… Dessas tragédias europeias e asiáticas aqui descritas, aquelas a que
assistimos pela televisão, de adultos e crianças estendendo os seus tachos para
as comidas que lhes chegam de fora… e tudo o que se adivinha de horror, quer
por descrição, quer por imagem, de fome e de desconforto… que nos confrange, no
amargor da nossa inércia… Pobres crianças, estendendo os tachos, pobres
famílias sem culpa, debaixo dos golpes que não pediram e continuam por aí…
A razão e a necessidade
O problema é que a Europa está demasiado fraca para se decidir. As
suas elites não sabem o que querem porque não sabem o que são, nem o que
representam.
MIGUEL MORGADO Colunista
do Observador
OBSERVADOR, 21 dez.
2025, 00:229
No último Conselho Europeu a figura da “cooperação
reforçada” foi avançada para contornar um problema político
sério. De um
lado, a Bélgica opôs-se ao confisco de activos russos em jurisdições europeias
para financiar o custo da guerra na Ucrânia. Do outro, uma vez tornada invencível a
oposição belga, e optando pelo plano
B da emissão de dívida europeia conjunta, Hungria, Eslováquia e Chéquia obtiveram garantias de não
vinculação financeira como contrapartida para não fazerem votos formais de
oposição. Seja como for, o dia foi importante.
Primeiro,
porque as carências financeiras ucranianas
ameaçavam a sua capacidade efectiva de combate. Segundo,
as
oposições internas à cooperação com a
Ucrânia em matéria militar vão-se cristalizando. Terceiro, as
lideranças da União (Merz,
Macron, Tusk, Meloni e mais umas
quantas inexistências) perceberam que, no actual contexto
geopolítico, uma não-decisão neste Conselho seria um sinal terrível
de fraqueza. Quarto, tornou-se
patente que as
necessidades financeiras da Ucrânia voltarão a agigantar-se. Os 90 mil
milhões de euros a ser emprestados agora cobrem apenas as necessidades
ucranianas até ao final de 2027. Todos
esperamos que a guerra
esteja resolvida até lá. Mas já se percebeu que, uma vez concluída a guerra, teremos
de fazer arrecadar tremendos recursos financeiros para a reconstrução da
Ucrânia, e não serão nem os Americanos, e
muito menos os Russos, que aliviarão a Europa desse fardo. Se a
guerra prosseguir ou se ela finalmente terminar, a Europa estará sozinha nesse
esforço de financiamento.
Contudo, esta crise geopolítica,
com incidência na Europa e em vários outros pontos estratégicos do globo, está a pressionar a União para se decidir. O cerco ideológico, militar, diplomático,
económico, tecnológico e demográfico ao continente vai-se apertando a cada
hora. Os inimigos externos e internos da Europa farejam e
denunciam as suas fraquezas todos os dias. O problema é que a Europa está demasiado fraca para se decidir. As suas elites não sabem o que querem
porque não sabem o que são, nem o que representam. Há muito
tempo decidiram abandonar o que tinham à sua responsabilidade em troca de uma
vida paradisíaca no conforto do mundo cosmopolita recheado de belos princípios
humanitários em que nem os próprios acreditam, mas têm de repetir acefalamente,
e, o que não é de somenos, de contas bancárias agradáveis.
Teria sido melhor que uma União política tivesse deixado as suas
unidades nacionais e soberanas sobreviver e vicejar na história. Mas, por
vezes, a geopolítica comanda as possibilidades políticas internas. Hoje, a
Europa sente-se na posição precária de quem está a meio da ponte. Já retirou demasiadas prerrogativas soberanas aos seus Estados-membros
para que estes possam fingir gozar de grande independência. Ao mesmo tempo, a
fragilidade geopolítica de cada um dos Estados-membros individualmente
considerado revela-se todos os dias um espectáculo penoso.
Porém, a União também ficou aquém da
centralização do poder executivo, legislativo e regulatório indispensável para
poder agir em bloco à semelhança dos seus
competidores geopolíticos. Há
umas quantas almas que aplaudiram comovidos a perspectiva de uma nova emissão
de dívida. Julgam
que a emissão de dívida conjunta é o alfa e o ómega da resolução política.
São ainda os ecos da conversa infantil dos anos da crise do Euro sobre o
putativo “momento hamiltoniano”, que na altura contou com muitos interlocutores que sabiam pouco de
política e nada de história americana. Erro deles. A constituição de uma
União política centralizada à escala continental pressupõe muito mais do que
isso.
Dizem-nos
que a União Europeia tem de ser uma “unidade geopolítica” ou desfiar-se-á em
tempos geopolíticos como os nossos. É
bem provável. Mas é preciso
perceber que um tal salto não geraria as consequências benévolas que dele se
esperaria sem que as fracturas sociais cada vez mais expostas das sociedades
internas dos Estados-membros sejam atendidas. A
política nacional dos Estados-membros está fragmentada e, com pouquíssimas
excepções, sofre uma
crise de desconfiança e de cepticismo incompatível com grandes ousadias. As
lideranças não confiam em si mesmas e partilham em graus variáveis da
intoxicação ideológica que fez a Europa duvidar do seu direito de
existir como Europa – e não como outra sociedade qualquer – no mundo.
