Mesmo na Terra Santa. Valha-nos Jesus Cristo.
A Terra Santa é uma bênção de Deus
para todos
É missão da Igreja recordar essa bênção, contra a maldição dos que
pretendem fazer da Terra Santa um ghetto interdito às outras etnias e
religiões.
P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA, COLUNISTA
OBSERVADOR,29 nov. 2025, 00:174
Enquanto, na
Palestina, as
populações locais padecem o horror da guerra, a Igreja católica, através do
Patriarcado Latino de Jerusalém e da pontifícia Ordem de Cavalaria do Santo
Sepulcro de Jerusalém (OCSSJ), presta um apoio efectivo a todos os que vivem e
sofrem na Terra Santa.
No passado 22 de Novembro teve lugar, na Basílica da Estrela, com a
presença do Governador Geral da OCSSJ, a
cerimónia de investidura de novas Damas e Cavaleiros, que foi presidida pelo
Grão-Prior da Lugar-Tenência de Portugal, o Cardeal D. Manuel Clemente, a que
se seguiu uma celebração eucarística, presidida por D. Rui Valério, Patriarca
de Lisboa.
Vem, pois, muito a propósito, recordar uma recente entrevista da Ecclesia
ao Cardeal Fernando Filoni, Grão-Mestre da OCSSJ, depois da sua
viagem pastoral à Terra Santa, em Agosto passado. Nesta ocasião, afirmou
que “é necessária uma metanoia. O
que é metanoia? Uma mudança de mentalidade. Enquanto se continuar a usar armas
e a colocar lenha na fogueira, não haverá futuro. Devemos apagar esses
incêndios e entender que […], se não forem encontradas soluções para a
coexistência e o diálogo, não haverá futuro.”
O Cardeal Filoni manifestou a sua
esperança de uma paz duradoura no Médio Oriente, que não será possível se não
houver uma profunda mudança de atitude por parte de palestinianos e israelitas: “Acreditamos que [a paz] é possível, mas deve haver uma
mudança de mentalidade nos níveis global, regional e local. Se isso não
acontecer, estaremos em sérios apuros. Se esse ódio, que é quase palpável, não
for exterminado, não haverá futuro para o Médio Oriente. É por isso que
encorajamos essa metanoia. Sim, os reféns devem ser libertados
incondicionalmente; sim, a ação do Hamas foi maligna; sim, a reação de Israel
também foi desproporcionada, porque muitos inocentes morreram…”
O Grão-Mestre da OCSSJ insiste na necessidade do diálogo: “É possível que povos nobres e antigos, como os de
Israel e da Palestina, não consigam conversar? Que os impede de o fazer? O
extremismo, que não faz parte do diálogo.” Não são as diferenças étnicas, nem
religiosas, o principal entrave ao processo de paz no Médio Oriente, mas o ódio
de uns contra os outros, pois “o extremismo leva à vingança”.
A propósito da presença da Igreja na Terra Santa, é sabido que, como
consequência da instabilidade vivida no território, corre-se o risco de que, em
breve, não haja cristãos na terra de Jesus. Embora palestinianos e judeus reconheçam a legitimidade e
conveniência da presença cristã, nomeadamente como guardiões dos Santos Lugares,
graças à Custódia da Terra Santa, a verdade é que os sionistas mais
extremistas, como também os muçulmanos radicais, pretendem a sua erradicação.
A Santa Sé, através da OCSSJ,
desenvolve acções que permitem a fixação da população cristã, sobretudo num contexto
de prolongada guerra, em que os cristãos, mesmo não sendo os principais alvos
dos grupos terroristas islâmicos, nem do exército israelita, são vítimas da
situação que se vive na Palestina e em Israel.
O Cardeal Filoni referiu-se à faixa de Gaza, mas também ao Líbano,
Iraque, Irão, Síria e Iémen, onde existem comunidades cristãs que passam
por grandes dificuldades, sobretudo as que vivem essencialmente das “peregrinações
e do turismo. Foi essencial para nós encontrarmo-nos com essas pessoas,
e foi importante para elas perceberem que as não esquecemos. As
actividades relacionadas com as peregrinações e o turismo são praticamente
inexistentes, ou foram suspensas, pondo em risco a subsistência desses
cristãos: há pessoas que não têm nada com que se alimentar no seu dia-a-dia.
Quando não há trabalho, é também a
dignidade daqueles que ganham a vida com seu labor que desaparece.”
