Tal palavra “palestino”, que me lembra um hipotético “portugalês” cá da terra. E as vésperas de Natal televisivas, de entrevistas aos incautos, sobre o que pensavam do Natal e como pensavam passá-lo!?… Uma exaustão, tais perguntas! Ou mesmo o massacre das comidas televisivas! E esta, hein? - diria o Fernando Pessa… Para não dizer outra coisa, a manchar a nossa reputação, que pretendemos impoluta … Mas sempre a digo, essa coisa, corroborando, assim, as indignações de A.G.: CHIÇA! Qualquer outro sinónimo serve, contudo, para tanta fartura repetitiva televisiva que só escutamos para ver onde e quando vai parar...
Palestino é quem um
maluco quiser
Embora nunca tivesse havido escassez de malucos, a
diferença é que dantes não eram regularmente chamados a dissertar nas
televisões.
ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador
OBSERVADOR, 27 dez. 2025, 00:20
Uma professora do ISCTE foi à SIC
Notícias afirmar, sem contraditório, que Jesus de Nazaré era “palestino”.
Com certeza a senhora não fundamentou a
sua opinião no vazio, e sim em “memes” da internet, vídeos
especializados no YouTube, uma primeira página do JN e a opinião do
sr. Maduro da Venezuela, os quais garantem que Jesus não só era “palestino”
como refugiado, resistente, guerrilheiro e quiçá um crítico feroz do “sionismo”
e de Netanyahu. Se fosse vivo (e na perspectiva dos crentes, é), votava no BE
(será dos poucos).
Claro que, em contrapartida, também
há toda uma tradição histórica e historiográfica a tentar desesperadamente
provar que Jesus era judeu. Nasceu judeu, filho de judeus e descendente directo
de Abraão e David, cresceu na Judeia, observava os ritos judaicos, mostrava-se
um produto “típico” ainda que particularmente exigente do “judaísmo do Segundo
Templo” e merecia o cognome de rabbi, “mestre”. Segundo esta corrente de pensamento,
ridiculamente alicerçada em factos e documentos e fontes primárias, Jesus não
podia ser “palestino” na medida em que a Palestina não existia no seu tempo de
vida, e não existiu até 135 d.C., quando o imperador Adriano quis apagar a
identidade judaica da região dando-lhe a designação pejorativa que os judeus
reservavam para a região dos filisteus, que por acaso nem eram árabes.
Palestina
deriva de Filisteia, ou Peleshet em hebraico bíblico
(ou Palaistinē em grego), que, dizem os estudiosos e meia dúzia de
livrinhos na minha estante, significa “a terra dos invasores”.
Perante
o dilema, compete a cada um decidir se prefere acreditar nos estudiosos, nos
livros e em dois milénios de conhecimento consensual ou, por outro lado, numa
professora do ISCTE que discorre, pelos vistos habitualmente, na Sic Notícias.
Por mim, não hesito em optar pela senhora. Admito que
os “memes” na internet e um
boneco produzido por inteligência artificial em que Jesus aparece com um
cachecol igual ao da dra. Mortágua influenciaram-me a escolha.
(Eu gostava de manter este tom pela crónica afora, mas os custos da
ironia estão pela hora da morte, donde receio ser mal interpretado e alimentar
a crença de que acredito de facto nos delírios da tal professora. Assim, e
em benefício da clareza, a crónica abandona aqui as pretensões sarcásticas.)
Agora a sério: está tudo doido? A resposta ponderada e reflectida é: aparentemente, sim. Embora
nunca tivesse havido escassez de malucos, a diferença é que dantes não eram regularmente chamados a
dissertar nas televisões – e a diferença maior é que hoje são chamados às
televisões precisamente porque são malucos. Salvo as excepções da
praxe, estimo que cerca de 87,5% dos “comentadores” televisivos
possuem uma avaria qualquer. E ao que parece é a própria avaria que lhes
assegura os convites e as avenças, o que também diz alguma coisa acerca de quem
os convida e paga. Não se trata da proverbial situação em que os chalupas tomam
conta do manicómio: aqui, os chalupas fugiram do manicómio e, em vez de serem
perseguidos por enfermeiros munidos de ketamina, foram chamados a integrar
“painéis” de comentário em estações de TV. Os desafios da inclusão movem-se por
estradas sinuosas.
Reconheça-se que a doença mental tem um espectro largo. Na
terminologia clínica, há idiotas, alucinados, pírulas, alienados, tantãs,
chalados e boçais profundos. Para as
televisões, as distinções são de somenos: o importante é que a toleima empurre
os comentadores, sofram do que sofrerem, a dizer em público as maiores
barbaridades sem que a vergonha os detenha. Jesus
era palestino. Israel comete genocídio. A burca é uma tradição
respeitável. Biden está em
plena forma. Putin vai conquistar Kiev em dez minutos. A Europa está unida. A
imigração descontrolada traz segurança. Trump é pior que Hitler. Milei é
fascista. Marcelo é um estadista. Guterres é um senhor. Portugal é um paraíso.
Portugal é um inferno.
Qual o objectivo de tamanho
desconchavo? Em princípio, ganhar ou manter audiências. E
se eu aceito o princípio, duvido que o processo seja linear, isto é, que as
audiências contemplem semelhantes misérias por concordar com as misérias.
Haverá casos em que isso acontece, em que os malucos em casa vêem os malucos no
ecrã e genuinamente acham que estes têm razão. Porém, quero ser optimista e
supor que a maioria olha para aquilo com a curiosidade mórbida com que se abranda
para espreitar um acidente. Ou melhor: com a perversão que há cem anos se
dedicava aos “freak shows”,
em que se exibiam aberrações da
natureza para emprestar aos espectadores um sentimento de superioridade e um
simulacro de conforto. O apelo do
grotesco é a única justificação plausível para aturar a professora citada e os
seus pares.
Mas que isto não é normal, não é.
Como Jesus não era palestino. E nem os “palestinos” são palestinos.
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COMENTÁRIOS (de 28)
Jose Carmo: Fui colega da Maria João num curso. Era, na
altura, uma óbvia simpatizante dos regimes muçulmanos e as questões que
colocava e as opiniões que expendia eram tão básicas que quase todos os outros
do curso sentiam constrangimento, aquela vergonha alheia que faz as pessoas
entreolharem-se e fazerem esgares. Quando a mediocridade e a ignorância são
arrogantes e têm palco, estamos naquela situação em que paramos para ver um
acidente... António
Lamas: Não,
não é normal e está tudo doido. Vinda do ICSTE não é de admirar. A madrassa do PS que tem como professores para
os desgraçados dos alunos, vultos como Adão e Silva, serve mesmo só para formar
doidos Álvaro
Venâncio: Mais
uma excelente crónica de Alberto Gonçalves, quer no conteúdo como na forma, a
quem, daqui, agradeço.
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