segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Um tempo de calamidades

 

Mesmo na Terra Santa. Valha-nos Jesus Cristo.

A Terra Santa é uma bênção de Deus para todos

É missão da Igreja recordar essa bênção, contra a maldição dos que pretendem fazer da Terra Santa um ghetto interdito às outras etnias e religiões.

P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA, COLUNISTA

OBSERVADOR,29 nov. 2025, 00:174

Enquanto, na Palestina, as populações locais padecem o horror da guerra, a Igreja católica, através do Patriarcado Latino de Jerusalém e da pontifícia Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém (OCSSJ), presta um apoio efectivo a todos os que vivem e sofrem na Terra Santa.

No passado 22 de Novembro teve lugar, na Basílica da Estrela, com a presença do Governador Geral da OCSSJ, a cerimónia de investidura de novas Damas e Cavaleiros, que foi presidida pelo Grão-Prior da Lugar-Tenência de Portugal, o Cardeal D. Manuel Clemente, a que se seguiu uma celebração eucarística, presidida por D. Rui Valério, Patriarca de Lisboa.

Vem, pois, muito a propósito, recordar uma recente entrevista da Ecclesia ao Cardeal Fernando Filoni, Grão-Mestre da OCSSJ, depois da sua viagem pastoral à Terra Santa, em Agosto passado. Nesta ocasião, afirmou que “é necessária uma metanoia. O que é metanoia? Uma mudança de mentalidade. Enquanto se continuar a usar armas e a colocar lenha na fogueira, não haverá futuro. Devemos apagar esses incêndios e entender que […], se não forem encontradas soluções para a coexistência e o diálogo, não haverá futuro.”   

O Cardeal Filoni manifestou a sua esperança de uma paz duradoura no Médio Oriente, que não será possível se não houver uma profunda mudança de atitude por parte de palestinianos e israelitas: “Acreditamos que [a paz] é possível, mas deve haver uma mudança de mentalidade nos níveis global, regional e local. Se isso não acontecer, estaremos em sérios apuros. Se esse ódio, que é quase palpável, não for exterminado, não haverá futuro para o Médio Oriente. É por isso que encorajamos essa metanoia. Sim, os reféns devem ser libertados incondicionalmente; sim, a ação do Hamas foi maligna; sim, a reação de Israel também foi desproporcionada, porque muitos inocentes morreram…”

O Grão-Mestre da OCSSJ insiste na necessidade do diálogo: “É possível que povos nobres e antigos, como os de Israel e da Palestina, não consigam conversar? Que os impede de o fazer? O extremismo, que não faz parte do diálogo.” Não são as diferenças étnicas, nem religiosas, o principal entrave ao processo de paz no Médio Oriente, mas o ódio de uns contra os outros, pois “o extremismo leva à vingança”. 

A propósito da presença da Igreja na Terra Santa, é sabido que, como consequência da instabilidade vivida no território, corre-se o risco de que, em breve, não haja cristãos na terra de Jesus. Embora palestinianos e judeus reconheçam a legitimidade e conveniência da presença cristã, nomeadamente como guardiões dos Santos Lugares, graças à Custódia da Terra Santa, a verdade é que os sionistas mais extremistas, como também os muçulmanos radicais, pretendem a sua erradicação.

A Santa Sé, através da OCSSJ, desenvolve acções que permitem a fixação da população cristã, sobretudo num contexto de prolongada guerra, em que os cristãos, mesmo não sendo os principais alvos dos grupos terroristas islâmicos, nem do exército israelita, são vítimas da situação que se vive na Palestina e em Israel.

O Cardeal Filoni referiu-se à faixa de Gaza, mas também ao Líbano, Iraque, Irão, Síria e Iémen, onde existem comunidades cristãs que passam por grandes dificuldades, sobretudo as que vivem essencialmente das “peregrinações e do turismo. Foi essencial para nós encontrarmo-nos com essas pessoas, e foi importante para elas perceberem que as não esquecemos. As actividades relacionadas com as peregrinações e o turismo são praticamente inexistentes, ou foram suspensas, pondo em risco a subsistência desses cristãos: há pessoas que não têm nada com que se alimentar no seu dia-a-dia. Quando não há trabalho, é também a dignidade daqueles que ganham a vida com seu labor que desaparece.”