A este propósito, referiu o caso de Belém: “visitámos a paróquia e soubemos, através de algumas das pessoas que
nela vivem, as dificuldades que enfrentam. O pároco disse-nos que, graças à
CÁRITAS e à ajuda que oferecemos como Ordem, unida à de outros benfeitores,
centenas de pessoas conseguem sobreviver. Graças à ajuda da paróquia ou do
Patriarcado Latino de Jerusalém, muitas pessoas podem comprar produtos básicos,
como arroz, massa, azeite e sabão. Devido à falta de trabalho, vivem numa
situação precária.”
O Cardeal Grão-Mestre especificou que
um dos principais objectivos da instituição que lidera é, precisamente, apoiar
a Igreja católica na Terra Santa, através do Patriarcado Latino de Jerusalém,
que é a estrutura hierárquica católica na zona: “De acordo com o estatuto estabelecido
desde a época de Pio IX, em 1847, a Ordem [de Cavalaria do Santo Sepulcro] foi
estabelecida como uma instituição de apoio à Igreja Patriarcal de Jerusalém.
Não actuamos como uma entidade independente. Estamos sempre um passo atrás do
Patriarcado Latino de Jerusalém, que nos comunica as suas necessidades. Assim,
ajudamos o Patriarcado com as contribuições pessoais de todos os Cavaleiros e
Damas para apoiar a Terra Santa e as suas obras, sejam pastorais, educacionais
ou sociais, e agora os desafios impostos pela guerra em Gaza. A Ordem
contribui com 16 milhões de dólares anualmente para a Terra Santa, graças a
doações privadas. É uma relação financeira com os Lugares Santos,
mas, acima de tudo, é a expressão de uma união
emocional. Como
Jesus disse ‘que a mão direita não saiba o que faz a esquerda’, ficamos felizes
em passar despercebidos.”
Para além do Grão-Mestre, que é nomeado pelo Santo Padre, vive em Roma e é assessorado pelo
Grão-Magistério, a OCSSJ está
organizada por Lugares-Tenências que, por regra, correspondem aos países onde
está presente. Os seus Cavaleiros e Damas, para além das exigências
próprias da condição cristã, assumem o especial compromisso de ajudar a Terra
Santa. Nas comunidades
católicas a que pertencem – paróquias,
dioceses, confrarias, movimentos, etc. – devem fazer de algum modo
presente a Terra Santa e, nesse sentido, incentivar outros fiéis para que
ajudem os cristãos que vivem na terra de Jesus de Nazaré.
Para os cristãos, a razão da especial
relação com a Terra Santa decorre do facto de ter sido o país onde Cristo
nasceu, viveu, morreu e ressuscitou. Com judeus e muçulmanos, partilham a devoção a Abrãao, o pai dos
crentes, que é igualmente venerado pelos fiéis das três religiões monoteístas.
Como recordou o Cardeal Fernando Filoni: “Nós,
cristãos, também precisamos de mudar a nossa mentalidade a este respeito,
porque, embora sejamos uma minoria, temos uma missão a realizar. A Terra Santa
é-o desde o início, desde que Deus prometeu uma terra a Abraão, uma terra de
bênção. Aqueles que lá vão procuram a bênção de Abraão, Isaac e Jacob, e de
Jesus, que a completa.”
A
missão da Igreja e dos cristãos consiste, precisamente, em recordar essa
bênção, contra a maldição dos radicalismos e exclusivismos totalitários, dos
que pretendem fazer daquele território
uma espécie de ghetto interdito às outras etnias e religiões. Como
disse o Grão-Mestre da OCSSJ, “nós,
cristãos, devemos lutar contra essa maldição, para que a bênção de Abraão, o
pai na fé de Israel, dos cristãos e dos muçulmanos, prevaleça. Trata-se,
portanto, de promover uma mudança de mentalidade, para que não prevaleça a
mentalidade da ocupação, da pertença ou da exclusão, de quem diz: ‘isto é meu e
daqui não saio, nem ninguém me tira’. Precisamos de pensar na bênção que é
a Terra Santa enquanto terra de Deus para todos […]. Isto significa que os
cristãos devem pedir aos políticos que demonstrem o seu amor e respeito por
cada peregrino que chega à Terra Santa e por todos aqueles que a
habitam”.
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COMENTÁRIOS (de 4)
J. D.L. - Quem é que está a necessitar de uma verdadeira
metanoia? O cardeal, que é capaz de dizer: "Acreditamos que [a paz] é
possível [na Terra Santa], mas deve haver uma mudança de mentalidade". Os
verdadeiros crentes em Alá não podem mudar de mentalidade. E não tenho a certeza de que "se não forem
encontradas soluções para a coexistência e o diálogo, não haverá futuro”. Estou
convencido que haverá história ... no futuro.
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