segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Numa democracia que se preze


Nem a identidade é importante.

Plano Nocional de Leitura (XXV)

Romances e novelas não servem quase nunca para dar informações a quem os está a ler, mas sobretudo para mostrar que algumas pessoas que por lá andam não têm toda a informação que gostariam de ter.

MIGUEL TAMEN Colunista do Observador, Professor (e director do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa

OBSERVADOR, 29 set. 2024, 00:153

A heroína da extraordinária novela Maria Moisés, escrita por Camilo Castelo Branco (1825-1890), apareceu no Tâmega dentro de uma cesta.  Um cónego que estava a jogar às cartas quando vieram dar parte do sucedido observou que a circunstância parecia “um caso bíblico,” e o paralelo bíblico explica que lhe tenham chamado Maria Moisés; como Moisés, Maria foi encontrada à beira-rio. Mas ao contrário da história do Moisés original a novela coloca reiteradamente certas perguntas: será Maria quem as pessoas dizem que é?   E qual será de facto o seu nome?   As perguntas entretêm e afligem várias personagens, embora quem esteja a ler o livro já saiba as respostas desde o princípio.

Os romances e as novelas não servem quase nunca para dar informações a quem os está a ler, mas sobretudo para mostrar que algumas pessoas que por lá andam não têm toda a informação que gostariam de ter. As perguntas gerais sobre pessoas interessam os filósofos, mas as respostas que a ficção dá não têm nada a ver com filosofiaInteressa-nos na ficção saber que pessoa é concretamente aquela, e qual é o seu nome, e não adianta nada se as pessoas são quem dizem que são ou têm os nomes que deviam.  Maria Moisés é uma das chamadas Novelas do Minho; o Minho é para Camilo uma espécie de parque jurássico onde sobrevivem comunidades dispersas atarefadas por trabalhos genealógicos.

Camilo foi o escritor português a quem a genealogia mais interessou.   As respostas às perguntas sobre quem uma pessoa é são caracteristicamente dadas na sua obra através da indicação do nome dos pais e dos parentes dessa pessoa.   A genealogia não é necessariamente ficção, mas é parecida com a ficção: é um modo de curiosidade sobre coisas particularesO pai de Maria Moisés, diz-nos, não estava destinado a “infelizes senhoras de raça mista.”  Foi-lhe prometida pelo contrário uma noiva de uma família com um nome conhecido, “mas dos bons.”   O itálico mostra que Camilo nunca hesita em sugerir distinções genealógicas de pormenor, mesmo a respeito de pessoas que não existiram.

A importância da genealogia para Camilo é no entanto inseparável da ideia de que em matérias de amor o conhecimento dos pormenores é de pouco uso.  O pai de Maria Moisés encontrara a sua futura mãe quando passeava sozinho pelo campo.  Eram ambos “peles-vermelhas no rigor antropológico.”  O encontro foi prefaciado por um aviso: no campo, “as serras têm sombras do infinito. O coração aí é maior que as dimensões do peito. O homem como se vê só, no cabeço de um fraguedo, dá-se grandeza extraordinária.”   Camilo acha no fundo que há paisagens que nos levam a pensar que não temos antepassados, e que por isso nos inclinam à auto-estima e ao amor.  No campo, como diz, somos “antigos actores da vida animal”; fomos todos, como Moisés, encontrados no Tâmega.

ERRO EXTREMO     OBSERVADOR

 COMENTÁRIOS;

Rosa Silvestre: A fixação de Camilo não é  consequência natural da sua própria história?

Rosa SilvestreRosa Silvestre: A fixação na genealogia.

bento guerra: Será que o pensamento e sentimento do Camilo, de há século e meio, é compreensível, no mundo de hoje?

 

O mito de Pandora


Diz-nos da esperança que nos resta, como coisa última a desaparecer da tal caixa de que foram largados os males condenatórios das vidas racionais. E a esperança pode servir de muito, nas naturezas derrotistas, inconformistas em relação ao presente, refugiadas no passado juvenil, implicando as alegrias da inconsciência e da descoberta, nos espaços iniciais de uma aprendizagem gradualmente vivida na euforia do desconhecido e da surpresa, revividos pela memória, no tal presente de incompreensão de uma experiência tantas vezes dramática - a visão futura abrindo receios, mas por vezes esperanças - duvidosas embora - ou mesmo vividas com fé, apoiadas, tantas vezes, na devoção divina apaziguadora – o que é uma felicidade para os fiéis.

VIVER NO PASSADO

Até o futuro é preferível ao presente. Quero deixar expressamente claro que não sou uma pessoa de futuro e chego a ter algumas dificuldades com quem assim é. Mas até o futuro é preferível ao presente.

TIAGO DE OLIVEIRA CAVACO Pastor Baptista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 29 set. 2024, 00:165

Quando a minha mulher me acusa justamente de eu viver no passado, tento explicar-lhe que o presente é um lugar desinteressante. Qual o interesse que a vida de agora tem? Desconheço-o. O passado, por outro lado, é uma vida muito melhor em que recordamos coisas boas ou más mas que, sobretudo, podem ser alteradas de acordo com a nossa vontade. Gosto muito de viver no passado porque consigo mexer nele a meu favor como no presente não consigo. Recordo momentos que aconteceram e traduzo-os de acordo com as minhas conveniências de agora. O presente é um mono.

Até o futuro é preferível ao presente. Quero deixar expressamente claro que não sou uma pessoa de futuro e chego a ter algumas dificuldades com quem assim é. Mas até o futuro é preferível ao presente. O futuro, como o passado, pode ser usado com muito mais imaginação do que o presente. Com frequência projecto cenários futuros fantásticos, que me tratam bem e favorecem. No futuro consigo o que no presente não há maneira de acontecer. Tal como o passado, o futuro é um cenário moldável e dado a liberdades que o presente, abrutalhado que é, faz questão de impedir.

As pessoas do aqui e agora tendem a desinteressar-me. As pessoas reais tendem a desinteressar-me, reconheço. A realidade, que acho que é o que chamamos ao que desobedece ao poder da imaginação, tem falta de modos, falta de classe, falta de capacidade de progresso. Não sei como continuamos a tolerar a realidade quando, vez após vez, ela demonstra total desinteresse em ser sensível ao que agrada aos outros. Quem gosta do aqui e agora gosta também de ignorar que a vida podia ser muito melhor do que é. Desconfio quando vejo pessoas que não usam o livro de reclamações para se queixarem da existência.

O que isto significa não é qualquer recomendação da murmuração. O segredo contra o despotismo da realidade não é ser anti ela; é escolher as suas versões alternativas que nos são dadas no passado e no futuro. Viver no passado não é estar no presente a murmurar. Até viver no futuro, que já expliquei ser uma coisa mais potencialmente irritante, não é estar no presente a murmurar. Se há pelo menos três tipos de tempo diferentes, existentes no passado, no presente e no futuro, por que tem de ser entregue ao segundo o monopólio de viver na realidade?

Esta semana fui acusado de ser um escapista. Uma vez mais acusaram-se de algo que sinto não precisar de me defender. Será o presente um lugar do qual ninguém deve tentar escapar? Se assim for, parece-me tristemente parecido com uma prisão. Às pessoas que vivem aqui e agora recomendo a terapia da imaginação. Talvez se viva igualmente bem noutro tempo e noutra realidade, diferentes dos rigores do momento e do espaço que no imediato nos dizem respeito. Só será ficção científica não querer viver no aqui e no agora para quem tiver na ciência da realidade a certeza da ausência da ficção.

CRÓNICA      COMPORTAMENTO      SOCIEDADE

COMENTÁRIOS:

Alexandre Barreira: Pois. O tempo não pára. Não espera. E é....implacável....!!!     Francisco Almeida: Tiago de Oliveira Cavaco hoje tocou-me fundo. Não nasci assim mas sou há muito monárquico. Como disse o autor no passado encontro coisas boas e outras menos boas. No futuro, posso sempre sonhar. Mas no maldito presente, tenho  Marcelo.           Tim do A: Somos todos diferentes. E ainda bem que assim é. Prefiro viver o presente e pensa sempre no futuro.                bento guerra: Deveria  ver se essa acusação da sua mulher, não se refere a algo específico             Cisca Impllit: Grande artigo. Gostei mesmo de o ter lido.

