Hoje são eles que invadem a Europa. E assim vão cobrando, por um passado que até os elevou espiritualmente. Um passado que se deveu à extraordinária heroicidade dos que os foram achar. «Em 1418, João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira descobriram a Madeira. No ano seguinte, os mesmos e Bartolomeu Perestrelo descobriram Porto Santo…” Ou vice-versa, segundo leio na Internet, que fui consultar, na dúvida sobre uma memória em falha na questão das datas, para além dos dados. Foi assim que começou, até chegarmos a Timor… Foi grandioso, mas hoje cobra-se, e os portuguesitos, que outrora foram valentes, hoje acobardam-se. Foi o que fez Marcelo, coitado. E o Costa vingativo, apesar dos belos cargos que hoje ocupa, de vítima que foi, ou de descendente dos tais... Tanta bestialidade por aí, tanta hipocrisia, tanta cobardia nossa!… Nossa!
O que António Costa não disse e JPP não ouviu
Muitos contribuem para adensar uma atmosfera de
culpabilidade colonial portuguesa que se injecta constantemente na nossa
sociedade, nos sangra em saúde e nos causará, adiante, muitas dores de cabeça.
JOÃO PEDRO
MARQUES Historiador e
romancista
OBSERVADOR, 29 dez. 2025
No final de Novembro, de visita oficial
a Angola na qualidade de presidente do Conselho Europeu e no contexto da sétima
cimeira União Europeia-União Africana, António
Costa resolveu aflorar a história das relações
Europa-África. Sentado entre o presidente angolano João Lourenço e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, António Costa disse o seguinte: “Há
50 anos terminaram as colónias europeias em África. Pôs-se assim fim a um ciclo
de 500 anos de colonialismo cujo momento seguramente mais dramático foi o que
foi marcado pelo comércio de escravos. As colónias europeias terminaram, mas
infelizmente os efeitos do colonialismo não terminaram nessa altura e isso
deve-nos inspirar a trabalhar em conjunto (…)”.
À primeira vista esta parte do seu
discurso parece certa e adequada. O tráfico transatlântico de escravos foi
um processo muito dramático, que implicou enormes sofrimentos e perdas humanas.
Dizer que os efeitos do colonialismo
não terminaram também parece perfeitamente banal e sem motivo de reparo pois os
efeitos dos grandes acontecimentos históricos repercutem no tempo. Todavia, há nestas frases uma imprecisão e duas
omissões ou acanhamentos, para não lhes chamar cobardias.
A
imprecisão é a utilização extensiva do termo colonialismo. O
colonialismo, um processo iniciado no último terço do século XIX e terminado
com as independências das possessões portuguesas em África, em 1975, não durou
500 anos, mas no máximo 100. Nos
primeiros 400 anos de contacto, excepção feita à zona de Luanda e aos
arquipélagos (Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, etc.) os europeus não fundaram verdadeiras colónias, apenas entrepostos
comerciais na costa que não permitiam qualquer domínio do interior.
As omissões ou acanhamentos estão no
que não foi dito. Efectivamente,
faltou a António Costa afirmar, de cabeça erguida e olhos nos olhos, que os efeitos do colonialismo não foram todos negativos e
perversos. Os
europeus devem estar bem cientes do sofrimento que a sua partilha de África, no
final do século XIX, implicou para as populações locais, mas não devem esquecer
que também foram europeus que levaram a
África, a par da espada e da desalmada exploração, os meios de transporte
modernos, as línguas que possibilitaram uma comunicação agregadora, o fim do
tráfico humano e da escravidão, a medicina e a vacinação que permitiram
erradicar ou controlar doenças que flagelavam não apenas os brancos, mas também
os negros, e muitas outras coisas que, em suma, e numa palavra, poderemos
designar por “progresso”, como os ocidentais do século XIX e XX faziam. E faltou
a António Costa dizer uma outra coisa ainda mais importante, isto é, que o
comércio de escravos, inegavelmente desumano e injusto, foi feito não apenas
pelos europeus, mas também pelos africanos. Omitir ou remover os
africanos — angolanos, neste caso — do dramático quadro do comércio negreiro,
fazer crer que esse comércio, em África, terá apenas começado com a chegada dos
portugueses e outros europeus, é um perigosíssimo disparate. António
Costa teria sido um homem de coragem, e completamente fiel à verdade histórica,
se tivesse lembrado ao presidente João Lourenço, aos dirigentes e ao povo
angolano em geral que essa enormidade a que chamamos tráfico transatlântico de
escravos, feito a partir de Luanda, Benguela e outros portos daquela parte do
mundo, só foi possível com a participação activa —em certos casos activíssima —
dos africanos.
