segunda-feira, 3 de março de 2025

Definitivamente shocking

 

O que a Europa não devia permitir é a extorsão gritante a perpetrar por Trump e já em parte perpetrada por Putin, em para sempre indecoroso conluio de perpetrações.

Deve a Europa tentar a reconciliação com Trump? Não, não e não

Trump só escutará os europeus se os vir como fortes, não como pedintes em busca de um perdão para um Zelensky que, aos olhos do Mundo, é a segunda vez que mostra como um David pode desafiar um Golias

JOSÉ MANUEL FERNANDES Publisher e colunista do Observador

OBSERVADOR, 03 mar. 2025, 00:2215

Não sei se todos os líderes europeus viram as mesmas imagens que eu vi – que o mundo inteiro viu. Não sei se escutaram as palavras – todas as palavras. Não sei se perceberam as linhas de argumentação – não sei mesmo.

Até à passada sexta-feira podíamos ter dúvidas. Trump tivera duas reuniões aparentemente frutíferas com Emmanuel Macron e Keith Starmer. Os Estados Unidos e a Ucrânia estavam à beira de assinar um acordo para a exploração de terras raras que poderia dar algumas garantias de segurança a Kiev. Não era impossível alimentar a ilusão que o jogo da Casa Branca era mais complexo e se enquadrava na disputa pela hegemonia mundial com a China (eu próprio alimentei essa ilusão). No limite até se podia falar do regresso da realpolitik, isto é, de um realismo que não ignorasse a situação difícil nas frentes de batalha da Ucrânia.

Mas isso era até à passada sexta-feira.

Quem ouviu com atenção aquilo que Donald Trump e JD Vance disseram ao presidente Zelensky não pode ter ficado com dúvidas – quando muito pode alimentar dúvidas sobre se foi um cilada orquestrada ou um acidente a propósito, mas isso é secundário. O essencial é que naquela troca de palavras várias coisas ficaram evidentes.

A primeira é que nas decisões e nas palavras de Trump vale sempre mais o seu ego e o seu ressentimento do que qualquer cálculo racional sobre política externa, deveres para com países aliados ou noção de qual o papel dos Estados Unidos no mundo (pelo menos o papel que desempenharam nos últimos 100 anos). Para Trump revelou-se mais importante Zelensky não o ter ajudado em 2020 na campanha contra Joe Biden por causa dos negócios do filho, do que qualquer consideração sobre o papel protagonizado pelo presidente ucraniano na resistência a uma potência hostil (a Rússia) e a um ditador assumido (Vladimir Putin).

A segunda é que Trump quer mesmo uma cessação das hostilidades custe o que custar, mesmo que isso represente uma grosseira violação das regras de convivência internacionais e uma traição aos seus aliados. Na óptica de Trump é mesmo com Putin que ele tem de falar, não com um Zelensky que – não é possível alimentar mais dúvidas – só deseja deixar de ver pela frente, porque enquanto ele representar a Ucrânia estará a representar um país que resiste a um povo que não se ajoelha.

A terceira, e porventura a mais consequencial das evidências realçadas naquela dura troca de palavras é que JD Vance pensa como pensam os eleitores MAGA, os eleitores do seu Midwest economicamente devastado – e o que eles pensam é que os seus Estados Unidos não têm de gastar um cêntimo ou envolver um soldado para defender um país que a maioria nem sabe bem onde fica (e que Vance até disse que nem queria visitar, quando desafiado por Zelensky).

Quem conhece minimente a história do envolvimento dos Estados Unidos no palco do mundo sabe que a posição de JD Vance tem uma longa tradição política, saberá mesmo que o comprometimento dos Estados Unidos com a Europa no último século nunca foi totalmente consensual, mesmo nos seus momentos de glória (até ao final da II Guerra e da vitória na Europa havia políticos e jornais que nunca desistiram de criticar o envolvimento do seu país na luta contra Hitler). Saberá até mais: saberá que a Sociedade das Nações, uma ideia de um presidente americano na sequência da I Guerra (Woodrow Wilson), começou a morrer na América quando o Congresso chumbou a adesão à nova organização, tirando-lhe força e alcance.

Por outras palavras: aquilo a que assistimos na sexta-feira foi a uma mistura de incomensurável egotismo (Trump) com um velho e irredentista isolacionismo (Vance). E pelo que vimos até agora, estas menos de seis semanas de segunda presidência Trump também não podem alimentar-nos ilusões: não parece haver na Casa Branca, no Congresso, em quem tem o ouvido de Trump, forças suficientes para contrariar esta deriva.