 

domingo, 29 de setembro de 2024

E um cronista a interpretar


Com a graça e a argúcia do saber vasto e a preocupação do conhecimento humanista. Com o apoio – indignado  - de comentadores experientes. Sem esperança de mudança, vista também a afeição que os próprios sem-abrigo merecem por cá, gente não livre, como romanescamente alguns pretendem. De facto, apenas parasitas sociais, de uma liberdade de pura aparência tosca e sem sentido.

Uma casa para viver, uma rua para berrar

Para os activistas do “Casa Para Viver”, o Estado constrói e “dá” casas, regula as rendas, expropria, acaba com os lucros e institui o prejuízo, que cai em cima de senhorios e contribuintes.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 28 set. 2024, 00:20103

Tem planos para o fim-de-semana? Cancele-os e apareça hoje, sábado, na manifestação “Casa Para Viver”, que decorre em Lisboa. Quer dizer, se os seus planos consistiam em ficar em casa isso significa que é proprietário ou inquilino de uma, logo participar na manifestação seria redundante. Por definição, julgo que o certame (gosto da palavra, que soa a noticiário regional de 1989) se destina a gente sem um tecto, um abrigo, quatro paredes caiadas, um salário ou um subsídio que permita arrendar um T3 no Chiado. Ou seja, a gente que não tem nada excepto ideias.

Ideias e um “site”. A organização da “Casa Para Viver” tem um “site” com textos carregadinhos de queixas e de soluções. Alguns dos textos dizem respeito a manifestações anteriores, todas grandiosas e, pelos vistos, inúteis, já que nenhuma impediu a necessidade da seguinte. A manifestação de hoje também tem um texto, estilo proclamação, que em geral repete as reivindicações e as dificuldades na sintaxe dos textos precedentes.

Os autores da redacção constatam que as casas estão caras e exigem que fiquem baratas. Até aqui, tudo claro. Turvo é o processo para chegar lá. O leigo, burguês  e heteropatriarca confortavelmente instalado na moradia geminada que comprou com os rendimentos dos seus serviços ao “sistema”, era capaz de sugerir que bastaria favorecer a construção de habitação, de modo a aumentar a oferta e reduzir os preços. Certo? Errado. A rapaziada do “Casa Para Viver”, que, cito, “não se deixa enganar”, explica que o incentivo às construções, por exemplo através de benefícios fiscais, vai fazer com que os promotores privados tenham – e treme-me a mão ao escrever a palavra – lucro. E isso é que não pode acontecer. Estes mártires preferem continuar ao relento, ou numa subcave partilhada no Cacém, do que perceber que a cáfila dos empreiteiros anda a acumular riqueza. Além disso, avisam que, de qualquer modo, só se ergueriam edifícios destinados a milionários ou a turistas, duas espécies inesgotáveis em Portugal.

Outro lugar-comum, vulgo facto, que sai arrasado é a influência da liberalização das rendas na descida das mesmas. Nem por sombras, garantem os resistentes do “Casa Para Viver”, que, convém recordar, não se deixam enganar. Embora a realidade pareça discordar, a realidade é burra e a coisa funciona ao contrário: é fundamental controlar as rendas, e controlá-las imenso, a ponto de não se mexerem nem idealmente existirem.

Em suma, os militantes do “Casa Para Viver” não toleram a “especulação imobiliária e rentista”. E esquecia-me de acrescentar: também não toleram os negócios do chamado “alojamento” local, no fundo uma conspiração de agiotas que usam os respectivos imóveis conforme lhes apetece em vez de os disponibilizarem de borla, ou quase, a quem precisa. O governo PS ainda se esforçara por destruir os agiotas e aproximar-nos dos valores morais de Caracas. Infelizmente, o actual governo desviou-nos do rumo.

Contas feitas, mas na perspectiva dos que acham a matemática convencional um instrumento de manipulação do privilégio branco, o remédio para a crise habitacional passa pelo Estado. Acima de tudo, não pode passar pelo mercado, que isto não é o Texas. Isto é, ou deveria ser, a Venezuela. Para os activistas do “Casa Para Viver”, é simples: o Estado constrói e “dá” casas, regula as rendas, expropria o que calhar, acaba com os lucros e institui a obrigatoriedade do prejuízo, que cai em cima dos vilões, leia-se dos construtores, dos senhorios e dos restantes contribuintes. E os nossos heróis instalam-se, a preços módicos ou nulos, na tipologia e na toponímia que entenderem. Eles e os estrangeiros, desde que sejam estrangeiros suficientemente indigentes para não conseguirem aceder a um apartamento pelos processos convencionais e, vá lá, um bocado “fascistas”. Os combatentes do “Casa Para Viver” reservam a xenofobia para os estrangeiros com bizarrias como emprego e contas bancárias, daquelas que facilitam a aquisição de residências. Se têm dinheiro, que voltem para o país deles. Se não têm, estão literalmente em vossa casa – e com jeitinho na nossa. Já vos disse que os guerreiros do “Casa Para Viver” não se deixam enganar?

O que eu não disse foi a identidade dos organizadores do “Casa Para Viver”. E não vou dizer. São dezenas e dezenas de “comités”, “movimentos”, “núcleos” e “colectivos”, alguns com mais de um membro associado. Deixo somente uns tantos nomes, cujo prestígio merece destaque: Abolir Jatos; Associação ForçAfricana; Braga Fora do Armário; Climáximo; Colectivo de Solidariedade Mumia Abu Jamal; Coletivo Mulheres Negras; Comissão Organizadora da marcha LGBTQIAP+; GRUPO EducAR — Plataforma de Educadores Antirracistas; Comité de Solidariedade com a Palestina; Feminismos Sobre Rodas; Headbangers Antifascistas; Iniciativa Cigana; INMUNE – Instituto da Mulher Negra em Portugal; Núcleo Antifascista de Bragança; Queer Tropical; Solidários: Trabalhadores Atacados Não Podem Ficar Isolados; ILGA.

É curiosa a quantidade de agremiações que protestam contra a falta de habitação embora a designação oficial sugira tratarem de temas raciais, climatéricos, sexuais, etc. É possível – mera hipótese – que uma refugiada climática negra, “trans”, marxista, “metaleira” e anti-semita se depare com obstáculos acrescidos para arranjar casa. A boa notícia é que os valentes do “Casa Para Viver” prometem não sair da rua enquanto não lhes resolverem o problema. E iam para onde? De uma maneira ou de outra, julgo que o problema está resolvido.

HABITAÇÃO E URBANISMO     PAÍS     ESTADO     POLÍTICA     NEGÓCIOS DO ESTADO     EXTREMA ESQUERDA

COMENTÁRIOS (de 106)