E
porque é que é tão importante dizê-lo dez, cem ou mil vezes aos nossos amigos
angolanos, entre muitos outros? Porque os políticos de países
que, no passado, foram colónias europeias, têm
actualmente um discurso culpabilizador desse passado e dos europeus por factos
ou supostos factos dos quais eles e os seus povos se eximem, esquivam ou
isentam. Na
ideologia que transmitem tanto para dentro como para fora dos seus países,
muito do que de mal aí aconteceu é descrito como tendo sido obra dos europeus,
e os africanos, puros e inocentes, não teriam posto um dedo sequer nessas
iniquidades e barbaridades. Aliás, os africanos nem sequer são mencionados,
como se não tivessem estado envolvidos nos factos em causa e, mais do que isso,
como se não o tivessem feito em lugares de relevo e decisão.
Agregado a esse discurso,
simultaneamente culpabilizador do europeu e desculpabilizador do africano (ou
brasileiro, etc.) vem a exigência de reparações. E
isto que há muito tempo digo e repito não é uma antecipação paranóica ou uma
propensão para ver mosquitos na outra banda. Há dias o parlamento argelino aprovou,
por unanimidade, uma lei que criminaliza a colonização francesa, exige um
pedido oficial de desculpas e estipula que “a compensação integral e equitativa de todos os danos materiais
causados pela colonização francesa é um direito inalienável do Estado e do povo
argelino”.
Esta pretensão, vinda de descendentes
dos árabes e berberes que, no início do século VIII, invadiram a Península
Ibérica, mantendo um domínio sobre partes dela que durou até ao final do século
XV, e dos que, do século XVI ao XVIII, atacaram as costas e a navegação
europeias, para capturar e escravizar 1,25 milhões de pessoas brancas e
cristãs, pode ser olhada como cínica e parcial — e é-o, de facto.
Mas
o que importa sobretudo perceber é que há uma forte corrente de opinião nas
ex-colónias europeias, que aponta o dedo aos ex-colonos, e que todo esse
discurso reivindicativo por parte de políticos dessas ex-colónias — e pelos
activistas woke das ex-metrópoles — é construído sobre uma História
martelada, cirurgicamente amputada, e sobre o silêncio dos líderes europeus,
que tendem a aceitar, envergonhados e penitentes, tanto as responsabilidades
que lhes caberiam e os malefícios que os seus fizeram como as que
manifestamente não lhes cabem e acções que eles não fizeram. E é justamente por
isso que ir a Luanda enfiar a carapuça da culpa europeia sem o contrapeso da
culpa africana é um péssimo serviço que António Costa presta à Europa e aos
europeus, quase tão mau como o que Marcelo Rebelo de Sousa já havia
prestado ao deixar sem o mínimo comentário corrector,
por breve que fosse, as referências que o presidente de Angola fez à história
das relações luso-angolanas.
Aliás há várias formas de prestar esse
mau serviço porque infelizmente António Costa
e Marcelo Rebelo de Sousa não estão sozinhos nessa senda de omissão e
contrição. Há outros políticos e líderes de opinião portugueses que remam no
mesmo sentido. Vou dar-vos um exemplo pois o discurso de João
Lourenço, proferido na celebração do cinquentenário da
independência de Angola, ecoou por cá.
José Pacheco Pereira (JPP) usou-o para atacar aqueles
que designou por “nacionalistas” e que, segundo ele, considerariam — erradamente em sua opinião — que “Portugal é o melhor país do mundo”. JPP
garantiu que “não é” e enunciou vários pontos negros no nosso presente de
pobreza, de gente alheada e mal dirigida por elites cobardes e ignorantes.
Depois, tendo em mente o discurso de João Lourenço e olhando para a História e
para a fase final do domínio colonial português em Angola, apontou várias
violências: o imposto de palhota, o
trabalho coercivo, os castigos corporais, entre outros abusos.
É
importante dizer que o seu artigo não é especificamente sobre o discurso do
presidente angolano, ou sobre o seu impacto ideológico e político no nosso
país. Para JPP esse discurso foi apenas um teste do algodão que permitiu
revelar os vícios e erros do pensamento nacionalista. Acontece,
porém, que o colunista fez logo à partida uma entorse que falseia o tal teste e
os termos da questão.
Efectivamente,
JPP analisou a reacção do nacionalismo português à seguinte frase do discurso
do presidente angolano: “São passados 50 anos desde que, como resultado da
nossa luta, deixámos para trás 500 anos de colonização, escravatura e
humilhação”. Concluiu que, excepção feita a um erro cronológico
relativamente à duração da escravatura, nada haveria que apontar ao que João
Lourenço disse. Porém, na verdade o
que está em questão naquilo que disse não é uma frase, mas sim duas.
Nos momentos iniciais do seu discurso,
aos 3 minutos e 23 segundos, o presidente angolano também afirmou o seguinte: “Mal tínhamos acabado de vencer o
colonialismo português, que nos oprimiu e escravizou durante séculos, tivemos
de imediato de enfrentar (…)”. JPP não se deu conta desta passagem,
muito confrontativa, que visou directa e explicitamente Portugal e a sua
relação histórica com Angola, e que descarregou o ónus da escravatura
inteiramente nas costas dos portugueses (quando foi, na verdade, uma parceria
com ampla participação africana). Ora,
foi sobretudo em torno desta frase que os tais “nacionalistas”, com André
Ventura à cabeça, se insurgiram. As palavras em que o fizeram, e as
acções que propuseram, foram erradas e excessivas, mas o conteúdo da sua
reacção está certo pelas razões que então mostrei e pelas que desenvolvo no
presente artigo.
Sem a referida entorse, e se não
estivesse tão focado naquilo que designou por “direita radical” e “nacionalismo
de pacotilha”, é provável que JPP se tivesse apercebido dessa
frase de João Lourenço e de que o mais interessante seria analisar e
perceber por que razão André Ventura reagiu às alusões acusatórias do
presidente de Angola e Marcelo não o fez. Ambos proclamam que “Portugal é o
melhor país do mundo” — ver, por exemplo, aqui e aqui —, mas Ventura insurgiu-se contra as acusações de
João Lourenço e Marcelo consentiu-as. António
Costa fez pior e assumiu-as. JPP ignorou-as. Tudo isso contribui, infelizmente, para
adensar uma atmosfera de culpabilidade colonial portuguesa que se injecta
constantemente na nossa sociedade, nos sangra em saúde e nos vai causar,
adiante, muitas dores de cabeça.
COLONIALISMO MUNDO HISTÓRIA CULTURA
COMENTÁRIOS (de 3):
João Santos:
Como fica
claramente demonstrado neste artigo, corajoso, rigoroso e patriótico, a
quinta-coluna wokista de marcelos, pachecos, costas, etc., para além de
faltar à verdade histórica, está a contribuir para criar um problema de
dimensões imprevisíveis (o das pretensas reparações históricas) cuja factura
será duramente paga pelas próximas gerações de portugueses.
Ou seja, sem
medo das palavras, estamos perante acções e omissões que consubstanciam
uma traição a Portugal e aos portugueses. António Duarte: A Argélia pretender ser
reparada pela França da vontade de rir e não apenas por ter participado na colonização
da península ibérica! Então os árabes sempre estiveram estabelecidos nesse país
ou conquistaram-no? É que, que eu saiba, os númidas e outros povos berberes já
lá estavam desde antes dos cartagineses se terem estabelecido na actual Tunísia
no século VIII a.C.; aliás, é que dizer da Turquia que, como o nome indica, são
um povo turcomano originário da Ásia Central e só se estabeleceram na Anatólia
no século XV (quem lá estava eram os diversos povos de origem semita, grega,
celta, romana, etc. organizada num estado chamado império romano do oriente ou
bizantino com capital em Constantinopla, cujo nome mudaram para
instabilidade…). Enfim, a História é uma bitch.
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