quarta-feira, 10 de junho de 2020

Solidariedade, a quanto obrigas

Novas perspectivas de abertura e interajuda, bonitos sentimentos como nos convém que haja - e Teresa de Sousa simpaticamente vai explorando essas várias facetas económicas por cá, na União Europeia, trazendo esperança, lembrando um recomeço de industrialização mais saudável. Mas não sabemos o que está para além do covid-19 que, para já, tanta estranheza nos trouxe. E incómodo. E ruptura, afinal, nos hábitos, na esperança. E o mundo para lá do nosso?
OPINIÃO: Não bastam biliões. É precisa uma visão do mundo
A grande aposta europeia tem de continuar a ser nos avanços científicos e tecnológicos, aproveitando a sua dimensão e suas sinergias – coisa que, apesar da defesa constante do Mercado Único, está ainda muito longe de acontecer.
TERESA DE SOUSA        PÚBLICO, 7 de Junho de 2020
1. Na quinta-feira passada, Christine Lagarde anunciou que o Banco Central Europeu vai injectar mais 600 mil milhões de euros no seu programa de compra de dívida dos países da zona euro, perfazendo um valor total de 1350 mil milhões desde o início da pandemia. O mínimo que se pode dizer é que Mario Draghi tem uma herdeira à altura na francesa que já liderou o FMI e que foi escolhida no final do ano passado para presidir ao BCE. No dia seguinte, a chanceler Angela Merkel anunciou um pacote de estímulos à recuperação da economia alemã da ordem dos 130 mil milhões de euros – 4% do PIB alemão -, que se somam aos 353 mil milhões de ajuda de emergência de quando a pandemia parou a economia, mais 820 mil milhões de empréstimos garantidos. Cerca de 10% da riqueza da maior economia da zona euro, que prevê para este ano uma contracção de 6 a 7 por cento. Factor curioso: o BCE recarregou a sua “bazuca” na semana passada, como se o Tribunal Constitucional alemão não tivesse emitido um parecer a pôr em causa a legitimidade da primeira carga, dando a Frankfurt três meses para justificar a “proporcionalidade” do seu programa de compra de activos.
2. Entretanto, como sabemos, a União Europeia prepara-se para aprovar um plano de recuperação da economia da União da ordem dos quase dois biliões de eurosa soma do novo Quadro Financeiro Plurianual mais o novo Fundo de Recuperação. Se continuarmos a somar o pacote de ajudas de 540 mil milhões, sob a forma de empréstimos, que o Eurogrupo adoptou há um mês, o resultado é verdadeiramente impressionante.
A Alemanha foi o primeiro país a anunciar o seu programa de estímulos para contrariar a quebra abrupta e brutal da actividade económica, com todas as suas consequências sociais. O programa, que o ministro da Economia classificou como “o maior de sempre”, inclui a redução de impostos para estimular o consumo, investimentos em infra-estruturas, ajuda directa às famílias, às pequenas empresas e às comunidades. A ordem é para gastar. E a pergunta é o que pode explicar esta mudança de atitude, num país que passou a última década a rejeitar todos os apelos europeus e internacionais a que estimulasse o consumo e o investimento, de modo a funcionar como locomotiva da saída da crise financeira, muito mais preocupado com as contas públicas equilibradas, com a redução da dívida e com a obsessão pelos excedentes comerciais.
A dimensão da crise? As suas características absolutamente inéditas? Um outro olhar sobre a sua responsabilidade europeia? As perguntas são tanto mais legítimas quanto a nova “largueza” de Berlim não se ficou apenas pela Alemanha, mas foi decisiva para que a Europa encontrasse uma resposta à crise de uma dimensão que excedeu as melhores expectativas e com uma rapidez que se chegou a pensar impossível. As lições da resposta europeia à crise financeira de 2008 e 2009 – que foi muito mais lenta, muito mais limitada e muito mais penalizadora – terão servido de alguma coisa para aclarar o pensamento das elites alemães e da sua chanceler e ajudar a esclarecer onde está o seu interesse vital. Soma-se ainda o facto de a crise pandémica ter atingido as economias europeias numa fase em que o equilíbrio das contas públicas e a redução do endividamento estavam no bom caminho e a retoma do crescimento económico permitia respirar mais à vontade.
3. A crise também não foi culpa de ninguém, desta vez. Nem de mercados totalmente desregulados que imperaram na era do neoliberalismo, nem de decisões erradas dos governos nacionais, nem sequer de crises políticas bruscas, de consequências incontroladas. Marine Le Pen não ganhou as eleições em França. Matteo Salvini não lidera o Governo de Roma. Donald Trump não chegou a desencadear uma “guerra comercial” contra a Europa, apesar de ameaçar fazê-lo com relativa frequência. Não houve em território chinês um novo Tiananmen, apesar de quase um ano de protestos democráticos em Hong-Kong e apesar de Pequim exercer com cada vez maior despudor o seu músculo económico um pouco por todo o mundo.