Ricardo Ribeiro: Brutal, caro Alberto Gonçalves! O parágrafo final é de génio! Isto não tem nada a cara das políticas defendidas pelos extremistas do BE...e da tendência que o Ps atual está a levar...nada mesmo nada...              F. Mendes: Muito bem! As propostas desta malta, na habitação e em tantos outros domínios da economia, deveriam figurar num manual de disparates, a facultar, com os devidos alertas, a um estudante de introdução à Economia. Mas, atenção que isto já chegou ao PS: numa raríssima ocasião em que sintonizei um dos nossos canais "informativos", ouvi a Leitão afirmar ser contra a redução do IMT para jovens, porque, e cito, "as pessoas se podem comprar casa, é porque têm dinheiro".  Ou seja, na banha que certamente enche a cabecita da sebosa, comprar casa é  para ricos, e para esses nada de "borlas fiscais". Inacreditável!               José Paulo Castro: É preciso perceber que o PS de António Costa e PNS deu guarida às teses destes loucos no programa MaisHabitação. E dará de novo, se acharem que isso lhes dará votos. Aumentar a oferta, neste contexto, é um investimento suicida. Ou morre o PS ou nunca vai haver oferta de casas a sério.            Alfaiate Tuga: Os que vão à manifestação são os mesmos que apoiam uma política de portas aberta à imigração , depois os imigrantes ficam com as casas e eles vão se queixar para a manif …Tadinhos. Na zona onde vivo tudo o que havia para alugar desapareceu, os imigrantes alugaram tudo, num T3 cabem 8 indianos ou paquistaneses mais as scooter TVDE, ou então ,três famílias de brasileiros , os putos dormem na sala ….Os imigras ficam-lhe com os empregos, ficam-lhe com as casas e tem nestes manifestantes acérrimos defensores , é só rir….          João Floriano: Vamos lá partir mais umas montras de imobiliárias, desejar a Morte aos do costume, gritar apoio ao Hamas e Hezbollah e morte aos judeus, embora não se perceba muito bem o que têm todos estes a ver com  a falta de casas na área da Grande Lisboa e Porto. E veremos igualmente muitos depoimentos emocionados de casais  de lésbicas e gays (se bem que também já estão  a ficar demasiado aburguesados), a queixarem-se de descriminação porque não têm uma casa onde possam viver o seu amor. E a culpa de tudo isto é da ex ministra Mariana Gonçalves que considera, ou considerou em 2022,  que todas as pessoas têm direito a viver nas zonas mais caras do país, incluindo na capital, onde os preços são os mais altos. Durante uma audição, Marina Gonçalves salientou ainda que “cabe ao Estado” permitir isso. E houve quem acreditasse. O problema é que a ex-ministra pedronunista ferranha, esqueceu-se de mencionar que é preciso que alguém pague esse direito e que o Estado somos todos nós.                Maria Tubucci: Excelente AG, mas tem de analisar isto por outro prisma. Vejamos. Todas as indústrias poluem, a indústria política não é excepção. Segundo consta o BE está ligado a 50 colectivos, se cada coletivo tiver 10 pessoas, são pelo menos 500 pessoas a berrar nas ruas. Entretanto, se cada activista levar 2 ou 3 idiotas úteis, a coisa facilmente passa o milhar. Agora repare-se, o ano tem 52 semanas, se cada coletivo trabalhar 2 temas por semana, e se todos eles marcarem presença nas manifes uns dos outros só alterando a cabeça da manif, teremos as ruas cheias de poluição tóxica todas as semanas, isto é o seu “emprego”. Simultaneamente a poluição que fazem exala um intenso cheiro fétido, que irá atrair  e alimentar as moscas da comunicação social, para cheirarem tudo e transportarem para as redações. Por exemplo, agência Lusa não perde um cheiro. O seu objetivo é produzir poluição ideológica, quanto mais ideológica e mais imbeciil for, maior será o tempo de antena que terão na comunicação social. Provavelmente, quem mais poluir maior financiamento terá, a Climáximo tem acções todas as semanas, deve ser a mais bem alimentada. Só resta saber, quem financia a poluição ideológica? Quem na realidade nos quer impor a anormalidade e a realidade invertida pela goela abaixo? Quem é o dono desta 5ª coluna? A nação Portuguesa não é de certeza ....           Jorge Tavares : EM DEFESA DO CAPITALISMO O capitalismo é o que resulta naturalmente numa sociedade, quando a propriedade privada é protegida e as pessoas são livres de a usar como bem entendem. É falsa, a visão marxista de que o capitalismo é baseado na exploração do trabalho. Há muitos outros factores que contribuem para a produtividade, incluindo o empreendedorismo, a poupança, a inovação e o progresso tecnológico. Além disso, muitas empresas esforçam-se por manter os seus trabalhadores satisfeitos - até porque isso é do seu interesse.

É falso, o argumento de que as empresas privadas são "más", porque funcionam a pensar no lucro. Pelo menos desde 1776 (quando Adam Smith publicou o seu livro sobre a riqueza das nações) que se conhece a solução para essa questão: submeter as empresas à concorrência, sempre e sem excepções. Quando uma empresa recebe favores do estado (e.g., TAP, CP, Efacec, CGD), isso é compadrio e não capitalismo. O compadrio (crony capitalism) caracteriza-se por alguém enriquecer ou obter favores, não por mérito próprio (comercial ou empresarial), mas graças à proximidade com alguém de poder - por ser amigo, compadre, parente ou aliado de alguém poderoso: ou seja, por ser um crony. O pressuposto essencial para não haver compadrio é que todas as empresas estejam sempre em pé de igualdade e sujeitas à concorrência. Verifica-se uma superioridade moral do capitalismo sobre todos os outros modelos económicos e de sociedade, incluindo o socialismo - pois é apenas sob as suas condições, que as pessoas se tornam ricas sem serem corruptos. É falsa, a ideia de que o capitalismo gera desigualdade. O capitalismo permite desigualdades nos rendimentos, mas na prática é muitíssimo mais igualitário que o socialismo. Com o verdadeiro capitalismo, todos os consumidores e produtores estão em pé de igualdade e nenhuma empresa é favorecida em relação às outras. Sucede que os consumidores pobres ou remediados são muito mais numerosos do que os ricos e no agregado constituem os maiores mercados em muitos casos. O socialismo permite desigualdades que são impossíveis no verdadeiro capitalismo. Um exemplo do Portugal socialista, é os cidadãos serem obrigados a dar uma quantidade colossal do seu dinheiro a empresas sem mérito como a TAP e a Efacec. O capitalismo não consiste apenas na livre criação de empresas, mas também em deixá-las fechar sem nos obrigarem a dar-lhes o nosso dinheiro, pois caso contrário geram-se injustiças e ineficiências. No Mundo real, tem de haver desigualdade. Se pensarem um pouco no que implica uma igualdade total, entre todos, repararão que é algo utópico e indesejável. Cada um de nós tem opções distintas. Alguns escolhem ter dois empregos, enquanto que outros preferem praticar desporto. Mesmo que total igualdade fosse possível (não é), uma sociedade assim seria um pesadelo totalitário, onde não haveria lugar para o mérito - e não respeitaria o direito à diferença e a dignidade humana. Atacar os salários altos é na realidade atacar o mérito e o elevador social. Passa por cima do facto de que salários altos são perfeitamente legais e legítimos. Quem os ganhou não roubou. É a muitas das actividades desses profissionais que devemos mais e melhores empregos. É precisamente essa hostilidade ao mérito que está a fazer os nossos melhores jovens emigrar. É essencial perceber que o capitalismo NÃO é um jogo de soma zero. Não é verdade que para uma parte ganhar a outra tem de perder. Quando duas partes chegam a acordo, é porque ambas acham que têm a ganhar com o negócio. É assim que se gera riqueza. Numa sociedade moderna, este fenómeno aplicado todos os dias a milhões de entidades gera desenvolvimento económico.               Manuel Martins: A mesma esquerda que clama por casas,  obviamente cedida de borla pelo senhorio ou paga pelo estado com os impostos dos que trabalham,  foi aquela que causou o problema da falta de casas, com o facilitismo na entrada de imigrantes ou a imposição de regras que protegem inquilinos do despejo, mesmo quando não pagam,  subarrendam ou destroem a casa: aumenta o risco,  aumenta a renda. E também,  sabem eles que  quase um terço da renda é para o estado?                    Ruço Cascais: Parabéns, mais um excelente texto. No século passado com grande esforço li o Memorial do Convento e a descrição das associações participantes no certame fez-me lembrar aquele parágrafo interminável do Saramago a descrever a procissão. Cheira-me que ideia é essa mesmo, a utilização da escrita como forma para dar conteúdo.  Não é na escrita, mas sim no faro que está o meu dom. Diógenes, o Cão, filósofo da Grécia Antiga é um dos meus ídolos maior. Diógenes vivia na rua e dormia dentro das manilhas de esgotos (incrível como os gregos da antiguidade já tinham grandes tubos para escoar os esgotos). Fazia-o pela necessidade de colocar em prática a sua filosofia e não pelas necessidades económicas. A família, era uma família de banqueiros, dizem.  É neste ponto que quero chegar; os tipos sem casa, que não querem casa e são verdadeiramente livres podendo fazer xi-xi e necessidades em qualquer esquina sem complexos de vergonha. Não pagam impostos, não fazem IRS, não tem contas de água, luz, telecomunicações e alimentam-se daquilo que arranjarem sem pagarem um tostão (conhecem a REFOOD? Eu também não me importava de comer aqueles restos do dia anterior).  É muito difícil convencer alguém, designadamente o Presidente da República, os presidentes de câmara e as beatas e betas cristãs, que existe muito boa gente que quer ser sem abrigo por opção. As circunstâncias da vida não me permitem, mas, era o meu sonho ser um sem abrigo recebendo finalmente os mimos e a atenção do Estado. Dormir ao relento enrolado num saco cama inalando os cheiros da cidade e da vida, deambular com o meu carrinho de supermercado pela cidade, ir até à Sopa dos Pobres aconchegar a barriga. Tomar banho só de vez em quando, ter apenas duas t-shirts um casaco é um par de sapatos e ser finalmente livre do sistema enquanto ainda vivo (inevitavelmente a liberdade chega com a morte) fazendo todos os dias uma mija à porta das finanças e da sociedade por forma a escarnar deste modo de vida que construímos.  Neste assunto da habitação há muitos que querem fazer parte do sistema; ter casa, pagar impostos, fazer o IRS, pagar as contas da luz, da água e das telecomunicações ao fim do mês, ter despesas de supermercado, comprar um carro e educar filhos, mas, creio, que a maioria quer viver fora do sistema. Ser sem abrigo é também um movimento (filosófico?) da nossa contemporaneidade e consequente da nossa sociedade cada vez mais exigente e controladora. Nota: na minha zona fixou-se num parque com uma pista de ciclocross um casal sem abrigo numa tenda, que cresceu para umas tendas. Um casal peculiar. Ele meia-idade russo, ela jovem menor ucraniana e ex-grávida. Já teve o filho, mas, a mãe dela denunciou-a à Segurança Social para proteger o bebé e o Estado tirou-lhe o bebé. São simpáticos, um pouco hippies, talvez muito hippies, e têm sempre estampado um sublime ar de felicidade. São as pessoas, o casal, mais feliz da minha zona. São verdadeiramente felizes. Será que eles querem uma casa, entrar no sistema e pagar impostos? Não, obviamente que não. A felicidade está naquele modo de vida.                José Paulo Castro > Maria Tubucci: Se uma organização pró-vida colocar vários milhares de pessoas na rua, a comunicação social nem coloca a notícia nos rodapés. O 'se' é irónico porque já aconteceu este ano. A 5a coluna na nossa comunicação social é que é a chave da promoção destes idiotas, como diz muito bem. Sabemos o que a Climáximo anda a fazer antes de a policia chegar ao local, já reparou? Tem aí a prova. O cancro está nas redações. São os mesmos que não fazem investigação aos assuntos relevantes (contratos públicos, ligações familiares perigosas, etc.) cuja informação está disponível e é pública, só precisa de quem a analise. Preferem promover causas. O problema nem é chamarem ativistas a loucos e vândalos: é chamarem-se jornalistas a eles mesmos.              Vítor Araújo: Muito bem, só que faltou indicar o nome do presidente da dita associação. Chama-se Pedro Nuno Santos e é líder partidário. Vejam, ou ouçam, que foi o meu caso, as suas declarações/propostas de ontem a propósito da posição do seu partido sobre o orçamento geral do estado para 2025. Ele não ficaria nada estranho a discursar ao lado do seu camarada maduro.                       AL MA: Excelente descrição das delirantes exigências de grupelhos de parasitas, subsidio-dependentes, que enxameiam o nosso País, sem produzir nada ,sem contribuir para o bem-estar geral, e sem qualquer interesse em terem  actividades activas regulares, e o pior nem interesse em terem uma profissão.               António Alves: Do que ninguém fala, porque não convém, é que 1/3 da renda vai direitinha para o Estado ou seja, numa renda de 1.000€ , 300€ vão para impostos e o restante é que vai para o senhorio que com esse dinheiro ainda tem que pagar IMI, as obras e IRS.                  José Paulo Castro >Jorge Tavares: O seu comentário devia estar na Bíblia.  (por acaso até está: o décimo mandamento proíbe explicitamente o desejo sobre aquilo que é dos outros, que é a essência da justificação de todos os anti-capitalistas, e o sétimo proíbe o roubo, que é a essência do imposto numa sociedade colectivista que visa a igualdade total com redistribuição)             Clavedesol: Pela enésima vez.. obrigado A.G.! Uma forma "elegante" para descrever esta escumalha! Sem os seus artigos já por cá (jornal claro) não andaria! Seguramente! Bem haja!             unknown unknown: Uma petição já para construir um grande manicómio pois esta gente tem de ser alojada é no hospital psiquiátrico                José Paulo CastroJohn Doe: O problema é PNS levá-los a sério e muito eleitor socialista levar PNS a sério. Alcides Longras: Headbangers Antifascistas???  A realidade bate sempre a ficção...             John Doe: Basta olhar para os nomes das entidades organizadores para se ver que não passam de semi-profissionais da desordem e agitação, em busca de uns minutos na TV. Abriram o Manual do disparate e estão a lê-lo, tópico por tópico. Não é de admirar que além dos próprios, ninguém mais os leve a sério.              Carlos Rosario: Excelente artigo, parabéns. Calculo que nesse grupo que exigem casas, a maioria seja daqueles "nem nem" que nada fazem nem por si, muito menos pelo país.

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Cinquenta anos

 

Um caso. De alguém que foi e se manteve corajoso e coerente, como poucos. Porque a maioria dos contrários às flores de Abril silenciou. Admiro-o por isso. E agradeço. Por mim, também o contei. Em livros. Que releio por vezes, achando-me igualmente pessoa de coragem. Usando as mais das vezes a ironia, pouca, todavia, no excerto que segue, extraído do último texto do livro publicado ainda em Lourenço Marques “PEDRAS DE SAL”, (em 2ª Edição, como primeiro livro de “Cravos Roxos”), espécie de síntese de uma realidade que hoje aponta para a que esteve por trás de tudo isso – a implementação russa por todos esses cantos que deixámos para eles, os russos, os quais estão sempre em busca de cantos… ou talvez de recantos, para encanto próprio e desencanto alheio…

«OS COLONOS”:

«…As colónias, ou províncias, ou estados, passaram a ser um estorvo, e com grande alarido e profusão de flores românticas, entregaram os estados a quem os queria, voltando imediatamente a chamar-lhes colónias sem sequer passarem pelo estado intermédio de províncias. E os habitantes das províncias ultramarinas regressaram à base como colonos vexados, e disseram-lhes que eles foram muito cruéis e exploradores – colonos, em suma. Os colonos encolheram-se humilhados, e lá se foram amanhando à procura de um cantinho no solo pátrio de onde haviam partido – eles ou os seus antepassados. E os metropolitanos, cheios de vontade de disfarçar, por meio dessa designação pejorativa, a verdadeira razão de todos estes tristes acontecimentos – o seu egoísmo, cobardia e decadência moral – recebem os colonos com alarde, na rádio e na imprensa, interrogando-os sobre o que eles pensam e sobre o que sentem. E os colonos sentem-se muito honrados com a distinção de que são alvo por parte dos seus irmãos metropolitanos não colonos, e pensam que valeu a pena o seu retorno à pátria e o desfazer das suas vidas e ilusões, só para aparecerem na televisão.»

O estranho caso do 28 de Setembro

Com o “golpe direitista”, o regime das “amplas liberdades democráticas” conseguiria a proeza de exibir em Outubro de 1974 mais presos políticos do que os que lá estavam no dia 24 de Abril de 1974.

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR. 28 set. 2024, 00:2259

Há 50 anos, na noite de Sexta-Feira, 27, para Sábado, 28 de Setembro de 1974, fui procurado em Lisboa, com algum empenho, por um destacamento do COPCON – Comando Operacional do Continente – a unidade chefiada pelo brigadeiro Otelo Saraiva de Carvalho.

Não fui, evidentemente, o único: nessa noite, véspera da manifestação da “Maioria Silenciosa”, umas largas centenas de “fascistas”, de “reaccionários”, de “miguelistas”, de “legionários”, de “ex-ministros da Ditadura” ou de meros suspeitos de poderem vir a constituir “um perigo para democracia” foram procurados e detidos por grupos de militares.

Procuraram-me, como disse, com algum empenho: primeiro foram à minha última morada de solteiro, que eu deixara em Janeiro de 1972 mas que constava dos registos da Faculdade de Direito. A gentileza da informação deve ter partido de alguns colegas “associativos”, que não terão querido perder a oportunidade de contribuir para a marcha da revolução, denunciando um culpado de delito de opinião. Tendo eu furado algumas greves, impedido algumas unanimidades e animado alguma oposição ao poder que exerciam na Faculdade (um poder tão ou mais totalitário do que o que os “vitimava” e ao país fora da universidade), como resistir, dois anos depois, a um irresistível “não passará!”?

Imagino que os soldados do COPCON que faziam a rusga também respirassem o ar festivo de Abril, gozando as alegrias de andarem, já não em África, atrás de “turras”, mas na capital atrás de “fachos”. Ah a aura romântica da revolução e a beleza de caçar fascistas!

Mas nessa noite de há 50 anos não encontraram o fascista em questão no quarto alugado da Av. Rio de Janeiro, 46, a morada que estava nos arquivos da Faculdade de Direito. Passaram por isso a interrogar a senhoria, uma velha senhora que, sob pressão, lá lhes deu a morada que ali tinha num convite de casamento.

E para lá seguiram as tropas. Entraram, revistaram a casa, não me encontraram e, ao contrário do que fariam noutros sítios, deixaram tudo onde estava e como estava. Levavam à frente um aspirante miliciano. Com eles ia também um civil – um comissário? – que dava instruções e era ouvido com respeito pela tropa. Seria, muito provavelmente, o Dr. Jean-Jacques Valente.

O estranho caso do Dr. Valente e do Sr. Jean-Jacques

Jean-Jacques Valente era o famoso oficial médico antifascista da Conspiração dos Claustros da Sé, uma conspiração de civis e militares, envolvendo republicanos do reviralho, comunistas e católicos progressistas, todos acolhidos pelo pároco da Sé. Entre os mais dinâmicos animadores da conspiração estivera o capitão José Almeida Santos, Manuel Serra e Varela Gomes. O capitão Nuno Vaz Pinto, monárquico ultramarinista, mais tarde meu amigo e conspirador anti-marcelista, também lá tinha estado.

Como outros conspiradores da Sé, Jean-Jacques Valente foi julgado e condenado. Preso no forte de Elvas, acabou por evadir-se com Almeida Santos, ajudado por um cabo da Guarda Nacional Republicana, António Gil. Seguiram-se meses de fuga e clandestinidade, primeiro em Chaves, depois no Sul, perto de Lisboa. Tudo acabou num huis-clos dramático, com Jean-Jacques e Gil a assassinarem a sangue-frio Almeida Santos. José Cardoso Pires recriou toda esta história em A Balada da Praia dos Cães e José Fonseca e Costa traduziu-a por imagens.

O crime passou-se em 1960 mais ou menos nos termos descritos no excelente romance de Cardoso Pires e no belo filme de Fonseca e Costa e conforme a reconstituição dos factos da Polícia Judiciária. Jean-Jacques Valente e o cabo António Gil tinham matado a sangue-frio o seu correligionário e companheiro de fuga de Elvas: Gil disparara, Valente disparara, mas, como a pistola encravara, Jean-Jacques tivera de acabar Almeida Santos à pancada com as tenazes da lareira.

Ora era precisamente este Dr. Jean-Jacques, o tenaz misericordioso de 1960, o valente bom-selvagem, o comissário político que, na noite de 27 de Setembro de 1974, se passeava com os COPCONS de casa em casa.

Como é que o assassino de um correligionário, um assassino frio e a frio, capaz de acabar barbaramente com um seu companheiro de conspiração e revolução, aparecia, anos depois, nas unidades militares destacadas para fazer prisões políticas – como consultor, como conselheiro, como comissário político, o que fosse?

Mas lá estava ele. Convém acrescentar que, naqueles tempos, tudo era possível: a poesia descera à rua, pintavam-se os muros e a vida de vermelho e passavam-se mandados de captura em branco. Até Jean-Jacques Valente na Quinta Divisão era possível.

O espírito do tempo

Sobre o 28 de Setembro de há 50 anos e para que o leitor consiga entrar no espírito do tempo e veja ou leia para crer, aconselho a leitura do capítulo relativo ao episódio em Textos Históricos da Revolução, com organização e introdução de Orlando Neves (disponível online).

A introdução reza assim:

“A passos lentos, mas quase sempre irreversíveis, a marcha para a destruição da máquina fascista e do aparato capitalista prosseguia […] A espíritos eivados de anquilosamentos passadistas ou a espíritos avidamente interessados em defender os seus privilégios não podia agradar este ambiente geral do País”.

E depois? – perguntará o leitorDepois, “o capitalismo e mais uma vez com ele todos os seus naturais aliados, em especial a social-democracia, tentam o golpe espectacular (e sangrento pois estava previsto o derramamento de sangue para que, em nome da «ordem» e da «autoridade», Spínola assumisse o poder absoluto ao decretar o seu desejado estado de sítio)”.

Como “espírito eivado de anquilosamentos passadistas”, não resisti à extensa citação.

O que se seguiu foi o aproveitamento da ingenuidade e confusão de Spínola e dos spinolistas (ou melhor “do capitalismo e de todos os seus naturais aliados, em especial a social-democracia”) para avançar com um, já não hipotético, mas verdadeiro golpe; um golpe travestido de contragolpe, usando como instrumentos a Quinta Divisão do Estado Maior General das Forças Armadas e o COPCON.

Inicialmente chefiada por Vasco Gonçalves, que logo em Julho 74 a deixaria para abraçar o cargo de primeiro-ministro como “companheiro Vasco”, esta Quinta Divisão controlada e animada pelo PCP tinha, entre outras funções, “detectar desvios no cumprimento do programa do MFA e propor medidas para a sua correcção”. Ficámos também a dever-lhe as campanhas de Dinamização Cultural. E ao lado desta mítica Quinta Divisão estava o ainda mais mítico (mas também bastante real) COPCON.

Passo então a citar o Relatório da Comissão de Averiguação de Violências sobre Presos Sujeitos às Autoridades Militares, mais conhecido por Relatório das Sevícias (também disponível online):

“A partir de 28 de Setembro de 1974, o COPCON surge com poderes ilimitados sobre a segurança e a liberdade das pessoas, arvorando-se até no direito de decidir pleitos, dirimir questões civis, resolver problemas de habitação […] Efectuava ainda apreensões de bens e congelamentos de contas bancárias e decretava medidas limitativas da liberdade, tais como interdição de saída para o estrangeiro, residência fixa, etc.”

Reacção em cadeia

Nessa noite iniciava-se, executada pelo COPCON, uma acção que levaria à prisão de cerca de 300 pessoas (números do Relatório das Sevícias), sem contar com os agentes da PIDE. Eram pessoas ligadas à manifestação da Maioria Silenciosa, ao governo ou a organizações do anterior regime e a “partidos e jornais situados à direita, depois do 25 de Abril”. Em Caxias, era a própria “Reacção em cadeia”, nas palavras do Quito Hipólito Raposo à entrada, ainda no pátio, fazendo da tristeza e da tragédia graça.

Os tais “elementos dos partidos e jornais situados à direita depois do 25 de Abril” foram a chave e a razão da operação; uma típica operação comunista, orquestrada com o apoio dos meios de comunicação social, que foram exaltando o já de si exaltado primeiro ministro Vasco Gonçalves e outros líderes do MFA e espalhando desinformação sobre a “conspiração da extrema-direita” e “o golpe spinolista”. Havia que prender todos os que estavam a pôr em perigo a democracia. Motivo do encarceramento? “Associação de malfeitores”.

Volto à narrativa do Relatório:

“As prisões foram efectuadas por forças militares do COPCON, mas também por grupos civis, ou pelo menos orientados por civis. É de registar sobretudo a intensa actividade desenvolvida por um médico, membro do PCP”.

Lá estava ele no relatório, o Dr. Jean-Jacques Valente, o médico, o comissário político que no dia 27 de Setembro acompanhou os emissários da democracia e da liberdade do COPCON que vieram por mim e por muitos outros nessa noite. Era quase Stevenson: The Strange Case of Dr. Valente and Mr. Jean-Jacques.

A inventona de 28 de Setembro não foi mais do que um pretexto da esquerda comunista e da ala mais esquerda do MFA para, alegando golpe e contra-golpe, poder matar no ninho da serpente a direita que se organizava para, ao abrigo das leis da Democracia e em democracia, se bater por uma solução que permitisse salvar o que pudesse ser salvo no Ultramar e do Ultramar. E defender, na Metrópole, a liberdade contra os seus maiores inimigos de sempre: os comunistas e a esquerda radical.

Como consta do Relatório das Sevícias, as prisões dessa noite, geralmente por instigação de militantes do MDP-CDE, foram acompanhadas de denúncias e de mobilização de multidões. O regime restaurador da democracia e das amplas liberdades conseguiria assim a proeza de exibir em Outubro de 1974 mais presos políticos do que os que lá estavam no dia 24 de Abril de 1974.

Nessa noite, quando da visita ao que julgavam ser o meu paradeiro em Lisboa, eu estava em Carmona como alferes miliciano, na Acção Psicológica. Poucas semanas antes do 25 de Abril tinha trocado com um camarada meu, que estava mobilizado. Sendo então um convicto defensor do Portugal ultramarino, não me passava pela cabeça não servir em África. E como me oferecera mas nunca mais me chamavam, resolvi trocar com um mobilizado.

Em Carmona, no Sábado, começaram a chegar as notícias, esparsas, de que na Metrópole se prendiam “reaccionários” ad hoc. Em Angola, Rosa Coutinho procedia também à limpeza e neutralização de quaisquer movimentos políticos que se desviassem da “linha geral” do MFA, vitorioso em Lisboa. A partir desse 28 de Setembro preparei a fuga para a única fronteira possível – a do Sudoeste Africano, hoje Namíbia. Na Sexta-Feira seguinte, 4 de Outubro, pus-me a caminho. Seguiram-se quatro anos de exílio – na África do Sul, no Brasil e em Espanha. 

DESPORTO (?)          

COMENTÁRIOS (de 59)

