Um texto de grande interesse para nós, que até temos expressões
admirativas referentes ao contacto com os Judeus: «Ser
um grande judeu», por
exemplo, traduz censura depreciativa de expressão hiperbólica, que
ficou na nossa língua. Recordo ainda o prazer da leitura de “O JUDEU” de
António José da Silva, quando leccionei por cá, habituados que estávamos apenas
ao “Frei Luís de Sousa”
garrettiano. Excelente crónica de PAULO MENDES PINTO sobre o judaísmo
peninsular.
Portugal e a antiguidade dos sefarditas.
Uma peça identitária fundamental
Anterior em alguns séculos ao Cristianismo, o judaísmo sefardita é
parte sem a qual é impossível compreender Portugal.
PAULO MENDES PINTO Especialista em História
das Religiões. Universidade Lusófona
OBSERVADOR, 07 ago. 2025, 00:1516
É
longa, possivelmente de mais de dois milénios, a presença judaica no que hoje é
o território português. Inevitavelmente, esta espessura
histórica teria de marcar de forma muito clara as populações que hoje habitam
esse mesmo espaço, dando material para o campo identitário.
Contudo, o caminho do tempo
não foi simples e linear e, no Portugal contemporâneo, essa inevitável memória
não é nada pacífica. É um desconforto que radica numa dificuldade em
definir se os judeus sefarditas somos “nós” ou se são “eles”, vindo de séculos
de perseguição que tentaram apagar os traços identitários do judaísmo sefardita
da nossa cultura.
Percebemos esta tensão no campo do adagiário. Como que num inconsciente
colectivo, os ditados populares são uma marca do que se consolidou ao longo dos
séculos como percepção e representação. “Trabalhar
que nem um mouro” ou “fazer judiarias”
são
dois exemplos de como a cultura popular portuguesa consignou chaves de
intolerância na memória colectiva, uma em relação aos muçulmanos, outra aos
judeus.
Socialmente, um provérbio é a imagem de um tempo longo, de um tecido social com
pouca mudança. O caso do judaísmo é, possivelmente, o caso mais
significativo em Portugal. Se o “fazer
judiarias” revela uma imagem negativa, um outro adágio, “andar com o credo na boca”, mostra como
o medo dos critpo-judeus em serem apanhados sem saber a oração do Credo, não
conseguindo provar que eram bons cristãos, passou para o tecido social, sem
mácula da minoria supostamente indesejada e caricaturada – saber o Credo por forma a recitá-lo
imediatamente, passou a ser imagem de um medo endémico numa população habituada
a inquisições e polícias políticas. Neste caso, o todo do tecido social
irmanou-se com o perseguido, com a minoria, com o “outro”.
De facto, se há campo da nossa memória colectiva que com alguma
dificuldade conseguimos compreender, ele encontra-se na relação que os judeus
sefarditas criaram com o território peninsular, mais propriamente com o
português. Dois fenómenos
correm paralelos num rio lodoso; por um lado, muito pouco se tem estudado sobre
a antiguidade da presença dos judeus na Ibéria, pressentindo-se, apenas, que
ela será milenar; por outro, de onde virá, como se formou essa estreita relação
entre os judeus e Sefarad, uma mítica terra, uma mítica era, um mítico espaço
de que resultou, mesmo após a conversão forçada, uma relação e uma proximidade
simbólica fortíssimas?
Esta ligação, tantas vezes
comprovada, por exemplo, no facto de em algumas sinagogas, como em Amesterdão,
ainda se recitarem orações em português, vários séculos depois da fuga, foi um
dos motores e justificativas para a Lei que em 2013 foi aprovada, por
unanimidade, para permitir o acesso à cidadania portuguesa por parte dos
descendentes dos sefarditas fugidos à Inquisição.
Apesar de muitas vezes perseguidos no início da Idade Média, os judeus
peninsulares encontraram na Ibéria, até à passagem do século XIV para o XV, um
espaço de significativa liberdade, quer religiosa, quer de acção. Foi este o fundo que resultou, ao longo dos séculos,
na construção quase mítica da ideia de Sefarad, sempre associada a um espaço de
profunda identificação e significativa felicidade.
Sinagoga
Sefardita, na judiaria de Castelo de Vide.
