segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Eles já estão a cobrar


Hoje são eles que invadem a Europa. E assim vão cobrando, por um passado que até os elevou espiritualmente. Um passado que se deveu à extraordinária heroicidade dos que os foram achar. «Em 1418, João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira descobriram a Madeira. No ano seguinte, os mesmos e Bartolomeu Perestrelo descobriram Porto Santo…” Ou vice-versa, segundo leio na Internet, que fui consultar, na dúvida sobre uma memória em falha na questão das datas, para além dos dados. Foi assim que começou, até chegarmos a Timor… Foi grandioso, mas hoje cobra-se, e os portuguesitos, que outrora foram valentes, hoje acobardam-se. Foi o que fez Marcelo, coitado. E o Costa vingativo, apesar dos belos cargos que hoje ocupa, de vítima que foi, ou de descendente dos tais... Tanta bestialidade por aí, tanta hipocrisia, tanta cobardia nossa!… Nossa!

O que António Costa não disse e JPP não ouviu

Muitos contribuem para adensar uma atmosfera de culpabilidade colonial portuguesa que se injecta constantemente na nossa sociedade, nos sangra em saúde e nos causará, adiante, muitas dores de cabeça.

JOÃO PEDRO MARQUES Historiador e romancista

OBSERVADOR, 29 dez. 2025

No final de Novembro, de visita oficial a Angola na qualidade de presidente do Conselho Europeu e no contexto da sétima cimeira União Europeia-União Africana, António Costa resolveu aflorar a história das relações Europa-África. Sentado entre o presidente angolano João Lourenço e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, António Costa disse o seguinte: “Há 50 anos terminaram as colónias europeias em África. Pôs-se assim fim a um ciclo de 500 anos de colonialismo cujo momento seguramente mais dramático foi o que foi marcado pelo comércio de escravos. As colónias europeias terminaram, mas infelizmente os efeitos do colonialismo não terminaram nessa altura e isso deve-nos inspirar a trabalhar em conjunto (…)”.

À primeira vista esta parte do seu discurso parece certa e adequada. O tráfico transatlântico de escravos foi um processo muito dramático, que implicou enormes sofrimentos e perdas humanas. Dizer que os efeitos do colonialismo não terminaram também parece perfeitamente banal e sem motivo de reparo pois os efeitos dos grandes acontecimentos históricos repercutem no tempo. Todavia, há nestas frases uma imprecisão e duas omissões ou acanhamentos, para não lhes chamar cobardias.

A imprecisão é a utilização extensiva do termo colonialismo. O colonialismo, um processo iniciado no último terço do século XIX e terminado com as independências das possessões portuguesas em África, em 1975, não durou 500 anos, mas no máximo 100. Nos primeiros 400 anos de contacto, excepção feita à zona de Luanda e aos arquipélagos (Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, etc.) os europeus não fundaram verdadeiras colónias, apenas entrepostos comerciais na costa que não permitiam qualquer domínio do interior.

As omissões ou acanhamentos estão no que não foi dito. Efectivamente, faltou a António Costa afirmar, de cabeça erguida e olhos nos olhos, que os efeitos do colonialismo não foram todos negativos e perversos. Os europeus devem estar bem cientes do sofrimento que a sua partilha de África, no final do século XIX, implicou para as populações locais, mas não devem esquecer que também foram europeus que levaram a África, a par da espada e da desalmada exploração, os meios de transporte modernos, as línguas que possibilitaram uma comunicação agregadora, o fim do tráfico humano e da escravidão, a medicina e a vacinação que permitiram erradicar ou controlar doenças que flagelavam não apenas os brancos, mas também os negros, e muitas outras coisas que, em suma, e numa palavra, poderemos designar por “progresso”, como os ocidentais do século XIX e XX faziam. E faltou a António Costa dizer uma outra coisa ainda mais importante, isto é, que o comércio de escravos, inegavelmente desumano e injusto, foi feito não apenas pelos europeus, mas também pelos africanos. Omitir ou remover os africanos — angolanos, neste caso — do dramático quadro do comércio negreiro, fazer crer que esse comércio, em África, terá apenas começado com a chegada dos portugueses e outros europeus, é um perigosíssimo disparate. António Costa teria sido um homem de coragem, e completamente fiel à verdade histórica, se tivesse lembrado ao presidente João Lourenço, aos dirigentes e ao povo angolano em geral que essa enormidade a que chamamos tráfico transatlântico de escravos, feito a partir de Luanda, Benguela e outros portos daquela parte do mundo, só foi possível com a participação activa —em certos casos activíssima — dos africanos.

