terça-feira, 17 de dezembro de 2019

A propósito de “O TEMPO INVISÍVEL”



Do  “Prós e Contras”. Que ouvi ontem, enquanto passava a ferro, no aproveitamento do meu tempo... a dois carrinhos, neste caso a bastantes mais, dado o fluxo intervencionista de grande calibre,  de mais este  programa de Fátima Campos Ferreira, com intervenientes como o Filósofo José Gil, o Professor Gonçalo M. Tavares,  o Bispo do Porto D. Manuel Linda, a Cantora Teresa Salgueiro, a Actriz Carmen Santos e outros bons que opinaram e enriqueceram, com referências clássicas, e exemplos vários e creio que seduziram neste encontro sobre o tempo invisível, na sua pluridiversidade . A propósito, pois, do excelente momento, encontro na Internet um bonito texto de Miguel Esteves Cardoso, leve e profundo e suavemente ternurento, contendo, também, algumas das reflexões que ontem se puseram, de conteúdo mais ou menos filosófico, abarcando uma vasta gama de pensamentos de acordo com as competências e experiências de vida de cada um dos participantes no debate. O tempo cronológico, o tempo relativo, psicológico, o tempo de suspensão, de meditação, o tempo na fotografia, captando o instantâneo irrepetível, o tempo da transição etária,  os vários lados do tempo, o outro lado do tempo, o significado da morte...
O tempo só tendo valor porque mortais somos – o medo da morte - a coroa de louros do general romano vitorioso, com, por trás, o aviso do escravo sádico  (néscio): “Não te esqueças de que vais morrer”, a relativizar a glória, o exemplo vaidoso de Alexandre Magno no seu simulacro nocturno de morte, para o efeito-surpresa de vida do dia seguinte, a alegria da vida, o pensar-se no passado só em tempo de crise, a necessidade de preservar a memória... Falou-se de Espinosa para quem a morte não existe, mas não se falou em transmigração, falou-se do tempo passado como algo concentrado em bloco, o Bispo do Porto não quis debruçar-se sobre o sentido eclesiástico do conceito de eternidade. Para José Gil hoje há uma destruição progressiva das tradições, dos territórios e isso se deve a três factores: o capitalismo global, a tecnologia, o poder do Estado. Quanto mais se avança nos transportes, mais se arquiva o passado, por falta de visibilidade e de tempo. E Fátima CF pergunta, a propósito: “O que vai sobrar? Que homem será este?” José Gil responde não saber, o futurologismo não sendo da sua área cognitiva.  Mas as técnicas contra o envelhecimento, a doença, implicam a transformação radical do corpo, num processo de mecanização em que não conta a acção do corpo. E, quanto mais se avança nos transportes, mais se arquiva o passado, por falta de visibilidade, a velocidade tornando-nos indiferentes aos espaços percorridos do nosso solo, dos nossos espaços. E as alterações climáticas são um indício desse apagamento final, caso nada se faça que contrarie o processo. Contra o pessimismo do filósofo J. Gil, novamente o Bispo do Porto dá a versão cristã positiva desse apagamento gradual da memória colectiva, através de uma Fé que liberte o Homem do receio da Morte, o Cristianismo sendo uma religião de memória, testada na Bíblia, a Vida Eterna abrindo as portas do sentido da Vida. O Psiquiatra José Gameiro, convidado de honra,  fala do sentido do tempo presente que já é passado, mas que se reconstrói com os cheiros da infância, o que nos trouxe à memória as “madalenas” de Proust no seu “Em Busca do Tempo Perdido” que não tem a ver com a cada vez mais difícil interpretação do tempo, hoje, de sentido assustador, pelo que implica de tranformação inumana gradual do Homem. Falou-se das memórias do Holocausto, que se irão perder com o desaparecimento dos últimos protagonistas  e José Gameiro contou da tatuagem com os nomes dos avós dos novos netos judeus, para que se não apague a lembrança de tantos crimes que lesam o passado recente, como ao longo da História -  de que, de resto, a própria Bíblia nos dá conta, mesmo através das próprias maldades do Jeová castigador, mas isto é um puro argumento pessoal que não interfere na trama do excelente programa de FCF – crimes que, ao longo da História, repito, o Bicho-Homem não deixou de efectuar, e continua.
E veio à baila o tema Educação, através da pergunta de Fátima CF: “A Educação está a preparar para a memória?”. E o entrevistado usando o trocadilho “Você tem tempo?” entende que a frase do professor ao aluno “Não te esqueças de que vais viver” -  ao contrário da outra atrás citada mal intencionada dirigida ao general romano, aponta para uma definição de “Educação” como um “processo para ensinar a conviver”, um acto de gratidão e confiança na vida , um acto de amor e de disponibilidade do adulto para o aluno, segundo o carisma: “Para ti, tenho todo o tempo do mundo”. José Gil concordou mas achou certamente, como qualquer pessoa de bom senso acha, que isso é pura balela, que o professor tem uma média  - a contar por baixo -  de mais de 150 alunos que lhe retiram tais disponibilidades de dilatação temporal e insistiu em que “Os professores não têm tempo” – o que é comum em todos os países. Concluiu-se pela indispensabilidade de aceitar a inegável força das culturas fora da escola, com desvantagem (mas isto é interpretação minha) para a cultura escolar, a reduzir-se a olhos vistos, o tempo passado a apagar-se da memória histórica...
A pergunta de FCF a Teresa Salgueiro sobre se “o amor é sempre redentor” mereceu uma simpática e harmoniosa demonstração afirmativa, implicando partilha de diálogo, como um compasso musical na interpretação do tempo.  Quanto à actriz Carmen Santos, fez esta notar a diversidade dos espectadores do tempo de hoje, não em busca de arte mas de diversão, o que daria pano para mangas, em termos de Educação moderna, mas o tempo escoou-se e acabou-se em aspectos  gerais, sobre a crise da humanidade, o não pensar, o pensar ser perigoso, o medo do tempo branco que leva ao absurdo hodierno da “ocupação dos tempos livres”, na escola, acusando, irrisoriamente, o absurdo da contradição, vulgo, antítese.
Antes de colocar o bonito texto de Miguel Esteves Cardoso, espécie de hino ao amor familiar, e na esteira do discurso de Teresa Salgueiro e da própria Fátima Ferreira, de orientação perfeitamente e tecnicamente  adequada,  só desejo discordar um pouco sobre o negativismo de uma ponderação geral que inflecte sobre a juventude de hoje, mal orientada segundo políticas governamentais, mas que o não são em todos os países. Sirvo-me, sobretudo, e uma vez mais, da França e de tudo o que dela mamei – (como do meu país, aliás, o que desejo que os jovens portugueses possam igualmente dele colher): um saber e interesse por esse passado histórico, como por outras esferas do saber, que se reflectem na atitude de velhos e novos,  que o programa tão educativo – “Questions pour un champion” apresenta diariamente e que assinala um excelente nível de interesse cultural a ser mantido por longos séculos esperemos, apesar do pessimismo e da brutalidade pouco inteligente de quem se não importa com o amor por esta nossa terra, a Terra de todos os humanos e não humanos, “que pelo espaço vai, leve como uma andorinha”, apesar dessas plangências do nosso António Nobre no seu poema negativista “A VIDA”, que também viria ao caso. Mas leiamos MEC, que nos fez chorar, no conciso e contido evocar da figura do seu pai, imperecível, como o é a figura de todos os pais para os filhos de todas as latitudes sociais, em que o apego familiar é definitivo, como o vemos entre os próprios animais.