A este propósito, referiu o caso de Belém: “visitámos a paróquia e soubemos, através de algumas das pessoas que nela vivem, as dificuldades que enfrentam. O pároco disse-nos que, graças à CÁRITAS e à ajuda que oferecemos como Ordem, unida à de outros benfeitores, centenas de pessoas conseguem sobreviver. Graças à ajuda da paróquia ou do Patriarcado Latino de Jerusalém, muitas pessoas podem comprar produtos básicos, como arroz, massa, azeite e sabão. Devido à falta de trabalho, vivem numa situação precária.”

O Cardeal Grão-Mestre especificou que um dos principais objectivos da instituição que lidera é, precisamente, apoiar a Igreja católica na Terra Santa, através do Patriarcado Latino de Jerusalém, que é a estrutura hierárquica católica na zona: “De acordo com o estatuto estabelecido desde a época de Pio IX, em 1847, a Ordem [de Cavalaria do Santo Sepulcro] foi estabelecida como uma instituição de apoio à Igreja Patriarcal de Jerusalém. Não actuamos como uma entidade independente. Estamos sempre um passo atrás do Patriarcado Latino de Jerusalém, que nos comunica as suas necessidades. Assim, ajudamos o Patriarcado com as contribuições pessoais de todos os Cavaleiros e Damas para apoiar a Terra Santa e as suas obras, sejam pastorais, educacionais ou sociais, e agora os desafios impostos pela guerra em Gaza. A Ordem contribui com 16 milhões de dólares anualmente para a Terra Santa, graças a doações privadas. É uma relação financeira com os Lugares Santos, mas, acima de tudo, é a expressão de uma união emocional. Como Jesus disse ‘que a mão direita não saiba o que faz a esquerda’, ficamos felizes em passar despercebidos.”  

Para além do Grão-Mestre, que é nomeado pelo Santo Padre, vive em Roma e é assessorado pelo Grão-Magistério, a OCSSJ está organizada por Lugares-Tenências que, por regra, correspondem aos países onde está presente. Os seus Cavaleiros e Damas, para além das exigências próprias da condição cristã, assumem o especial compromisso de ajudar a Terra Santa. Nas comunidades católicas a que pertencem – paróquias, dioceses, confrarias, movimentos, etc. – devem fazer de algum modo presente a Terra Santa e, nesse sentido, incentivar outros fiéis para que ajudem os cristãos que vivem na terra de Jesus de Nazaré.

Para os cristãos, a razão da especial relação com a Terra Santa decorre do facto de ter sido o país onde Cristo nasceu, viveu, morreu e ressuscitou. Com judeus e muçulmanos, partilham a devoção a Abrãao, o pai dos crentes, que é igualmente venerado pelos fiéis das três religiões monoteístas. Como recordou o Cardeal Fernando Filoni“Nós, cristãos, também precisamos de mudar a nossa mentalidade a este respeito, porque, embora sejamos uma minoria, temos uma missão a realizar. A Terra Santa é-o desde o início, desde que Deus prometeu uma terra a Abraão, uma terra de bênção. Aqueles que lá vão procuram a bênção de Abraão, Isaac e Jacob, e de Jesus, que a completa.” 

A missão da Igreja e dos cristãos consiste, precisamente, em recordar essa bênção, contra a maldição dos radicalismos e exclusivismos totalitários, dos que pretendem fazer daquele território uma espécie de ghetto interdito às outras etnias e religiões. Como disse o Grão-Mestre da OCSSJ, “nós, cristãos, devemos lutar contra essa maldição, para que a bênção de Abraão, o pai na fé de Israel, dos cristãos e dos muçulmanos, prevaleça. Trata-se, portanto, de promover uma mudança de mentalidade, para que não prevaleça a mentalidade da ocupação, da pertença ou da exclusão, de quem diz: ‘isto é meu e daqui não saio, nem ninguém me tira’. Precisamos de pensar na bênção que é a Terra Santa enquanto terra de Deus para todos […]. Isto significa que os cristãos devem pedir aos políticos que demonstrem o seu amor e respeito por cada peregrino que chega à Terra Santa e por todos aqueles que a habitam”. 

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COMENTÁRIOS (de 4)

J. D.L. - Quem é que está a necessitar de uma verdadeira metanoia? O cardeal, que é capaz de dizer: "Acreditamos que [a paz] é possível [na Terra Santa], mas deve haver uma mudança de mentalidade". Os verdadeiros crentes em Alá não podem mudar de mentalidade. E não tenho a certeza de que "se não forem encontradas soluções para a coexistência e o diálogo, não haverá futuro”. Estou convencido que haverá história ... no futuro.

 

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