Em contrapartida, a pandemia trouxe consigo uma mensagem fundamental, que as democracias ainda estão a digerir, mas que já terá tido o seu efeito: ninguém foi poupado, ricos e pobres, Ocidente e Oriente, Norte e Sul, privilegiados e desfavorecidos, democracias e autocracias, mesmo que os seus efeitos não ficassem imunes à desigualdade social, ao lugar onde se nasce, à natureza do regime sob o qual se vive. O instinto de fechamento e do “cada um por si” foi sendo lentamente substituído por um sentimento de solidariedade e de partilha de um destino comum perante uma provação igual – a mesma fragilidade humana perante um “inimigo” invisível, incontrolável e fatal.
4. Mas há outro debate que se instala definitivamente na Europa, embora não seja totalmente novo, e que comporta riscos geopolíticos e geoeconómicos que não podem ser ignorados. A palavra “reindustralização” que entrava ainda a medo no léxico do debate europeu sobre o futuro da sua economia e do seu papel no mundo, instalou-se de armas e bagagens. Estará no centro de muitas das políticas que a Europa vai adoptar na fase de recuperação da sua economia, que pretende que seja em moldes novos – mais amiga do ambiente, mais favorável ao combate às alterações climáticas e mais capaz de tirar partido das tecnologias digitais para ser mais inovadora.
Há duas maneiras de o fazer: inverter a globalização dos mercados que dominou a economia global nos últimos 30 anos; ou apenas reconsiderar e corrigir alguns dos seus efeitos mais perniciosos. Fará toda a diferença. A lição da dependência excessiva em relação à China tinha de ser tirada, até como argumento para levar as autoridades chinesas a perceber que a abertura e a cooperação exigem, em primeiro lugar, reciprocidade e, em segundo lugar, regras de conduta. Produzir na Europa bens essenciais ou reduzir a dependência tecnológica europeia em relação, quer aos Estados Unidos, quer e cada vez mais à própria China ou ao Sudeste asiático, faz todo o sentido. Cair no extremo oposto do proteccionismo ou da auto-suficiência teria um efeito desastroso na economia global e nas economias em desenvolvimento, com o inexorável efeito de bumerangue sobre a própria economia europeia. A globalização foi boa para a China, mas foi boa também para muitas economias atrasadas, que encontraram forma de entrar nas cadeias de valores e na divisão de trabalho, melhorando as condições de vida de muitos milhões de pessoas. A grande aposta europeia tem de continuar a ser nos avanços científicos e tecnológicos, aproveitando a sua dimensão e suas sinergias – coisa que, apesar da defesa constante do Mercado Único, está ainda muito longe de acontecer.
Há um bom sinal que emerge desta crise: a Europa não soçobrou, não se partiu, vai encontrando um propósito comum no meio do caos que a pandemia provoca. Tantos zeros à direita não fariam qualquer sentido sem um destino comum. Desde que seja aberto ao mundo e assuma as suas responsabilidades internacionais. Até porque, do outro lado do Atlântico, vai ser preciso tempo até que a América volte a reerguer-se, não tanto dos efeitos devastadores da pandemia, mas das consequências de quatro anos de um Presidente que elegeu o populismo e o nacionalismo como as suas únicas políticas. Não bastam os biliões. É preciso uma visão comum que seja ao mesmo tempo universal e solidária. Até porque é imenso o que está em causa.
A questão é, portanto, como vai alterar-se a distribuição do poder global em resultado da crise da covid-19”, escreve Joschka Fischer. “Mesmo apesar de três anos de Trump, a relação da Europa com os EUA mantém-se muito mais próxima do que a relação que alguma vez possa vir a ter com a China.” Manter esta distinção crucial, prossegue o antigo chefe da diplomacia alemã, “exige à Europa que evite tornar-se tecnológica e economicamente dependente do grande rival do Ocidente.” Matéria para reflectir.     tp.ocilbup@asuos.ed.aseret
COMENTÁRIOS:
Gnôthi SautoneINFLUENTE: Gostei do conjunto do texto. Destacaria a frase: "Tantos zeros à direita não fariam qualquer sentido sem um destino comum.". Um destino comum. E, concomitantemente, uma visão do mundo. Obrigado. 08.06.2020    rafael.guerra EXPERIENTE: "A crise também não foi culpa de ninguém, desta vez"? Durante anos pré-COVID, assistimos alegremente à maior expansão da dívida corporativa da História, com vários alertas do risco de crise económica tendo sido dados por economistas consagrados, incluindo na BCE. A maior bolha de todos os tempos exigia a maior quantidade de dívida para permitir que a festa continuasse. A festa continua para Wall Street, mas o custo na economia real vamos tardar a conhecê-lo. 07.06.2020
Roberto34 INFLUENTE: Plenamente de acordo, como sempre.

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