O Tempo Vale Muito Mais do que o Dinheiro
Perder tempo não é como gastar dinheiro. Se o tempo fosse dinheiro, o dinheiro seria tempo.
Não é. O tempo vale muito mais do que o dinheiro. Quando morremos, acaba-se o tempo que tivemos. Quando morremos, o que mais subsiste e insiste é a quantidade de coisas que continuam a existir, apesar de nós.
O nosso tempo de vida é a nossa única fortuna. Temos o tempo que temos. Depois de ter acabado o nosso tempo, não conseguimos comprar mais. Quando morreu o meu pai, foi-se com ele todo o tempo que ele tinha para passar connosco. As coisas dele ficaram para trás. Sobreviveram. Eram objectos. Alguns tinham valor por fazer lembrar o tempo que passaram com ele - a régua de arquitecto naval, os relógios - quando ele tinha tempo.
As pessoas dizem «time is money» para apressar quem trabalha. A única maneira de comprar tempo é de precisar de menos dinheiro para viver, para poder passar menos tempo a ganhá-lo. E ficar com mais tempo para trabalhar no que dá mais gosto e para ter o luxo indispensável de poder perder tempo, a fazer ninharias e a ser-se indolente.
A ideologia dominante de aproveitar bem o tempo impede-nos de perder esses tempos. Quando penso no meu pai, todas as minhas saudades são de momentos que perdi com ele. Uma noite, numa cabana no Canadá, confessou-me que o único filme de que gostava era «Um Peixe Chamado Wanda«. Todos os outros eram uma perda de tempo. Perdemos a noite inteira a falarmos e a rirmo-nos disso. Ainda hoje tem graça.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público (26 Dez 2011)'





2 comentários:

AJS disse...

O que mais gosto no tempo é que quanto menos tenho mais o valorizo! O tempo passa e não volta, o melhor é viver o presente intensamente pois também o tempo futuro é incerto... É tempo de preparar o nosso Natal em Família e alegremente brindarmo-nos com o melhor tempo de cada um, pois no final dos tempos apenas nos restarão as memórias e o tempo esse deixa de fazer sentido...
Beijinhos

Por AmaisB disse...

Porque achas, Artur, que quando nos restarem apenas as memórias o tempo deixa de fazer sentido, lagarto lagarto!