E porque é que é tão importante dizê-lo dez, cem ou mil vezes aos nossos amigos angolanos, entre muitos outros? Porque os políticos de países que, no passado, foram colónias europeias, têm actualmente um discurso culpabilizador desse passado e dos europeus por factos ou supostos factos dos quais eles e os seus povos se eximem, esquivam ou isentam. Na ideologia que transmitem tanto para dentro como para fora dos seus países, muito do que de mal aí aconteceu é descrito como tendo sido obra dos europeus, e os africanos, puros e inocentes, não teriam posto um dedo sequer nessas iniquidades e barbaridades. Aliás, os africanos nem sequer são mencionados, como se não tivessem estado envolvidos nos factos em causa e, mais do que isso, como se não o tivessem feito em lugares de relevo e decisão.

Agregado a esse discurso, simultaneamente culpabilizador do europeu e desculpabilizador do africano (ou brasileiro, etc.) vem a exigência de reparações. E isto que há muito tempo digo e repito não é uma antecipação paranóica ou uma propensão para ver mosquitos na outra banda. Há dias o parlamento argelino aprovou, por unanimidade, uma lei que criminaliza a colonização francesa, exige um pedido oficial de desculpas e estipula quea compensação integral e equitativa de todos os danos materiais causados pela colonização francesa é um direito inalienável do Estado e do povo argelino”.

Esta pretensão, vinda de descendentes dos árabes e berberes que, no início do século VIII, invadiram a Península Ibérica, mantendo um domínio sobre partes dela que durou até ao final do século XV, e dos que, do século XVI ao XVIII, atacaram as costas e a navegação europeias, para capturar e escravizar 1,25 milhões de pessoas brancas e cristãs, pode ser olhada como cínica e parcial — e é-o, de facto.

Mas o que importa sobretudo perceber é que há uma forte corrente de opinião nas ex-colónias europeias, que aponta o dedo aos ex-colonos, e que todo esse discurso reivindicativo por parte de políticos dessas ex-colónias — e pelos activistas woke das ex-metrópoles — é construído sobre uma História martelada, cirurgicamente amputada, e sobre o silêncio dos líderes europeus, que tendem a aceitar, envergonhados e penitentes, tanto as responsabilidades que lhes caberiam e os malefícios que os seus fizeram como as que manifestamente não lhes cabem e acções que eles não fizeram. E é justamente por isso que ir a Luanda enfiar a carapuça da culpa europeia sem o contrapeso da culpa africana é um péssimo serviço que António Costa presta à Europa e aos europeus, quase tão mau como o que Marcelo Rebelo de Sousa já havia prestado ao deixar sem o mínimo comentário corrector, por breve que fosse, as referências que o presidente de Angola fez à história das relações luso-angolanas.

Aliás há várias formas de prestar esse mau serviço porque infelizmente António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa não estão sozinhos nessa senda de omissão e contrição. Há outros políticos e líderes de opinião portugueses que remam no mesmo sentido. Vou dar-vos um exemplo pois o discurso de João Lourenço, proferido na celebração do cinquentenário da independência de Angola, ecoou por cá.

José Pacheco Pereira (JPP) usou-o para atacar aqueles que designou por “nacionalistas” e que, segundo ele, considerariamerradamente em sua opinião — que “Portugal é o melhor país do mundo”. JPP garantiu que “não é” e enunciou vários pontos negros no nosso presente de pobreza, de gente alheada e mal dirigida por elites cobardes e ignorantes. Depois, tendo em mente o discurso de João Lourenço e olhando para a História e para a fase final do domínio colonial português em Angola, apontou várias violências: o imposto de palhota, o trabalho coercivo, os castigos corporais, entre outros abusos.

É importante dizer que o seu artigo não é especificamente sobre o discurso do presidente angolano, ou sobre o seu impacto ideológico e político no nosso país. Para JPP esse discurso foi apenas um teste do algodão que permitiu revelar os vícios e erros do pensamento nacionalista. Acontece, porém, que o colunista fez logo à partida uma entorse que falseia o tal teste e os termos da questão.

Efectivamente, JPP analisou a reacção do nacionalismo português à seguinte frase do discurso do presidente angolano: “São passados 50 anos desde que, como resultado da nossa luta, deixámos para trás 500 anos de colonização, escravatura e humilhação”. Concluiu que, excepção feita a um erro cronológico relativamente à duração da escravatura, nada haveria que apontar ao que João Lourenço disse. Porém, na verdade o que está em questão naquilo que disse não é uma frase, mas sim duas.

Nos momentos iniciais do seu discurso, aos 3 minutos e 23 segundos, o presidente angolano também afirmou o seguinte: “Mal tínhamos acabado de vencer o colonialismo português, que nos oprimiu e escravizou durante séculos, tivemos de imediato de enfrentar (…)”. JPP não se deu conta desta passagem, muito confrontativa, que visou directa e explicitamente Portugal e a sua relação histórica com Angola, e que descarregou o ónus da escravatura inteiramente nas costas dos portugueses (quando foi, na verdade, uma parceria com ampla participação africana). Ora, foi sobretudo em torno desta frase que os tais “nacionalistas”, com André Ventura à cabeça, se insurgiram. As palavras em que o fizeram, e as acções que propuseram, foram erradas e excessivas, mas o conteúdo da sua reacção está certo pelas razões que então mostrei e pelas que desenvolvo no presente artigo.

Sem a referida entorse, e se não estivesse tão focado naquilo que designou por “direita radical” e “nacionalismo de pacotilha”, é provável que JPP se tivesse apercebido dessa frase de João Lourenço e de que o mais interessante seria analisar e perceber por que razão André Ventura reagiu às alusões acusatórias do presidente de Angola e Marcelo não o fez. Ambos proclamam que “Portugal é o melhor país do mundo” — ver, por exemplo, aqui e aqui —, mas Ventura insurgiu-se contra as acusações de João Lourenço e Marcelo consentiu-as. António Costa fez pior e assumiu-as. JPP ignorou-as. Tudo isso contribui, infelizmente, para adensar uma atmosfera de culpabilidade colonial portuguesa que se injecta constantemente na nossa sociedade, nos sangra em saúde e nos vai causar, adiante, muitas dores de cabeça.

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COMENTÁRIOS (de 3):

João Santos: Como fica claramente demonstrado neste artigo, corajoso, rigoroso e patriótico, a quinta-coluna wokista  de marcelos, pachecos, costas, etc., para além de faltar à verdade histórica, está a contribuir para criar um problema de dimensões imprevisíveis (o das pretensas reparações históricas) cuja factura será duramente paga pelas próximas gerações de portugueses. Ou seja, sem medo das palavras, estamos perante acções e omissões que  consubstanciam uma traição a Portugal e aos portugueses.               António Duarte: A Argélia pretender ser reparada pela França da vontade de rir e não apenas por ter participado na colonização da península ibérica! Então os árabes sempre estiveram estabelecidos nesse país ou conquistaram-no? É que, que eu saiba, os númidas e outros povos berberes já lá estavam desde antes dos cartagineses se terem estabelecido na actual Tunísia no século VIII a.C.; aliás, é que dizer da Turquia que, como o nome indica, são um povo turcomano originário da Ásia Central e só se estabeleceram na Anatólia no século XV (quem lá estava eram os diversos povos de origem semita, grega, celta, romana, etc. organizada num estado chamado império romano do oriente ou bizantino com capital em Constantinopla, cujo nome mudaram para instabilidade…). Enfim, a História é uma bitch.

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