Desde muito cedo, não sabemos quando, esta realidade designada por «Sefarad»
foi identificada com a Península
Ibérica (a palavra Sefarad
surge no texto bíblico de Abdias, versículo 21, um texto do século VI a.C.).
Não
podemos saber desde quando, de facto, existiram judeus no território
peninsular, mas podemos dizer, com certo grau de verosimilhança, que isso terá
acontecido muito cedo, logicamente antes do domínio romano, aquando da grande
expansão comercial dos fenícios.
Os fenícios, com as suas armadas preenchidas também
com hebreus, pululavam numa época de primeira globalização em que a moeda e o
ferro traziam uma rápida e brusca homogeneização de gostos e práticas culturais.
A
chegada dos primeiros hebreus deve estar relacionada, ou com a vinda de
comerciantes fenícios logo no início da Idade do Ferro, ou com a proximidade,
mais tarde, ao contínuo de dominação cartaginesa do Norte de África, onde as
populações semitas dominavam, dominando também todo um modo de vida em torno do
comércio. É o
próprio texto bíblico a mostrar que o hebreu Rei Salomão organizara armadas com
o Rei de Tiro para comerciar na Península Ibérica (1 Rs 10, 22).
Estaríamos,
provavelmente, entre os séculos X e IX a.C., quando os primeiros hebreus
chegaram a terras, muito depois, apelidadas de portuguesas.
Com
o advento do domínio romano, a presença judaica avoluma-se e, antes da chegada
do Cristianismo, já existiriam grandes comunidades judaicas em várias regiões
da Ibéria. O grande
difusor do Cristianismo, Paulo de Tarso, é quem nos confirma essa
realidade, quando afirma a vontade de vir evangelizar a este canto do mundo
mediterrânico – S. Paulo deslocava-se sempre a cidades com grandes comunidades
judaicas.
Afirma o apóstolo na sua Carta
aos Romanos (Rm 15,23-24, 28):
“Como não tenho mais nenhum campo de acção nestas regiões, e há muitos
anos que ando com tão grande desejo de ir ter convosco, quando for de viagem
para a Hispânia… Ao passar por aí, espero ver-vos e receber a vossa ajuda para
ir até lá, depois de primeiro ter gozado, ainda que por um pouco, da vossa
companhia… Portanto, quando este assunto estiver resolvido, e lhes tiver
entregado o produto desta colecta devidamente selado, partirei para a Hispânia,
passando por junto de vós.”
Para a mesma época, a arqueologia também nos valida esta informação.
Pela mesma época, com datação da primeira metade do séc. I d.C., foi encontrado
em Mértola um grupo de onze moedas cunhadas na Judeia, atestando as trocas
comerciais entre as duas regiões.
Pedra de anel com símbolos judaicos
(Museu Cidade de Ammaia).
Uma pedra de anel, provavelmente
proveniente da cidade romana de Ammaia, datado do séc. II d.C., e hoje em
depósito no Museu Nacional de Arqueologia, constitui um dos testemunhos
arqueológicos mais antigos para a datação da presença judaica, não só em
Portugal, mas em toda a Península Ibérica.
Anteriores em Portugal, mais de um
milénio antes de haver Portugal. Anterior
em alguns séculos ao Cristianismo, o judaísmo sefardita é parte sem a qual é
impossível compreender Portugal. Actores fundamentais na época da fundação do
reino, foram imprescindíveis na construção da expansão dos séculos XV e XVI.
Pena que a perseguição tenha caído sobre o reino e tenha destruído a riqueza
cultural antes construída.
[Os artigos da série Portugal
900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de
Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]
PORTUGAL 900
ANOS HISTÓRIA CULTURA 16
COMENTÁRIOS (de 16)
Maria Nunes 07/08/2025: Excelente artigo.
João Das Regras 07/08/2025: Uma lição de História, mas isto não justifica o
crime cometido pela atribuição de passaportes portugueses na sua maioria de
forma fraudulenta como no caso da comunidade do Porto onde o Rabino tinha uma
empresa em Israel para vender o acesso ao passaporte português que depois era
ele que aprovava os documentos. Além do Abramovich a selecção de futebol de
Israel tinha 12 jogadores "portugueses” o ex chefe da Mossad também é
português e nos autocarros de Teleavive havia publicidade sobre a atribuição
facilitada do passaporte europeu onde bastava pagar e os resultados eram
garantidos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário