segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

E para além disso…


… Dessas tragédias europeias e asiáticas aqui descritas, aquelas a que assistimos pela televisão, de adultos e crianças estendendo os seus tachos para as comidas que lhes chegam de fora… e tudo o que se adivinha de horror, quer por descrição, quer por imagem, de fome e de desconforto… que nos confrange, no amargor da nossa inércia… Pobres crianças, estendendo os tachos, pobres famílias sem culpa, debaixo dos golpes que não pediram e continuam por aí…

A razão e a necessidade

O problema é que a Europa está demasiado fraca para se decidir. As suas elites não sabem o que querem porque não sabem o que são, nem o que representam.

MIGUEL MORGADO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 21 dez. 2025, 00:229

No último Conselho Europeu a figura da “cooperação reforçada” foi avançada para contornar um problema político sério. De um lado, a Bélgica opôs-se ao confisco de activos russos em jurisdições europeias para financiar o custo da guerra na Ucrânia. Do outro, uma vez tornada invencível a oposição belga, e optando pelo plano B da emissão de dívida europeia conjunta, Hungria, Eslováquia e Chéquia obtiveram garantias de não vinculação financeira como contrapartida para não fazerem votos formais de oposição. Seja como for, o dia foi importante.

Primeiro, porque as carências financeiras ucranianas ameaçavam a sua capacidade efectiva de combate. Segundo, as oposições internas à cooperação com a Ucrânia em matéria militar vão-se cristalizando. Terceiro, as lideranças da União (Merz, Macron, Tusk, Meloni e mais umas quantas inexistências) perceberam que, no actual contexto geopolítico, uma não-decisão neste Conselho seria um sinal terrível de fraqueza. Quarto, tornou-se patente que as necessidades financeiras da Ucrânia voltarão a agigantar-se. Os 90 mil milhões de euros a ser emprestados agora cobrem apenas as necessidades ucranianas até ao final de 2027. Todos esperamos que a guerra esteja resolvida até lá. Mas já se percebeu que, uma vez concluída a guerra, teremos de fazer arrecadar tremendos recursos financeiros para a reconstrução da Ucrânia, e não serão nem os Americanos, e muito menos os Russos, que aliviarão a Europa desse fardo. Se a guerra prosseguir ou se ela finalmente terminar, a Europa estará sozinha nesse esforço de financiamento.

Contudo, esta crise geopolítica, com incidência na Europa e em vários outros pontos estratégicos do globo, está a pressionar a União para se decidir. O cerco ideológico, militar, diplomático, económico, tecnológico e demográfico ao continente vai-se apertando a cada hora. Os inimigos externos e internos da Europa farejam e denunciam as suas fraquezas todos os dias. O problema é que a Europa está demasiado fraca para se decidir. As suas elites não sabem o que querem porque não sabem o que são, nem o que representam. Há muito tempo decidiram abandonar o que tinham à sua responsabilidade em troca de uma vida paradisíaca no conforto do mundo cosmopolita recheado de belos princípios humanitários em que nem os próprios acreditam, mas têm de repetir acefalamente, e, o que não é de somenos, de contas bancárias agradáveis.

Teria sido melhor que uma União política tivesse deixado as suas unidades nacionais e soberanas sobreviver e vicejar na história. Mas, por vezes, a geopolítica comanda as possibilidades políticas internas. Hoje, a Europa sente-se na posição precária de quem está a meio da ponte. Já retirou demasiadas prerrogativas soberanas aos seus Estados-membros para que estes possam fingir gozar de grande independência. Ao mesmo tempo, a fragilidade geopolítica de cada um dos Estados-membros individualmente considerado revela-se todos os dias um espectáculo penoso.

Porém, a União também ficou aquém da centralização do poder executivo, legislativo e regulatório indispensável para poder agir em bloco à semelhança dos seus competidores geopolíticos. Há umas quantas almas que aplaudiram comovidos a perspectiva de uma nova emissão de dívida. Julgam que a emissão de dívida conjunta é o alfa e o ómega da resolução política. São ainda os ecos da conversa infantil dos anos da crise do Euro sobre o putativo “momento hamiltoniano”, que na altura contou com muitos interlocutores que sabiam pouco de política e nada de história americana. Erro deles. A constituição de uma União política centralizada à escala continental pressupõe muito mais do que isso.

Dizem-nos que a União Europeia tem de ser uma “unidade geopolítica” ou desfiar-se-á em tempos geopolíticos como os nossos. É bem provável. Mas é preciso perceber que um tal salto não geraria as consequências benévolas que dele se esperaria sem que as fracturas sociais cada vez mais expostas das sociedades internas dos Estados-membros sejam atendidas. A política nacional dos Estados-membros está fragmentada e, com pouquíssimas excepções, sofre uma crise de desconfiança e de cepticismo incompatível com grandes ousadias. As lideranças não confiam em si mesmas e partilham em graus variáveis da intoxicação ideológica que fez a Europa duvidar do seu direito de existir como Europa – e não como outra sociedade qualquer – no mundo.

Há muita sabedoria na cabeça de quem disse que “o que não te induz a razão, induz-te a necessidade”. Mas a resposta à “necessidade” tem sempre uma amplitude angustiante de criatividade e qualidade. Nos próximos 10 anos teremos de tomar decisões políticas determinantes. Convém que tanto os governantes como os povos europeus estejam à altura do que lhes vai ser exigido.

UNIÃO EUROPEIA        EUROPA        MUNDO

 

COMENTÁRIOS (de 53)

Maria Paula Silva: Os povos europeus não sei, mas os actuais governantes não estão à altura de certeza.                    Joao Valente: Mais um excelente artigo e ainda bem que existem alguns que conseguem explicar o que se passa e colocar o dedo na ferida. A frase do subtítulo resume muito bem “as elites não sabem o que são e o que representam” só não esclarece embora esteja subentendido que são a representação do seu povo. A Europa vive a crise do indivíduo que não se elevou para um nível mais avançado de democracia e a confusão ideológica, retórica e populismo penetram hoje com tal facilidade. Pessoas fortes elegem líderes fortes e o seu contrário também. Falta-nos um líder que perceba e represente os valores europeus e mais importante que os volte a comunicar novamente                       Afonso Moreira: Muitos europeus, com as elites na proa, só se preparam para navegar num lago de águas calmas,  num navio de luxo e servidos por muitos, ávidos para os vir servir. Como o dinheiro não faltava aos vendedores dessas ilusões infinitas a viagem parece que continuaria indefinidamente. O navio foi crescendo sem águas agitadas. A sua segurança estava garantida pelos americanos e o abastecimento seria feito pelos chineses. Quanto à mão de obra...todos sabemos. Elites e muito povo não queriam ouvir os profetas da desgraça. Muitos têm vivido mutuamente hipnotizados: uns porque dependem dos votos e os outros não querem acordar dos sonhos que lhes foram vendendo. Não será fácil desfazer este estado de hipnose quando as águas estão agitadas e o navio precisava de grandes timoneiros e trocar o luxo pela robustez. A necessidade aguça o engenho, mas as ondas enormes que estão no horizonte são demasiadas para um navio e tripulação de águas calmas. Tudo resumiam ao bem-estar e a competividade mundial era o bálsamo. E agora?              Ana Bosque: A guerra na Ucrânia será o balde de água fria que a Europa precisava para acordar? A necessidade de tomar decisões (para além de tampas de garrafas de plástico) de apoiar e acompanhar a Nação Ucraniana, que luta pela liberdade (algo que queríamos definitiva), o identificar da podridão dentro das nossas nações que nos está a minar e proclama a nossa morte enquanto a alimentamos, a noção de que sem trabalho não há riqueza. São conceitos que cada vez mais são falados nas redes sociais. Terá de partir do povo a necessidade de mudança, a união em torno de um objectivo comum trará a identidade A identidade constrói-se! Não é dada por um toque de varinha mágica de um qualquer líder. Força, Europeus!  vamos reacender a chama da nossa civilização!                    Rui Lima: Brilhante.  Um diagnóstico certeiro, escrito com clareza, coragem  e honestidade intelectual. Há muito que não se lia, no espaço público, uma crítica tão bem formulada sobre à incoerência e vazio das elites contemporâneas. Um retrato implacável neste seu  parágrafo:

 « As suas elites não sabem o que querem porque não sabem o que são, nem o que representam. Há muito tempo decidiram abandonar o que tinham à sua responsabilidade em troca de uma vida paradisíaca no conforto do mundo cosmopolita recheado de belos princípios humanitários em que nem os próprios acreditam, mas têm de repetir acefalamente, e, o que não é de somenos, de contas bancárias agradáveis. »               

Komorebi Hi: Mais 90 mil milhões de dívida emitida sob ordens da Comissão e do Conselho Europeu de von der Leyen e Costa, ou seja uma dívida inventada que a Ucrânia nunca pagará, com dinheiro sem valor fiduciário, imprimido onde não se cria riqueza, ou seja, mais inflação provocada por dinheiro falso do BCE. Assim vai a neo República de Weimar em Bruxelas, com padrinhos como Merz, Macron ou Tusk a usar a Ucrânia como instrumento para esconder o abismo onde se encontra a UE das elites miseráveis.                    Alberico Lopes:  Sempre tenho dito que se  houvesse HOMENS com eles no sítio a dirigir a Europa, nunca o Hitler II teria coragem para destruir a Ucrânia e estar a preparar-se para fazer o mesmo à Polónia e aos Paises Bálticos. Estes eunucos que dirigem a Europa fazem-me sempre recordar daquele ministro inglês - Chamberlain - que, após ter sido bem gozado pelo Hitler I em Berlim, chegou a Londres, todo contentinho a pensar que tinha garantido a paz para o mundo e, mal ele sabia que a região dos Sudetas e logo a seguir a Polónia já estava a ser atacada e pisada pelas botas do exército alemão. Pobres coitados!  Revoltamo-nos contra o Trump - esse excêntrico que nunca deveria ter sido novamente presidente dos EUA e esquecemo-nos de que o snr. Obama nem reagiu quando o Hitler II invadiu e açambarcou a Crimeia e o sr. Biden proibiu a Ucrânia de utilizar os misseis de longo alcance para poder atacar Moscovo! É por isso que eu digo, como aliás já o preconizava o nosso Luiz de Camões: "Rei fraco, faz fraca a sua gente"!! 

Antonio C Moreira: A análise – oportuna, lúcida e ao mesmo tempo realista – de Miguel Morgado, pede, no meu entender, um reforço do enquadramento estratégico. Vou tentar dar essa achega.

A ESTRATÉGIA 1. Começo por recordar que a Estratégia é uma milenar ciência da Guerra e das relações de poder entre os Estados (potências) à qual se recorre constantemente e não apenas quando os conflitos se agudizam ou se tornam armados.    2. A Guerra é de há muitos séculos o último recurso da política. No entanto, ao longo do mesmo tempo, muitas vezes foi a primeira afirmação de Poder, visível, evidente, de uma potência perante as outras ou, pelo menos, a partir da qual se torna perceptível (pelas potências mais distraídas) a ameaça dessa potência beligerante.

Já Sun Tzu escrevia – há mais de 2400 anos – que “o melhor estratega é o que consegue vencer o inimigo sem ter de o combater” (A Arte da Guerra, Sun Tzu, Edições Europa-América).

Relacionado com este último pensamento está o conceito romano “Se queres a Paz, prepara-te para a Guerra”. Pela elementar razão de que quem não está preparado para a Guerra não é credível perante um seu inimigo e pode, até, tornar-se apetecível para ser conquistado ou obrigado a ceder perante quem se encontra preparado para combater.           3. As potências defendem os seus interesses e não têm amigos. Os “amigos” em cada momento histórico são os que partilham interesses comuns ou servem os interesses do mais forte.           4. Vem isto a propósito da Guerra na Ucrânia, com a agressão da Rússia à Ucrânia (dois membros fundadores da ONU, se considerarmos a Federação Russa como sucessora da União Soviética). Esta agressão começou em 2014 na Crimeia, sem defesa credível do agredido, e prolongou-se pelos territórios ditos russófilos do Leste ucraniano nos anos seguintes, culminando com a invasão em grande escala de 2022.          5. Os autores apontam as seguintes necessidades de uma Comunidade Política, que compete a cada Estado / Potência assegurar ao seu povo: Segurança / DefesaDesenvolvimentoJustiça / Direitos Humanos.

Sem Segurança não há Desenvolvimento.

Sem Desenvolvimento não há Justiça.

A ordem dos factores não é arbitrária.

Quando a ausência de Guerra se prolonga no tempo,  a primeira ambição universal (necessidade de Segurança / Defesa) tem tendência a ser esquecida.

O SIP – SISTEMA INTERNACIONAL DE PODER

6. O Sistema Internacional de Poder (SIP) não se confunde com o Sistema Internacional Económico (SIE) ou Jurídico (SIJ). O SIE contribui para a globalização económica, para o aumento do comércio e para o desenvolvimento. O SIJ corresponde a uma vontade de impor princípios e regras às Relações Internacionais e à Guerra. O SIE e o SIJ constituem, pois, um progresso civilizacional. Porém, são impotentes onde não tenham o suporte de  um Poder capaz de o impor, designadamente, sancionando as suas violações.               7. O SIP só pode começar a ser compreendido se percebermos quais os movimentos e forças presentes no SI e quais os seus objectivos ou os seus métodos.

O actual momento geopolítico mundial é disruptivo relativamente aos anteriores momentos históricos e vai além, muito além dos mesmos.

As visões / explicações do momento actual e dos últimos anos, muitas vezes não servem para compreender o que se passa e, com tal limitação, prejudicam mais do que beneficiam essa compreensão a quem pretenda esclarecer-se ou esclarecer.

O SIP do fim do primeiro quartel do séc. XXI revela tentativas, mais ou menos adiantadas, mais ou menos conseguidas, de construção de várias Ordens

Interessa, pois, chamar a atenção para duas formas como se pode apresentar o SIP.

(CONTINUA)

 

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