Tim do A: A História que não se escreve, tal como não se divulga na comunicação social o discurso desta semana de Milei na ONU.               Jorge Tavares > Maria Nunes: ?!? No Desporto?! Fui a essa secção e pude confirmar. O pessoal do Observador que arruma essas coisas anda despassarado.             klaus muller > Jorge Tavares: É curioso! A mim então não me causa qualquer surpresa ...         Novo Assinante: Se havia mais presos políticos em Setembro de 1974 do que em Abril de 1974, é fácil de explicar: havia mais fascistas para prender em Setembro do que comunistas em Abril. E, a avaliar pela crónica, houve fascistas que fugiram para o estrangeiro a partir de 28 de setembro para não serem presos reduzindo assim o número de presos em setembro 1974. - A. BENITO VENTURA MUSSOLINI, FUHRER DE MEM MARTINS.         Maria Nunes: JNP, obrigada por mais um excelente artigo. Tempos tenebrosos esses que descreve. É por isso que é tão importante festejar o 25 de Novembro de 1975. Quanto ao Observador, a minha pergunta é : estão a brincar com os assinantes quando põem este artigo na categoria de desporto?              José Pinto de Sá > José Pinto de Sá: Acrescento ainda, para precisar, que a 24 de Abril havia 127 presos políticos em Portugal, não só menos que os 300 existentes em Outubro, como muito menos! Sem falar, como lembra o Jaime, nos pides, que eram uns 2 mil presos. Quanto à acusação comum, era, de facto, "associação de malfeitores". Era uma acusação ao abrigo da qual a lei permitia prender indefinidamente, e como não havia nenhuma intenção de vir a julgar esses presos, pouco se preocupavam com a verosimilhança da acusação. Era a chamada "legalidade revolucionária", em contraposição à legalidade da lei.              José Pinto de Sá: Também me foram buscar à morada que constava na ficha de inscrição na Faculdade e que eu nunca actualizara, mas isso ainda em Julho, num mandato informal redigido numa folha de papel branco sem timbre e entregue à PSP. Depois quando voltaram a procurar-me, a seguir ao 28 de Setembro, precisamente,  já acertaram, e dessa vez é que estou para saber como souberam da morada, embora tivesse então sido a polícia militar do major Tomé a fazê-lo!              MCMCA A: Vieram pelo meu pai, um pacífico homem de direita que protegeu amigos comunistas em sua casa quando em fuga da pide. Nunca esquecerei o horror que senti, as mentiras que ouvi e os corredores de Lisboa que corri com a minha mãe a tentar saber de que era acusado. No dia da manifestação da Intersindical, um jovem tenente da marinha, disse à minha mãe: grite bem alto a injustiça de que é vítima o seu marido. Mas. Depois de quase meio ano em Caxias foi solto sem mais e disse, vai haver mais prisões e por isso estão a vagar Caxias. Foi o 11 de Março. A 17 de Julho de 1975 meu pai foi de novo preso para ser levado para Pinheiro da Cruz de onde, Otelo, queria tirar os presos para os fuzilar no Campo Pequeno. Valeu-nos Mário Soares e o embaixador americano Carlucci. Na véspera da tomada de posse de Mário Soares a 18 de Setembro de 75 meu pai foi solto às 19 h. Mário Soares gritou alto e bom som que só tomaria posse se todos os presos sem culpa formada fosse soltos.          Francisco Bandeira: Eu pensava que só havia presos politícos antifascistas!  Os outros eram criminosos anticomunistas?  A diferença de classificação deverá ser porque os presos anticomunistas são efectivamente em número muito muito muito muito sperior em toda a história. É um balanço interessante para ser efectuado e divulgado.              Domingas Coutinho: Obrigada pelo excelente retrato do que foram os tenebrosos tempos que levaram ao bendito 25 de Novembro que nos libertou deste bando de malfeitores que se apoderou do 25 de Abril para desbaratar tudo e todos. Espero que o 25 de Novembro seja devidamente assinalado.               João Floriano: Aos mais novos que não têm ideia destes tempos, recomendo a cançoneta «Força Força companheiro Vasco, nós seremos a muralha de Aço.» Da mesma altura temos  a Gaivota que se fartava de voar e não se cansava. Será certamente mais popular porque as crianças nas escolas cantavam-na sem perceber que a gaivotazinha tinha um significado político mais ou menos disfarçado. Já o companheiro Vasco é por demais evidente. Para quem não conheceu ou se lembra do companheiro Vasco, posso descrevê-lo como uma triste figura, marionnette do PCP, que não deixou qualquer saudade. Também é preciso que se diga que a 28 de setembro de 1974 não se tinha a informação que hoje se possui e o COPCON de Otelo Saraiva de Carvalho e os comunistas, fruto de uma campanha agressiva, eram verdadeiros heróis populares e a aliança Povo/MFA, que não era mais do que  a infiltração dos comunistas nas Forças armadas a salvação do país. a falta de informação e desinformação eram gritantes e se hoje passados 50 anos ainda há quem se agarre ao PCP com o argumento de que nos livraram do salazarismo e do fascismo, imagine-se como seria em 1974. Há uma data que achei particularmente curiosa e que tem  a ver com Angola: 28 de setembro de 1974. Durante vários anos mantive uma relação muito próxima com uma  família que fugiu de Angola precisamente no dia 27 de setembro de 1974. Nesse dia festejava-se com uma grande reunião familiar não só o aniversário de alguém que fugiu, mas também  a saída de um país que amaram, consideraram seu e para onde tinham partido em abril de 1952. A fuga do Lobito até Luanda onde apanharam o barco para Lisboa a 27 de setembro é perfeitamente rocambolesca, digna de filme,  sempre recordada ente risadas e emoção. Mas hoje também há casos estranhos e de dificil explicação: como é que se continua a votar no PCP.      Cisca Impllit > Francisco Bandeira: Um podcast  a fazer pelo Observador,  para começar  - valia muito a pena,    Carlos Quartel: E preciso não esquecer, é preciso divulgar. Onde anda o CDS, o PSD ou mesmo o Chega ?? Entretidos com trivialidades, deixam o fundamental de fora.  E assim tem o PCP e os "revolucionários" do BE escapado, com as suas tropelias e as seus ataques à democracia cobertos por uma comunicação social amordaçada. Sem ódios exagerados, é preciso que se saiba o que representam esses partidos e dizer erepetir ao PS que "geringonça" nunca mais.               Glorioso SLB > José B Dias: Caça ao fascista ñ seria desporto naquela época!?             Isabel Amorim > Ludovicus: Não convém que se saibam as porcarias e trafulhices que essa malta em nome da liberdade fez. Não passavam de uma cambada de meros invejosos básicos mediocres que depois foram acumulando riquezas e bens que acusavam os outros de terem. Só a inteligência , cultura e educação que não se compra ou rouba é que não conseguiram como é óbvio. O resultado está à vista...                Carlos Real: Mais uma vez se comprova como a História pode ser muito facilmente aldrabada. O 28 de Setembro sempre nos foi contado como um golpe spinolista. O mais certo é ter sido um golpe comunista para reforçar a linha da descolonização desgraçada, e reforçar o papel de Vasco Gonçalves e Otelo. Os chuchialistas que alinham no mesmo discurso, bem se arrependeram quando Mário Soares (grande borrada na entrega sem prazo das colónias) percebeu em 1975 que Portugal poderia ser a Cuba da Europa. Mais uma excelente crónica do Jaime NP.  Ludovicus: O JNP sempre escreveu para uma elite. Julgo ter lido todos os livros dele. Assim como os de António Marques Bessa. Mas, este artigo não é só para uma elite. Quem não viveu o pós-25A, o 28Set, o cerco a Lisboa para impedir a manifestação da "maioria silenciosa", o 11mar, o pós 11mar. o que se passou no Alentejo, os assaltos ás sedes do PCP nas cidades do norte do país nas vésperas do 25Nov, compreenderá este artigo? Falo com jovens de 30 e tal com diversos graus académicos e, sabem que houve um 25A. Mas, tudo o que se passou, está numa "zona cinzenta".  Nem querem saber.                 Fernando ce: Tinha 18 anos nessa altura. Tinha simpatias pelo PS de então. Ou seja, não era um “ fascista”, mas sempre me interessei por política, e apoiava a linha do general Spínola, que era a que melhor defendia os interesses de Portugal, dos portugueses, e dos povos das ex colónias ( em relação a estes bem se viu o que lhes aconteceu depois e até hoje…). Quando a portuguesa-angolana Van dunem fala das mangas que hoje pode obter mas não as pessoas que perdeu, de certeza não inclui aí os assassinatos já depois da independência fizeram a militantes da Unita e ate do proprio MPLA). Mas como observador desse período que Nogueira Pinto faz, a minha opinião foi já na altura de ser ter tratado de um golpe efectuado por comunistas e seus compagnons de route para eliminarem qualquer direita e centro direita de influencia na sociedade.               Maria Emília Ranhada Santos: Aqui há dias estive na universidade de Almada, e escutei com alguma dor estudantes desanimados perguntarem se eu achava que o regime anterior era pior do que este? Quase fiquei engasgada! Não pensava isso dos estudantes universitários, mas depois, parei a minha mente e percebi que jovens sensatos, vivem tempos muito difíceis! Vivemos um enviesamento total da comunicação social, o que significa que nos querem amordaçados e não livres! Isto significa que não somos livres mas sim, escravos das ideias deles, dos socialistas e outras esquerdas depravadas!              João Serra: Nestes tempos de reescrita da história, haja quem a preserve e conte. Belíssimo texto, JNP, venha o próximo. Tempos tenebrosos para a Liberdade, protagonizados por personagens em tudo semelhantes a muitos que aí andam, travestidos de cordeiros. Para “Desporto” é talvez um pouco violento… corrijam por favor, o Observador não merece.          Antonio Moreira: Este lúcido e oportuno artigo do Jaime Nogueira Pinto (JNP) merece três notas. Como habitualmente, procurarei comentar com um intuito de esclarecimento a quem nos lê, neste caso especialmente justificado porque acompanhei pessoalmente vários dos eventos em causa e, por isso, tenho conhecimento dos mesmos em termos que vão além das leituras ou audições de testemunhos ou conclusões alheias. 1. Revolução Comunista em Portugal. Considero que, com a tomada de posse de Vasco Gonçalves para primeiro ministro do segundo governo provisório, em 18jul1974, se iniciou a revolução comunista em Portugal, primeiro de uma forma insidiosa e, depois do 28set1974, de uma forma descarada. Esta revolução comunista visava não só impedir a implantação de um regime democrático em Portugal como igualmente a entrega de Angola aos (então) comunistas do MPLA. Eram os dois objetivos principais. Outros havia. Uns atingidos outros impedidos. Quanto aos outros territórios ultramarinos, a sua entrega a forças políticas comunistas não constituía objetivo principal, mas, sobretudo Moçambique, tinha também importância estratégica. Não deixa de ser curioso que o fim da mesma revolução comunista se tenha dado em 25nov1975, só após a independência de Angola, proclamada em 11nov1975, poucos dias antes. Ou seja: o segundo objetivo principal da revolução comunista em Portugal foi integralmente atingido. Esta revolução comunista teve a primeira contrariedade com a realização das eleições para a Assembleia Constituinte, em 25abr1974 (embora não completamente livres, quer pela imposição revolucionária e anti democrática de um Pacto MFA / Partidos quer por impossibilidade de concorrerem partidos do centro e direita, excepto do CDS, mesmo este limitado por ilegalização do PDC – Partido da Democracia Cristã do “capitão de abril” Sanches Osório, com o qual se encontrava coligado). Depois, foi combatida pelo povo português, sobretudo a Norte, durante o Verão de 1975 e foi vencida em 25nov1975, que restituiu e retomou o essencial do objetivo inicial do 25abr1974: a implantação de um regime político democrático em Portugal. Muito haveria a dizer sobre esta revolução comunista e suas consequências, algumas delas que permanecem durante dezenas de anos. Basta pensar que, só decorridos mais de 40 anos, podemos ver em normal actividade partidos oriundos do espectro político do centro direita e direita, então impedidos de existir, destruídas as suas sedes, perseguidos e presos os seus dirigentes, como em 28set1974 e daí para diante sucedeu. Recomendo vivamente a leitura completa do documento conhecido como “Relatório das Sevícias” – Relatório da Comissão de Averiguação de Violências sobre Presos Sujeitos às Autoridades Militares, com acesso on line informado no artigo em comentário. Este documento é de uma importância superior para alguém que queira conhecer o ambiente e as violações dos mais básicos princípios dos direitos humanos, praticadas durante a revolução comunista que se desenvolveu em Portugal em 1974/1975. 2.    Factos narrados no artigo. Começo por confirmar os factos narrados quanto aos acontecimentos ocorridos no período imediatamente anterior, no período contemporâneo e no período imediatamente posterior ao 28set74  A manifestação da chamada “maioria silenciosa” foi pedida, incentivada e até pressionada pelo Presidente da República em funções, Gen. Spínola. Nada de mais natural numa democracia – uma manifestação de apoio ao PR! O que se passou efectivamente foi uma batalha de poder entre o Gen. Spínola e a maioria comunista da Comissão Coordenadora do Programa do MFA. Com vários ataques e contra-ataques, ocorridos sobretudo entre 26 e 29set1974. Que a segunda ganhou, provocando a demissão do primeiro em 30 de setembro de 1974. Spínola procurava – à semelhança do que fez o Gen. De Gaulle, nos acontecimentos que precederam a implantação da V República em França, regime que ainda hoje permanece – obter um reforço da sua força política com uma manifestação que supunha seria grandiosa. Tendo condições objectivas e força política e militar para tal, não foi capaz de o fazer e, com a sua incapacidade, não só perdeu a batalha como abriu o caminho a um reforço e aceleração da revolução comunista que queria contrariar. Especificamente sobre o 28set1974, seus antecedentes, os acontecimentos desses dias e suas consequências, recomendo a leitura também completa de um livro de quem os viveu de um lado e do outro das grades de Caxias – “A Burla do 28 de setembro”, por António Maria Pereira, ed. Livraria Bertrand, Lisboa 1976. 3.    João-Jacques Marques Valente, natural de Lisboa, freguesia de S. Sebastião da Pedreira – o médico assassino, destacado dirigente da ARA (Ação Revolucionária Armada) – ala clandestina e armada do PCP. Um centro estratégico da revolução comunista em 1974/1975 (menos publicitado) estava constituído na Comissão de Extinção da PIDE/DGS e LP, sediada no Forte de Caxias. Oficialmente, em Caxias, estavam em funcionamento apenas a Repartição de Análise e Investigação Documental desses oficialmente designados por “Serviços de Coordenação da Extinção da PIDE/DGS e Legião Portuguesa”, criados por despacho de 7jul1974 do então CEMGFA (Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas), Gen. Costa Gomes. Para quem queira informar-se melhor sobre estes Serviços, recomendo a consulta no site da Torre do Tombo, em acervo documental facilmente encontrado sob o seu nome oficial acima referido. Mas, na realidade, esta Comissão em Caxias desempenhava um papel muito mais relevante do que seria suposto pelos documentos que a criaram. Desde logo, o acesso a esta Comissão era muito exclusivo: entre setembro e dezembro de 1974 só vi lá, com peso determinante, membros da ARA (já acima identificada), da LUAR (grupo armado do Palma Inácio, que veio a assumir-se como ala armada do PS) e das Brigadas Revolucionárias /Partido Revolucionário do Proletariado, do Carlos Antunes e da Isabel do Carmo e que constituíram mais tarde a única rede bombista reconhecida, julgada e condenada em tribunais portugueses, conhecida sob a designação de FP-25. Grande parte do público ouviu falar pela primeira vez das BR/PRP por causa do episódio de entrega de 1.000 G3, em setembro de 1975, pelo capitão Álvaro Fernandes a Isabel do Carmo e a Carlos Antunes, que teve destaque na imprensa da ápoca. É curioso como um serviço oficial, declaradamente de investigação documental, tinha tanta preponderância de elementos operacionais de perfil guerrilheiro ou paramilitar e pertencentes ou aliados a partidos políticos, dois deles que faziam parte do Governo de então… Ora, o JJ Valente (JJV) era o verdadeiro comandante de tal estrutura. Para além do destino que deu a grande parte dos arquivos da PIDE/DGS - que apareceram uns anos mais tarde nos arquivos do PCUS - União Soviética, quando esta se desmoronou em 1989/91 - dele, com ele e sob as suas instruções eram presos sob a acusação de “suspeitos de pertencerem a uma associação de malfeitores” inúmeros portugueses, muitas vezes sem qualquer actividade política. Estes detidos eram conduzidos quer ao então RAL 1 (Regimento de Artilharia 1, considerado de confiança revolucionária) quer ao Forte de Caxias e aí permaneciam detidos por largos meses, alguns por mais de um ano, sem serem ouvidos por qualquer autoridade judiciária e, apenas alguns, sujeitos a interrogatório, várias vezes com tortura ou sevícias, pelos elementos dessa Comissão, sob a orientação, chefia ou participação directa do próprio JJV. Como curiosidade, vários dos famosos “Mandados em branco”, isto é, assinados pela “autoridade” ordenante (habitualmente o COPCON, então de Otelo Saraiva de Carvalho) e com o espaço a preencher com nome da pessoa a deter em branco, foram preenchidos por este JJV ou sob sua indicação, sendo ele que, na prática, detinha o poder discricionário de escolher quem prender. Pelo menos, durante o período em causa, de setembro a dezembro de 1974. 4. O Partido Socialista durante o ano de 1974. Ao longo dos meses que se seguiram ao 25abr74 o PS esteve e comportou-se muitas vezes duma forma mais "progressista" ou revolucionária do que o PC institucional. Quer no governo gonçalvista quer na defesa e participação das acções "revolucionárias" do dia a dia, fora de qualquer controlo ou legitimidade democrática. Mário Soares chegou a defender uma frente popular PS/PC para governar Portugal, baseado no exemplo francês e esquecendo que o PCF não era estalinista, ao contrário do PCP. No número 1 deste comentário, já apontei a presença da LUAR / PS na Comissão em Caxias. Mas acrescento outro exemplo: nas barricadas ditas "populares" para impedirem o acesso a Lisboa por alturas da manifestação de apoio ao PR em funções, marcada para a tarde do 28set, o PS mostrou-se tão mobilizador e activo como os grupos de esquerda radical. Na verdade, só com os episódios da "unicidade sindical", como lhe chamou Salgado Zenha no início de 1975, e da ocupação do jornal "República" do socialista Raúl Rego, é que o PS começou a distanciar-se primeiro e a combater depois o PC e a revolução comunista em marcha então. A partir daí, o PS e Mário Soares perceberam onde a revolução comunista poderia levar o País e as consequências para o PS do eventual êxito revolucionário. Tornaram-se então um dos principais obstáculos a essa revolução e contribuíram para  a sua derrota. Muito mais haveria a escrever. Sendo um comentário a um específico artigo com cujo conteúdo concordo, fico por aqui, renovando os agradecimentos ao autor por trazer estes assuntos á colação.               Gastão Ferreira: Muito bem! Ainda hoje conversei com sobrinhos, quase cinquentões, sobre o tema.  A narrativa oficial da revolução continua no domínio da ficção, e se não fosse trágico teria sido cómico ver a dificuldade em encontrar o que comemorar ao fim de 50 anos                Tim do AJorge Tavares: Infelizmente só mesmo por partilhas na internet. Um modo quase clandestino, enquanto não for censurado...  José Pinto de Sá > Tristão: Não me diga que gosta de comparar o 25 de Abril com a revolução de Outubro de 1917 ou a tomada de poder de Fidel Castro, que não implementaram democracias nenhumas! É que se comparar o 25 de Abril com revoluções democráticas, desde a da queda da ditadura grega dos coronéis à dos coronéis da Argentina e à dos generais do Brasil, mais a de todos os países de Leste, com excepção da Roménia onde a "PIDE" de Ceausescu reagiu em batalha campal, verá que todas essas transições foram pacíficas. E mais, sem perseguições aos funcionários dos regimes depostos, a não ser os culpados de crimes provados, em alguns casos! Viu o filme alemão "A vida dos outros"? Sobre a vigilância pela Stasi dos suspeitos de dissidência? Onde se narra a tortura do sono aos presos mas termina com o antigo polícia político, depois da queda do regime, na rua a trabalhar como carteiro...?               Isabel Amorim > Cisca Implit: Com tantas histórias de injustiça não divulgadas acerca do 25 Abril e o que aconteceu depois só lhes interessam temas que remetem aos nazis. Devem ser financiados pela Netflix...