É por isso tudo que não posso deixar de estranhar aquilo que me parece ter saído das reuniões deste fim-de-semana, algo detectável nas palavras de Starmer, de Macron, de Giorgia Meloni: a ideia de que o melhor caminho é procurar consertar o mal acontecido naquela sexta-feira à frente de todo o mundo, é tentar reaproximar Trump e administração americana de Zelensky, é procurar reconciliar a Europa com esta administração americana, é procurar revitalizar a NATO acreditando que, nela, o papel central continuará ser desempenhado pelos Estados Unidos.

Gostava que pudesse ser assim e que assim pudéssemos chegar, na Ucrânia, já não digo a uma paz justa (a qual implicaria a reposição integral das fronteiras e absoluta liberdade para aderir à NATO), mas a uma paz duradoura, com garantias de segurança e sem que se fechassem todos os caminhos de futuro. Mas não creio que seja por aí que uma administração americana preocupada apenas com um cessar-fogo a todo o custo (será verdade que Trump acha mesmo que pode receber o Nobel da Paz?) queira ir ou esteja disposta a bater-se. Isto com ou sem acordo de exploração de minérios.

Neste momento tanto em Washington como em Moscovo só se conhece uma linguagem: a da força. Pior, se possível: o mundo de Donald Trump é um mundo de soma zero, isto é, um mundo onde de uma negociação não podem sair os dois lados com vantagem, antes tem de haver um que ganha e outro que perde – e ele já escolheu o lado que entende que está a ganhar e vai ganhar (“nem tem cartas para jogar”, atirou ele a Zelensky).

Neste quadro a Europa só terá voz se tiver força – e falo muito concretamente de força militar. Em conjunto, os países da União Europeia, ou da NATO, até podem ter mais homens nas fileiras do seus exércitos e mais equipamentos militares nos seus quartéis do que a Rússia (como se explicava no Observador), mas têm muito menos armas nucleares e não são uma força militar coerente e pronta a entrar em acção. Todos sabemos porque é assim – tem a ver com uma dependência de décadas da protecção nuclear garantida pelos Estados Unidos e por termos preferido gastar o dinheiro noutras coisas.

É por isso que as declarações dos últimos dias são bonitas, julgo mesmo que sinceras e sentidas, mas não chegam. Tal como não chegam promessas e iniciativas isoladas. É necessário um plano militar já, e a começar pelo mais assustador: pelas armas nucleares. O arsenal francês e britânico têm de estar operacionais e de serem colocados na linha da frente. As ameaças não podem ficar só do lado dos cães-de-fila de Putin. E a reacção às ameaças não pode continuar a ser o medo da escalada. Claro que esse risco existe, mas não é atando as mãos aos que combatem e morrem nas frentes ucranianas que se lida com ele.

Com bem recordava a historiadora Margaret MacMillan este fim-de-semana no Financial Times, citando Georges Clemenceau, “construir a paz é mais difícil do que conduzir uma guerra”, e em poucas alturas nas últimas décadas isso será tão evidente. E acrescentou ainda que fazer a paz é ainda mais difícil quando as guerras são prolongadas e sangrentas, como está a suceder com esta.

Agora uma paz apressada, uma paz sentida como injusta, uma paz desequilibrada, uma paz como a que parece estar na cabeça de Trump e Vance, uma paz assim apenas garante novas guerras no futuro – a história está cheia de exemplos, e se Trump é um ignorante assumido, Vance tem obrigação de não a desconhecer.

Daí que, caros líderes europeus, este seja um tempo onde sem sentido de urgência e sem clareza de objectivos não iremos a lado nenhum, e os nossos amigos ucranianos muito menos.

A NATO, o Ocidente, os nossos valores comuns, hão-de sobreviver a Trump e Vance, a aliança atlântica não vai morrer amanhã – mas isso já não é certo se pensarmos numa Ucrânia livre e soberana. Mais: para que sobreviva o essencial é necessário perceber que para lidar com Trump não chegam lisonjas, não bastam palmadas nas costas, não é sequer suficiente um convite para visitar o rei e o Palácio de Buckingham – para lidar com Trump é necessário falar a linguagem da força.

É por isso que, ao contrário de quase todos, não estou seguro que Zelensky tenha saído assim tão a perder daquele encontro na Casa Branca – aos olhos do mundo ele mostrou que é possível não se ser intimidado mesmo pelo que julga ser o “homem mais poderoso do mundo”. Para já, é apenas o maior dos “bullies”.

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COMENTÁRIOS (de 15)

JOÃO FERREIRA: Por mais assustador que seja, esse aparentemente é o único caminho. "Si vis pacem, para bellum". E ainda poderá sair daqui uma nova Europa.

J. P.:500% de acordo!

ABILIO SILVA: Muito bem Snr José Manuel Fernandes. Assino por baixo.

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