Há muita sabedoria na cabeça
de quem disse que “o que não
te induz a razão, induz-te a necessidade”. Mas
a resposta à
“necessidade” tem
sempre uma amplitude angustiante de criatividade e qualidade. Nos
próximos 10 anos teremos de tomar decisões políticas determinantes. Convém que
tanto os governantes como os povos europeus estejam à altura do que lhes vai ser
exigido.
COMENTÁRIOS (de 53)
Maria Paula Silva: Os povos europeus não sei, mas os actuais governantes não estão à
altura de certeza. Joao
Valente: Mais um
excelente artigo e ainda bem
que existem alguns que conseguem explicar o que se passa e colocar o dedo na ferida.
A frase do subtítulo resume muito bem “as elites não sabem o que são e o que
representam” só não esclarece embora esteja subentendido que são a
representação do seu povo. A Europa vive a crise do indivíduo
que não se elevou para um nível mais avançado de democracia e a confusão
ideológica, retórica e populismo penetram hoje com tal facilidade. Pessoas
fortes elegem líderes fortes e o seu contrário também. Falta-nos um líder que
perceba e represente os valores europeus e mais importante que os volte a
comunicar novamente Afonso Moreira: Muitos europeus, com as elites na proa, só se preparam
para navegar num lago de águas calmas, num navio de luxo e servidos por
muitos, ávidos para os vir servir. Como o dinheiro não faltava aos vendedores
dessas ilusões infinitas a viagem parece que continuaria indefinidamente. O
navio foi crescendo sem águas agitadas. A sua segurança estava garantida pelos
americanos e o abastecimento seria feito pelos chineses. Quanto à mão de
obra...todos sabemos. Elites e muito povo não queriam ouvir os profetas da
desgraça. Muitos têm vivido mutuamente
hipnotizados: uns porque dependem dos votos e os outros não querem
acordar dos sonhos que lhes foram vendendo.
Não será fácil desfazer este estado de hipnose quando as águas estão agitadas e
o navio precisava de grandes timoneiros e trocar o luxo pela robustez. A
necessidade aguça o engenho, mas as ondas enormes que estão no horizonte são
demasiadas para um navio e tripulação de águas calmas. Tudo resumiam ao
bem-estar e a competividade mundial era o bálsamo. E agora? Ana Bosque: A guerra na Ucrânia será o balde de água fria
que a Europa precisava para acordar? A necessidade de tomar decisões (para além de tampas de garrafas de
plástico) de apoiar e acompanhar a Nação Ucraniana, que
luta pela liberdade (algo que queríamos definitiva), o identificar da podridão
dentro das nossas nações que nos está a minar e proclama a nossa morte enquanto
a alimentamos, a noção de que sem trabalho não há riqueza. São conceitos que cada vez mais são falados nas redes
sociais. Terá
de partir do povo a necessidade de mudança, a união em torno de um objectivo
comum trará a identidade. A identidade constrói-se! Não é dada por um toque de varinha mágica de um
qualquer líder. Força, Europeus! vamos
reacender a chama da nossa civilização! Rui Lima: Brilhante. Um
diagnóstico certeiro, escrito com clareza, coragem e honestidade intelectual. Há muito que não
se lia, no espaço público, uma crítica tão bem formulada sobre à incoerência e vazio das elites
contemporâneas. Um retrato implacável neste seu parágrafo:
« As suas elites não sabem o que querem porque não sabem o que são,
nem o que representam. Há muito tempo decidiram abandonar o que tinham à sua
responsabilidade em troca de uma vida paradisíaca no conforto do mundo
cosmopolita recheado de belos princípios humanitários em que nem os próprios
acreditam, mas têm de repetir acefalamente, e, o que não é de somenos, de
contas bancárias agradáveis. »
Komorebi Hi: Mais 90 mil milhões de dívida
emitida sob ordens da Comissão e do Conselho Europeu de von der Leyen e Costa,
ou seja uma dívida inventada que a Ucrânia nunca pagará, com dinheiro sem valor
fiduciário, imprimido onde não se cria riqueza, ou seja, mais inflação
provocada por dinheiro falso do BCE. Assim vai a neo República de Weimar em Bruxelas, com
padrinhos como Merz, Macron ou Tusk a usar a Ucrânia como
instrumento para esconder o abismo onde se encontra a UE das elites miseráveis. Alberico
Lopes: Sempre tenho dito que se houvesse HOMENS com eles no sítio a
dirigir a Europa, nunca o Hitler II teria coragem para destruir a Ucrânia e
estar a preparar-se para fazer o mesmo à Polónia e aos Paises Bálticos.
Estes eunucos que dirigem a Europa fazem-me sempre recordar daquele ministro
inglês - Chamberlain - que, após ter sido bem
gozado pelo Hitler I em Berlim, chegou a Londres, todo contentinho a pensar que
tinha garantido a paz para o mundo e, mal ele sabia que a região dos Sudetas e
logo a seguir a Polónia já estava a ser atacada e pisada pelas botas do
exército alemão. Pobres coitados! Revoltamo-nos contra o Trump - esse
excêntrico que nunca deveria ter sido novamente presidente dos EUA e
esquecemo-nos de que o snr. Obama nem reagiu quando o Hitler II invadiu e
açambarcou a Crimeia e o sr. Biden proibiu a Ucrânia de utilizar os misseis de
longo alcance para poder atacar Moscovo! É por isso que eu digo, como aliás já
o preconizava o nosso Luiz de Camões: "Rei fraco, faz fraca a sua
gente"!!
Antonio C Moreira: A análise – oportuna, lúcida e ao mesmo tempo realista
– de Miguel Morgado, pede, no meu entender, um reforço do enquadramento
estratégico. Vou tentar dar essa achega.
A ESTRATÉGIA 1. Começo por recordar que a Estratégia é uma milenar ciência da Guerra
e das relações de poder entre os Estados (potências) à qual se recorre
constantemente e não apenas quando os conflitos se agudizam ou se tornam
armados. 2. A
Guerra é de há muitos séculos o último recurso da política. No entanto, ao longo do
mesmo tempo, muitas vezes foi a primeira afirmação de Poder, visível,
evidente, de uma potência perante as outras ou, pelo menos, a partir da qual se
torna perceptível (pelas potências mais distraídas) a ameaça dessa potência
beligerante.
Já Sun Tzu escrevia – há mais de 2400 anos – que “o melhor estratega é o que consegue vencer o inimigo sem ter de o combater” (A Arte da Guerra, Sun Tzu,
Edições Europa-América).
Relacionado com este último pensamento está o conceito
romano “Se queres a Paz, prepara-te para a Guerra”. Pela elementar razão de que quem não está preparado
para a Guerra não é credível perante um seu inimigo e pode, até, tornar-se
apetecível para ser conquistado ou obrigado a ceder perante quem se encontra
preparado para combater. 3. As
potências defendem os seus interesses e não têm amigos. Os “amigos” em cada momento histórico são os que
partilham interesses comuns ou servem os interesses do
mais forte. 4. Vem isto a propósito da Guerra na Ucrânia, com
a agressão da Rússia à Ucrânia (dois membros fundadores da ONU, se
considerarmos a Federação Russa como sucessora da União Soviética). Esta agressão começou em 2014 na Crimeia, sem defesa credível do agredido, e prolongou-se pelos territórios
ditos russófilos do Leste ucraniano nos anos seguintes, culminando com a
invasão em grande escala de 2022. 5. Os autores
apontam as seguintes necessidades de uma Comunidade Política, que compete a
cada Estado / Potência assegurar ao seu povo: Segurança / Defesa; Desenvolvimento; Justiça / Direitos Humanos.
Sem Segurança não há Desenvolvimento.
Sem Desenvolvimento não há Justiça.
A ordem dos factores não é arbitrária.
Quando a ausência de Guerra se prolonga no tempo, a primeira ambição
universal (necessidade de Segurança / Defesa) tem tendência a ser esquecida.
O SIP – SISTEMA INTERNACIONAL DE PODER
6. O Sistema Internacional de Poder (SIP) não se confunde com o Sistema Internacional Económico (SIE) ou Jurídico (SIJ). O SIE contribui para a
globalização económica, para o aumento do comércio e para o desenvolvimento. O
SIJ corresponde a uma vontade de impor princípios e regras às Relações
Internacionais e à Guerra. O SIE e o SIJ constituem, pois, um
progresso civilizacional. Porém, são impotentes onde não tenham o suporte
de um Poder capaz de o impor, designadamente, sancionando as suas
violações. 7. O SIP só pode começar a ser compreendido se
percebermos quais os movimentos e forças presentes no SI e quais os seus objectivos
ou os seus métodos.
O actual momento geopolítico mundial é
disruptivo relativamente aos anteriores momentos históricos e vai além, muito
além dos mesmos.
As visões / explicações do momento actual e dos últimos anos, muitas vezes
não servem para compreender o que se passa e, com tal limitação, prejudicam
mais do que beneficiam essa compreensão a quem pretenda esclarecer-se ou
esclarecer.
O SIP do fim do primeiro quartel do séc. XXI revela
tentativas, mais ou menos adiantadas, mais ou menos conseguidas, de construção
de várias Ordens.
Interessa,
pois, chamar a atenção para duas formas como se pode apresentar o SIP.
(CONTINUA)
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