sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Histórias do Mundo

 

De ontem e de hoje - Europeu, Americano e nosso – este último em destaque negativo sobre Museus fechados para obras de realização em longo espaço temporal, já que pouco interessam abertos - práticos que somos e essencialmente desatentos a valores culturais – ou talvez receosos de assaltos de visitantes refractários a um passado histórico até  enaltecedor de feitos lusos…

Um texto de excelência histórica narrativa, que nos enche as medidas. De BRUNO CARDOSO REIS - Historiador e especialista em segurança internacional, a quem se agradece, encantados.

 

O ano de 2026 em duas palavras e num pedido

Portugal tem escolhas difíceis para fazer, a ideia de ficar no conforto da NATO ou da UE, esperando aderir a uma posição consensual, pode ser uma receita para a marginalização irrelevante.

BRUNO CARDOSO REIS Historiador e especialista em segurança internacional

OBSERVADOR, 26 dez. 2025, 00:201

revista Foreign Policy oferece-nos um conjunto palavras que se destacam na política global em 2025. Narco-terrorismo surge à boleia da campanha norte-americana, no Mar das Caraíbas e no Pacífico Ocidental, contra lanchas de tráfico de drogas e com intenções hostis públicas face ao regime dictatorial da Venezuela e ambições declaradas quanto aos seus recursos. Multipolarização reflecte a tendência para uma transição de poder e uma retracção caótica da grande potência tradicionalmente dominante, os EUA, o que acelerou a emergência de novos pólos de poder, de novas grandes potências, com os conflitos que isso sempre provoca. Temos outros como: “objector persistente”, um Estado que recusa sistemática e publicamente normas emergentes do direito internacional;cansaço com o asilo” que reflecte o fechamento global das fronteiras a vagas migratórias do Chile aos EUA, da África do Sul à Grã-Bretanha, da Austrália ao Paquistão; TACO que propõe como melhor forma de lidar com Donald Trump mostrar força; ou, ainda, “barreira anti-drone (Drone Wall)” que resulta da prioridade dada a este novo meio de combate na forma como se pensam as guerras actuais e ameaças futuras. Eu destacaria outras duas palavras que também darão que falar no próximo ano.

Minilateralismo

A palavra remete para o recurso crescente a coligações ad hoc entre países com interesses, percepções de ameaça e prioridades de acção convergentes. Esta é cada vez mais a alternativa ao multilateralismo que, por convenção, designa nas Relações Internacionais, a diplomacia que tem lugar em organizações permanentes e muito formais com um grande número de países como membros – como a ONU ou a União Europeia. O grande número de Estados Membros e o peso de normas formais limita muito a possibilidade de acção rápida a robusta. Num mundo em mudança acelerada, mais dividido, e mais propenso a crises frequentes e violentas, será cada vez maior a tendência para a emergência deste tipo de resposta minilateral. Vemos isso com: a coligação de apoio à Ucrânia, conhecida como grupo de contacto ou de Ramstein; com os chamados E-5 que reúne as cinco principais potências militares europeias; ou, ainda, com o grupo dos nórdicos; ou, com os Med-9, os nove países do flanco sul da Europa, inclusive Portugal. A grande questão é saber se esses grupos conseguem ter suficiente coerência e continuidade na acção para, sem o peso da institucionalização, terem impacto eficaz. E se trabalharão a par e em cooperação com organizações como a União Europeia ou irão significar a crescente irrelevância destas últimas. Portugal tem escolhas difíceis para fazer, a ideia de ficar no conforto da NATO ou da UE, esperando aderir a uma posição consensual, pode ser uma receita para a marginalização irrelevante.

Corolário Trump e o trumpismo global

O novo documento oficial orientador da acção externa dos EUA remete expressamente para a doutrina declarada pelo presidente James Monroe em 1823. O que disse o quinto presidente dos EUA? Em síntese: deixem a América para os americanos, as potências europeias devem desistir de tentar recolonizar e voltar a controlar a maioria do continente, que tinha declarado a independência de Espanha, de Portugal e da França por esses anos. Não o fazia por pura generosidade, sendo os EUA a mais antiga e a maior das novas repúblicas independentes – só o Brasil manteve a monarquia durante décadas – tenderia a ter um papel dominante nas Américas do Alaska à Tierra del Fuego. Isso foi inicialmente bem visto por muitos no resto das Américas como um contrapeso à influência ameaçadora de grandes potências europeias. Por exemplo, no Rio de Janeiro foi inaugurado um Palácio Monroe, em 1906, que veio a ser a sede do Senado brasileiro, significativamente demolido em 1976. Realmente, mais ou menos rapidamente, dependendo da região, os EUA foram-se mostrando demasiado poderosos para bem da soberania dos seus vizinhos a sul. O caso mais precoce e dramático foi o do México, que, em 1848, perde metade do seu território.

Em 1904, o 26º presidente dos EUA veio declarar o chamado corolário de (Teddy) Roosevelt, a pretexto precisamente de uma crise na Venezuela. Nele Roosevelt veio deixar claro que a doutrina Monroe passava a significar — para uns EUA que emergiam como grande potência, depois de derrotar a Espanha, em 1898 — que caso houvesse uma crise ou violação grave das obrigações internacionais por um outro Estado do Hemisfério Ocidental, caberia aos norte-americanos resolver o problema, a bem ou a mal, e não a qualquer outra grande potência exterior à região. Este intervencionismo variou muito no tempo e no espaço, desde logo foi implementado de forma mais indirecta na enorme e mais distante América do Sul, e, de forma mais frequente, aberta e coerciva nos pequenos Estados insulares das Caraíbas ou na América Central. Em final de 2013, durante o mandato de Obama, o chefe da diplomacia norte-americana, John Kerry, tinha declarado o fim da doutrina Monroe, a morte da ideia de qualquer esfera de influência imposta, cada Estado seria livre de definir interesses e parcerias. Agora Trump veio reverter tudo isso, em nome de travar migrações, travar drogas e explorar recursos naturais. Além da evidente vontade de Trump de pôr o seu nome e tudo e mais alguma coisa, não é evidente que grande diferença o seu corolário fará. Excepto, talvez, que, em 1823, os EUA diziam aos europeus, vocês não interferem nas Américas, e nós não interferimos na Europa. Agora, a ideia parece ser a de promover o trumpismo onde for possível, nomeadamente na América Latina, mas também na Europa, onde parece aos seguidores de Trump que terão vida mais fácil, pois ao contrário do que dizem podem contar aí com liberdade de expressão, de opinião e organização. Cabe aos europeus e latino-americanos, se quiserem e puderem, mostrar que estão errados, mas não dou isso como certo.

Um pedido final, quando abrem os museus?

É tradicional fazer pedidos ao Menino Jesus e ao Pai Natal. Deixo um pedido mais secular e, espero, menos miraculoso. Portugal não tem um grande Museu Histórico Nacional. Perdemos anos na discussão ridícula sobre se devia existir um Museu das Descobertas ou um Museu da Escravatura. Na falta de um museu histórico nacional temos o Museu Nacional de Arqueologia, cujo principal núcleo está em Belém (o do Carmo é muito limitado) e o Museu Nacional de Arte Antiga, nas Janelas Verdes. Estes dois grandes museus estão agora fechados sem um compromisso claro para a sua reabertura. O Museu de Arqueologia está fechado desde maio de 2022 para obras de remodelação. A informação que encontrei na página oficial é que reabrirá, nalgum momento em 2026, sendo que, creio que, anteriormente, tinha sido dada a indicação de que iria reabrir neste ano de 2025. O Museu Nacional de Arte Antiga diz apenas na sua página oficial – em várias línguas – que a reabertura está condicionada ao decurso das obras em curso, provavelmente para evitar a chatice de prazos por cumprir. Para compor o ramalhete, o principal museu privado de Portugal, o Museu Gulbenkian também fechou para obras. Que obras sejam necessárias não discuto. Mas não seria possível evitar este fecho simultâneo? Não seria possível fazer obras em etapas garantindo que parte do museu se mantinha aberto? Não creio que fosse possível fechar o Louvre, a National Gallery ou o Prado durante anos, pelo menos não sem fortes protestos. Onde estão os grandes defensores da cultura tradicional portuguesa, ou, afinal, a exaltação patrioteira é só ruído para ganhar votos? O meu pedido é simples: seria possível ter uma data, um compromisso claro para quando é que estes dois museus públicos nacionais vão reabrir – mesmo que depois possa ser necessário rever – e, no entretanto, podemos saber se há planos para expor algumas das obras mais importantes noutros museus portugueses? É que nem só de Picasso ou de Paula Rego vive o homem.

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COMENTÁRIOS

Maria Beatriz C. C. de Pinho: Muito bem vindo o pedido sobre os museus!

 

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