O que a Europa não devia permitir é a extorsão gritante a perpetrar por Trump e já em parte perpetrada por Putin, em para sempre indecoroso conluio de perpetrações.
Deve a Europa tentar a reconciliação com
Trump? Não, não e não
Trump só escutará os europeus
se os vir como fortes, não como pedintes em busca de um perdão para um Zelensky
que, aos olhos do Mundo, é a segunda vez que mostra como um David pode desafiar
um Golias
JOSÉ MANUEL FERNANDES Publisher e colunista do Observador
OBSERVADOR, 03 mar. 2025, 00:2215
Não sei se todos os líderes
europeus viram as mesmas imagens que eu vi – que o mundo inteiro viu. Não sei
se escutaram as palavras – todas as palavras. Não sei se perceberam as linhas
de argumentação – não sei mesmo.
Até à passada sexta-feira podíamos ter dúvidas. Trump
tivera duas reuniões aparentemente frutíferas com Emmanuel Macron e Keith
Starmer. Os Estados Unidos
e a Ucrânia estavam à beira de assinar um acordo para a exploração de terras
raras que poderia dar algumas garantias de segurança a Kiev. Não era impossível alimentar a ilusão que
o jogo da Casa Branca era mais complexo e se enquadrava na disputa pela
hegemonia mundial com a China (eu próprio alimentei essa ilusão). No
limite até se podia falar do regresso da realpolitik, isto é, de um
realismo que não ignorasse a situação difícil nas frentes de batalha da
Ucrânia.
Mas isso era até à passada
sexta-feira.
Quem ouviu com atenção aquilo que
Donald Trump e JD Vance disseram ao presidente Zelensky não pode ter ficado com
dúvidas – quando muito pode alimentar dúvidas sobre se foi um cilada
orquestrada ou um acidente a propósito, mas isso é secundário. O essencial é
que naquela troca de palavras várias coisas ficaram evidentes.
A primeira é que nas decisões e nas palavras de Trump vale
sempre mais o seu ego e o seu ressentimento do que qualquer cálculo racional
sobre política externa, deveres para com países aliados ou noção de qual o
papel dos Estados Unidos no mundo (pelo menos o papel que desempenharam nos
últimos 100 anos). Para Trump revelou-se mais importante Zelensky
não o ter ajudado em 2020 na campanha contra Joe Biden por causa dos negócios
do filho, do que qualquer consideração sobre o papel protagonizado pelo
presidente ucraniano na resistência a uma potência hostil (a Rússia) e a um
ditador assumido (Vladimir Putin).
A segunda é que Trump quer mesmo uma cessação das hostilidades
custe o que custar, mesmo que isso represente uma grosseira violação das regras
de convivência internacionais e uma traição aos seus aliados. Na
óptica de Trump é mesmo com Putin que ele tem de falar, não com um Zelensky que
– não é possível alimentar mais dúvidas – só deseja deixar de ver pela frente,
porque enquanto ele representar a Ucrânia estará a representar um país que
resiste a um povo que não se ajoelha.
A terceira, e
porventura a mais consequencial das evidências realçadas naquela dura troca de
palavras é que JD Vance pensa como pensam
os eleitores MAGA, os eleitores do seu Midwest economicamente devastado – e o
que eles pensam é que os seus Estados Unidos não têm de gastar um cêntimo ou
envolver um soldado para defender um país que a maioria nem sabe bem onde fica
(e
que Vance até disse que nem queria visitar, quando desafiado por Zelensky).
Quem conhece minimente a história do
envolvimento dos Estados Unidos no palco do mundo sabe que a posição de JD
Vance tem uma longa tradição política, saberá mesmo que o comprometimento dos
Estados Unidos com a Europa no último século nunca foi totalmente consensual,
mesmo nos seus momentos de glória (até ao final da II Guerra e da vitória na
Europa havia políticos e jornais que nunca desistiram de criticar o
envolvimento do seu país na luta contra Hitler). Saberá até mais: saberá que a
Sociedade das Nações, uma ideia de um presidente americano na sequência da I
Guerra (Woodrow Wilson), começou a morrer na América quando o Congresso chumbou a adesão à nova
organização, tirando-lhe força e alcance.
Por outras palavras: aquilo a que
assistimos na sexta-feira foi a uma mistura de incomensurável egotismo (Trump)
com um velho e irredentista isolacionismo (Vance). E pelo que vimos até agora, estas menos
de seis semanas de segunda presidência Trump também não podem alimentar-nos
ilusões: não parece haver na Casa Branca, no Congresso, em quem
tem o ouvido de Trump, forças suficientes para contrariar esta deriva.
É por isso tudo que não posso deixar de estranhar aquilo que me
parece ter saído das reuniões deste fim-de-semana, algo detectável nas palavras de Starmer, de Macron, de Giorgia
Meloni: a ideia de que o melhor caminho é procurar consertar o
mal acontecido naquela sexta-feira à frente de todo o mundo, é tentar reaproximar
Trump e administração americana de Zelensky, é procurar reconciliar a Europa
com esta administração americana, é procurar revitalizar a NATO acreditando
que, nela, o papel central continuará ser desempenhado pelos Estados Unidos.
Gostava que pudesse ser assim e que assim pudéssemos chegar, na Ucrânia, já não digo a uma paz justa (a qual
implicaria a reposição integral das fronteiras e absoluta liberdade para aderir
à NATO), mas a uma paz
duradoura, com garantias de segurança e sem que se fechassem todos os caminhos
de futuro. Mas não creio que seja por aí que uma administração
americana preocupada apenas com um cessar-fogo a todo o custo (será verdade que Trump acha mesmo que
pode receber o Nobel da Paz?) queira ir ou esteja disposta a bater-se. Isto com ou
sem acordo de exploração de minérios.
Neste momento tanto em Washington
como em Moscovo só se conhece uma linguagem: a da força. Pior, se possível: o
mundo de Donald Trump é um mundo de soma zero, isto é, um mundo onde de uma
negociação não podem sair os dois lados com vantagem, antes tem de haver um que
ganha e outro que perde – e ele já escolheu o lado que entende que está a
ganhar e vai ganhar (“nem tem cartas para jogar”, atirou ele
a Zelensky).
Neste quadro a Europa só terá voz se
tiver força – e falo muito concretamente de força militar. Em conjunto, os países da União Europeia, ou da NATO,
até podem ter mais homens nas fileiras do seus exércitos e mais equipamentos
militares nos seus quartéis do que a Rússia (como se
explicava no Observador), mas têm
muito menos armas nucleares e não são uma força militar coerente e pronta a
entrar em acção. Todos sabemos porque é assim – tem a ver com
uma dependência de décadas da protecção nuclear garantida pelos Estados Unidos
e por termos preferido gastar o dinheiro noutras coisas.
É por isso que as declarações dos
últimos dias são bonitas, julgo mesmo que sinceras e sentidas, mas não chegam.
Tal como não chegam promessas e
iniciativas isoladas. É necessário um plano militar já, e a começar pelo
mais assustador: pelas
armas nucleares. O
arsenal francês e britânico têm de estar operacionais e de serem colocados na
linha da frente. As ameaças não podem ficar só do lado dos cães-de-fila
de Putin. E a reacção às
ameaças não pode continuar a ser o medo da escalada. Claro que
esse risco existe, mas não é atando as mãos aos que combatem e morrem nas
frentes ucranianas que se lida com ele.
Com bem recordava a historiadora
Margaret MacMillan este fim-de-semana no Financial Times, citando Georges Clemenceau, “construir
a paz é mais difícil do que conduzir uma guerra”, e em poucas alturas nas últimas décadas isso
será tão evidente. E acrescentou ainda que fazer a paz é ainda mais difícil
quando as guerras são prolongadas e sangrentas, como está a suceder com esta.
Agora uma paz apressada, uma paz
sentida como injusta, uma paz desequilibrada, uma paz como a que parece estar
na cabeça de Trump e Vance, uma paz assim apenas garante novas guerras no
futuro – a história está cheia de exemplos, e se Trump é um ignorante assumido,
Vance tem obrigação de não a desconhecer.
Daí que, caros líderes europeus, este
seja um tempo onde sem sentido de urgência e sem clareza de objectivos não
iremos a lado nenhum, e os nossos amigos ucranianos muito menos.
A
NATO, o Ocidente, os nossos valores comuns, hão-de sobreviver a Trump e Vance,
a aliança atlântica não vai morrer amanhã – mas isso já não é certo se
pensarmos numa Ucrânia livre e soberana. Mais: para que
sobreviva o essencial é necessário perceber que para lidar com Trump não chegam
lisonjas, não bastam palmadas nas costas, não é sequer suficiente um convite
para visitar o rei e o Palácio de Buckingham – para lidar com Trump é necessário falar a linguagem da força.
É por isso que, ao contrário de quase todos, não estou seguro que
Zelensky tenha saído assim tão a perder daquele encontro na Casa Branca – aos
olhos do mundo ele mostrou que é possível não se ser intimidado mesmo pelo que
julga ser o “homem mais poderoso do mundo”. Para já, é apenas o maior dos “bullies”.
GUERRA NA
UCRÂNIA UCRÂNIA EUROPA MUNDO UNIÃO
EUROPEIA NATO PRESIDENTE
TRUMP ESTADOS
UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA VOLODYMYR
ZELENSKY
COMENTÁRIOS (de 15)
JOÃO FERREIRA: Por mais assustador que seja, esse aparentemente é o
único caminho. "Si vis pacem, para bellum". E ainda poderá sair daqui
uma nova Europa.
J. P.:500% de acordo!
ABILIO SILVA: Muito bem Snr José Manuel Fernandes. Assino por
baixo.
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