sobraram alguma ligação
familiar, os amigos de ocasião e as viagens para o estrangeiro, quando não é a
alienação da imagem nas redes, os jogos digitais ou as dependências tóxicas
como as drogas ou a pornografia. A geração de 68, destrambelhada e egoísta,
criou a geração actual, deixada só e ao ritmo dos dias; não do consequente, com
um passado estruturante, nem do antecedente, com um futuro construído com
esforço no aqui e agora. Espero que o autor escreva na próxima crónica
sobre a Esperança, por vezes escondida mas sempre presente, que germina ao
ritmo compassado e nunca apressado da Natureza. Afinal, das cinzas nasce a
vontade de edificar de novo, com alicerces fiáveis. Em vez de nos deixarmos
fatalmente ir e aceitarmos como boa e sem luta a ruína que outros deixaram para
nós. Eduardo
Santos: Excelente
reflexão
José B Dias: Absolutamente fantástica esta descrição do passado
recente e do presente que dele resultou
... e, efectivamente, são muito pouco apreciados aqueles que ainda são capazes
de gritar que o rei vai nu! GateKeeper: Top 10. A geração de 1955/60 agradece o seu
brilhantismo pensador, caro jovem NL. Francisco Almeida: Em Maio de 68, De Gaulle deslocou-se à Alemanha e
negociou com o gen. Massu a intervenção do Regimento de Paraquedistas da Legião
Estrangeira, os mesmos que tinham acabado com a greve geral em Argel e
efectivamente limparam as ruas de Paris. Onde
existe hoje o equivalente de De Gaulle e mesmo dos Paraquedistas? Em Portugal,
onde generais roubam na messe e onde o Hospital Militar de Belém foi um dos
maiores escândalos de obras públicas, certamente não é. Esperança hoje, tem a
sobrevivência como limite superior. José
Nicolau: O título até
podia ser "A vergonha de 68". Alberico Lopes: Um artigo que nos devia fazer pensar e perguntar como
é que tão poucos(?) conseguiram enganar tanta gente! E realmente é frustrante
ver como esses "revolucionários" conseguiram para si os melhores
tachos, que agora desfrutam sem qualquer ponta de vergonha! Eles são mesmo
muitos! Basta ler as listas de reformados que mensalmente são publicadas pela
Caixa Geral de Aposentações ou da Segurança Social para, a par das reformas
miseráveis de 90% da população envelhecida, nos aparecem os tais
"líderes" de 68, com valores de reforma obscenos e que ninguém ousa
contestar, porque, segundo se diz, são direitos adquiridos, mesmo que, como
todos sabemos, foram adquiridos na maquiavélica condução de ingénuos que
pensavam que iriam para o Jardim do Éden e acabaram nas filas da Sopa dos
Pobres! Manuel
Pires: Fico
fascinado quando leio alguém que diz o que penso, mas tenho dificuldade de pôr
em palavras; esta hegemonia cultural (e infelizmente global...) das esquerdas
assombra-me desde há bastante tempo. Eu tinha adoptado as suas ideias desde
novo mas, primeiro inconscientemente e depois cada vez menos, fui descobrindo
que elas me faziam mal simplesmente porque eram a negação da realidade, da
natureza. Desconstruí-las aos poucos foi desconstruir a minha própria cabeça e
isso foi uma coisa muito dolorosa e que demorou anos. De maneira que quando
agora leio no seu texto “O grande segredo que toda a gente sabe e ninguém fala
é que, hoje, essa esquerda triunfou” deu-se um clique; o grande problema é que
as ideias marxistas e afins colonizaram e continuam a colonizar milhões de
consciências. Vai ser o cabo dos trabalhos para as erradicar, e não vejo que
tal seja possível sem grande sofrimento.
Sr Leão: Em 68 já ia eu a meio do meu percurso. Fui surpreendido por tanta sanha destruidora, e
estranhei sempre a ausência de contrapartida de quem promete o futuro quando se
limita a destruir o presente e difamar o passado. Também me
entristece esta desesperança radicalizada de quem parece ignorar a grande
verdade, talvez a única, a que temos acesso: o universo é uma realidade
instável e efémera. José B
Dias > GateKeeper: Subscrevo na qualidade de membro da dita! Lily Lu: Bem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário